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Crítica

Vozes encorpadas

5.10.2018  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Elenize Dezgeniski

O desinvestimento da vida em populações latino-americanas é um traço histórico a partir do qual artistas reagem feito um grito desengasgado. Elaboram poéticas do espanto diante de realidades brutais. Nos espetáculos Para não morrer e Há mais futuro que passado – um documentário de ficção, por exemplo, as estruturas de silenciamento e apagamento levam artistas, majoritariamente mulheres, a reavivarem as lutas e perspectivas daquelas que vieram antes e abriram caminhos até a contemporaneidade. Corpo e voz forjados para denunciar o machismo disseminado em sociedades patriarcais e colonizadas.

Leia análise que aproxima mulheres radicais nos campos da arte e das lutas sociopolíticas na América Latina e centrais nos espetáculos ‘Para não morrer’ (PR), dirigido e atuado por Nena Inoue, e ‘Há mais futuro que passado – um documentário de ficção’ (RJ), dirigido por Daniele Avila Small

Mas o que uma obra é capaz de brandir para além dos discursos presumidos? Nos dois casos, práticas e ideias arcaicas são enfrentadas com invenção poética. A subjugação não tem vez na produção curitibana Para não morrer ou na carioca Há mais futuro que passado. Ambas estrearam em 2017, respectivamente em março e abril, e tratam do legado de mulheres fortes da América Latina que abraçaram ações culturais, políticas ou sociais determinantes para que as gerações seguintes não recuassem de seus direitos civis e, por extensão, humanos.

No solo Para não morrer, que está de volta a São Paulo em curta temporada na SP Escola de Teatro, a atriz Nena Inoue vai ao livro Mujeres, do uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), para idealizar, dirigir e cocriar um libelo contra as violências de Estado ou de regimes de exceção. “Tenho uma mulher atravessada em minha garganta”, diz a figura ancestral, uma fortaleza de gestos contidos, a boca e os membros retorcidos. Uma fala atravessada por séculos de exploração dos povos originários dizimados durante os processos de colonização. “Sou mulher, latino-americana. Me atrevo a contar”, fala essa Pachamama nenhum pouco romantizada, aquela que provê por natureza, calcada na Mãe Terra, conforme a acepção da língua quéchua nos países andinos.

Ao entronizar a mulher mítica, memoriosa, de postura enrijecida pelo tempo, assim como os princípios irremovíveis que apregoa, Nena dota de tons épicos os microcontos de Galeano. Embasa uma presença arquetípica em seu raciocínio de pertencimento, um profundo senso de coletividade, de sororidade. Como se ligasse a sua geração, e a da cocriadora e preparadora vocal Babaya Morais (parceira de longa data do Grupo Galpão de Belo Horizonte) às meninas embarcadas no século XXI que atualizam os pensamentos e práticas dos feminismos.

Elenize Dezgeniski

A atriz Nena Inoue está de volta a São Paulo com ‘Para não morrer’, em que celebra as mulheres retratadas em minicontos do uruguaio Eduardo Galeano

O dramaturgo Francisco Mallmann entrelaça as histórias galeanas como um rio caudaloso, cujas margens são pressionadas à medida que a narradora chama os nomes e descreve os acontecimentos correspondentes.

A antropóloga guatemalteca Myrna Mack Chang (1949-1990) foi assassinada por paramilitares com 27 facadas. Ela criou uma fundação para o avanço das ciências sociais em seu país. De ascendência maia e chinesa, Myrna estudou no Reino Unido e na volta atuou em comunidades rurais destruídas pela guerra civil, conflito que envolveu forças do governo e guerrilhas (1960-1996). Em 2004, o Estado, após julgamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos, reconheceu o crime cometido por seus agentes e indenizou os familiares dela.

