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Crítica

Barbosa incita humor das ideias em ‘Ô, putaria’

6.12.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Paloma Pajarito

As duas peças de Rafael Barbosa apresentadas na semana do Festival de Teatro de Fortaleza tocam em meandros dessa arte e dos seus fazedores. Metrópole, com a Companhia Inquieta de Teatro, e Ô, putaria, com o Grupo Teatro em Película, urdem os dilemas da produção da cidade e do próprio artista em construção. Em vez de ansiedade metalinguística, a profícua obra de juventude – ele tem 23 anos e pelo menos dez textos – é talhada pelo desejo de contar histórias dispondo muitas pedras metafísicas e tragicômicas no meio do caminho.

Sobre a primeira peça, escrevemos aqui.

Ô, putaria menciona Dercy Gonçalves, Plínio Marcos e Beethoven com naturalidade. O dramaturgo e ator Barbosa vai às tradições para pensar e jogar com o seu tempo de estranhamentos e perplexidades. A narrativa é uma gangorra entre o absurdo e a vontade de clareza deste sábio temporão, o autor, em seu sistema de incitação.

Nos diálogos e situações vividos por dois homens que se encontram num ônibus viajam temas sobre gênero, sexualidade, o papel da cultura e o antipapel da arte. O fiapo de enredo atalha para uma enfermeira, depois volta. Cola e descola.

O ator, diretor e dramaturgo profícuo Rafael Barbosa

Não falta humor para questionar a onda de humor que varre as plataformas da cena cearense. Em vez do mero patrulhamento, o arco da autocrítica passa também pelo risco de o teatro de pesquisa ostentar erudição, enfadar.

Um desavisado que se esquivasse do título Ô, putaria deixaria de entrar em contato com esse teatro que não se avexa nas ideias ao apropriar-se da banalização do riso. Ao fundo homoerótico, por vezes alçado ao primeiro plano, os personagens/figuras tratados pelos sobrenomes Melo (Barbosa) e Médici (Edglê Lima) recuam de si para comentar tendências, formatos, idiossincrasias, autodepreciações e contradições da cultura teatral de Fortaleza em particular e do Brasil em geral.

Aos poucos, sabemos que o título da peça seria O desespero do caçador de patos, mais molho na abstração. Que os rapazes flertavam no ônibus enquanto uma mosca pousava na janela, “uma varejeira de olhos cor vinho”. Que produzir espetáculo na cidade equivale a “vender o vinil do Beethoven dizendo ao matuto que ele era um cachorro erudito que sabia tocar piano”, como sintetiza uma das passagens deliciosamente delirantes. E elas são muitas e inteligentes.

Lima acentua expressão corporal e sapateado

Já a encenação fica devendo. O avacalhamento suspeitoso da dramaturgia recai um pouco sobre o modo de organizar esse quebra-cabeça cênico lírico, safado e provocador. Além de atuar e escrever, Barbosa acumula a terceira função de diretor e perde a mão no fluxo que concebe.

Um terceiro olho que calibrasse as ações físicas e desenhasse espaço cênico e luz mais vibrantes acrescentaria outros textos plásticos e corporais. A crua manipulação de baldes de água azulada, de vazo sanitário, de chão molhado e de placa amarela de sinalização pode levar o espectador a se dispersar na nuvem narrativa.

Apesar de propiciarem bons momentos, Barbosa e Lima deslizam em suas performances quando deixam o guarda-chuva dramático nas trocas de atmosfera que o texto propõe, mesmo quando paródico. As gradações gestuais, físicas e espaciais não correspondem ao nível da sofisticação de linguagem a que o labirinto de palavras e sensações convidam. Propensão cinematográfica que não reflete a potência dessa criação como o Teatro em Película deseja. Um bom caminho andado está no número de sapateados com Lima. No conjunto do espetáculo, as imagens resultam mais precárias que viscerais como o verbo e a carne.

>> O jornalista viajou a convite da organização do 9º Festival de Teatro de Fortaleza.

Valmir Santos

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