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artigo  A convite da revista aParte XXI, publicação histórica dos anos 1960 retomada pelo TUSP, analiso o decênio paulistano sob a perspectiva dos oito anos da Lei de Fomento. Vide a paradoxal corrida dos grupos aos projetos, em prejuízo da pesquisa e da experiência, e o cúmulo da sessão única semanal.
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Valor Econômico

Além da coxia Reportagem para o Valor Econômico mostra como a chamada equipe técnica saiu da sombra e adiciona tanto prestígio às montagens quanto os atores que as estrelam. Daniela Thomas, J.C. Serroni, Fabio Namatame, Beto Bruel e Marcondes Lima estão entre os criadores com mais autonomia de voo nos processos.

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Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 11 de março de 2006

TEATRO 
Atriz diz que valores que faltam à vida contemporânea a levaram a produzir e protagonizar “O Pequeno Príncipe” 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Ela mesma enredada no mundo das aparências na era das celebridades, Luana Piovani se diz preocupada com “as coisas invisíveis aos olhos”.

“A vida está tão louca. As pessoas têm ficado cada vez mais preocupadas em fazer sucesso, em ganhar dinheiro, que acho legal a gente botar em pauta esses assuntos, a delicadeza, a tolerância, o olhar no olho, sentimentos que você passa ou recebe, mas não é material”, diz a atriz.

Piovani, 29, está sentada diante do espelho em seu camarim. Um rapaz ajeita o cabelo dela agora curto para protagonizar “O Pequeno Príncipe”, sua segunda produção infantil para teatro, com estréia hoje.

Quando atuou em “Alice no País das Maravilhas” (2003), tinha certeza que a peça seguinte seria uma adaptação da obra do piloto e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), que leu aos 16 anos.

Piovani vê no clássico infantil sobre um menino que viaja pelo espaço uma forma de transmitir valores. “Essa galera de 50 anos já não tem mais jeito, está querendo ser Gérson [referência à chamada lei de Gérson, de levar vantagem em tudo]. Vamos incentivar as crianças a serem mais tolerantes, amorosas”, afirma.

A fábula de Saint-Exupéry é narrada por um piloto que faz um pouso forçado no deserto e lá se depara com um menino que lhe conta sobre suas andanças. Como a viagem por planetas em que encontra alguns donos de mundo: o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios, o acendedor de lampiões e o velho geógrafo.

Há ainda aquelas figuras que cativam mais em outros paragens de areia, rochas ou neve, como a flor e a raposa.

Piovani convidou João Falcão para dirigir e adaptar a história. Ele já havia trabalhado com ela na série televisiva “Comédia da Vida Privada” (1999). Em teatro, é a primeira vez.

Falcão, 47, afirma que é bom falar de sentimentos raros em tempos de violência superestimada, tanto na vida real como na própria arte. “A delicadeza pode ser mais impactante no momento.”

A capa e o cachecol são indissociáveis do menino que Piovani, 1,78 metro, diz interpretar como um desafio. “Minha dificuldade em fazer o personagem é que sou muito feminina.” Cuida em manter a voz grave, em não inclinar a cabeça para o lado o tempo todo, em andar com passos firmes -o que a bota pesada ajuda bastante.

Numa das cenas, a atriz surge em trapézio. São recorrentes outros números aéreos com o elenco formado por Marcus Alvisi (Aviador), Isabel Lobo (Raposa), Ana Baird (Rosa), Renato Oliveira (Serpente) e Felipe Koury (Dono do Mundo).

Em dez anos de experiências no palco e fora dele, como produtora, Luana Piovani arrisca um diagnóstico: “O teatro vive uma fase complicada, todo mundo faz monólogo, comédia, peça com elenco pequeno, porque é muito difícil conseguir patrocínio, pagar o aluguel do teatro”, afirma.

“Eu tenho a sorte de ter a mídia, digamos, ao meu lado. Eu sou uma pessoa que os patrocinadores, as empresas, têm prazer em receber. Todos os patrocínios que precisei até hoje eu consegui.” Coisas visíveis.



