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Encontro com Espectadores

‘Eu de você’, arte para impedir o fim do mundo

20.8.2020  |  por Teatrojornal

Foto de capa: Agência Ophelia

A atriz Denise Fraga e o diretor Luiz Villaça participaram do 35º Encontro com Espectadores, sob mediação da jornalista Beth Néspoli. Um público diversificado lotou a Sala Vermelha do Instituto Itaú Cultural, apoiador da ação realizada por este site de crítica Teatrojornal – Leituras de Cena. O espetáculo em foco, Eu de você, finalizava sua primeira temporada no Teatro Vivo e, na ocasião, nenhum dos presentes poderia imaginar que seria uma das últimas edições do EE, em 24 de novembro de 2019. Ou seja, antes de um longo e até hoje indeterminado período de suspensão devido à pandemia provocada pelo novo coronavírus. O teor da conversa derivada do solo, em especial no que diz respeito à valorização da arte, ganhou ainda mais pertinência nesses tempos de isolamento social.

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Beth Néspoli – Teatrojornal
Hoje temos como convidados a Denise Fraga e o Luiz Villaça para conversar conosco sobre o espetáculo Eu de você, solo no qual ela atua e ele dirige. A Denise já esteve no 14º Encontro com Espectadores [2018], quando nós discutimos o espetáculo A visita da velha senhora, conversa transcrita, editada e que pode ser lida no site Teatrojornal.

O Encontro com Espectadores nasceu da certeza de que a recepção de uma obra teatral não termina quando acaba a apresentação do espetáculo, mas segue sendo processada na memória assim como, por outro lado, começa muito antes da gente entrar na sala do teatro. Alguns dos que estão aqui não viram Eu de você ainda, mas com no ato de vir para cá já estão preparando sua recepção. A gente sempre prepara nossa ida ao teatro em alguma medida. Então, a ideia é que no Encontro de hoje a gente receba mais elementos para ampliar a percepção da peça, seja por antecipação ou na fruição posterior à experiência de estar na sala teatral.

Viva com a cumplicidade dos poetas, sofra com a cumplicidade dos poetas, porque quando você está triste, no ônibus, com a cabeça no vidro da janela, acha que só você no mundo está sofrendo. Mas quando você vive com a cumplicidade dos poetas você sabe que aquilo faz parte da vida e, de alguma maneira, aquilo embeleza a sua dor – não livra você dela, não vamos ter essa ilusão -, mas a beleza nos acalenta o coração e fica mais fácil passar pelo drama na medida em que Fernando Pessoa também passou, Dostoiévski também passou, então a gente fica ali bem acompanhado

Denise Fraga, atriz

Eu estava falando agora mesmo com a Denise sobre um filósofo francês, Jacques Rancière, para quem uma das funções da arte é ampliar a nossa visão sobre o mundo. Se a arte amplia a percepção sobre o mundo, a gente tenta ampliar a percepção sobre a arte. Às vezes se pensa na crítica como sinônimo de um juízo de valor negativo, apenas. No entanto, podemos ampliar a visão sobre uma peça escrevendo ou lendo uma crítica, mas também ouvindo sobre o processo de criação, sobre os princípios éticos e estéticos que moveram as decisões dos criadores. Tal pensamento está na gênese da criação do Encontro com Espectadores.

Eu de você foi criada a partir de uma coleta de histórias enviadas a pedido dessa dupla de artistas. Eles fizeram uma convocação pela imprensa e pelas redes sociais e, depois, realizaram uma costura inserindo poesias, canções, prosa, fragmentos diversos. Na dramaturgia do espetáculo há textos de uma poeta polonesa chamada Wisława Szymborska [1923-2012], que ganhou um Nobel de Literatura. Eu, confesso a ignorância, nunca tinha ouvido falar dela. Conferi o nome no programa da peça e fui ler. Além de ter gostado, descobri que o pintor favorito dela era Johannes Vermeer [1632-1675] e ainda que ela fez uma poesia para ele. É um pintor holandês que ficou esquecido e o valor de sua obra só foi recuperado no século XX.

Pois bem, há um quadro de Vermeer muito conhecido chamado A leiteira e no qual ele retrata a serenidade de uma mulher dentro de um lar onde há fartura de alimentos. Ao leigo pode parecer muito simples, mas especialistas destacam a sofisticação com que ele trabalha a incidência de luz, a composição dos objetos, formatos e cores, o jorrar do leite como escolha de um signo de continuidade. Vermeer viveu em um tempo de rara prosperidade na Holanda, sem guerra ou fome, e o jorrar do leite contribui para passar a ideia de fartura e permanência, ou seja, tudo é muito elaborado. Bem, o objetivo aqui não é analisar a pintura, mas pensar sobre o comentário crítico dos analistas que tratam a sofisticação dessa composição não como fruto de mera exibição técnica, mas como algo cuidadosamente criado para provocar uma determinada atmosfera. E, assim, traçar um paralelo com o espetáculo em foco.

Agência Ophelia A jornalista Beth Néspoli e a atriz Denise Fraga observam a projeção do quadro ‘A leiteira’, do holandês Vermeer: mediadora estabelece analogia com a peça

Eu de você pode provocar uma primeira impressão similar no que diz respeito à simplicidade. Não possui cenário grandioso, apenas uma atriz em cena, figurino em cores neutras. No entanto, são vários os elementos cuidadosamente pensados que convergem para criar a atmosfera de encontro e casualidade aparentemente buscados: a luz, o figurino, as sombras, o gesto, a música executada ao vivo, todas as sonoridades, os vídeos, cada escolha de poema, de texto, de passagem. Como fazer as passagens entre fragmentos quando não há uma história que costura? A solução é sempre trabalhosa e pode resultar uma pedra no caminho da fruição do espectador. Nessa montagem, a construção dessas pontes é um desses elementos cuja simplicidade é fruto de cuidadosa elaboração. No espetáculo, é como se a Denise estendesse a mão ao espectador para ele passar de um lado para o outro e, ainda, como se parasse no meio do caminho e, sem nenhuma ansiedade, falasse: “Olha a beleza dessa paisagem”.

Agora eu peço licença para ler um trecho da poesia de Wisława Szymborska justamente sobre a pintura A leiteira. O dela intitulado Vermeer cita o museu de Amsterdã onde está o quadro e, não por acaso, faz parte do roteiro da montagem:

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum

atenta no silêncio pintado

dia após dia derrama

o leite da jarra na tigela,

o Mundo não merece

o fim do mundo.

[tradução de Regina Przybycie]

Notem que a poeta escreve “enquanto aquela mulher do museu” e não “enquanto a leiteira”, ou seja, ela se refere à mulher do museu atenta no silêncio pintado. A referência é à obra de arte, não à suposta mulher real que inspirou o pintor. Wislawa, na verdade, faz uma poesia para a arte. E esse, me parece, é também um dos objetivos do espetáculo, trabalhar com o poder agregador da arte nesses tempos de país dividido.

Bem, impossível não pensar que, ao contrário do que se dá com a preservação da arte na Holanda, se esse quadro estivesse no Museu Nacional do Brasil ele não existiria mais, teria pegado fogo. Mas o que importa ressaltar é que, no cerne do espetáculo, está a ideia de que enquanto houver arte, e para isso é preciso haver criação, recepção e valorização da arte, o mundo não merece o fim do mundo.

