4.8.2014 | por Valmir Santos
Despidos da máscara da representação, ainda assim os gestos e as falas não traem a qualidade da presença de palco desses corpos amadurecidos pelas artes da dança, do teatro e, tangencialmente, do cinema. Ocupando duas cadeiras no centro de um auditório do Sesc Pinheiros, numa tarde paulistana da semana passada, o letão Mikhail Baryshnikov, de 66 anos, e o americano Willem Dafoe, de 59 anos, mostram-se pacientes, conscienciosos e bem-humorados diante de jornalistas ávidos pelas razões que os movem em The old woman (A velha), em turnê latino-americana por São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires até este mês. Leia mais
13.7.2014 | por Valmir Santos
A mitologia grega pondera deuses com virtudes e defeitos humanos. Vide a frequência com que os baixam do Olimpo para interagir com os mortais. Numa de suas incursões como autor teatral, Woody Allen clama a Zeus, senhor do raio e do trovão, para salvar um grupo de humanos “agradecidos, mas impotentes”. Na comédia Deus (1975), do cineasta, os protagonistas são um ator e um dramaturgo pelejando para encontrar o melhor fim de uma história transcorrida na Grécia Antiga. Já a peça brasileira O livro de Jó (1995), de Luís Alberto de Abreu, sob premiada atuação de Matheus Nachtergaele no Teatro da Vertigem, a inspiração vem da passagem bíblica em que criador e criatura se confrontam. No enredo, homem fervoroso é exortado à provação acometido pelas chagas e pelo abandono da mulher, transbordando questionamentos. Leia mais
25.6.2014 | por Valmir Santos
Pedras caiadas desenham os 50 anos do Odin Teatret. São 30 pontos brancos sobre a grama na entrada da sua sede. Troncos enlaçados por faixas amarelas, vermelhas e roxas conformam uma alameda rumo aos pavilhões e aos galpões da área arborizada onde até junho de 1966 funcionava uma fazenda. Os jovens daquela primeira formação do grupo já encontravam vacas pastando por ali, gênese do Nordisk Teaterlaboratorium. As mutações da arquitetura do local resultaram, ao longo dos anos, em salas de ensaio e de apresentação, além de setores de administração, arquivo, biblioteca, cozinha e quartos. Florescimento da filosofia do convívio laboratorial, treinamento e pesquisa na veia. Leia mais
22.5.2014 | por Valmir Santos
Os nove roteiros empilhados nestes papeis constituem de fato dramaturgias expandidas e estrategicamente esburacadas. Tanto a percepção advinda do livro como aquela plasmada da cena convocam o senso crítico do interlocutor por excelência, o público. A captura pelo imaginário encaixa signos e estranhamentos conforme o grau de leitura emancipada. Cada um está livre para se achar ou se perder diante das ilusões e realidades embaralhadas nas obras com as quais o ERRO Grupo adentra as veias da cidade. Eis a dedução semântica da experiência de fruir essas palavras impressas, portanto apartadas das situações performativas, interventivas e afins para as quais foram geradas. Leia mais
18.5.2014 | por Valmir Santos
Até o fim deste maio a escritora Edla van Steen deve consolidar a seleção de cerca de cem textos que Sábato Magaldi escreveu para o Jornal da Tarde entre 1966 e 1988. Trata-se, essencialmente, de compêndio sob a rubrica crítica de espetáculos, ofício que nunca ganhou edição específica na trajetória do estudioso do teatro que completou 87 anos no último dia 9. Leia mais
5.5.2014 | por Valmir Santos
As artes cênicas são, por natureza, gregárias. Sincronizam a respiração no ato ao vivo entre os artistas que ocupam palco, galpão, picadeiro ou espaço público e os espectadores instigados a embarcar nessa nau milenar. Nas tradições orientais e ocidentais, uma das bases da convivência no teatro e na dança diz respeito ao caráter coletivo por trás de cada criação. Em um monólogo dramático ou em um solo coreográfico haverá sempre a interlocução direta ou indireta de uma equipe ancorando as palavras, os gestos, os silêncios e as variantes sensoriais no coração da cena. Leia mais
29.4.2014 | por Valmir Santos
Em janeiro de 1982, a duas semanas de sua morte com parcos 36 anos, Elis Regina é sabatinada no programa Jogo da verdade, da TV Cultura. O apresentador Salomão Ésper abre, de chofre: “Elis Regina, até que ponto pode ser profundo e honesto um ‘Jogo da Verdade’ sobre a sua carreira e a Música Popular Brasileira?”. Ela ergue os braços para trás, envolve a nuca com as duas mãos, movimenta o corpo com suavidade na cadeira giratória, para lá e para cá, e discorre sobre desnudar-se completamente perante o outro. “Eu acho que a gente faz parte de um grande teatro. Cada um tem o seu papelzinho e cada um tem o seu coringa gravado, guardado dentro da manguinha, aqui, para fazer sua canastra na hora precisa. Então, na medida em que isso possa ser feito, a gente preserva alguns dados para o futuro, que ninguém é bobo, não é, meu bem?”. Leia mais
26.4.2014 | por Valmir Santos
Ao discorrer sobre uma de suas peças mais encenadas no mundo, Medeamaterial, recriação da obra de Eurípides sobre a esposa sanguinária e vingativa que personificaria as forças cegas e irracionais da natureza, o dramaturgo alemão Heiner Müller (1929-1995) lembra a percepção da mulher na polis grega por volta de 25 séculos atrás: ela era referendada apenas pela condição de cortesã ou de mãe. Não por acaso, os mitos trágicos dizem muito aos dias de hoje. Müller associa as experiências coletivas da antiguidade ao “esperanto”, a linguagem universal acessada a qualquer tempo e lugar. Leia mais
10.4.2014 | por Valmir Santos
O sensacionalismo das tardes televisivas é pouco preocupado com a verdade. Mesmo quando apela ao tom documental de uma perseguição policial, ao vivo, o apresentador frequentemente enxerga mais do que o câmara e o piloto do helicóptero ao relatar os fatos do estúdio. A natureza espetacular ruge. Em casa, o telespectador interpreta o que vê ou escuta. Ou simplesmente se abstém, deixa-se levar. Esse prólogo desponta por causa do espetáculo Verbo, em que um aparelho de televisão catalisa o cenário de uma sala de estar, ora desligado ora em canal fora do ar, com seus chuviscos em cascata. Leia mais
8.4.2014 | por Helena Carnieri
Para jornalistas de fora da cidade que acompanham há tempos o Festival de Curitiba, o evento deste ano trouxe um estranho esvaziamento. Apesar de a organização ter registrado a presença de 230 mil espectadores no total, o grande número de espetáculos na mostra principal (eram 34, mais 4 de rua) causou divisão na plateia – dessa vez não foram tantas as atrações com ingressos esgotados e sempre havia poltronas vagas nas apresentações. Leia mais