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Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 04 de fevereiro de 2006

TEATRO

Ator mergulha na vida e no pensamento do psiquiatra em monólogo co-escrito e dirigido por Domingos Oliveira

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O ator carioca Sérgio Britto diz que quebrou um jejum de décadas quando voltou a sonhar, a partir do ano passado, impregnado pelo processo de composição do monólogo “Jung e Eu”. Depois de temporadas no Rio e em Brasília, o espetáculo co-escrito pela analista Giselle Kosovski e por Domingos Oliveira, com direção deste, entra em cartaz hoje em São Paulo, no Sesc Belenzinho.

“Tenho sonhado todos os dias, sonhos terríveis”, diz Britto, 82. Uma de suas narrativas oníricas: Britto participa de uma reunião em que todos os presentes ganhavam um paletó, menos ele.

“Eu queria um paletó, símbolo de coisas que desejo agora, mas sei que vou perdê-las. Daqui a pouco entenderei o porquê”, diz Britto, deixando as entrelinhas para os seus botões.

O estímulo vem do contato que o ator estabeleceu com o pensamento do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), interlocutor de Freud -com quem depois rompeu- que via os distúrbios mentais e emocionais como fruto de um proceso de tentativa do indivíduo de buscar a perfeição pessoal e espiritual. “Descobri uma cosia curiosa: o sonho engana a gente, faz pensar que sonhamos a noite inteira, mas dura minutos”, diz o ator.

O enredo corresponde ao que aconteceu na vida real. Diante da impossibilidade de adquirir os direitos autorais para a adaptação teatral da autobiografia de Jung, “Memórias, Sonhos e Reflexões”, Britto e Oliveira tiveram que “inventar uma peça”.

No plano da ficção, o ator shakespeariano Leonardo Svoba, na casa dos 80, envolve-se numa montagem em que interpreta Jung. Sempre resistiu a mergulhos filosóficos, psicológicos, e agora lida com conceitos como “inconsciente coletivo”.

Só que o sujeito que lhe propõe tal empreitada o deixa na mão. Parte atrás de uma amante. Svoba decide tocar o projeto sozinho e passa a contar com a ajuda do próprio Jung, personagem com que contracena em sonhos.

Para pontuar a transição entre o ator veterano e o psiquiatra, Britto lança mão apenas de um óculos. “O espetáculo tem sido um dos maiores prazeres da minha vida”, diz. “Não resulta didático, não é chato.”

A cenografia de Marcelo Marques e o desenho de luz de Paulo César Medeiros conformam um espaço dual: há o canto de Jung, com mesa, cadeira, telefone, e o de Svoba, com mesa, poltrona e o retrato de uma mulher.

Para o intérprete, o universo junguiano é propício à arte dramática. “Ele afirma que o sonho maior da vida é o teatro. O autor, o diretor, o ator, enfim, são todos sonhadores. Jung tem completa razão. Quando representa, o ator busca na memória elementos para compor o seu personagem, como que num sonho.”

Em 2003, Britto passou pela cidade com o solo autobiográfico “Sérgio 80” e com o clássico “Longa Jornada de um Dia Noite Adentro”, de Eugene O’Neill, em que vivia um ator fracassado, patriarca avaro.



Jung e Eu 
Quando: estréia hoje, às 18h; sáb. e dom., às 18h; até 26/2
Onde: Sesc Belenzinho (av. Álvaro Ramos, 915, tel. 0/xx/11/6602-3700)
Quanto
:
R$ 15

Folha de S.Paulo

Godot ecológico

31.1.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 31 de janeiro de 2006

TEATRO

Gabriel Villela se volta à natureza ao montar o clássico de Beckett com Bete Coelho; peça estréia na sexta

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Sentadas no chão, com as costas apoiadas ao tronco-toco de uma aroeira que jaz no miolo da cena, as atrizes Magali Biff e Bete Coelho -Didi e Gogô- dão início a uma longa jornada “comitrágica”, como definiu certa vez o autor de “Esperando Godot”, Samuell Beckett (1906-1989). As duas atrizes enraízam a primeira incursão do diretor Gabriel Villela pela obra do autor irlandês, passados cem anos de seu nascimento. “Esperando Godot” estréia na próxima sexta-feira, ocupando uma área do subsolo do Sesc Belenzinho, em São Paulo -um silo revestido de tijolos e adaptado para teatro desde 2003.