A arte pode não mudar o mundo, mas ela sensibiliza as pessoas que atuam no mundo. E, é possível observar, sempre que há um tempo ruim sobre a Terra, um tempo de destruição, de guerra, de tirania, junto vem a destruição da poesia, o desprezo pela arte, a perseguição aos artistas, porque a arte tem o poder de impedir que a gente se brutalize e se submeta aos brutos. E esse pensamento atravessa o espetáculo Eu de você do início ao fim, nos atravessa, faz parte da fruição.  Sem ser literal, sem fazer discurso, ele parece criado para dizer que se existe arte ainda vale estar nessa Terra, mesmo com as mazelas todas que sabemos.

No EE anterior com a Denise, a gente teve uma conversa sobre um aspecto de A visita da velha senhora, um texto muito importante e interessante [do suíço Friedrich Dürrenmatt], mas que provocava um tipo de ruído na apreensão de parte do público. O teatro é uma arte de tempo real e para o presente, e a sensibilidade do artista também reside em pensar qual teatro ele tem de levar às pessoas de seu tempo. O Vermeer morreu pobre, esquecido, a obra dele não reverberou na sua época, mas pôde reverberar mais adiante. O teatro não tem essa chance, é aqui e agora, tem de falar com as pessoas do seu tempo. Para Eu de você não dá mais para comprar ingresso porque está lotado até o fim da temporada, ou seja, esse espetáculo que parece feito para adiar o fim do mundo está conseguindo tocar a sensibilidade das pessoas.

Bem, gostaria que vocês dois, Denise e Luiz, falassem sobre a escolha de realizar essa montagem em forma de mosaico. Afinal, você, Denise, sempre foi ao palco com dramaturgia grandiosa, com Shakespeare, com Beckett e Brecht e ainda brasileiros como Fauzi Arap, Martins Pena. Pela primeira vez encena com dramaturgia original.  Sabemos que receberam mais ou menos 300 histórias. Por que escolheram as que lá estão e os temas que elas propõem como o envelhecimento, relação paternal e a emancipação feminina, entre outros? Como é um espetáculo que envolve muitas pessoas, muita gente contribuiu com a dramaturgia e tem ainda a experiente Fernanda Maia na direção musical, daí, imagino que seja difícil apontar autorias, mas certamente tem um eixo agregador no que diz respeito ao desejo de vocês. Embora não importe tanto achar as autorias, talvez valha falar sobre o pensamento que perpassou as decisões.

Há uma cena que se repete, uma cena randômica em que uma mulher precisa ir trabalhar, ela trabalha no ambiente corporativo e é extremamente explorada, e antes de sair precisa colocar a criança na escola. E, em algum momento, a cena me remeteu à Marília Pêra em Brincando em cima daquilo e fiquei pensando se tinha alguma coisa de homenagem aí ou não, e vocês podem falar. Na peça da Marília Pêra, com texto de Dario Fo e Franca Rame, que dá para achar no YouTube, ela é uma operária que levanta de manhã e precisa colocar o filho na creche, mas não acha a chave de casa e começa a refazer o que fez. Ela é uma operária de fábrica e tem toda a cena do desespero dela de não conseguir sair de casa. Não deixa de ser significativo que na época o retrato recaísse sobre uma operária de fábrica e agora a explorada é uma mulher que trabalha numa multinacional. A exploração atinge outras camadas sociais e a identificação do público teatral, em sua maioria de classe média, é aspecto importante, imagino que tenha sido pensado.

Luiz Villaça
Eu fiquei muito emocionado com o que você falou [Villaça faz silêncio para conter sua comoção antes de falar]. Eu trabalho com cinema, com televisão e com teatro, e está muito claro que a única possibilidade da gente é através da arte. Atualmente, há domínio econômico sobre a criação, tanto no cinema como na televisão, e um pouco também no teatro. Mas só o teatro dá possibilidade de fazer o que eu acho que a gente tentou fazer no Eu de você, que é entender o que estamos vivendo e expressar sem a menor intenção de ser tendencioso, mas sim buscando colocar o que é a vida de todos nós através dos textos que a gente recebeu, de histórias próprias, de trechos de peças, de poesias, de música.

Cacá Bernardes Atuado por Denise Fraga e dirigido por Luiz Villaça, ‘Eu de você’ fez temporada no Teatro Vivo de 19 de setembro a 15 de dezembro de 2019, e planejava a reestreia em 2020

Quem assistiu viu que a música é muito presente, inclusive nas próprias histórias. É impressionante como a gente recebeu história com a trilha sonora própria e é por isso que tem muita música. É um momento em que a gente não escapa de ser político. Eu vi que era uma peça que estava na hora certa, necessária, se construindo com liberdade, liberdade de falar o que você quer e a gente tem de lutar por isso. A gente tem de ter liberdade para falar o que a gente precisa falar e de entender o que a gente está vivendo nesse mundo e, com isso, poder se relacionar. E a busca dessa peça foi essa, da gente conversar, da gente se entender, uma peça que foi feita muito em conjunto com pessoas que estavam muito engajadas e preocupadas em dar o seu melhor.

Tudo o que foi criado, acho que o foi numa simplicidade muito grande, pensando em como vai ser o cenário, o figurino, até chegar aos 30 dias antes da estreia e chegar à conclusão de que são três paredes brancas e uma cadeira, não precisa mais nada. É um monólogo, mas tem 42 pessoas em cima do palco e a gente não precisa de mais nada além disso. A gente foi buscando cada vez mais essa simplicidade no fazer. Tem uma coisa pessoal minha que é o fato de eu ser um iniciante no teatro, essa é a minha quinta peça e, como sou cineasta, sempre pensei muito que eu tinha que tentar fazer o teatro o mais puro possível, sem nada do cinema, mas desta vez eu achei que deveria colocar o cinema, tenho que assumir que eu sou um cineasta, que eu faço documentários também e que é hora de juntar tudo, e o juntar tudo é usar o teatro da forma mais pura que, para mim, é um texto e uma atriz, e nada. E uma grande atriz como a Denise que mergulha no ficcional de modo tão raro. E, ao mesmo tempo, queria trazer o cinema, trazer imagens que são documentais.

Então, acho que foi a primeira vez em que eu me coloquei como um cineasta que está lá batalhando para entender o que é o teatro e tentando fazer o melhor. Depois a gente pode falar da construção do roteiro em si, como foram feitas as passagens e das crenças que a gente teve em cima de cada tema que escolheu.  A gente fez uma listinha do que gostaria de falar e aí chegaram as histórias, e essas coisas estavam nas histórias. Era como se as histórias estivessem escutando a gente, escutando o que tinha que ser feito. Os temas estavam lá e foi o trabalho de conseguir separar o que de mais conciso pudesse para poder passar por tudo que a gente passou e tentar fazer de todas essas histórias, de todos esses textos, uma história única, que é a história de todos nós.

Beth
Vocês têm uma longa parceria nessa linha de criação, desde o Retrato falado [quadro apresentado no programa Fantástico, da Rede Globo, entre 2000-2001 e 2003-2007, a partir de relatos] e a série Três Teresas, exibida no canal GNT em 2013-2014, e que agora está disponível na NET, todos os episódios. São três mulheres, uma vó [Cláudia Mello], uma mãe [Denise Fraga] e um filha [Manoela Aliperti], e é muito legal, as personagens são pessoas em luta diária com as contas para pagar, os namoros, os afetos. E vocês têm também os filmes, então eram já muitas parcerias.

Denise Fraga
Acho que foi uma conjunção de coisas. Eu acredito em sinais e foi muito louco porque as coisas foram indo, como se fosse uma necessidade, a gente sentiu esse impulso. A gente queria, mas eu sinto que tudo foi colaborando. Quando a gente começou a seleção para as histórias, eu fiquei muito impressionada com a quantidade de histórias melancólicas, assim como o meu coração estava melancólico, assim como eu acho que a melancolia está sendo uma espécie de epidemia no país.

