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Crítica

Uma fresta de aurora na nova velha obscuridade

9.8.2019  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Ricardo Boni

Nem em Estado de sítio, que estreou onze dias após a eleição do 38º presidente da República do Brasil, em 2018, o diretor Gabriel Villela tinha se permitido tocar a chapa quente da realidade como o faz desbragadamente em Auto da Compadecida.

Sob a bênção e o veneno “antimonotonia” de Ariano Suassuna (com a licença de Cazuza e Cássia Eller), somados ao fôlego de juventude do Grupo Maria Cutia de Teatro, com 13 anos de estrada, palco e rua em Belo Horizonte, Villela vai à cultura popular que lhe é bússola desde o início da carreira profissional, em 1989, para esculpir uma fisionomia sombria do presente. O riso rasgado e dessacralizante orienta a criticidade explícita. Pode-se até desconfiar que o trem vai descarrilar, produzindo o efeito contrário, amortecedor, mas o instinto atilado é prevalente e o teatro acontece com louvor.

Na janela universal que Suassuna deixa aberta em suas formas e temáticas regionais, o espetáculo em análise soma outro elemento não menos gregário: a música. Às poucas deixas na rubrica, uma ‘música alegre’ aqui, uma ‘música de aleluia’ ou ‘de circo’ acolá, Gabriel Villela entremeia um cancioneiro de predominância tropicalista, que praticamente transforma a narrativa em gênero musical, sem prejuízo do poder e do êxito na comunicação cômica rasgada desempenhada pelo Grupo Maria Cutia

Decerto as sete carrancas esculpidas em madeira e alinhadas à boca de cena estão ali para espantar os maus espíritos que rondam o momento brasileiro: a obscuridade da Presidência da República sob as ordens do capitão reformado do Exército e deputado federal. São sete os integrantes do elenco e sete os estados banhados pelo rio São Francisco, ao longo do qual embarcações costumam afixar essas máscaras na proa, a fim de pedir proteção.

A boa-fé passa longe do toma lá dá cá na peça que escarnece do caráter brasileiro por meio das artimanhas de trabalhadores pobres que botam no chinelo os patrões que os exploram, a religião que os aliena e até o chefe do cangaço que vai despachá-los desta para uma melhor. Mas a moral de João Grilo e Chicó, sabemos, não é santa. Tanto que na parte final Grilo é acareado e julgado como os demais personagens-tipos conduzidos às presenças de Cristo, de Nossa Senhora (leia-se Maria de Nazaré) e do diabo. Entre os pecados e as traquinagens anotados, as opções de destino seriam o céu, o inferno ou o purgatório. Em verdade, todos estão à mercê do teatro de tradição popular.

O que Villela e Grupo Maria Cutia expõem, por meio da comédia-mor de Suassuna, é quão um governo de turno que se arroga popular só faz se mostrar cada vez mais ridículo a essa altura de seu sétimo mês. Um grupo político no poder explora inversamente o lado cômico do que se configura na verdade como tragédia.

Retomando o drama Estado de sítio, o franco-argelino Albert Camus (1913-1960) o escreveu em 1948, no pós-guerra, para “atacar frontalmente um tipo de sociedade política que se organiza, à direita ou à esquerda, de modo totalitário”, segundo o autor declarou anos depois. De modo que o público acessa nos subtextos do enredo – sobre uma cidade assolada pela peste e pela política do terror – o quanto um regime pode sufocar o indivíduo, como o público do Rio de Janeiro teve a oportunidade de conferir na temporada encerrada no fim do mês passado no Teatro Sesc Ginástico.

Ricardo Boni/FIT Rio Preto Hugo da Silva, no alto, interpreta o cangaceiro Severino do Aracaju e o pícaro Chicó: alusões ao ambiente bélico que se instaurou no país

A operação de posicionamento crítico que o diretor e o grupo mineiro promovem no clássico do paraibano-pernambucano Ariano Suassuna (1927-2014) comunga dos rigores formais da estética villeliana. São inescapáveis os preciosismos simbolistas em cores, linhas, curvas e relevos literais, figurados e alegóricos. Signos dos quais as doutrinas cristãs apropriam-se para atrair seguidores via emoção.

Na carpintaria do autor, porém, esse sistema é sacudido pela base da pirâmide social: a eloquência e a assertividade de João Grilo confrontam as noções de justiça e mesmo de misericórdia, apesar de safar-se por meio dela. O personagem relativiza o peso dessas balanças, dada a injustiça terrena que os empobrecidos de ontem e de hoje sabem de cor.