Vilella pretendeu dar ares ecológicos à montagem. A encenação é ambientada num território devastado. “Devíamos ter mergulhado profundamente na natureza”, diz o personagem Estragão a certa altura do texto de Beckett. A observação foi um “gancho” para o diretor jogar luz sobre a devastação da flora e da fauna.

O espaço cênico é demarcado por dois círculos concêntricos traçados a giz. O menor deles é ocupado por uma roda de madeira, e o círculo maior tangencia o público. “É um espaço que aglutina, que faz com que atrizes, personagens e público estejamos esperando Godot”, diz Biff, 49.

Para compor a química desses seres vagabundos, de botas e chapéus-coco “picadeirescos”, que parecem tecer o ciclo vicioso de autodestruição da humanidade, a dupla de atrizes revisita os tempos da extinta Companhia de Ópera Seca (1986-1991), quando participaram de projetos concebidos por Gerald Thomas. Contracenaram, por exemplo, em “Fim de Jogo” (1990), outro Beckett fundamental.

“Mineiridade”
Quinze anos depois, as duas conjugam algo do jogo de teatralidade, de imagens e movimentos cênicos de Thomas, com a agora fase “seca” do mineiro Villela, dono de linguagem oposta, de perfil barroco, que vai dos gestos às “cores desmaiadas” do figurino, também assinado por ele.

“Nesse processo de “Godot”, muitas vezes lembrei-me da montagem de “Fim de Jogo”. O Gerald é ainda uma grande referência. O Gabriel me levou para um outro lado, com outra tessitura vocal; trouxe uma mineiridade poética, que não é a regional, mas é a de Drummond, de Guimarães Rosa”, diz a mineira Bete Coelho, 38.

Com o intuitivo e atrapalhado Estragão (trocadilho preferido ao Estragon da tradução adotada de Fábio de Souza Andrade), diz ter encontrado terreno fértil em terra de ninguém. “O Gabriel conseguiu resgatar em mim a minha criança; não a infantilidade, mas a coisa atemporal, assexuada, sem idade”, diz a atriz.

Há brecha para o escárnio em meio à crueldade. Didi e Gogô, em sua essência rígida, segundo Villela, vão preenchendo a relação com graças e pantomimas. A primeira experiência de Bete com a obra aconteceu quando ela assumiu o papel-título da peça “Cacilda!” (1998), dirigida por José Celso Martinez Corrêa, no teatro Oficina. Era a passagem em que a atriz Cacilda Becker (1921-1969) sofre um aneurisma cerebral no intervalo do primeiro para o segundo ato de “Esperando Godot” (então encenada pelo diretor Flávio Rangel), numa sessão vespertina. A atriz entrou em coma, foi operada e morreu 39 dias depois. Vivia Estragon ao lado de Walmor Chagas (Didi).

Magali Biff diz não esquecer a montagem de Antunes Filho, de 1977, também com elenco feminino -entre as atrizes estavam Lílian Lemmertz e Lélia Abramo.

“Foi um suplício lidar com o ser humano totalmente sem esperança, na afazia”, diz Vera Zimmermann, 41, que interpreta Lucky, o carregador humilhado de Pozzo, braço político mais evidente, relação arquetípica explorador-explorado. Não por acaso, o personagem interpretado por Lavínia Pannunzio surge em mãos postiças -a esquerda vem abaixo lá pelas tantas. Em seu quinto espetáculo consecutivo com Villela, Zimmermann também faz o Menino, o mensageiro que sepulta de vez as esperanças. 



Esperando Godot
Quando: estréia dia 3/2, sex., às 21h, sex., sáb. e dom., às 21h; até 26/3 
Onde: Sesc Belenzinho – subsolo (r. Álvaro Ramos, 915, Quarta Parada, tel. 0/xx/11/6602-3701) 
Quanto:
R$ 15

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 05 de janeiro de 2006

TEATRO 
Obras vêm de SP, RJ e MG

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.

Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.

Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.

O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.

Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.

Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.

A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.

Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.

Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena. 



Folhetim nº 22 
Quanto:
 R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671;
www.pequenogesto.com.br)

Caderno do Folias 
Quanto:
 R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223;
www.galpaodofolias.com)

Subtexto
Quanto:
 grátis (94 págs; pedidos por e-mail:cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580;
www.grupogalpao.com.br) 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O grupo Oficina Uzyna Uzona se aproxima do final de sua epopéia musical e coral “Os Sertões”, a “transcriação” para a cena do romance de Euclydes da Cunha, projeto iniciado em 2001.

Acontece amanhã no teatro Oficina, em São Paulo, ensaio aberto de “A Luta – Parte 2”. O espetáculo deve estrear em março.

Serão apresentadas cenas iniciais da narrativa em que a quarta e derradeira expedição do Exército chacina os sertanejos prisioneiros, toma o arraial de Canudos (BA) e põe fogo em 5.200 casebres, conforme Cunha descreve o episódio de 1897.

Em suma, uma guerra entre o fanatismo político (em nome da ordem da recém-nascida República) e o fanatismo religioso (liderado por Antônio Conselheiro, o antagonista que foi decapitado).

Para transformar aquela “sinistra trincheira de corpos” em “desmassacre”, o ator, diretor e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, 68, intérprete de Conselheiro, deseja ensaiar “com” e não “para” o público.

Quer radicalizar o papel das “pequena multidões” que vão ao Oficina. “A multidão é um sujeito fundamental nas lutas sociais de que o Brasil efetivamente precisa”, diz Zé Celso. Dessa mobilização dependeria “o fim dos genocídios em nossos tempos”.

O diretor vê paralelos dessa transcendência do massacre de Canudos com “vitórias culturais” como a ocupação de trecho do rio Tietê pelo grupo Teatro da Vertigem (“BR3”), na zona norte, “um rio morto que está ganhando vida nova”; e a ocupação da praça Franklin Roosevelt, na região central, pelo grupo Os Satyros, que encampa renascimento do espaço público cuja arquitetura é tão opressora quanto o regime militar em que veio à luz, em 1970.

“Isso faz parte do teatro em São Paulo. Enfrentamos situações limites para dar vida a elas. Quando nos deparamos com o fim do barbante, a derrapada final, vem o eterno retorno da vida.”

“A Luta: Parte 1” conquistou este ano o Prêmio Bravo! Prime de Cultura como melhor espetáculo e deu a Zé Celso o troféu de melhor diretor pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

Zé Celso não deixa de lembrar da peleja com o Grupo Silvio Santos nos últimos anos por causa da construção de um shopping no entorno do teatro. Luta para que o projeto arquitetônico dialogue com o Oficina, contemple um teatro de estádio “para multidões”, como os de futebol.

Irmão
Tornou-se um rito colado à semana de Natal. Pelo 17º ano consecutivo, o grupo Oficina quer cultuar alegria e renascimento no seu teatro para lembrar o assassinato do ator e diretor Luis Antônio Martinez Corrêa (1950-87), irmão de Zé Celso.

Por isso, a data e horário para o ensaio aberto de “A Luta – Parte 2”, amanhã.

No dia 23 de dezembro de 1987, por volta das 14h30, Luis Antônio morreu num apartamento do Rio de Janeiro. Levou cerca de cem facadas de um garoto de programa. O crime chamou a atenção para a homofobia no Brasil.

O ensaio de “A Luta – Parte 2” terá participação do cantor e compositor Celso Sim. Ele interpretará um dos poemas musicados por Caetano Veloso (“O Amor”) para a trilha da peça “O Percevejo”, de Vladimir Maiakóvski, encenada por Luis Antônio em 1981.

Na época de sua morte, tinha duas peça em cartaz, “Theatro Musical Brazileiro – Parte 2” e “Taniko, o Rito do Vale”, texto nô do japonês Komparu Zenchiku. Luis Antônio estreou profissionalmente em 1972, como ator e assistente de Zé Celso em “Gracias, Señor”, criação coletiva. 