A gente vive um tempo esquisito, melancólico, só que eu acho que as pessoas estão falando pouco sobre as suas dores. Acho que a rede social mente muito, as pessoas estão colocando seus feitos, seus êxitos, suas alegrias, mas nos confiaram histórias de dor e de vulnerabilidade. Eu me lembro que no início eu ficava pensando: “Mas o que a gente vai fazer com isso? Eu não quero fazer um espetáculo triste”. Eu tinha essa preocupação e a gente falava muito sobre isso.

Essa história da gente trançar com a poesia sempre foi uma ideia porque eu acho que a pessoa vive melhor com a arte, eu acredito no Jacques Rancière, que a arte aumenta a nossa percepção do mundo e, na medida em que ela aumenta a nossa percepção do mundo, ela faz a gente compreender a imperfeição humana, que é o nosso grande dilema eterno. A gente acredita na perfeição e somos tão imperfeitos, e a gente passa os dias patinando, batendo a cabeça na parede e estamos sempre nos mesmos dilemas. Inclusive, outro dia eu fiquei pensando que os clássicos são clássicos porque falam de dilemas que a gente nunca resolveu e a arte sempre vai ajudar e nos dar conforto.

Então, trançar com a poesia, com a literatura, com a música era no sentido de que a Maria, que escreveu a carta para nós, não sabia quando estava vivendo aquele seu drama, mas o mesmo drama fez com que Chico Buarque escrevesse essa música ou o mesmo drama fez com que Clarice Lispector escreveu esse texto. Tem tudo isso também, mas não só isso, as histórias foram nos encontrando. Inclusive, tivemos que deixar de fora histórias que a gente gostava muito, mas saíram as que eram muito específicas.

Denise situa que a dramaturgia coletiva foi concebida a partir de histórias reais e por vezes ligadas à sua experiência pessoal, costurando prosa, poesia, música e imagens
Agência Ophelia

A gente trabalhou em cima de 25 escolhidas e eram quase 300 histórias. No processo, 25 foram as histórias que a gente espalhou no chão, na sala de ensaio, e para mim foi uma novidade grande porque foi a primeira vez que entrei numa sala de ensaio sem um texto. Até então, eu era a rainha do texto, da palavra, o meu grande barato era, através do teatro, falar para o público: “Olha o que eu li, olha o que esse cara escreveu há 100 anos e como ele fala coisas que dentro do que você está vivendo faz sentido para você”.

Sempre achei teatro era dar a palavra, dar voz para a nossa angústia e cada vez mais dar esse alívio de nos tirar da mediocridade seca dos dias e nos colocar num lugar que é essa noção de pertencimento a uma coisa muito maior, que é a humanidade. Então, viva com a cumplicidade dos poetas, sofra com a cumplicidade dos poetas, porque quando você está triste, no ônibus, com a cabeça no vidro da janela, acha que só você no mundo está sofrendo. Mas quando você vive com a cumplicidade dos poetas você sabe que aquilo faz parte da vida e, de alguma maneira, aquilo embeleza a sua dor – não livra você dela, não vamos ter essa ilusão -, mas a beleza nos acalenta o coração e fica mais fácil passar pelo drama na medida em que Fernando Pessoa também passou, Dostoiévski também passou, então a gente fica ali bem acompanhado.

A gente jogava essas histórias no chão, improvisava e havia pessoas muito talentosas trabalhando junto. A Kenia Dias [pesquisadora e cocriadora do EstudiofitacrepeSP – Ateliê de Som e Movimento] fez a nossa direção de movimento, o André Dib fez a parte de vídeos junto com a Luiz e participava da dramaturgia, a Cassia Conti também participava da dramaturgia, o José Maria, nosso produtor, um artista e que também dava opiniões. O Luiz tem uma coisa incrível porque ele sabe muito bem o que quer, mas não se fecha, ele vai incentivando. Ele, logo no início, disse que o espetáculo tinha que ser assim com esse meu jeito de falar caótico. A gente tinha uma parede onde ia grudando papeizinhos com cores e acho que o Luiz tem a visão do todo, e é por isso que a gente está há tanto tempo nessa parceria na vida e na arte. Sempre falo que a gente existe em complementariedade e a gente conseguiu saber o que ele tem que eu não tenho e o que eu tenho que ele não tem. Eu sou a rainha do detalhe e ele é rei na visão ampla.

Vou contar de novo essa história. Uma vez a gente estava andando na praia e eu ficava parando toda hora para pegar uma conchinha para levar para os nossos filhos pequenos que tinham ficado com a avó no guarda-sol. Ele conversava comigo e eu parava lá atrás e ele falava: ‘Você vai ficar catando conchinha?’. E eu sugeri dele continuar andando: ‘Eu cato a conchinha e depois eu corro até onde você está’. E ele disse que era chato conversar com uma pessoa que toda hora some, e nesse dia eu tive um insight do que era a nossa parceria. Eu faço com que ele olhe a conchinha e ele dá umas estiradas para a frente e me faz caminhar. Eu olho para os lados e ele olha para a frente, e a gente consegue um vetor muito bom com essas duas coisas. Então caiu uma grande ficha de como a gente existia bem juntos há tantos anos, por causa disso, e eu acho que tem muito disso no nosso trabalho.

No Eu de você ele falava para eu não esquetear, que era fazer esquetes, dizia para não parar de uma história para a outra, para juntar as histórias e a gente vai fazendo essa montanha-russa. Havia aquele painel que ele fez na parede e tinha cores diferentes para poesia, humor e drama. E o tempo inteiro eu falava que a gente tinha que solarizar, porque eu tinha uma aflição, eu sofri muito fazendo essa peça, chorei muitos dias sentada no chão na sala de ensaio porque eu fiquei muito tocada com as histórias e, além de comovida, eu fiquei impregnada, por isso eu ficava com muito medo de ser leviana com tamanha disponibilidade das pessoas me dando suas histórias.

Eu ficava com muito medo da gente não ser responsável com aquilo que estava sendo confiado a nós e eu achava que não valia só contar aquelas histórias porque a gente precisava recebê-las do público e devolver ao público com aquilo que sabe fazer que é embalá-las pela arte, filtradas pela arte. A gente queria devolver as histórias ao público com o “degrauzinho do sublime”, eu falava muito essa expressão, e que a gente colocasse as histórias muito comuns, mas num outro lugar, onde a gente tem a capacidade de olhar para elas através da arte junto com a nossa peça.

A Beth fez uma introdução muito linda e que, com certeza, nos comoveu desse jeito porque, dentro do espetáculo, a gente também queria falar desse momento em que as pessoas começaram a questionar a necessidade da arte, queria dizer o quanto a arte ajuda a gente a viver. Desde que o homem é homem ele vive acompanhado da arte, desenhava nas paredes das cavernas para se reconhecer. Através da arte a gente se reconhece, a gente sabe quem a gente é. A arte conta para a gente quem a gente é. O outro, o primeiro interlocutor, ele já diz para a gente quem a gente é. A gente só sabe quem a gente é quando a gente reverbera e a arte põe isso numa maior potência, num lugar que você consegue essa compreensão de pertencimento.

O espetáculo foi virando a história de todos nós. E, dessas 25 histórias, havia umas que a gente adorava e que abandonamos com muita pena porque elas não pertenciam mais à história de todos nós, eram histórias mais específicas. A gente teve o cuidado de colocar frases dessas pessoas naquele pout-pourri que eu faço no final, que a gente chama de short cuts, que é esse conjunto de pequenas frases quando falo dos apartamentos. Eu sempre olhei pela janela do meu apartamento vendo as outras janelas, e até o filme De onde eu te vejo tem isso [dirigido em 2016 por Villaça, com Domingos Montagner no elenco].