Ainda que não a nomeie, Nena medeia a voz da operária boliviana Domitila Barrios de Chungara (1937-2012): “O inimigo principal, qual é? A ditadura militar? A burguesia? Os homens? O imperialismo? Não, companheiras. O nosso inimigo principal é o medo. Temos medo por dentro’’. Domitila foi uma das cinco mulheres (ao lado de Angélica de Flores, Aurora de Lora, Nelly de Paniagua e Luzmila Rojas) que saíram do interior do país, onde trabalhavam numa mina de estanho, e rumaram para La Paz. Elas iniciaram uma greve de fome que mobilizou o país foi decisiva na queda do ditador de turno, Hugo Banzer (1926-2002), em 1978. Outro militar o substituiu, é verdade, num daqueles rearranjos institucionais de fachada, e a redemocratização só se deu 1982.

Myrna e Domitila somam-se a outras figuras mais conhecidas e não necessariamente latinas, como a escultora francesa Camille Claudel (1864-1943), a cantora e dançarina estadunidense Josephine Baker (1906-1975) e pelo menos duas brasileiras do Rio de Janeiro, a poeta carioca Stela do Patrocínio (1941-1997) e a vereadora Marielle Franco (1979-2018). Tanto a atuação como a dramaturgia conformam um fluxo, dispensando de categorizar os nomes como esta análise se permite, pela essência informativa, o que de fato sobressairiam em cena como estorvos didáticos.

Mas Para não morrer enraíza-se nos campos da estética e das ideias quando navega pelo desconhecido, atirando garrafas ao mar da consciência do espectador instigado a ir atrás de mais referências quanto às mulheres relatadas. Impossível transitar incólume às lembranças, ainda, da cubana Maria de La Cruz Semant, alfabetizada aos 106 anos, o que a condição de escravizada (bem como a de sua descendência) a impediu em criança. Ou às memórias da argentina Ángela Loij (1900-1974), das poucas remanescentes do povo indígena ona, da Terra do Fogo, onde costumava cantar sozinha “uma língua que ninguém mais lembrava”, tendo entre seus deuses Pemaulk, nome que significa “palavra”.

Pois é o canto a capella de Nena Inoue para Gracias a la vida, sussurrada na primeira parte do espetáculo e, mais adiante, num crescendo, na interpretação da argentina Mercedes Sosa para a composição da chilena Violeta Parra, é esse canto que cala fundo a imagem da atriz e sua cabeleira basta, “arvoreada”, espraiada pelo corpo centrado, o pensamento inquieto.

E se no penúltimo parágrafo ouvimos e lemos acerca da indígena que cantou seu povo e sua língua ao vento, até o último suspiro, a peruana Rosa Andrade Ocagane (1949-2016) era muito provavelmente a última mulher que sabia falar resígaro, idioma de tempos imemoriais da região da Amazônia, particularmente na floresta entre Colômbia e Peru, países com os quais o Brasil faz fronteira. Foi na selva ao norte de seu país que ela foi assassinada, aos 67 anos, na comunidade Nueza Esperanza. Rosa teve o corpo decepado e o coração extirpado. A suspeita recaiu sobre um forasteiro que as autoridades policiais detiveram, mas alegaram falta de provas – os exploradores das reservas ambientais influenciam os poderes locais. Ela era, também, uma das 40 pessoas no mundo que dominam outra língua em extinção, a ocaina.

A história de Rosa está contemplada na obra Há mais futuro que passado – um documentário de ficção. Em determinado momento, a peruana aparece em vídeo, cantando na língua materna. Mais um dos rostos-vozes-pensamentos latino-americanos que passam ao largo do imaginário da arte e da cultura brasileiras. É para saltar, ou melhor, construir uma ponte sobre esse vão que Daniele Avila Small, Clarisse Zarvos e Mariana Barcelo assinam a dramaturgia do espetáculo dirigido por Daniele.