A Luta – Parte 2 (ensaio aberto)

Quando: amanhã, às 14h30.
Onde: teatro Oficina (r. Jaceguai, 520, Bexiga, tel. 3106-2818)
Quanto: R$ 5
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 18 de dezembro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Ao navegar o rio para ver o espetáculo, público se impressiona com a paisagem; Vertigem faz último ensaio aberto

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A água escura, o lixo flutuante, as pontes de concreto vistas de baixo, os faróis dos carros que parecem andar em câmara lenta nas marginais: o rio Tietê e sua paisagem monumental roubam a cena como um “primeiro-ator” em “BR3”, novo espetáculo do grupo Teatro da Vertigem.

“Estou no rio da minha cidade, onde nunca tinha entrado. Onde pessoas da minha família, meus avós, já nadaram. Daqui do barco, é um contraste saber que chegamos ao esgoto. É mais um esgoto do que um rio”, diz o representante comercial Antônio Luiz Gonçalves Junior, 39, ao final de uma apresentação.

Hoje é o último dia de ensaio aberto (os ingressos estão esgotados). A montagem deve estrear em fevereiro.

“Quando o pessoal da minha geração via o rio Tietê, a gente nunca pensava que um dia poderia navegar nele. O espetáculo já me pegou por aí”, diz a produtora cultural Áurea Karpor, 26.

Ela se deixou levar mais pelo impacto visual (direção de arte de Márcio Medina e desenho de luz de Guilherme Bonfanti). Parte da cenografia é feita de material reciclado. “As garrafas pet que via no leito do rio também estavam no cenário”, afirma Karpor, que disse ter ficado impressionada com a movimentação dos 13 atores.

Alguns deles iam da margem para o barco, e vice-versa, em botes nem sempre notados pelo grupo de cerca de 50 espectadores embarcados no Almirante do Lago, que também abriga cenas em seus três pavimentos. A equipe tem 70 pessoas, entre artistas, técnicos, marinheiros e seguranças.

Antes de embarcar, o professor Marcelo Henrique Pereira dos Santos, 31, queria saber como o grupo articularia as três regiões do país em que foi a campo para conceber o novo espetáculo: a cidade de Brasiléia (AC), Brasília e o bairro de Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo.

“Só existe Brasilândia porque existe Brasília, e só existe Brasiléia porque existe Brasilândia. Acho que tudo isso está amarrado: a necessidade de inventar a cidade perfeita, a religião perfeita, tudo é fruto da complexidade social do nosso país, para o bem e para o mal”, afirma Santos, morador em Brasilândia.

Criada em processo de colaboração, a dramaturgia de Bernardo Carvalho percorre três gerações da família de Jovelina (Marília de Santis). Nos anos 60, ela deixa o Nordeste em busca do marido, que morre durante a construção de Brasília. Segue para São Paulo, onde se torna chefe do tráfico.

A trajetória dela e dos dois filhos, Jonas (Roberto Áudio) e Helienay (Daniela Carmona), vai até os anos 90 e passa pela triangulação dos radicais “BR” no mapa.

Cada personagem segue seu caminho. Cruzam-se às vezes. Noutras, têm seus trajetos modificados, por exemplo, pela Evangelista (Cácia Goulart) e pelo Dono dos Cães (Sérgio Siviero), um policial. A peça entremeia passado e presente, com cenas dentro e fora do barco.

Uma das cenas-síntese de “BR3” talvez seja aquela em que um Jonas imberbe e o Barqueiro (Sérgio Pardal) disparam com a voadeira num redemoinho que põe todos em suspenso, espectadores que giramos por tabela.

O Brasil parece ter tomado um chá de cipó ou devotar tudo ao deus-dará. “Esse país não se enxerga”, diz um personagem. O espetáculo termina com o público no convés superior, a céu aberto, debaixo do “x” das pontes do complexo Ulysses Guimarães, na rodovia dos Bandeirantes. Um “x” que é ponto final?

Para realizar o sonho (ou pesadelo?) desta produção, o Vertigem tem apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro, da Transrio Navegação Fluvial e do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).