Tem um lugar no meu apartamento que às 20h30 é um prato cheio, porque aquela hora em que as pessoas não fecharam ainda as suas janelas e estão desencanadas. É daqueles prédios antigos com janelas grandes. São dois prédios, então você vê várias janelas, vê aqueles pedaços de vida: um casal jantando, uma mulher vendo televisão, uma criança correndo. A mulher fumando na janela e olhando o celular não sabe que acima dela tem uma outra mulher que está jantando em silêncio com o marido e talvez esteja sofrendo também, mas ela não sabe que está num todo, assim como não sabe que embaixo dela tem um bebê chorando e ela é só uma mulher no celular preocupada com a mensagem, tensa. E essa noção que ela não tem, eu tenho, porque estou olhando de fora, olhando aquele panorama, aquele mosaico humano, e esqueço que pode ter alguém num outro prédio olhando e falando: “Olha lá aquela moça olhando pela janela achando que é a rainha da cocada preta. Tem um homem chorando acima e ela nem sabe”.

Isso de a gente viver dentro do nosso drama, esquecendo o nosso pertencimento ao todo, desprezando o nosso engajamento. Essa palavra “engajamento”, uma vez me perguntaram se eu achava que todo artista deveria ser engajado e eu respondi que achava que todo médico deveria ser engajado, todo engenheiro. Engajamento é essa noção de que você pertence a um todo, que você pertence a um coletivo e a gente despreza, eu sinto que não há mais hora para isso porque, hoje – que me perdoe Leminski, que a gente adora e tem tanto no espetáculo –, acho que distraídos não vencemos mais, distraídos estamos sendo levados para o abismo. Então, hoje a omissão é uma ação talvez das piores e acho que com o espetáculo a gente quis despertar essas pessoas, e incluindo nós mesmos, para o que temos de precioso, que é o nosso essencial, onde a gente se agarra, onde todos se unem.

Eu vou ficar feliz o dia em que entrar no Hospital Sírio-Libanês e eu for atendido por um médico negro, vou achar normal o dia em que eu entrar num Uber e o cara não começar a falar de preconceito do jeito que ele fala. Então, para ir para frente a gente tem de entender que as pessoas negras representam 56% da população brasileira, portanto metade do público teatral deveria ser negra, e infelizmente não é, porque muita gente não tem acesso

Luiz Villaça, diretor

Parece que depois desse último ano que a gente passou, em que vivemos tantas coisas e a gente viu tanto ódio deflagrado e tantas manifestações não gentis, acho que a gente tem que parar e pensar como recomeça. A gente falava muito do poder do silêncio e colocamos várias coisas na peça que foram crescendo à medida em que a gente ia conversando, e foi uma peça feita muito com o nosso coração. Tem até uma hora na peça em que a gente propõe o silêncio. A gente fazia um exercício de improviso durante os ensaios, que era descrever: estou aqui sentada numa cadeira cinza, meio de couro, a Beth está olhando para mim, tem um monte de gente olhando para mim na plateia e eu estou falando ao microfone.

[Silêncio]

É incrível como é poderoso e como está cada vez mais raro, cada vez a gente acha que tem que preencher esse estar porque a gente está sendo treinado por esse troço aqui [celular] que nos tirou a plenitude. Não tem mais uma fila de banco em que a gente se permita olhar uma mosca, a gente está num lugar e a gente sempre vai preencher todos os pedaços vazios da nossa existência com esse troço. Então, quando a gente propõe o silêncio, esse exercício de escuta, você consegue ver. Tudo isso a gente fez como improviso, essa coisa que eu pego as pessoas na peça e descrevo que a mão dela é quente, e não precisa de curso para entender que a mão da pessoa é quente, a gente ainda consegue perceber isso e o que precisamos é voltar a esse lugar de recepção do outro, de disponibilidade.

O Luiz disse que eu tinha de já começar contando história lá fora e a ideia inicial era eu ir para o café do teatro, mas percebemos que tomaria muito tempo, então ficou isso de conversar com as pessoas na plateia, mas não começo contando história porque deflagraria muito que a gente já estaria fazendo alguma coisa. Eu fico ali disponível, disponível para conversar, não dá para conversar com todo mundo. Dá um pouco de ansiedade, mas eu gosto muito de perguntar como a pessoa veio, como soube da peça, o que ela faz e a pessoa me conta. Todo mundo tem um grau de interesse quando você se disponibiliza. A gente não está tendo paciência para o outro, a internet está cheia de papinho, opinião e pouca história, mas quando ela dá a história, eu vou que vou nela, e aí vale a pena você ir para outro mesmo que seja chato no início, mas chega uma hora que vem.   

Beth 
Você falou da história de começar no café, mas também de não fazer, a Denise está ali não fazendo ainda o teatro, embora já esteja, claro, mas quero dizer que não fazer nada, nem mesmo olhar a mosca, é outra proibição, como a do silêncio.

Denise
Depois da parte daquele homem que teve a experiência do silêncio, eu atravesso a rua na faixa de pedestres: calcanhar, metatarso, dedos… Um homem que passou a se perceber por causa do outro, passou a perceber a vida por causa daquilo que tinha acontecido com ele. Essa percepção do nada é uma coisa que a gente propõe.

Essa peça foi a que eu mais fiquei nervosa na minha vida, parece que vou ter um encontro amoroso com uma pessoa que não conheço e vou ter de casar. É isso que eu sinto toda vez que vai começar a peça. No início eu ia com muita ansiedade, e eu disse: “Denise, calma. Você não precisa fazer nada. Fica”. E agora estou conseguindo mais estar ali, entendo que não vai dar para conversar com 300 pessoas em 15 minutos, a não ser que eu fale para todo mundo, mas isso já é fora da proposta.

Abre para a participação do público:

Sandra Nachbar – espectadora
Hoje, eu quero reverenciar Denise e Luiz pela transformação que vocês nos fazem com a arte. Ontem, vendo a peça, a provocação de ter que olhar para o lado foi uma coisa que sacudiu a alma. Eu não vou contar o detalhe porque vocês [para a plateia da sala] precisam assistir à peça e sair transformados. Então, gratidão porque só o aplauso não dá para dizer o quanto é importante a arte para nós.    

José Ademir da Silva – espectador
Você [para a mediadora] falou que aquele quadro [A leiteira] dá uma vontade de viver e uma fartura. A Rosana tem uma música que fala: “Antes do mundo acabar, quero ficar com você”. Então tem muita gente querendo viver ainda e você ajuda, Denise. Obrigado.

Leni de Sousa – espectadora
Eu vi a peça e a sua apresentação naquele dia me salvou porque era um dia que eu estava arrastando corrente e fui ao teatro. Além da melancolia dos dias atuais, da dor da alma e do medo do retrocesso, do autoritarismo que estamos vivendo, desse medo da arte não poder ser arte, eu estava com dilemas pessoais, e fui assistir à peça. Para quem viu, a peça não tem um palco vazio, eu vi tanta gente naquele palco, acho que é a história mesmo de todos nós. Não está a Denise Fraga ali, estamos todos nós, e dá para sentir isso também, que foi uma produção de muitas mãos e que muitas pessoas estiveram envolvidas para fazer esse lindo espetáculo. Eu não enviei a minha história e a minha história estava retratada lá, e eu não vou falar qual era porque quero que todos assistam à peça. Então é uma identificação real e apesar de tudo isso você sai de lá e, pegando o gancho de uma canção, com uma vontade danada de dar bom dia ao português porque é isso, você sai leve, você sai feliz. Você pegou as histórias, transformou, colocou todo mundo ali retratado. Já indiquei para vários e eu vou voltar. Parabéns a todos.