No texto em que botou ponto final em 24 de setembro de 1955, no Recife, aos 28 anos, Suassuna cumpre à risca os princípios da comédia popular, quais sejam: invenção, ambivalência, simplicidade e requinte artesanal, mais inteligência aliada ao riso farto e regenerador. Esses preceitos universais foram apontados pelo dramaturgo Luís Alberto de Abreu e pelo diretor Ednaldo Freire, âncoras do projeto Comédia Popular Brasileira (1993-2008) junto à Fraternal Cia. de Arte e Malas-Arte (SP), sob a influência de comediógrafos como Martins Pena, Arthur Azevedo e o próprio Suassuna. E deram conta desse oceano nas criações de textos e de espetáculos estudando o russo Mikhail Bakhtin e os brasileiros Câmara Cascudo, Amadeu Amaral e Cornélio Pires, entre outros. Seguiram trilhas deixadas por alguns dos seus contemporâneos, como Renata Pallottini, Lauro César Muniz, Chico de Assis, César Vieira e Carlos Alberto Soffredini.

Aos que exercitam a comédia cabe “iluminar criticamente o anverso da sociedade e da vida psíquica”, afirmou a crítica Mariangela Alves de Lima no prefácio à antologia dos primeiros quatro textos de Abreu naquele projeto da Fraternal, afeita a palco e a espaço ao ar livre. “O traço comum a todas as peças criadas dessa forma é o protagonismo do homem pobre. É ele que, liderando a ação dramática, expressa uma antiquíssima sabedoria”, afirmou.

Na janela universal que Suassuna deixa aberta em suas formas e temáticas regionais, o espetáculo em análise soma outro elemento não menos gregário: a música. Às poucas deixas na rubrica, uma “música alegre” aqui, uma “música de aleluia” ou “de circo” acolá, Villela entremeia um cancioneiro de predominância tropicalista, que praticamente transforma a narrativa em gênero musical, sem prejuízo do poder e do êxito na comunicação cômica rasgada.

Ricardo Boni/FIT Rio Preto Jimena Castiglioni é Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida na peça de Ariano Suassuna escrita em 1955 e dirigida por Gabriel Villela

O repertório inclui canções que por si só prenunciam o protesto, a derrisão, a contracultura e o assombro, transmitindo ao espectador uma linha de tempo afetiva e resistente da história do país de há pouco. Não é difícil sentir o drama da disrupção em curso com os intérpretes tecnicamente bem preparados cantando e tocando em timbres, ritmos, harmonias e arranjos próximos dos registros sonoros originais. O arco passa por Eu quero é botar meu bloco na rua, composição de Sérgio Sampaio; Peixinhos do mar, marujada adaptada por Tavinho Moura (“Temos pólvora, chumbo e bala/Nós queremos é guerrear”); Carcará, de João do Vale e José Cândido; Alegria, alegria, de Caetano Veloso; e Heavy metal do senhor, de Zeca Baleiro, entre outras.

A execução das músicas ao vivo é parte constitutiva da linguagem de rua que o Maria Cutia pesquisa desde 2006. O mais espantoso e ao mesmo tempo sublime é constatar que a apresentação única no encerramento do FIT Rio Preto se deu no palco do Teatro Paulo Moura, com seus 916 assentos lotados na plateia e no mezanino. Moura (1932-2010) foi maestro, compositor, arranjador, saxofonista e clarinetista que deu seus primeiros passos como instrumentista acompanhando o pai, um mestre de banda, numa comunidade de afirmação do orgulho negro na cidade.

Com cortejo entrando pela porta dos fundos da plateia e saindo pelo mesmo caminho ao final do espetáculo, os artistas foram eficientes na relação com o público, aplaudidos em cena aberta em diferentes passagens. A polarização ódio-medo da conjuntura brasileira poderia ser um entrave numa cidade que depositou 78% de confiança no atual presidente. Ou seja, Maria Cutia e Villela correram o risco de serem violentados, estética e reacionariamente, por submeterem ao tablado a obra concebida para parques e praças; a relação frontal em detrimento da roda. Mas venceram.

Com certeza, uma parte considerável da audiência diverge ideologicamente das escolhas do roteiro naquela noite, mas Suassuna e suas finas e por vezes rudes ironias os conduziram a bom termo. Importante é que garrafas com mensagens reflexivas foram lançadas ao mar da multidão.

A recepção prova que a forte assinatura de Gabriel Villela não ofusca a identidade que os artistas do Maria Cutia forjaram em sua recente trajetória. O desempenho do elenco é decisivo. Como um Arlequim de múltiplos patrões, o João Grilo interpretado por Leonardo Rocha salta às vistas naturalmente, a reboque do bordão “Eu não sei, só sei que foi assim”, além do timing de comediante que o ator articula com precisão. Seus pares, porém, equilibram os demais papeis com singularidades que vão além da primeira camada dos tipos populares.

O Bispo de Polyana Horta, por exemplo, produz autocrítica da mineiridade ou da falsa moralidade (deveras brasileira) ao acentuar o sotaque. A atriz é especialmente mordaz na maneira como desestabiliza – respaldada com firmeza por grupo e diretor – o catolicismo arraigado na cena em que o chefe espiritual da diocese devora antropofágica e simbolicamente a pomba do Divino Espírito Santo. Jogo de distanciamento que tem como ponto alto o questionamento da fé e dos mecanismos de alienação praticados em nome dela. No limite, temos um espetáculo “catolaico”, como cantou o paraibano Chico César em A prosa impúrpura do caicó.