BR3 – ensaio aberto
Onde: rio Tietê (informações na secretaria do Teatro da Vertigem (r. Roberto Simonsen, tel. 0/xx/11/3241-3132) 
Quando: hoje, às 19h (se não chover) 
Quanto: grátis (ingressos esgotados)

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 17 de dezembro de 2005

TEATRO 
Pai, mãe e oito filhos recuperam tradições em “Histórias de Teatro e Circo”, peça em cartaz no Sesc Belenzinho

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Dos muitos Brasis desconhecidos, um deles certamente é puxado pela companhia Carroça de Mamulengos. Ela é formada por pai, mãe, oito filhos e mais dois artistas, todos fazedores de cultura popular.

Hoje e amanhã à tarde, no Sesc Belenzinho, a Carroça encerra sua primeira longa temporada em “trânsito” por São Paulo, cidade onde fez passagens-relâmpago nos últimos anos.

Quando a Burrinha Fumacinha dá seus galopes curtos no palco, interpretada por Isabel, 7, sob o canto e os acordes do violão de Maria, 21, desenha-se o ciclo dos filhos de Carlos Gomide, 50, e Shirley França, 40, no espetáculo “Histórias de Teatro e Circo”.

A personagem foi criada justamente para incorporar ao espetáculo a então primogênita Maria, em meados dos anos 80. Agora, o rito de passagem cabe às gêmeas Isabel e Luzia, esta brincante-mirim paramentada de Bode Pinote, um cabritinho.

Pedro e Mateus, 10, os também gêmeos predecessores, sentem-se os próprios Carneirinho Belém e Tamanduá Meleta em cena, tímidos e folgazões.

Dali a pouco, surgem os adolescentes Antônio, 18 (o Dragão Xodó), Francisco, 15, e João, 13 (os Jaraguás Rosa e Florinda). Na segunda parte, eles reaparecem em pernas-de-pau, à altura dos palhaços com nariz vermelho que também assumem.

“O “Histórias de Teatro e Circo” é como uma lavoura na qual vamos experimentando novas plantações, aperfeiçoando a cada filho que chega”, diz o bonequeiro e compositor Carlos Gomide, mestre-de-cerimônias e diretor-geral do espetáculo.

Bonecos e reisados
A saga da família tem início em 1977, em Brasília, quando o goiano Gomide junta-se ao artista Humberto Pedrancini. Eles criaram o grupo Carroça e confeccionaram bonecos a partir de sucatas. Montaram a brincadeira (como preferem) “As Bravatas de Professor Tiridá na Usina do Coronel Dijavuna”, com texto de Januário de Oliveira.

O contato com o mamulengueiro Antônio Alves Pequeno, o mestre Antônio do Babau, com quem conviveu por cerca de três anos na cidade paraibana de Mari, descortinou outras possibilidades para Gomide, que conheceu as tradições de reisados, bandas de pífanos, repentistas, emboladores de coco etc.

Consolidou a Cia. Carroça de Mamulengos. Em 1982, conheceu a atriz Shirley França em Brasília. E de lá para cá ganhou corpo a companhia familiar.

Aos poucos, cada filho vai se afinando com o que mais gosta. Para Maria, é a música; Francisco, percussão; Antônio, as artes visuais e manuais.

Apesar de certa mística que emana da peça (Gomide tem cabelos e barba à imagem de Cristo) e da reunião de pais e filhos (além das participações de Beto Lemos e Maria de Miguel), Gomide diz que a Carroça “não tem o mínimo desejo de fortalecer a instituição família, base do Estado, da propriedade”. “Creio que a minha família é maior do que esta que está comigo. Essa visão dos laços consangüíneos acaba separando, cria desarmonia, falta de comunhão na sociedade. Minha família é um punhado de pessoas que sonham o mesmo sonho”, diz Gomide.

Como o movimento cultural (ou “de vida”, como prefere) que a Carroça encabeça em Juazeiro do Norte (CE), por meio da União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus. Na semana passada, cerca de 40 desses artistas de origem humilde viajaram até o Rio para dançar, cantar e brincar nos Arcos da Lapa, dentro do 2º Encontro do Padre Cícero com Profeta Gentileza. Um arrastão cultural da Carroça. 



