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Crítica

Razão ilhada

25.3.2022  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Keiny Andrade

Feito pássaros que manobram durante o voo, controlando suas asas, Donizeti Mazonas e Edgar Castro equilibram-se numa área de pouco mais de metro de diâmetro, a metro e meio do tablado. O palquinho suspenso, um monolito circular metálico concebido pelo cenógrafo Eliseu Weide e como que expandido pela iluminação de Wagner Antonio, vira epicentro espaçotemporal do espetáculo Com os bolsos cheios de pão.

Os atores extraem da exiguidade – que é também das falas cirúrgicas – uma composição física dilatadora. Conectam suas presenças à vastidão do teatro do Sesc Pompeia desenhado pela arquiteta Lina Bo Bardi, bifrontal, aqui operando em plateia única. A concreção e o vazio ao redor, acentuado pela outra plateia de fundo, vestem sentidos outros à peça curta do romeno Matéi Visniec.

Em ‘Com os bolsos cheios de pão’, o dispositivo cilíndrico da cenografia, um palquinho, engoliria atuações que não sopesassem o ardil e o ímã maniqueísta de lado a lado. Como senhores e servidores nas correlações em jogo, Doniozeti Mazonas e Edgar Castro vingam vetoriais para uma leitura universalizante pela qual se pode medir o sarrafo na escalada da indiferença e da irracionalidade

A circunstância e a inércia conspiram para um estado de fracasso que ganha materialidade por meio do diálogo. Entre subterfúgios e uma difusa crise de consciência, os personagens não nomeados pouco dividem sobre suas gêneses. Adereços, porém, dão pistas do caráter de cada um. Mazonas é o que faz do lenço na cabeça um chapéu, surgindo em figurino de tons claros. Castro, antagonista, apoia-se em muleta e usa roupas escuras. E assim dão pistas das origens de classe, cabendo a Mazonas encarnar subliminarmente limites entre as condições animal e humana, lançando mão de repertório gestual que aos poucos torna-se ponto nevrálgico.

Representações caninas em Vau da Sarapalha (1992), do Piollin Grupo de Teatro (PB), em palco convencional, ou em A pereira da Tia Miséria (2010), do Núcleo Ás de Paus (PR), ao ar livre, exemplificam como a animalidade, conjunto de atributos que caracterizam a parte instintiva do humano, são empreitadas desafiadoras para atores que ambicionam transcender reducionismos.

Artista de livre deslocamento entre dança e teatro, Mazonas desvia de caricaturas para, paulatinamente, justapor espelhamento ao objeto oculto da narrativa: o cão. Flerta com bestialidades e brutalidades que estão na ordem do dia no embate com interlocutor atuado por Castro, outro dosador de recursos minimalistas sob medida no papel de antípoda. Ambos realimentam forças de tensão marcadas pela ausência de nexo que permeia o texto.

Keiny Andrade Donizeti Mazonas e Edgar Castro contracenam em ‘Com os bolsos cheios de pão’, peça do romeno Mateii Visniec encenada por Vinicius Torres Machado; temporada gratuita nos teatros distritais de São Paulo, o Alfredo Mesquita e o Cacilda Becker

Escrita em 1984, a história versa sobre dois sujeitos que rondam o poço onde um cachorro caiu ou ali foi atirado, vai saber. De cabo a rabo, eles conjecturam sobre o estado do animal. Constatam que está vivo. Especulam o que fazer para salvá-lo. Mas ao fim não agem. Protelam. Lavam as mãos. Atitude randômica desprezível diante da dor do outro. Passadas três jornadas diuturnas, tudo indica que o ser vivo sucumbe. Quem sabe pelo baque seco ou por afogamento.

Circunstância dada desde a largada, a queda do bicho precipita a rixa moral sobre quem viu primeiro o incidente, quem foi cúmplice, quem atirou migalhas ou pedras para saber se o ente no fundo do buraco estava com fome ou restava vivo.