O Pequeno Príncipe
Quando:
estréia hoje, às 16h; sáb. e dom., às 16h. Até 29/11 
Onde: teatro shopping Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569, tel. 3472-2226) Quanto: R$ 40 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 09 de março de 2006

TEATRO

Grupo encena peças no CCSP  

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Oito anos é tempo suficiente para um grupo teatral dizer a que veio. A Companhia São Jorge de Variedades costura sua arte desde 1998, numa linguagem que desce com senso crítico às raízes do país que pisa mas também lhe arranca poesia e lira.

O espectador tem a chance de ver ou rever esse caminho no repertório que a São Jorge apresenta no Centro Cultural São Paulo, de hoje ao final de maio.

A começar pela estréia da remontagem do primeiro trabalho, “Pedro, o Cru”, do português António Patrício, com direção de Georgette Fadel. A obra reflete sobre a herança de romantismo e melancolia lusitanos. No século 14, Pedro, rei de Portugal, trai os juramentos feitos a seu pai e vinga-se dos matadores de sua amada, Inês de Castro. Em seguida, exuma o cadáver dela, enterrado há anos, e a coroa como rainha.

Depois vem “Um Credor da Fazenda Nacional” (2000), de Qorpo Santo, também encenado por Fadel. Expõe o embate Estado X cidadão pelo périplo de um funcionário por uma instituição burocrática para reaver o que lhe devem. O musical “Biedermann e Os Incendiários” (2001), do suíço Max Frisch, serviu para a Cia. São Jorge expor as vicissitudes da noção de justiça. O pequeno-burguês Candido Biedermann hospeda um desconhecido, que depois traz outro e com ele galões de gasolina. Advertido do “perigo”, ainda assim o anfitrião não reage.

No itinerante “As Bastianas” (2004), a cia. radicaliza sua pesquisa a partir da residência em albergues da cidade. Contos do ator e poeta Gero Camilo geram sentidos de identidade colhidos entre excluídos, evocando-se também o universo mitológico dos orixás do candomblé. A mostra será intercalada ainda por solos dos integrantes da cia. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 04 de março de 2006

TEATRO 
Apresentador e romancista dirige a peça “Ricardo 3º”, que estréia em maio em SP; tragédia política de Shakespeare também será encenada por Roberto Lage 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Há algo de arquetípico na história do homem que pisa muitos pescoços para escalar o poder e, chegando lá, oferece seu reino em troca de um cavalo, numa vã tentativa de escapar da morte. Acaso ou sinais do tempo, São Paulo assistirá em maio a duas estréias da tragédia “Ricardo 3º”. A peça de William Shakespeare (1564-1616) será dirigida por Jô Soares (com Marco Ricca no papel-título), no teatro Faap, e por Roberto Lage (com Celso Frateschi), no Ágora.

“Se Hamlet fica no “ser ou não ser”, Ricardo 3º é”, diz Jô Soares, 68, referindo-se à convicção com que o duque conspira na sangrenta luta pela coroa de rei na Inglaterra do século 16, quando o tabuleiro feudal era movido por bispos, juízes, chanceleres, lordes e chefes militares, além da realeza.

Shakespeare escreveu a peça entre 1592 e 1593, quando estava na casa dos 28, 29 anos. Antes de criar suas tragédias mais conhecidas, como aquela do príncipe dinamarquês ou “Macbeth”.

No texto que pertence à fase dos dramas históricos, o autor inglês retratou a vida de Ricardo 3º (1452-1485), cuja subida ao trono foi marcada por atos de violência. A peça capta os traços individuais de reis e usurpadores, de guerras e carnificinas que costuram os viciosos ciclos da história da humanidade, vide o século 20.

“Ricardo 3º relaciona-se com os demais usando faces humanas para cada um deles: a política, a social, a solitária. E isso nos assusta ainda hoje porque é assim que somos”, afirma Frateschi, 54.

Depois de cometer ou ordenar assassinatos, inclusive do irmão e de sobrinhos, deixando pelo menos 11 cadáveres no caminho, Ricardo 3º consente reinar “em nome do povo e de Deus”. Mais perverso, impossível. Acaba enredado na própria armadilha.

Dizendo-se à vontade na direção de uma tragédia, o humorista, apresentador e romancista Jô Soares ri quando afirma que existem outros “Ricardos” no Brasil, mas cuida em não fazer qualquer alusão à política contemporânea.