Francisco – médico pediatra e espectador
Foi uma das coisas mais intensas, íntegras, humanas e contemporâneas que eu vi. Tudo bem que fazia tempo que eu não ia ao teatro porque o meu dia a dia é muito puxado, mas me surpreendeu, uma coisa arrebatadora a forma e o conteúdo absolutamente contemporâneo sobre tudo que está acontecendo. Eu fiquei me perguntando como foi feita essa convocação para mandarem as histórias e como isso aconteceu objetivamente. Agora, sabendo que você é cineasta [para Luiz], fiquei com umas sensações que me lembravam os filmes do Carlos Saura [diretor espanhol de obras como Cría cuervos], a entrada na realidade e a saída dela, e depois a entrada e de novo a saída… De repente você está e não está e é um negócio incrível essa costura super sutil e bem dosada o tempo todo e a gente sai realmente motivado. Eu indiquei para uma mãe no consultório, que teve a oportunidade de te abraçar, e ela me mandou a foto pelo WhatsApp. Falei a ela que se tivesse abraçado estaria chorando até hoje. [Denise Fraga levanta, caminha até o final da plateia onde o Francisco está e o abraça].

Agência Ophelia O espectador e médico pediatra Francisco encontra a atriz Denise Fraga na 35ª edição do Encontro com Espectadores

Villaça
Acho legal falar da convocação. A gente ganhou uma página na Folha de S. Paulo por conta de um evento que a Denise apresentou, então a gente anunciou na Ilustrada e assim, pela imprensa e por meio das redes sociais a gente conseguiu chegar a essas histórias. E chegaram de uma forma até bastante rápida.

De tudo que estamos falando aqui, tem uma coisa sobre a qual fico superfeliz de escutar porque, desde o início, a gente falava em tentar quebrar um pouquinho a solenidade do teatro e tentar fazer dele o lar e a casa de todo mundo que entrasse. A ideia de Denise ir contando histórias era essa, a de que todo mundo que entrasse já seria recebido na nossa casa para conviver, trocar experiências, se emocionar, abraçar, chorar, debater, mas como se fosse a nossa casa. E escutar o que vocês estão falando é uma vitória nesse sentido porque a intenção foi abrir a casa.

Simone – educadora e espectadora
Sobre vocês falarem de estar distraído, eu, como educadora, considero uma frase muito importante que é: “Na hora de educar, você não pode ser preguiçoso nem distraído”. E a gente vive um momento agora, especificamente, em que a gente não pode ser nem preguiçoso nem distraído. Eu fui ver a peça e realmente é como o doutor que se emocionou disse. Ela emociona a gente o tempo todo e traz uma coisa que eu achei fantástica: que nós somos singulares feitos de plurais. A peça traz isso o tempo todo, a singularidade de cada história fazendo parte do nosso plural, nós somos formados por plurais.

O cenário mostra isso com as paredes brancas e aquela cadeira. Aquela cadeira é o colo que a gente precisa, é o descanso que a gente precisa, é a leitura que fiz daquela cadeira no meio do palco. Vazio? Jamais. Cheio, lotado, lotado de significado. As paredes brancas que recebem todo e qualquer tipo de cor, de informação, de movimento, as sombras. Assistir você é sempre fantástico, mas esse trabalho que traz o cotidiano, que não é um texto, não são os clássicos, é o teu vizinho, o teu colega, o cara lá do outro lado do mundo, é a vida real com um olhar bondoso, um olhar carinhoso. Eu falo: “Diga tudo que você quiser, mas diga com amor”. E acho que a arte faz isso, ela diz tudo que ela quer e diz com amor.

Ana Maria – farmacêutica bioquímica e espectadora
A coisa que mais me tocou foi aquela parte do silêncio. A gente não tem tido tempo para o silêncio e o silêncio é super necessário nessa vida agitada que temos, ele é importantíssimo na vida da gente e chegamos ao cúmulo de não ficar em silêncio nem mesmo quando uma pessoa que vive sempre em silêncio quer se abrir. A gente não tem paciência para escutar essa pessoa que vive em silêncio, às vezes porque vive só, às vezes porque vive em uma família que não tem paciência de escutar e ela procura uma pessoa ali naquele dia para desabafar, para contar seus problemas, suas alegrias e nunca tem alguém que tenha essa paciência do silêncio, de escutá-la sem interrompê-la e aconselhar quando ela necessitar. Eu acho o silêncio importantíssimo. Às vezes pessoas que vivem sozinhas são superbem acompanhadas e pessoas que são acompanhadas de uma família muito intensa vivem em total solidão. Eu tive muita pena de não saber na época em que você pediu esses depoimentos para essa peça, porque eu seria a primeira da fila a contar a minha história, as partes tristes e as alegres. 

Denise
A Simone falou do amor e eu fiquei pensando em quando a gente começou os improvisos, quando a gente ainda estava tentando entender o que seria o espetáculo. Eu me lembro do primeiro improviso na sala de casa e fico muito impressionada como as pessoas não sabem disso, sobre o amor na bandeira nacional. Muita gente não sabe, mas a frase original da bandeira nacional era: “Amor por princípio, ordem por base e progresso por fim”. Eu falo disso há muito tempo e quando eu descobri parecia que havia descoberto a pólvora. Como ninguém fala sobre isso e como tiraram o amor? Deliberadamente acharam que não precisava do amor.

A gente improvisando, na carta da Tânia, que é secretária, o chefe dela falava que a filosofia de vida dele era o positivismo, que o importante é ser positivo. Mas do que vale ser positivo sem amor? Então a gente ficou com a coisa do positivismo refletindo no lema da ordem e progresso, que é focado na eficácia, na organização para acontecer, para progredir e a gente tira o amor [a expressão “ordem e progresso” é abreviada do lema da doutrina positivista formulado pelo filósofo francês Auguste Comte no século XIX].

De uma maneira geral, eu acho um ato falho impressionante da nossa existência como país ter tirado o amor da nossa bandeira. E a gente foi conectando e assim virou É o amor, da música do Zezé Di Camargo & Luciano. A gente entrava com as poesias, só para dar uma ideia um pouco de como as coisas caminharam, e esse link foi se sofisticando a partir de pensar sobre o que a gente pode dizer nessa hora, qual poeta a gente põe. Mas a origem foi bem do nosso coração.

Agência Ophelia A reflexão conjunta despertada pelo espetáculo lotou os cerca de 70 lugares da Sala Vermelha do Itaú Cultural, no final de novembro do ano passado

Luiz Sousa – estudante do 9º ano do ensino fundamental e espectador
Queria agradecer o trabalho de sensibilizar o pouco de humanidade que a gente tem. Eu tenho muito medo da situação que a gente está vivendo, com boa parte dos jovens deixando de viver e se tornando mais pessoas mortas do que vivas. E eu acho que essa peça ressuscita, ela salva: eu me senti morto e me senti salvo. Sou filho da Leni e ela estava aqui anotando e o papel no qual ela escrevia era a conta de luz. Então, ela estava carregando os problemas na mão dela, não soltava, era a conta de luz ali na mão dela.

Eu assisti à peça e acho que não basta só o teatro, você precisa de pessoas. Vi uma peça que também tratava da realidade e depois que as pessoas saíram do teatro, era um ônibus compartilhado até o metrô, as pessoas todas no celular e na televisão da van estava passando uma notícia sobre a mesma temática da peça. Acredito que o que falta nas pessoas é o teatro não sair delas.