No subtexto, a encenação de Vinicius Torres Machado captura o estado inoperante, anestesiado, de parte da população e das elites financeira, política e jurídica da sociedade brasileira nos dias de hoje. A Fundação Getúlio Vargas apurou que, em 2021, eram 27 milhões as pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. A carestia dá as caras sem disfarces no espaço público. Constatação que mal faz pestanejar o andar de cima a engolir, goela abaixo, um mandante autocrático e seu aparato estatal-familiar regido pelo instinto de morte.

A peça de Visniec projeta o espírito da época em que a ditadura comunista na Romênia, vigente havia décadas, começava a fazer água com a crise econômica, culminando na revolta popular de 1989, quando o casal presidencial Nicolae e Elena Ceausescu foi fuzilado em pleno Natal.

O autor partiu de experiência pessoal. Usuário do transporte público para chegar à escola rural em que dava aula de história, ele fazia o percurso final em bicicleta. Certa vez, escutou latidos do poço abandonado da vila, o que deduziu ser um pedido de ajuda. De soslaio, viu que a pelagem era branca, mas seguiu pedalando por causa do compromisso. Não demorou a ser tomado de “uma culpa terrível o dia inteiro”, como escreveu. À noite, contudo, soube que o cachorro havia sido salvo. “De repente, tive a revelação do escopo metafórico dessa peça: esse cachorro, era eu, esse cachorro, era todo o povo romeno trancado na ditadura a pedir inutilmente ajuda.” Não custa lembrar que sob o regime opressor a comida era racionada.

A variação de ângulos da dramaturgia condiz com o carrossel de sentimentos rancorosos ou dissimulados. A arte de dissuadir passa pelo ato do silêncio, por desferir o ódio, acusar o outro, evocar suposições as mais absurdas, suspeitar sobre quem morde e quem tem raiva. Os afetos são de natureza mais profunda na intimidade dessa gangorra para dois ditos indignados.

É possível encontrar ressonâncias das duplas de desvalidos em Plínio Marcos ou carregadas de aura metafísica em Samuel Beckett. A equalizá-las, modos desesperados de sobrevivência que nem a régua do niilismo alcança. Afinal, há quem carregue o desprezo pela existência como pedregulho dentro de si, não raro arrastando-se em vida.

O dispositivo cilíndrico da cenografia engoliria atuações que não sopesassem o ardil e o ímã maniqueísta de lado a lado. Como senhores e servidores nas correlações em jogo – vide solos em Osmo (2014), por Mazonas, e Dezuó, breviário das águas (2016), por Castro –, os atores vingam vetoriais para uma leitura universalizante pela qual se pode medir o sarrafo na escalada da indiferença e da irracionalidade.

.:. Com os bolsos cheios de pão fez temporada de estreia de 5 a 18 de março de 2022 no Teatro Sesc Pompeia.

Keiny Andrade Mazonas (esquerda) e Castro são dois personagens indignados com um cachorro jogado em um poço, mas sem conseguir tomar nenhuma atitude

Serviço:

De 19 de março a 3 de abril

Teatro Alfredo Mesquita (avenida Santos Dumont, 1.770, Santana, tel. 11 2221-3657, 198 lugares)

Sábado, 21h, e domingo, 19h

Entrada gratuita, distribuição 1 hora antes da sessão

Classificação indicativa: 14 anos.

Duração: 70 minutos

De 22 de abril a 15 de maio

Teatro Cacilda Becker (rua Tito, 295, Lapa, tel. 11 3864-4513, 198 lugares)

Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h

Entrada gratuita, distribuição 1 hora antes da sessão

Classificação indicativa: 14 anos.

Duração: 70 minutos

Projeto contemplado pela 11ª edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura

Ficha técnica:

Texto: Matei Visniec 

Tradução: Fábio Fonseca de Melo 

Direção: Vinicius Torres Machado 

Com: Edgar Castro e Donizeti Mazonas 

Trilha sonora: Pedro Canales 

Cenário e figurinos: Eliseu Weide 

Iluminação: Wagner Antonio 

Assistente de direção: Rafael Costa e Jessica Mancini

Produção executiva: Jota Rafaelli MoviCena Produções 

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Autor de livros ou capítulos, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Cursa doutorado em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado na mesma área.

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