Crítica
Quanto mais prospecta as origens, mais a atriz sedimenta corpo e voz à memória da avó materna, Maria Cândida, que viveu 30 anos ao ritmo de rotação por minuto de quem alcançou mais que o dobro, a exemplo de Nena Inoue, autodeclarada na casa dos 60 e principal elo nesse entremundos. Em Sobrevivente, as únicas materialidades acerca da existência daquela mulher seriam o respectivo atestado de óbito, ora digitalizado e exibido em tela, e a deliciosa história de que a avó deixava a panela de arroz queimar levemente, de propósito, só para raspar a casquinha e compartir com as duas filhas ainda crianças. Hábito de cozinha que a neta artista herdou inconscientemente ou, melhor, ancestralmente, conforme a experiência de fruir a obra permite constatar.
Como na brincadeira “quente ou frio”, o espetáculo é feito das tentativas, fracassadas ou bem-sucedidas, de reconstituições de começos pela protagonista em torno das presumidas raízes indígenas, posto que é mulher de traços asiáticos, frequentemente associada à ascendência japonesa, mas cujos cabelos ondulados e de fios resilientes a embranquecer conspiraram para que, nos últimos tempos, pessoas nascidas e criadas na cultura tupi-guarani a vissem como uma irmã.
O enternecimento que o espetáculo ‘Sobrevivente’ provoca na maneira como a artista Nena Inoue aviva a memória dos seus, com afeto e com crítica na formação, de consciência e prática feministas, estende-se aos laços de mãe e filho, Pedro Inoue, por extensão laços poético-musical-performativo-engajado no jeito como contracenam em plena missão artística de rememorar com e para espectadores de hoje
As teses e antíteses são destiladas com humor agridoce, dosado em meio a relatos documentais em torno de atos também erigidos sobre alicerces da mentira. Aliás, são de invejar roteiristas de streaming os “golpes de mestre” que o pai, filho de imigrante japonês, e a mãe, de família pobre e semianalfabeta – mortos há anos – emplacaram para namorar e logo mudar da região de Presidente Prudente (SP) para a cidade argentina de Córdoba (ela, clandestinamente). A ponto do casal praticar ilícitos a fim de a mãe passar na prova do curso de enfermagem (não dominava a língua) e diplomar-se três anos depois na universidade local.
Filha desses cambalachos amorosos, por mais que eticamente duvidosos, não é difícil à plateia que acompanha a carreira da atriz e produtora radicada em Curitiba notar o quanto do substrato das artes da cena, de ser o que não se é, já constituía DNA de per si.
Nena Inoue conta ter se inquietado para ir a fundo nessa gênese, por isso faz do próprio movimento de busca a razão de ser do trabalho em parceria com o dramaturgo e diretor Henrique Fontes, do Grupo Carmin (RN). O artista que carrega no sobrenome a insígnia do teatro das fontes à sua maneira – como lapidou na peça documental Jacy (2013), ao contracenar com Quitéria Kelly –, faz da sobreposição de imagens de lugares, objetos, fotos, papeis e pessoas um ativador de emoções e deslocamentos surpreendentes ao longo da narrativa, estimulando a audiência a guiar-se pela filosofia do “Ame-o e deixe-o ser o que ele é”, como na canção de Gilberto Gil, O seu amor.
Por trás do livre fluxo de suscitações, contudo, há método. Enquanto estrutura acasos e achados da atriz no encalço de um octogenário amigo dos pais, quando viveram em Córdoba, entre o fim da década de 1950 e o fim dos anos 1960, atualmente morador em Poços de Caldas (MG), ou de uma tia e um primo localizados em Palmeiras de Goiás (GO), Fontes entretece a relação intergeracional da mulher de teatro com o filho e ator Pedro Inoue, misto de contrarregra, mestre de cerimônia e parceiro de cena, enquanto a mítica e ancestral presença de Maria Cândida é pontuada aos poucos, pela própria Nena. Voz e aura de uma figura mítica, filha de povos indígenas, casada à força na adolescência, trocada por uma mula, enfim, a mulher que aos poucos vai se tornando central na história teve duas filhas com seu “dono”, mas não demorou a mudar de caminho radicalmente.