Então, eu agradeço porque o teatro não saiu de mim. Quando eu peguei o metrô, eu estava cheio de Bis no bolso, no elevador do metrô tinha um senhor e eu ofereci o chocolate a ele. E me senti muito feliz porque eu venci, consegui oferecer para ele e ele sorriu, me agradeceu, ficou feliz e eu também fiquei feliz. E, naquele mesmo elevador, eu estava com um pacote de bolacha e não consegui oferecer. Então houve uma mudança antes e depois da peça e eu agradeço muito porque eu não tinha vencido naquela hora, não tinha conseguido oferecer o que eu tinha e eu estava morto, eu não conseguia olhar para o lado. Obrigado.

Renan Praxedes – ator
Logo no início a Beth falou sobre a arte evitar o fim do mundo, de certa forma, e na semana passada eu fui a um concerto e o maestro, italiano, fez uma pesquisa e conseguiu encontrar várias partituras musicais que foram construídas nos campos de concentração nazista. Fiquei impressionado como que naquele momento de falta de perspectiva as pessoas tinham sensibilidade ainda para construir aquilo. Era a luta pela sobrevivência, de alguma maneira, e fica a sugestão para vocês pesquisarem também. A partir desse tema de subjetividade, de sensibilidade e música, como vocês chegaram à escolha das histórias e das músicas do espetáculo?

Villaça
A gente recebeu umas 300 e poucas histórias, lemos e vimos que umas 20 delas estavam dentro daquilo que a gente esperava para a peça. Na verdade, eu não sei se essas histórias eram o que a gente esperava ou se elas é que trouxeram para a gente a peça, foi uma troca porque a gente tinha listado coisas que gostaríamos de falar e elas estavam ali. Então começou esse processo de costura, de pegar os trechos que realmente faziam virar uma grande história sem quebra, emendando uma na outra, e aí tem uma coisa até técnica de construir uma escala, de pensar sobre o que vai fazer rir ou vai fazer chorar.

E sobre as músicas, é muito curioso porque quase todas as cartas falavam das músicas e tinham a sua própria trilha sonora; algumas a gente respeitou e outras não. Por exemplo, tinha uma história de um filho com uma mãe e ele cita que cantava Iolanda [versão de Chico Buarque para a composição do cubano Pablo Milanés] para ela e a gente respeitou porque tinha tudo a ver com a peça e com o que a gente queria.

Tinha casos que vinham com a música citada, mas que a gente mudava, e outros em que a própria história gerava uma música para a gente e isso veio de uma forma muito natural no processo. A gente dialogou com as cartas. Tinha muita história que era de filho para pai e a gente foi vendo quantas histórias de relação de homens, mulheres e filhos e vice-versa, relações de amor intensas, situações vividas e que, de alguma forma, foram marcantes, superadas ou não. Tinha muita relação de amor e a gente queria falar de amor.

Mais da metade da peça aborda relação de filho para pai ou de educador com uma relação paterna ou materna. E sempre com temáticas que permitem um panorama mais geral e contemporâneo sobre o que estamos vivendo, com questões das quais não podemos mais fugir. A gente tem que encarar porque a hora é agora, mais do que nunca. E isso também faz com que a gente floresça mais e vá atrás de brigar com ternura pelas coisas que devem ser colocadas. E que a gente se olhe e perceba que lá fora não está bom e que só depende de a gente tentar fazer com que isso se torne bom.

Impossível você ler uma notícia que diz que 1% da população brasileira detém mais de 30% da riqueza do país e a gente achar que está normal. Eu não sou contra o cara viver bem, só sou a favor de que todos vivam. Então eu acho que a hora é essa e acho que a peça trouxe um pouquinho desse incômodo para a gente.       

Beth
Nesse sentido talvez fosse interessante você falar sobre lugar de fala e representatividade, um debate do atual momento histórico. E vocês tratam disso no espetáculo, não escapam do problema, e o enfrentam com muita delicadeza.

Villaça
De 15 em 15 dias a gente faz um debate [após a sessão, no saguão do Teatro Vivo]. Um dia teve um senhor negro e ele levantou [observou a todos os presentes] e disse que era como o “teste do pescoço”. Então ele explicou que é quando você entra em algum lugar e conta quantos negros estão aqui, quantos têm acesso. Tem um momento na peça que é a história de uma menina negra que sofre algumas questões – não vou dar spoiler – e nesse momento é uma hora em que a Denise para e explica o que está acontecendo e o porquê ela vai contar a história.

Eu vou ficar feliz o dia em que eu entrar no Hospital Sírio-Libanês e for atendido por um médico negro, vou achar normal o dia em que eu entrar num Uber e o cara não começar a falar de preconceito do jeito que ele fala. Então, para ir para frente a gente tem de entender que as pessoas negras representam 56% da população brasileira, portanto metade do público teatral deveria ser negra, e infelizmente não é, porque muita gente não tem acesso .

Um dia eu estava voltando de uma reunião e caí numa rua, estava num trânsito danado, e observei que de um lado tinha uma favela muito pobre e um lixão que, de longe, você via os insetos e, na minha frente, tinha uma BMW blindada. Não dá mais para viver assim. Essa é a minha opinião, começar realmente um processo de se olhar, de brigar com ternura para que todo mundo tenha acesso às coisas e tenham possibilidades ou então não tem como. Acho que na peça, de uma forma muito pequenininha, a gente tenta colocar algumas coisas assim e que quando eu vejo esse menino falando que saiu pensando e ofereceu o chocolate, é uma vitória.

Agência Ophelia Beth, Denise e Villaça durante a conversa com o público: relatos em torno de como a arte imbrica a vida, e vice-versa, ressaltando a importância das relações humanas


Denise
Sobre a escolha das histórias, a gente sofria porque as histórias iam sensibilizando a gente. Toda história é uma história. Como dizer que essa história não serve? Foi muito doído isso porque a gente revia, olhava de novo, e foi muito difícil. Acho que na verdade saíram as histórias que não entraram na onda, mas eram tão boas quanto. Sobre a história dos pais, a gente nem teve essa intenção, percebeu depois que estávamos falando bastante sobre os pais, mas não foi a intenção, aquilo foi nos levando junto.

Jaqueline – professora e espectadora

Eu tenho duas questões: queria saber o que era exatamente o pedido no jornal, se eram histórias sobre relações, e a segunda é se o texto escrito será publicado porque vocês escreveram um texto que talvez daqui a 40 anos pode ser encenado e que conta um pouco a história desse tempo. 

Denise
A peça não tem um texto fixo, tem um caco aqui, uma respirada ali, uma gagueira. Quando a gente foi ficando perto da estreia muita coisa entrou e não estava escrita.  Então estou doida para pegar esse texto porque a gente vai parar agora e retomar depois, e eu tenho medo de esquecer. Mas é engraçado: como são pedaços de todos nós, o texto da peça não é uma coisa para publicar porque parece que ele não existe sozinho, não existe como coisa que se leia… Ele existe como coisa que se fale junto.

É curioso isso, o que ele foi virando. Quando a gente anunciou, eu escrevi o texto de convocação e eu falava que queria olhar pelos seus olhos, quero trilhar o que você trilhou, quero calçar os seus sapatos. A gente não queria só pedir para mandar a história porque queríamos fazer no teatro, já não era isso. Esse nome Eu de você, quando a gente pensou, já tinha dentro dele isso que foi virando uma grande potência depois que era se deixar atravessar pelo outro. Não era só uma atriz interpretando um personagem ou como a gente fez no Retrato falado. Dentro do Eu de você era eu quero te vestir, quero andar por onde você andou, quero conseguir olhar para o que você olhou. 