Humberto Araujo

A atriz Tainah Longras em cena que evoca a artista peruana Victoria Santa Cruz e critica o racismo em ‘Há mais futuro que passado – um documentário de ficção’

À maneira de uma conferência, o público é convidado a conhecer mulheres que trabalharam como artistas visuais em diferentes modos (pintura, fotografia, vídeo, performance, etc.). A suspeição de viés enciclopédico, dado o volume e riqueza das informações revolvidas pela equipe criadora em sua pesquisa, logo se desfaz pela condução (e disposição) bem-humorada das três atuantes na interação com o público. São elas Cris Larin, Tainah Longras e Clarisse Zarvos, com participação em vídeo de Carolina Virgüez.

A assertividade anda de mãos dadas com o procedimento narrativo estruturante: a troca de cartas entre personalidades notáveis (a maioria desconhecida por nós, brasileiros, consciente ou inconscientemente dissimulados quando se trata das raízes e vínculos latino-americanos). A adoção do gênero epistolar, tão fértil à literatura, torna sustentável a rede dramatúrgica sobre a qual a encenação assenta seu caminho entre os dados biográficos, os contextos históricos e o campo infinito de invenção.

Mostra-se eficiente o modo como a teia de afetos é elaborada, as apropriações factuais, as mulheres enquanto sujeito da história, o mapeamento da região, as afinidades ideológicas e estilísticas. Tudo isso é matéria-prima amarrada por excertos da inglesa Virginia Woolf (1882-1941) no ensaio Um teto todo seu, extensão de duas palestras ministradas na década de 1920, em duas faculdades, em que discorreu sobre o tema “As mulheres e a ficção”. Em vez de questões de forma, conteúdo e estilo, a escritora reivindica a independência feminina, a autonomia financeira como condição propicia à liberdade no exercício do ofício, seja ele intelectual, braçal, criativo, não importa.

É por meio do raciocínio sagaz da autora de Mrs. Dalloway e As ondas que a equipe de criação – mulheres ocupam todas as funções – enreda as artistas latino-americanas e preenchem, sob os recursos do documentário cênico, mas não apenas, as ausências e lacunas em pauta. Há um misto de efeito paródico e verdade poética na disposição desse material, manifestação da fricção de linguagens e não “de uma adequação lógica entre uma proposição e o real posto”, como observa Manuel Antônio de Castro em Arte: o humano e o destino (2011).

Por outro lado, Woolf alimenta a ficção das criadoras por meio de sua escrita, vide o expediente das frases projetadas. Há um transbordamento dessa estratégia que nubla a fruição. O excesso de texto a ser lido ao pé da letra desequilibra o ritmo de imagens inspiradoras (e não necessariamente exibidas) que emanam da narrativa em seu jogo de pistas.

Numa mesa à esquerda do espaço cênico, as atrizes revezam as funções de operar luz, som e projeção, transparecendo a manipulação total do aparato técnico. Um filó faz as vezes de cortina vazada a recepcionar imagens e “separar” primeiro plano e cena de fundo. Este equivale a um nicho semi-iluminado, instância do onírico ou do passado em que as artistas-missivistas leem cartas endereçadas.

Humberto Araujo

Tainah Longras, Cris Larin e Clarisse Zarvos na montagem inspirada em artistas visuais latino-americanas sob o fluxo narrativo da escritora inglesa Virginia Woolf

O lugar da mulher latino-americana na história da arte é celebrado nos sentimentos encorajadores trocados por nomes como a colombiana Feliza Bursztyn (1933-1982); as cubanas Ana Mendieta (1948-1985) e Zilia Sánchez (1928); a paraguaia Olga Blinder (1921-2008); a argentina Alicia D’Amico (1993-2001); as brasileiras Lygia Clark (1922-88) e Zuzu Angel (1921-1976); a peruana Victoria Santa Cruz (1922-2014); a uruguaia Nelbia Romero (1938); e as mexicanas Pola Weiss (1947-1990), Maris Bustamante (1949) e Mónica Mayer (1954), as duas últimas do grupo Polvo de Gallina Negra (1983-1993), dentre outras lembranças. Há ainda a descoberta de uma jovem brasileira, de prenome Ana, que viaja bastante e vira interlocutora afetiva dessa rede. Literalmente um achado dramatúrgico.