É na instância da antepassada vítima de apagamento, este interrompido com distinção pela arte, que Sobrevivente conecta-se com mais evidência a Para não morrer (2017), o trabalho anterior atuado e dirigido por Nena Inoue. A polifonia daquelas vozes de mulheres latino-americanas, originalmente emergidas de narrativas curtas do escritor uruguaio Eduardo Galeano no livro Mujeres, sob dramaturgia de Francisco Mallmann, ecoa agora na evocação de Maria Cândida, a avó, e na costura para dentro e para fora da atuante e idealizadora em primeira pessoa.
Uma das analogias mais bem-construídas repousa no resgate da canção infantil Manuelita, la tortuga, da escritora e compositora argentina María Elena Walsh, à qual Nena Inoue diz que recorria quando era vítima de bullying na escola, por volta dos 8 anos, em Córdoba. Os versos em espanhol falam de uma personagem que caminha “Con tu traje de malaquita/ Y tu passo tan audaz” (Com seu traje de malaquita [uma pedra preciosa]/ E seu passo tão audaz).
Mais adiante, a atriz contextualiza que na fábula da tartaruga, esta ficava brava quando não conseguia as coisas, ao que sua vó, a tartaruga considerada sábia, sugeria então contar até dez, entrar de volta para o casco e esperar que esse sentimento passasse… Conselho que podia fazer algum sentido em criança, mas a adulta que divide essa lembrança discorda um bocado e não quer saber de reprimir a ousadia. Afinal, Todo cambia, como canta Mercedes Sosa na trilha final, citando o pensamento, as estações do ano, o modo de vestir, os cabelos, “Pero no cambia mi amor”. Mercedes Sosa de voz e composições tão bem acolhidas em Para não morrer.
Na liberdade de associação entre a vida ordinária das pessoas e os fios históricos, Fontes e Nena Inoue abrem um flanco na dramaturgia para a insurreição operária-estudantil deflagrada na cidade argentina em maio de 1969, o Cordobaço (ou Cordobazo), um movimento de protestos contra alterações na jornada de trabalho em indústrias automobilísticas. “Saber que eu nasci no epicentro da resistência talvez queira dizer algo sobre a minha origem”, admite a atriz, sobre as reminiscências daquela que também era uma cidade universitária. A dedicação empenhada à arte do teatro pode ter derivado desse ímpeto também. Pedro diz que quando chamava por sua mãe, em criança, costumava ouvir: “Tô fazendo projeto”. Brincadeira à parte, ele cresceu sob esse bordão e testemunhou como ela educou e criou dois filhos vivendo dos tablados e coxias.
O enternecimento que o espetáculo provoca na maneira como a artista aviva a memória dos seus, com afeto e com crítica na formação, de consciência e prática feministas, estende-se aos laços de mãe e filho, por extensão laços poético-musical-performativo-engajado no jeito como contracenam em plena missão artística de rememorar com e para espectadores de hoje.

Ao lado de Pedro, é como se a biologia potencializasse e contemporizasse a própria angústia de Nena Inoue em aferir a porcentagem genética de sua ascendência indígena, outro aspecto de jogo que não despreza os dados da ciência, permitindo-se lê-los à luz de um auditório televisivo ou radiofônico, uma vez que os tempos se alternam ou se fundem ao sabor de um comercial em um estalar de dedos. O sapateado-relâmpago de Pedro Inoue talvez seja a melhor síntese desse entretenimento reflexivo.
Na sessão acompanhada no Sesc Pinheiros, a atriz contornou mal-estares que pareciam sugerir lapsos de memória. Quando o hiato ameaçava prolongar-se, Pedro interagia dinamicamente na mesma sintonia. Seria natural algum grau de esgotamento. Enfim, era a última noite da primeira semana de temporada de estreia em outra capital. E estamos falando de uma atriz e produtora, esse binômio que lhe é inseparável. Ao cabo, essas sutilezas suspensas imprimiram um halo ainda mais memorável de como Sobrevivente, em sua infinita humanidade, dá margem a espelhamentos e provoca escarafunchar arquivos pessoais do lado de cá também.
Serviço
Sobrevivente
Quinta a sábado, 20h, e domingo, 19h. Sessões extras sábado e domingo, 16h
Teatro José Maria Santos (Rua Treze de Maio, 655, São Francisco, Curitiba, tel. 41 3324-8208)
Entrada gratuita (ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão)
85 minutos
Livre
O espetáculo estreou em 5/5/2023, no Festival de Curitiba. Ficou em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, de 11/5 a 3/6 de 2023. E cumpre temporada no Teatro José Maria Santos de 8/6 a 25/6 de 2023

Ficha técnica
Projeto: Espaço Cênico
Dramaturgia e direção: Henrique Fontes
Atuação: Nena Inoue e Pedro Inoue
Ator operador/Diretor assistente: Pedro Inoue
Direção de texto: Babaya
Músicas: Lilian Nakahodo
Iluminação: Marina Arthuzzi
Cenografia/figurino/adereços: Carila Matzenbacher
Cenotécnico: Nietzsche
Relato em voz off: Dráusio Galante e João Paulo de Souza
Relato em vídeo: Dulce Cândida de Souza
Assistente de produção/Curitiba: Mattheus Boeck e Alyssa Riccieri
Costureira: Sandra Francisca Canonico
Fotografia: Maringas Maciel e Humberto Araujo
Registros digitais: Trópico Audiovisual (Curitiba) e Igor Marotti (São Paulo)
Designer gráfico: Martin Castro
Assessoria de comunicação: Pedro Neves
Redes sociais: Platea Comunicação e Arte
Direção de produção: Marcos Trindade
Coordenação geral: Nena Inoue
Realização: Teatroca e Espaço Cênico
Apoio cultural em Curitiba: Teatro Guaíra, Padaria América, Baba Salim, O.I.D.E, Quermesse, Novo Café do Teatro, Mahá Mistura Criativa, UFPR e Centro Cultural Sistema FIEP
Apoio cultural em São Paulo: Planeta’s, Piolin, Nutrasom e Apfel
Incentivo: Bosch e Consórcio Servopa Projeto realizado com recursos do Programa de Apoio de Incentivo à Cultura – Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba
Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.