No final do ano passado eu fiquei muito angustiada. Sempre fui a rainha da comunicação, sempre achei que não existe nada que não possa ser resolvido com uma boa conversa, com os argumentos certos. O Brecht tem uma fala que eu amo que é: “Pensar é um dos maiores prazeres da raça humana”. Eu ponho isso na boca do Galileu e ele fala de prazer, não fala que pensar é bom, pensar é construtivo. Pensar é prazeroso. O ano passado, com essa polarização que aconteceu no nosso país, acho que ela detonou a nossa capacidade de comunicação limpa, a gente perdeu a possibilidade da complexidade dos discursos, então a gente foi abdicando dos argumentos mais sutis.

Aquele vira-voto [como ficou conhecido o engajamento de um grupo de pessoas na reta final do segundo turno das eleições de 2019 para presidência de República de tentar reverter, por meio de diálogo, o voto conservador direcionado ao candidato de extrema direita] foi uma tentativa desesperada que nós tivemos de tentar falar e convencer as pessoas com argumentos, mas os argumentos caíam no chão. Você falava e parecia que não tinha permeabilidade. Eu fechei o ano de 2019 e comecei 2020 com uma frustração muito grande, uma tristeza no meu coração não só pelos acontecimentos, mas acho que a principal dor que eu tive foi ter visto a minha esperança na comunicação abalada.

Faz parte do meu trabalho, das minhas escolhas no teatro, de achar que Brecht é popular, que ele não é o autor alemão hermético, é querer comunicar, querer dizer aquilo que você acha que é difícil se fazer passar, se fazer entender. Eu fiquei completamente destroçada porque eu vi que não bastavam argumentos.

Quando a gente foi chamar as histórias, uma das coisas que eu me lembro que eu pensei logo de cara era em querer olhar pelo seu olhar, era poder ter a capacidade de pensar o que você pensou, olhar o que você olhou porque eu queria tentar entender onde nos perdemos e o que temos que nos segura, que nos segura conectados, que nos segura na possibilidade de qualquer um de nós ter uma conversa um com o outro sem que ela precise ser demolida no primeiro instante. E esse título, o Eu de você, é muito caro para mim. Eu falava para o Luiz que a gente devia registrar o título e ele dizia que não, que não existia registrar o título, que tinha que registrar uma obra. Esse título diz tudo para mim.               

Fabíola Zancaner Arvati – psicóloga e espectadora
Sempre gostei muito de trabalhar com prevenção e eu queria trabalhar isso dentro da saúde e da educação. Investi muito para trabalhar a prevenção dentro da cultura e da arte na minha cidade, São José do Rio Preto, interior de São Paulo. E a gente conseguiu construir uma escola de artes municipal para incluir qualquer pessoa e para fazer arte a partir de várias modalidades. Ela existe até hoje e eu fico lá lutando para que não acabe porque eu aposentei, mas vou lá fiscalizar se está dando certo. Eu adoro arte, acho que realmente a arte é o que faz a gente conseguir transformar.

Trabalhando com muitos artistas, eu aposentei e fui convidada a trabalhar na Faculdade de Medicina Estadual para que eu desse uma disciplina no curso de humanidades, e eu ri muito. O que é um curso de humanidades? Um curso de humanidade dentro da Faculdade de Medicina porque os alunos estão perdendo a humanidade… E me lembrou o que você estava dizendo agora pouco sobre os jovens e que expressa o que nós estamos vivendo. Fiquei pensando no que poderia fazer como psicóloga, mas depois achei melhor ser quem sou e fazer aquilo que acredito. Pedi poucas pessoas no curso, eu tinha de oito a 15 participantes e tenho feito isso há dois anos. Ele começa sobre quem é você, a sua história, o seu nome, de onde você vem, porque você chegou aqui, tudo que você tem e fez de importante até chegar aqui, então vamos conversar sobre isso. E é tão emocionante que os alunos falam que convivem com 80 alunos, mas nunca olharam um para o outro, nunca se deram as mãos, nunca se abraçaram, e aquilo foi me chocando cada vez mais. Agora, contudo, cada vez mais a gente conversa. 

Denise
Eu tenho dado umas palestras por aí e acho ridículo porque dizem que a Denise vem falar de humanidade. Gente, o que é humanidade? Como você vai dizer para uma pessoa que ela é tão humana? Ela é humana. Fizeram um servicinho bem feito ao contrário e quando a gente acha que não precisa fazer esforço para o que nos parece óbvio, ou seja, a empatia, a solidariedade, isso de estar comendo alguma coisa e oferecer ou de segurar a pessoa por instinto quando a pessoa cai. Vai ter hora que alguém vai cair do nosso lado e a gente não vai fazer nada, tem gente caindo já na rua e a gente passa. Então a gente tem mesmo que fazer uma escola de humanidade. Olha que loucura, mas é verdade porque se cada um fizer a sua parte é simples, não é difícil. 

Gabriela – atriz e espectadora
Sou fã de seu trabalho. O que eu mais gostei foi da frase: “Mas o amor, todo mundo tem?”. Quando você fala isso leva a gente a refletir. Eu saí muito reflexiva do espetáculo. Você fica repetindo e depois quando pede para todo mundo olhar para o lado e se ver mais, questiona se a gente está se olhando, se percebendo, quem é a pessoa do seu lado. Eu ainda continuo procurando resposta para a pergunta: “O amor, todo mundo tem?”. Todas as histórias são boas, importantes e baseadas em fatos. 

Denise
É muito fácil fazer discurso nessa peça. Seria muito fácil dizer assim: “Gente, onde é que vamos parar?”. Se você não cuidar, e a gente tinha esse cuidado em dizer sem dizer, como falar o que queremos falar sem falar o que a gente quer falar falando, porque seria fácil. Essa coisa que fica um pouco autoajuda em dizer que precisamos olhar para o lado, olhar para o outro, a gente está cheio desses discursos e esses discursos ficam muito vazios se não vierem recheados de vivências. Então a gente tinha essa preocupação de não fazer o discurso explícito.

Quando a gente acaba a história do Felipe, da carta, pensamos que poderia entrar uma música e me vinha na cabeça Suspicious minds, que o Elvis Presley gravou, e a música na verdade não é exatamente sobre aquilo, mas ela serve àquilo e põe você em outro lugar. Não dá mais para vivermos com mentes suspeitas, não dá para vivermos mais suspeitando, não dá para vivermos mais em defesa. A gente não segue construindo os nossos sonhos na defesa, não seguimos juntos na defesa e a gente emenda com All you need is love, do Paul McCartney, dizendo mais ou menos aquilo e é muito bom olhar para a plateia e ver pessoas que sacam o link e pessoas que não, mas que ficam ali na música e tudo bem.

Cacá Bernardes Apesar da atuação solo, Denise interage em determinados momentos com as musicistas Fernanda Maia, Clara Bastos e Priscila Brigante, além do público

A gente fica cantando junto e é muito bom você poder transitar na sutileza; a música em si basta sem você precisar entender o link, a arte nos dá isso. Durante a peça tinha isso de botar o público fora do lugar de costume, da coisa tão mastigadinha. Vivemos hoje a morte da metáfora porque à medida em que tudo precisa vender a gente não quer dizer as coisas pela metade, as pessoas estão com medo de não se fazerem entender, elas precisam vender o produto. Os comerciais eram muito mais sutis, por exemplo.