Histórias de Teatro e Circo
Quando: hoje e amanhã, às 16h.
Onde: Sesc Belenzinho – teatro (r. Álvaro Ramos, 915, tel. 0/xx/11/ 6602-3700) 
Quanto: R$ 6

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 05 de dezembro de 2005

TEATRO 
Grupos cobram ações do Ministério da Cultura e Estados

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Um instantâneo por algumas capitais brasileiras revela que a classe teatral, substancialmente os grupos, desempenha papel decisivo na reivindicação de políticas públicas para a cultura.

Nas últimas duas semanas, formou-se involuntariamente uma espécie de mobilização em cadeia.

Em Belo Horizonte, abre hoje a segunda edição do Redemoinho -Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral.

Durante três dias, o Galpão Cine Horto, centro cultural do grupo Galpão, recebe representantes de 70 grupos -31 a mais em relação a 2004- vindos de 11 Estados.

Em pauta, “a permanente crise da cultura e a omissão dos governos federal, estaduais e municipais no apoio e manutenção dos espaços”.

Mesas-redondas e palestras serão abertas ao público. Entre os convidados, o presidente da Funarte (Fundação Nacional de Arte), Antônio Grassi, representando Ministério da Cultura.

Na última sexta, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, disse que não prioriza o “teatro dos consagrados”, em resposta às críticas dos atores Paulo Autran (“Acho que ninguém da classe teatral sabe o ele [Gil] fez”) e Marco Nanini (“[O ministro] Nunca foi ao teatro, não gosta”), publicadas pela Folha na semana passada.

Ao longo de 2005, Gil reclamou bastante de contingenciamento. O governo cortou 57% do orçamento do MinC, que era de R$ 480 milhões. A promessa é de que o cenário mudará em 2006.

Na última quinta, em São Paulo, o secretário estadual da Cultura, João Batista de Andrade, recebeu em audiência pública um conselho formado por 25 entidades de distintas áreas artísticas.

A luta é pela incorporação das emendas que criam de fato um Fundo Estadual de Cultura, com dotação orçamentária fixada em lei, gerido por uma conselho e que opere por meio de editais.

Andrade propõe a criação do Programa de Ação Cultural (PAC), que estabeleceria um limite de renúncia fiscal para incentivo à cultura de até 0,2% do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e recolocaria em vigor um fundo de 1968, sem dotação orçamentária fixa, com recursos advindos da Loteria Cultural (que seria reativada).

A maioria das entidades apoiou a proposta, cuja data de votação pelo Legislativo não foi definida.

Na semana passada, em Porto Alegre, aconteceu o seminário “Teatro de Grupo -Reinventando a Utopia”, organizado pela Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Foi centrado nos processos criativos e na formação de ator/atuador, com presenças de diretores como Amir Haddad (grupo Tá na Rua, RJ), Ilo Krugli (grupo Ventoforte, SP) e Luiz Carlos Vasconcelos (Piolim, PB).

No dia 25/11, um ato público do movimento Arte contra a Barbárie, na Assembléia paulista, pediu a criação de um Fundo Nacional de Cultura. Um “fomento nacional” inspirado na Lei de Fomento da cidade de São Paulo, que destina cerca de R$ 9 milhões a grupos escolhidos por comissão.

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 08 de dezembro de 2005

TEATRO

Sesc Pinheiros abriga exposição do tcheco

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O ano em que a cidade de São Paulo recebeu o arquiteto francês Jean-Guy Lecat, parceiro do encenador inglês Peter Brook, fecha com uma exposição dedicada ao tcheco Josef Svoboda. A cenografia ganha merecido e alentado olhar como elemento vital e orgânico das artes cênicas.

O Sesc Pinheiros abriga, a partir de hoje, a mostra “Josef Svoboda -°A Magia do Espaço Teatral”. É a mesma que passou em outubro pelo festival Riocenacontemporânea, sob curadoria da tcheca Helena Albertovà, pesquisadora responsável pelo acervo de Svoboda, morto em 2002, aos 81 anos. A obra e o pensamento dele transformaram as percepções sobre cenografia na segunda metade do século 20, conjugando tecnologia sem perder de vista a face humanista. A diferença é que o projeto atual é assinado por J.C. Serroni, que há oito anos mantém o Espaço Cenográfico, centro de referência na rua Teodoro Baiama.