Jô traduziu e adaptou a peça. Na outra montagem, Frateschi assina a adaptação. Em comum, cortes em referências históricas e personagens -são 48 no original. Jô colocará em cena 15 atores, entre eles, além de Ricca, Denise Fraga, Glória Menezes, Ary França, Ilana Kaplan, Marcos Suchara, Maurício Marques e Roney Fachini.

Frateschi vai contracenar com 13 atores, entre eles Jairo Mattos, Renata Zhaneta, Bel Teixeira, Anahi Rubin e Plínio Soares.

“Ricardo 3º” é um dos textos de Shakespeare mais montados lá fora e raramente visto por aqui -Yara de Novaes fez sua versão em 1999, com a mineira Cia. Odeon. E já foi levado ao cinema com sucesso por Laurence Olivier (1955) e Al Pacino (1996). 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 03 de março de 2006

TEATRO 
Gekidan Kaitaisha funde teatro, dança e vídeo em espetáculo

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O tom esverdeado das imagens noturnas da Guerra do Golfo (1991) pontuam o espetáculo “Bye-Bye Phantom”. Seis atores e dançarinos preenchem o palco com movimentos opostos (tensão e relaxamento) e poucas palavras. Os corpos surgem em fusão com bombardeios projetados na tela ao fundo. São penumbras de uma “dor fantasma”, segundo o encenador japonês Shinjin Shimizu.

Ele é o diretor-artístico e um dos fundadores do grupo Gekidan Kaitaisha, que tem sua sede em Tóquio. O nome do grupo pode ser traduzido como “teatro da desconstrução”.

Na primeira viagem a um país da América do Sul, com apresentações gratuitas amanhã e domingo no Sesc Anchieta, em São Paulo, Shimizu traz uma produção da série que intitula “Adeus: O Primitivo Novo”, iniciada em 2001, a reboque do 11 de Setembro.

Violência e globalização compõem o binômio da década em questão, 1991-2001, cujos estilhaços estão recolhidos no espetáculo “Bye-Bye Phantom” e ainda se refletem na ordem do dia.

“Para mim, o trabalho de criação de uma performance equivale a uma desconstrução infinita”, diz Shimizu, cuja formação é influenciada por Tatsumi Hijikata (1928-86), um dos precursores da dança butô na década de 50, ao lado de Kazuo Ohno.
Leia a seguir entrevista feita com o encenador japonês por e-mail.


FolhaComo falar das várias formas de violência -física, moral, psicológica- por meio da representação cênica da própria violência? No espetáculo, há uma cena na qual um homem esbofeteia uma mulher enquanto segura uma faca na outra mão.

Shinjin Shimizu
Quando falamos de violência por meio da performance artística, devemos considerar conceitos como “velocidade”, “gravidade” e “quantidade”. A expressão física pode ser mais rápida, mais forte, sobretudo nos dias atuais, quando a tecnologia orienta a nossa situação cultural.

Eu diria que foi criado um mito em torno desses sentidos físicos, por conta das mídias tecnológicas que fazem do corpo uma ilusão. Para criticar essa violência, trabalhamos com o conceito de “transformação”, no qual a repetição de determinadas ações revela uma memória individual. Na peça, a violência doméstica que você citou é apenas um dos fragmentos.

Folha – Ao usar poucas palavras, o Gekidan crê que a dramaturgia do corpo pode falar mais alto no mundo do excesso de informação?

Shimizu
Na década de 90, sim, talvez tivéssemos um nível imoderado de desconfiança quanto ao uso da palavra (talvez ainda sejamos travados por esse pensamento). Mas, nos últimos anos, após realizar alguns projetos de colaboração internacional, reconheço a importância da língua dentro do espetáculo. A questão é se o sentido da história contada pelo performer ofusca a imagem expressada no palco.
 

Folha – Como Hijikata influenciou o grupo?

Shimizu –
Para restaurar Hijikata com justiça, é importante fazer uma releitura política e filosófica do seu butô. Acredito que ele pensava o corpo como uma tela ou um tipo da pele que projeta cada uma das histórias de horror do mundo. Assim, o butô não deve espelhar narcisismo.



Bye-Bye Phantom
Onde:
teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000) 
Quando: amanhã, às 21h, e dom., às 19h 
Quanto: entrada franca (retirar ingressos com antecedência)

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 02 de março de 2006

TEATRO

Texto de Patrícia Melo é inspirado em notícia de jornal; Carolina Ferraz encabeça elenco da montagem que estréia hoje  

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A romancista Patrícia Melo leu num jornal brasileiro a história da moça que doou o rim para o noivo, e este, depois, a abandonou.