Quando a vida virou a vida sem metáfora, houve um empobrecimento subjetivo na percepção de entrelinhas e de códigos poéticos. A gente precisa arrastar um pouquinho a pessoa para o abstrato, para esse lugar do eu não entendi, mas tocou meu coração. Na peça, quando a gente faz algum namoro com a performance, tem horas que a gente eleva esse discurso mais direto, que todo mundo vai entender, um lugar onde você vai dar esse enlevo. Clarice Lispector falava isso, que não era para entender. A vida não é exatamente para entender e acho que junto com o que a gente propõe, dentro disso, é para entender, mas não precisa entender tudo. Não é só a racionalização, mas a disponibilidade para entender o que é urgente. Por que eu não ofereci o Bis? Por que eu dei uma fechada no outro e não pedi desculpa? Por que eu não perguntei para a pessoa deitada na rua se ela estava passando mal? Por que, se isso seria o natural?

Geovana – atriz e espectadora
Sobre o que vocês falaram sobre estar distraído, que a gente não pode estar distraído, eu acho que vi por outro ângulo, porque penso que estar distraído é estar aberto também a receber as coisas. Eu estou estudando o Alberto Caeiro, um dos heterônimos do Fernando Pessoa, e ele fala que sentir é estar distraído, a gente estar aberto a receber tudo o que a gente não percebe e que é preciso ficar atento.

Eu e uma amiga estamos trabalhando com o Kiko Marques [ator e diretor da Velha Companhia] e a gente não diz que somos assistentes, somos observadoras, que foi uma expressão que ele mesmo usou e pediu para a gente usar. Dia desses ele colocou um óculos no teatro e isso me lembrou alguma coisa do passado, eu tenho 21 anos e me lembrou de quando eu tinha de 11 para 12 anos e vi você no teatro com uma peça que se passava no cenário de uma casa. Foi a primeira vez que eu consegui reunir a minha família inteira para assistir a uma peça e você estava recebendo as pessoas, não me lembro se no início da sessão ou no final, e eu me tornei atriz depois dessa peça. Saí do teatro com 12 anos e falei que era isso que eu queria fazer porque acho que é o último lugar que a gente consegue dialogar. Eu não tinha isso consciente, mas me tornei atriz por aquela peça a que assisti. As coisas sutis são as mais importantes, como às vezes a gente não precisa denunciar ou falar: porque você não falou na peça que a Geovana se tornaria atriz, mas foi uma coisa que veio ao meu inconsciente. Acho que a arte também fala por entre as coisas e não sobre as coisas.  

Beth
Eu queria agradecer, foi maravilhosa a participação de vocês [público], essa experiência coletiva de chorar e rir alternadamente, todos e todas visivelmente comovidos, uma tarde muito especial mesmo. Obrigada Denise, obrigada Luiz.

Denise
Obrigada a você, Beth, Valmir, Maria Eugênia, por esse convite de novo, é tão rico isso que vocês fazem. Queria agradecer a vocês [plateia] por terem vindo. Quando a gente faz uma peça ficamos com muitas dúvidas, é um breu, e essa então que não tinha um texto… É tão bacana a gente ouvir do público frases próximas da nossa intenção, as pessoas recontarem para a gente o que que a gente realmente está fazendo e quando isso está próximo do que a gente acreditava que podia ser.

O meu texto no programa da peça termina de um jeito que eu acho que cortei uma fala, mas era para dizer que eu acreditava no público e que o público era a nossa grande fonte de inspiração, pois dessa vez a gente estava levando isso à última potência. De certa maneira, o Eu de você é uma continuidade de todas as peças. A gente falou tanto para vocês olha o Brecht, olha o Dürrenmatt e agora são vocês. Olha o que vocês são e o que a arte pode fazer por vocês. E no final eu me arriscava numa frase que eu cortei porque achava pretensiosa, que era: “Fazendo teatro, a real experiência de empatia que ele pode ser”. Eu sempre acreditei nisso e hoje eu acredito que o teatro é esse ritual de presença, esse evento presencial que será mais precioso com o passar dos tempos porque isso aqui virou uma preciosidade.

Então eu queria muito agradecer a vocês e não só por esse encontro, mas por vocês terem devolvido para mim aquilo que eu falei que estava no início do ano com a minha esperança na comunicação. Então, muito obrigada porque vocês falaram aqui frases inteiras que, quando estávamos no breu da criação, a gente queria ouvir e vocês falaram tudo aqui. Foi muito especial, muito obrigada mesmo.

.:. Leia a crítica de Beth Néspoli a partir do espetáculo Eu de você.

Agência Ophelia Intérprete de autores como Brecht, Dürrematt, Beckett, Martins Pena e Fauzi Arap, ela agora experimenta a plataforma de um texto criado coletivamente

Equipe de criação:

Idealização e criação: Denise Fraga, José Maria e Luiz Villaça

Com: Denise Fraga

Direção: Luiz Villaça

Produção: José Maria

Obra inspirada livremente nas narrativas de: Akio Alex Missaka, Anas Obaid, Barbara Heckler, Bruno Favaro Martins, Clarice F. Vasconcelos, Cristiane Aparecida dos Santos Ferreira, Deise de Assis, Denise Miranda, Eliana Cristina dos Santos, Enzo Rodrigues, Érico Medeiros Jacobina Aires, Fátima Jinnyat, Felipe Aquino, Fernanda Pittelkow, Francisco Thiago Cavalcanti, Gláucia Faria, José Luiz Tavares, Julio Hernandes, Karina Cárdenas, Liliana Patrícia Pataquiva Barriga, Luis Gustavo Rocha, Maira Paola de Salvo, Marcia Angela Faga, Marcia Yukie Ikemoto, Marlene Simões de Paula, Nanci Bonani, Nathália da Silva de Oliveira, Raquel Nogueira Paulino, Ruth Maria Ferreiro Botelho, Sonia Manski, Sylvie Mutiene Ngkang, Thereza Brown, Vinicius Gabriel Araújo Portela e Wagner Júnior

Dramaturgia: Cassia Conti, André Dib, Denise Fraga, Fernanda Maia, Luiz Villaça e Rafael Gomes

Texto final: Rafael Gomes, Denise Fraga e Luiz Villaça

Colaboração dramatúrgica: Geraldo Carneiro, Kenia Dias e José Maria

Colaboração artística (residência no RJ): Artur Luanda e André Curti

Direção musical: Fernanda Maia

Musicistas: Fernanda Maia, Clara Bastos e Priscila Brigante

Direção de imagens em vídeo: André Dib

Direção de movimento: Kenia Dias

Direção de arte: Simone Mina

Iluminação: Wagner Antônio

Programação de video mapping: Bruna Lessa

Design e operador de som: Carlos Henrique

Assistente e operador de luz e video mapping: Ricardo Barbosa

Assistente de direção de arte: Nika Santos

Assistente de cenografia: Vinicius Cardoso

Técnico de palco: Alexander Peixoto

Contrarregra: Cristiane Ferreira

Camareira: Maria da Guia

Costureira: Judite de Lima

Produção das imagens em vídeo: Café Royal

Produtora executiva: Adriana Tavares

Fotógrafo: Thiago “Beck” de Vicentiis

Primeiro assistente de câmera: Diego José Marinho

Som direto: Fernando Akira

Eletricista: Alberto Ferreira

Logger: Hugo Dourado

Administração financeira: Evandro Fernandes

Assistente administrativa: Cristiane Souza

Fotos para arte: Willy Biondani

Fotos de cena: Cacá Bernardes

Programação visual: Guime Davidson e Phillipe Marks

Redes sociais: Pedro Lins

Assessoria de imprensa: Morente Forte Comunicações

Roteiro de audiodescrição: Letícia Schwartz

Consultoria: Luís D. Medeiros

Intérprete em Libras: Ângela Russo

Parceria institucional: Theatro São Pedro

Coprodução: Café Royal

Produção: NIA Teatro

Patrocínio: BB Seguros e VIVO

Realização: Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania e Governo Federal

Projeto realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura

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