Serroni e Hélio Eichbauer, que trabalhou com Svoboda, são interlocutores das representações do Brasil na Quadrienal de Praga, desde 1967 o principal evento mundial voltado para a cenografia. “Svoboda devotou seu talento genial ao teatro, sua musa mais efêmera, e dessa forma devemos rever a grandiosa obra de sua vida -pensando não somente em suas descobertas tecnológicas, mas em seu dom artístico e teatral”, diz Helena Albertovà, 64.

A curadora conviveu com o cenógrafo desde os anos 80 e prepara um livro que vai rastrear toda a produção do cenógrafo em teatro, dança e ópera. No dia 10, Albertovà fará uma palestra gratuita no Sesc sobre seu objeto de estudo, exibindo slides que dão conta da evolução do trabalho de Svoboda.

O artista foi revelado na Expo 1958, em Bruxelas, quando representou sistemas inovadores na apropriação de imagens e espelhos: a “lanterna mágica” e o “poliécran”. Em colaboração com Alfred Radok, artista tcheco decisivo em sua formação, buscou outra forma dramática na simbiose com telas, filmes, intérpretes etc.

“A Arte da Cenografia” permite uma imersão nessas experiências, ocupando o térreo e o terceiro andar do Sesc. Num dos módulos, construiu-se um túnel de 11 metros com os diversos efeitos de iluminação, projeção e reflexão de imagem. A entrada, no térreo, destaca sua trajetória de Praga para o mundo, com painéis de fotos que retratam mais de cem cenários concebidos para ópera e dança, como “Édipo Rei”, de Sófocles; “Anel dos Nibelungos” e “Tristão e Isolda”, ambos de Wagner.

Aliás, criações para encenações de obras do compositor alemão foram uma constante na vida do cenógrafo tcheco, ênfase percebida também no térreo. No terceiro andar são exibidos painéis fotográficos, maquetes de trabalhos internacionais e documentários sobre a produção de Svoboda. Em 1961, participou da seção de teatro da Bienal Internacional de São Paulo, onde expôs também em 1963 e 1965, sempre premiado.

A primeira grande mostra que chega por aqui marca o reencontro com a cidade por meio de material inédito. Em 1984, Svoboda escreveu: “Quando sento numa platéia deserta e olho para o espaço obscuro do palco, sou cada vez atraído pelo medo que ele se torne impenetrável. E espero que esse receio não me abandone jamais. Sem essa tentativa perpétua de revelar o segredo da criação, não há criação. É necessário sempre recomeçar do zero, e é isso que é maravilhoso”.



Josef Svoboda – A Magia do Espaço Teatral
Onde: Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, tel. 0/xx/11/3095-9400) 
Quando: abre hoje, às 20h, para convidados; a partir de amanhã para o público; de ter. a sex., das 13h às 21h30; sáb., das 10h às 21h30; dom. e feriado, das 10h às 18h30; palestra com Helena Albertovà: sáb., às 11h 
Quanto: entrada franca

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 07 de dezembro de 2005 

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Durante encontro em BH, profissionais criticam MinC e artistas

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Belo Horizonte

Teatro é, por natureza, conflito. E no Brasil deste final de 2005, o embate se dá fora de cena: artistas apontam o descaso do Ministério da Cultura em relação ao setor.

Em sabatina na Folha, o ator Paulo Autran afirmou que “ninguém da classe teatral sabe o que ele [Gilberto Gil] fez”. Também em entrevista à Folha, seu colega, Marco Nanini, disse que Gil “nunca foi ao teatro, não gosta”. Em resposta, o ministro Gilberto Gil afirmou que não prioriza o “teatro dos consagrados”.