Em “O Rim”, sua terceira experiência autoral no teatro -ela já havia feito adaptações-, Melo resvala em questões da moral e da ética, inclusive a amorosa. Mas o tom que prevalece é o da comédia, como afirma a atriz Carolina Ferraz, também produtora da montagem que estreou no Rio em maio de 2005 e inicia temporada em São Paulo a partir de amanhã, no Teatro Folha.

“A gente trabalhou o tempo todo com a ambigüidade: se a minha personagem, Rosário, viveu realmente aquela história ou se tudo não passou de fantasia dela”, diz Ferraz, 36.

Enredo
Rosário é apresentada como uma mulher que lê o mundo com olhos românticos. Funcionária da Biblioteca Nacional, no Rio, trata os livros qual filho ou amante que não tem. Ao final do expediente, ela surrupia alguns volumes em nome da “caridade” (e da cleptomania). Alega limpar, encapar, levar para tomar sol. Quanto a ler os livros, aí são outros quinhentos.

O enredo se concentra na família de Rosário, no qüiproquó que se arma. Seu irmão, Carlos (Bruce Gomlevsky), é diretor teatral e sonha montar um espetáculo musical em grande estilo. Certo dia, ele é atropelado por um milionário, Augusto (Eduardo Reyes). O acidente não é grave. Carlos engessa as pernas. Tenta paquerar o motorista, milionário e boa pinta, mas é a irmã quem consegue o noivado. Não demora, e Augusto revela que precisa desesperadamente de um novo rim.

Carlos vê na doação do órgão a chance de levantar dinheiro para o musical dos sonhos. Rosário agradece ao irmão por salvar o futuro marido. E a mãe deles, Dora (Ivone Hoffman), dá a família por abençoada. Até a virada de jogo.

“A peça transita por esse universo absurdo e atinge uma comunicabilidade incrível com a platéia”, diz Carolina Ferraz. Segundo a atriz, o diretor Elias Andreato, com quem trabalha pela primeira vez, opta por “um caminho simples, baseado no ator e na palavra”.

Ferraz é amiga de Patrícia Melo desde a adolescência. Era cotada para fazer “Duas Mulheres e Um Cadáver”, a primeira peça da autora (de 2000, com Fernanda Torres e Débora Bloch), mas não conseguiu participar devido a outros compromissos. Feraz, que já foi dirigida por Denise Stoklos (“Selvagem como o Vento”, 2000) e agora flerta com a comédia, afirma que sua aventura teatral seguirá. Ela comprou os direitos autorais de “Velhos Tempos”, de Harold Pinter, e quer atuar em 2007 naquele drama que pede fígado.



O Rim
Onde: Teatro Folha – shopping Pátio Higienópolis (av. Higienópolis, 618, piso 2, tel.: 0/xx/11/3823-2323) 
Quando: estréia amanhã, às 21h30; sex., às 21h30; sáb., às 21h; e dom., às 19h30. Até 30/4 
Quanto: R$ 40 a R$ 50 (sáb.)

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

TEATRO

Montagens dos grupos Pia Fraus, Parlapatões e Estável usam linguagem de picadeiro no evento que começa dia 16/3

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Dois modos distintos de saudar o circo despontam no primeiro final de semana do Festival de Teatro de Curitiba (FTC), que começa no próximo dia 16.

Em “O Auto do Circo” (2004), a cia. Estável, de SP, narra a saga de uma família circense que migra da Europa para o Brasil em meados do século 19. Recorte que conota a própria história da cultura circense no país.

A linguagem de picadeiro funde-se à de teatro de rua no inédito “Hércules”, dobradinha da cia. Pia Fraus e do grupo Parlapatões que adapta os 12 trabalhos do herói grego na esteira da comédia.

Em ambas as peças da Mostra Oficial, o público acompanhará releituras dessa arte tradicional, aqui deslocada da lona. As apresentações acontecem no teatro Ópera de Arame (“O Auto do Circo”) e na vizinha Pedreira Paulo Leminski (“Hércules”).

A organização do FTC estima 230 peças em 11 dias de evento: 19 espetáculos na Mostra Oficial e o restante no Fringe.