Nenhuma delas é citada ao léu, guardam conectividade temporal, espacial ou temáticas entre situações de violência de que foram vítimas, como a tortura, a censura, o preconceito, a misoginia e até o suicídio. Auscultá-las por meio do teatro é um sopro de resiliência para a discussão de gênero no presente. Uma profusão de desejos artísticos e vontades de mundo, como situa o texto da peça. Ou, na síntese de Adélia Prado, também evocada com o verso final do poema Com licença poética: “Mulher é desdobrável. Eu sou”.

Sintomaticamente, a maioria das artistas homenageadas em Há mais futuro que passado constam da exposição coletiva Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985, que abriu em agosto na Pinacoteca de São Paulo e pode ser visitada até 19 de novembro. São cerca de 120 artistas de 15 países, ou 280 trabalhos experimentais.

PS: Ontem, 4 de outubro, completaram-se nove anos da morte da argentina Mercedes Sosa (1935-2009). Na mesma data, há 101 anos, nasceu a chilena Violeta Parra (1917-1967), compositora de Gracias a la vida, canção imortalizada na voz da primeira.

Serviço:

Para não morrer

Onde: SP Escola de Teatro – sede Roosevelt (Praça Franklin Roosevelt, 210, Consolação, tel. 11 3775-8600)

Quando: Sexta, sábado e segunda-feira, às 21h. Domingos, às 19h. Até 6/10 (sábado)

Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Duração: 60 minutos

Lotação: 60 lugares

Classificação indicativa: 14 anos

Pagamento somente em dinheiro

Saiba mais em: http://bit.ly/2NLgqNM

https://www.facebook.com/espacocenicocuritiba/videos/2093082207578178/?t=103

Equipe de criação:

Idealizadora, direção e atuação: Nena Inoue

Parceria de criação: Babaya Morais

Dramaturgia: Francisco Mallmann, a partir da obra de Eduardo Galeano

Iluminação: Beto Bruel

Figurinos: Carmen Jorge

Cenário: Ruy Almeida

Técnico de luz: Vinicius Sant

Fotografia: Marcelo Almeida, Elenize Dezgeniski, Lidia Ueta e Raquel Rizzo Vídeos teaser: Alan Raffo e Igor Marotti

Designer gráfico: Martin Castro

Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro

Direção de produção: Nena Inoue

Realização: Espaço Cênico

Há mais futuro que passado – um documentário de ficção

Equipe de criação:

Dramaturgia: Clarisse Zarvos, Daniele Avila Small e Mariana Barcelos

Direção: Daniele Avila Small

Com: Clarisse Zarvos, Cris Larin e Tainah Longras

Participação em vídeo: Carolina Virgüez

Criação: Clarisse Zarvos, Cris Larin, Daniele Avila Small, Mariana Barcelos, Tainá Nogueira e Tainah Longras

Direção de produção: Fernanda Avellar

Direção de movimento: Denise Stutz

Cenografia: Elsa Romero

Iluminação: Ana Kutner

Figurino: Raquel Theo

Trilha sonora: Julia Bernat e Laura Becker

Violão, guitarra, gravações, edições e mixagem: Felipe Fernandes

Identidade visual: Clarice Pamplona

Assistência de direção: Mariana Barcelos e Tainá Nogueira

Vídeos: Daniele Avila Small, a partir de imagens de arquivo e do processo de criação

Costureira: Nice Tramontim (cenário) e Ione de Farias (figurino)

Bordadeira: Paula Miranda

Cenotécnico: Maranhão

Contrarregras: Dhyego Rodrigues e Ricardo Bittencourt

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Realização: Sesc Rio, Trestada Produções Artísticas e Complexo Duplo

Idealização do projeto: Clarisse Zarvos e Daniele Avila Small

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Cursa doutorado em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado na mesma área.

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