Ricardo Boni/FIT Rio Preto O ator Dê Jota Torres interage na plateia: ele faz às vezes de Palhaço, Padeiro e Manuel, leia-se Nosso Senhor Jesus Cristo

Lá pelas tantas, ouve-se do Padre, salvo engano, que o público está diante de “uma peça terrivelmente evangélica”, isto é, amplifica o arco religioso e corrompe uma das frases do presidente dito polemista quando expressou critério pessoal para escolher um futuro juiz do STF. E quando Severino de Aracaju, simulacro de Lampião, diz que não quer ser chamado de “capitão”, antes de matar a todos, é imediata a associação com inquilino do Palácio da Alvorada que cultua armas.

O público conhecedor das parcerias de Villela e Grupo Galpão, desde a memorável montagem de rua Romeu e Julieta (1982), há de reconhecer aqui a ascendência barroca cena a cena. Evidente que um coletivo cênico nascido na capital mineira na década passada e propenso a ocupar espaços públicos com arte dificilmente não absorveria os referenciais de excelência dos criadores do Galpão nessa lida.

As presenças da atriz Lydia Del Picchia, do Galpão, como assistente de direção, e da preparadora vocal Babaya, assídua colaboradora daquele grupo de 36 anos e ainda alçada nessa montagem a codiretora musical, da mesma maneira que o compositor Fernando Muzzi, são indicativos patentes. Aliás, o Maria Cutia já foi dirigido por Eduardo Moreira, cofundador do Galpão, em Como a gente gosta (2011), espetáculo de rua livremente inspirado em As you like it, de Shakespeare.

Encarregado de chamar à consciência as mundanidades que são a tônica da peça em que cachorro morto ganha missa em latim e gato descome dinheiro pelo fiofó, o Palhaço-narrador de Auto da Compadecida não alivia “o cidadão de bem”, devidamente citado. Atuado por Dê Jota Torres, ele se dirige às espectadoras e espectadores para que aproveitem “os ensinamentos” e “reformem suas vidas, se bem que eu tenha certeza de que todos os que estão aqui são uns verdadeiros santos, praticantes da virtude, do amor a Deus e ao próximo, sem maldade, sem mesquinhez, incapazes de julgar e de falar mal dos outros, generosos, sem avareza, ótimos patrões, excelentes empregados, sóbrios, castos e pacientes”.

E num rompante ainda mais engajado, o espetáculo ruma para o desfecho com a canção América do Sul, composição de Paulo Machado gravada no primeiro álbum solo de Ney Matogrosso, Água do céu – pássaro (1975), pós-Secos e Molhados. Os versos relampejam: “Deus salve a América do Sul/ Desperta, ó claro e amado sol (…) Desperta América do Sul/ Deus salve essa América Central (…) Esse canto e essa aurora tropical”.

A expressão poética coletiva, autodeclarada povo desta nação, toma o partido da arte e da cultura para conclamar alto e bom som: “Vamos afinar, Brasil!”.

.:. Texto brevemente editado a partir do original publicado no contexto do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, o FIT Rio Preto, de 4 a 13 de julho de 2019.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do evento.

Serviço:

Sesc Pompeia (Rua Clélia, 93, Água Branca, tel. 11 3871-7700)

Quando: Quinta a sábado, às 21h; domingo, às 18h. Até 1º de setembro

Quanto: R$ 10 a R$ 40

Classificação indicativa: espetáculo adulto, com classificação livre

Duração: 80 minutos

Ricardo Boni/FIT Rio Preto Leonardo Rocha (João Grilo) e Hugo da Silva (Chicó), do Grupo Maria Cutia (MG)

Equipe de criação:

Texto: Ariano Suassuna

Concepção e direção geral: Gabriel Villela

Assistente de direção: Lydia Del Picchia

Com: Leonardo Rocha (João Grilo), Hugo da Silva (Chicó e Severino do Aracaju), Mariana Arruda ou Jimena Castiglioni (Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida), Dê Jota Torres (Palhaço, Padeiro e Manuel, Nosso Senhor Jesus Cristo), Malu Grossi (Sacristã), Marcelo Veronez (Padre João e O Diabo) e Polyana Horta (Antônio Morais e O Bispo)

Preparação vocal: Babaya

Direção musical: Babaya, Fernando Muzzi e Hugo da Silva

Cenário e figurinos: Gabriel Villela

Assistente de figurinos: José Rosa

Coordenação do Ateliê Gabriel Villela: José Rosa

Pintura de Arte: Rai Bento

Iluminação: Richard Zaira e Pedro Paulino (CiaTecno)

Consultoria de sonorização: Vinícius Alves

Fotografia: Tati Motta

Assessoria de imprensa em São Paulo: Pombo Correio

Produção: Luisa Monteiro – Grupo Maria Cutia

Valmir Santos

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