Na criação da cia. Estável, o circo não surge apenas como técnica ou pretexto. O ator Nei Gomes, 28, diz que a pesquisa levou em conta os núcleos familiares nômades que mantêm o saber artístico e a memória por meio da transmissão oral por gerações.

Dono de circo, o velho palhaço Coscorão (papel de Gomes) procura dar sentido às poucas e valiosas lembranças que lhe restam. Da chegada da avó ao Rio de Janeiro com um circo europeu, nos idos de 1830, até os dias de hoje, quando a atividade encolhe.

Quem cuida de Coscorão, carregando-o num carrinho de mão, é o jovem palhaço Ximbeva (interpretado por Jhaíra).

A partir da dupla, a narrativa de Luís Alberto de Abreu, que concebeu “O Auto do Circo” em colaboração com os sete atores e a equipe, passa por tempos em flashback. Coscorão descreve os números acrobáticos de seu circo, os truques de palhaço, as desavenças familiares e os romances dos antepassados.

O texto inclui recursos de melodrama e de mistérios, tão caros ao circo-teatro de antigamente. A direção é de Renata Zhaneta.

“O espetáculo coroa nosso questionamento da função do artista na sociedade”, diz Gomes. “O Auto do Circo” resultou da residência do grupo no teatro Flávio Império, em Cangaíba (zona leste de São Paulo), dentro do Programa de Fomento ao Teatro. Em abril e maio, a peça fará temporada no Centro Cultural São Paulo.

Saltimbancos
Como saltimbancos de rua, os 17 atores de Pia Fraus e Parlapatões querem levar à cena uma bem-humorada alegoria visual e dramatúrgica de Hércules. Interpretado por Raul Barretto, o herói cumpre os sacrifícios a que foi submetido a mando de Hera (Claudinei Brandão). A deusa fica enciumada porque Zeus (Hugo Possolo), seu marido, havia dado um filho a outra.

Para redimensionar o teatro de rua, serão incorporados uma carreta-palco, um carro, quatro motos, uma esfera de ferro de 4,5 metros de diâmetro, entre outros suportes. Tudo circundado por uma arquibancada para 800 pessoas.

“Hércules” também foi selecionado no Programa de Fomento e será visto em São Paulo em abril, no vale do Anhangabaú.

A festa de abertura do FTC acontecerá dia 15/3, no teatro Guaíra, para convidados. Pela primeira vez não haverá peça, mas um concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná, regida por Alessandro Sangiorgi, com participação do ator Luis Melo em um trecho cênico.

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

TEATRO 
“A Noite Antes da Floresta” estréia com direção de Francisco Medeiros

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O embate de dois homens em “Na Solidão dos Campos de Algodão”, contrapondo mercado e desejo, e a trajetória de um jovem assassino em “Roberto Zucco”, que depois comete suicídio, são as histórias que o espectador brasileiro mais conhece do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès, sobretudo depois das elogiadas encenações de Gilberto Gawronski, no Rio, e de Nehle Franke, alemã radicada no Brasil, em Salvador.

Chegou a vez de “A Noite Antes da Floresta” (“La Nuit Juste Avant les Forêts”; na tradução literal, “A Noite Logo Antes das Floresta”), monólogo com assinatura do diretor Francisco Medeiros e interpretação de Otávio Martins. A montagem estréia hoje no Espaço dos Satyros, em São Paulo.

O texto de 1977, anterior às obras que o consagraram, já apontava as marcas de uma dramaturgia ligada a questões universais como a exclusão, a solidão e o desejo do homem contemporâneo. O próprio Koltès o encenou pela primeira vez naquele mesmo ano, no Festival Off de Avignon, na França. A partir dali, ele despertou a atenção da crítica e do público, sendo considerado um dos autores europeus mais importantes da segunda metade do século passado.

“A Noite Antes da Floresta” seria um “quase monólogo”, como definiu a pesquisadora francesa Anne Ubersfeld durante palestra na USP em 2005. Um homem expõe sua angustiante condição de estrangeiro (não só imigrante, mas de não-pertencimento à sociedade que o põe à margem por meio de preconceitos de toda ordem). Ele conversa o tempo todo com um interlocutor que não aparece, mas pode ser e estar projetado no espectador da peça ou no duplo do próprio personagem.

Sob chuva, numa esquina de um centro urbano qualquer, esse homem busca um rumo (pode ser o quarto de um hotel); busca afeto (na relação com o outro); e busca principalmente tocar o que seria a humanidade.

“Eu fui feito para a defesa, eu ia me dedicar totalmente pra isso, eu ia ser o executor no meu sindicato internacional, defendendo os filhotes que não são muito fortes, aqueles cujas mães deixam andando por aí e se viram sozinhos”, diz o personagem em um momento do seu jorro verbal, na tradução de Martins. O texto da peça é como que uma longuíssima “frase”, com cerca de 60 páginas, que não encontra ponto final.

“As situações enunciadas pelas falas não são de hermetismo, mas de poesia sem versos. Há ritmo, melodia, sonoridade. Você encara a palavra com o efeito físico que ela provoca em si e no outro”, diz Medeiros, 57.

Lápide
O gestos e movimentos de Otávio Martins foram estudados com atenção. “Quando iniciamos os ensaios, há quatro meses, a primeira percepção foi abordar o texto pelas sensações do corpo”, diz Martins, 35, que raspou o cabelo e emagreceu nove quilos para compor o personagem.

Ele atua sob um pedaço de chão cenografado, rachado, a sugerir ainda um asfalto, um bueiro ou “uma lápide”, conforme o intérprete. A concepção é de Maria Duda, com desenho de luz de Domingos Quintiliano, trilha de Aline Meyer, figurino de Elena Toscano e preparação de corpo de Thiago Antunes .

Medeiros afirma que recorreu a duas imagens no trabalho corporal: um ser à deriva e um ser imerso num labirinto.

“O labirinto tem limites estabelecidos, mas não tem rumo. Já à deriva, não se tem rumo ou limites, fica-se ao sabor das forças externas”, diz o diretor.



A Noite Antes da Floresta
Onde:
Espaço dos Satyros (pça. Franklin Roosevelt, 214, centro, tel. 3258-6345) 
Quando: estréia hoje, às 21h30; sex. e sáb., às 21h30. Até 8/4 
Quanto: R$ 20 e R$ 5 (classe teatral)

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 11 de fevereiro de 2006

TEATRO 
Márcia Abujamra encena peça de autor espanhol sobre a dificuldade de mostrar sentimentos

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Encontros e desencontros de homens e mulheres pontuam as 11 cenas de “Carícias” (1991), texto do espanhol Sergi Belbel que ganha primeira montagem em São Paulo, assinada por Márcia Abujamra, a partir de hoje no Sesc Belenzinho.

A tônica está na incapacidade de comunicar o afeto. Começa com um jovem casal perturbado pela falta de diálogo. Enquanto preparam o jantar, ele a esbofeteia e ela devolve o troco com naturalidade, sem que a tentativa de conversa seja interrompida.

“Os personagens de “Carícias”, título que muitos consideram irônico, reagem com violência não porque sejam violentos, mas porque não encontram canais de comunicação para expressar seus sentimentos”, diz Belbel.

Para o autor catalão, que é professor universitário e exerce a dramaturgia há duas décadas, a intenção é discutir a desumanização nos grandes centros urbanos. Seus personagens transitam medos e inseguranças.

As cenas são interligadas -cada quadro traz uma dupla, íntima ou não, e um deles sempre avança para a situação seguinte, em outro tempo e lugar.

“As pessoas são apanhadas no ápice de uma briga ou de uma aproximação, por exemplo. É quando elas se revelam com suas carícias possíveis. Todos nós somos um pouco tortos nessa tentativa de acesso”, diz a diretora Márcia Abujamra, 47.

Os 11 intérpretes (entre eles Cláudia Missura, Jiddu Pinheiro e Malu Bierrenbach) permanecem o tempo todo no cenário, emoldurado por um tablado e parede vermelhos. Também são 11 as cadeiras.

Apesar de pender para o drama, “Carícias” é pontuada por passagens cômicas. “O riso é algo quase terapêutico, talvez um dos últimos redutos da famosa “catarse” aristotélica”, diz Belbel. 



Carícias 
Quando:
estréia hoje, às 20h; sáb. e dom., às 20h; até 26/3
Onde: Sesc Belenzinho – galpão 2 (av. Álvaro Ramos, 915, tel. 6602-3700)
Quanto: R$ 15