Gerald Thomas, que dirige Nanini em “Um Circo de Rins e Fígados”, também critica o ministro: “Gil está matando a cultura teatral no Brasil por ser um total analfabeto no que diz respeito à infra-estrutura dramática: não sabe distinguir um intérprete de um dramaturgo; não sabe distinguir um autor dramático de ator”.

A peleja também respinga em Belo Horizonte (MG), onde termina hoje a 2ª edição do Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral).

Aqui, a voz é do teatro feito por grupos e companhias. Não por acaso, o evento acontece no Galpão Cine Horto, centro cultural do grupo Galpão, 23 anos.

“Os dois lados foram infelizes. Não é que o MinC não esteja fazendo nada. Não se faz nada no país há décadas, daí a demanda. E Gil também é um músico consagrado, o que também ajuda sua pasta”, diz o diretor Luiz Fernando Lobo, da companhia Ensaio Aberto (RJ).

Para a pesquisadora Iná Camargo Costa, o movimento Arte contra a Barbárie, de São Paulo, “já havia levantado essa lebre”.

“Não fazemos um teatro cuja consagração é a chancela do mercado, mas um teatro que tenha função social.” Nesse sentido, afirma a intelectual, “faltam esclarecimentos” tanto a Gil quanto aos seus críticos.

O Arte contra a Barbárie surgiu em 1999 por iniciativa de grupos paulistanos. Sua principal conquista foi a Lei de Fomento, de 2002 (cerca de R$ 9 milhões por ano repartidos para grupos selecionados por comissão).

Em sua participação anteontem, no Redemoinho, o presidente da Funarte (órgão responsável pelas artes cênicas no MinC), Antônio Grassi, disse que a pasta busca “uma política de Estado que tenha como alvo o cidadão”.

Mas o ministério não abre a torneira. Dois prêmios de fomento à produção, anunciados com pompa por Gil no início de 2005, ainda não vingaram: o Myriam Muniz (para o teatro) e o Klauss Vianna (para a dança). Grassi promete edital para janeiro de 2006: R$ 13 milhões para as duas áreas.

Gil passou o ano reclamando de contingenciamento. O governo cortou 57% do orçamento do MinC, que era de R$ 480 milhões.

Crise da cultura
Durante três dias de Redemoinho, cerca de 70 grupos de 11 Estados debatem assuntos relativos à “permanente crise da cultura e a omissão dos governos federal, estaduais e municipais no apoio e manutenção dos espaços”.

Relator da Lei de Fomento, o diretor Luiz Carlos Moreira (grupo Engenho Teatral, SP) afirma que os artistas, em geral, não têm clareza sobre as políticas públicas. “A classe precisa construir um teatro significativo para a sociedade, agir como sujeito histórico e não ficar na briga medíocre pela sobrevivência”, afirma.



O jornalista 
Valmir Santos viajou a convite do Galpão Cine Horto


Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 23 de novembro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Sexto volume de série reúne peças de Dionisio Neto, Pedro Bricio, Sérgio Roveri e Rosangela Petta, que é lida no CCBB

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Dois importantes projetos de dramaturgia contemporânea contracenam hoje em São Paulo. O ciclo “Dramaturgias”, que desde 2002 proporciona leituras e debates no Centro Cultural Banco do Brasil, abre uma data especial para receber o lançamento do sexto volume de “Teatro Brasileiro”, iniciativa da qual a Hamdan Editora, com sede em Belo Horizonte, se ocupa desde 1997.

“Teatro Brasileiro” apresenta mais quatro textos. Em “Camaleões – Dourados-do-Paraíso”, Dionisio Neto, de São Paulo, define como “grand guignol antropofágico-ecológico” a história que envolve um traficante de peles, uma bandeirante e um ativista ecológico. Seres em extinção, tanto quanto os animais em xeque. A peça participou do ciclo “Leituras de Teatro”, em 2003, evento realizado pela Folha desde 1996.

Comédia de época
“A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica”, de Pedro Bricio, do Rio, é o único texto do livro que já foi montado neste ano e segue em cartaz no Rio.

A comédia se passa num reino fictício do século 18, onde um confeiteiro atravessa intrigas, amores e ilusões para vencer o concurso de tortas do rei.

Em “A Vida que Eu Pedi, Adeus”, Sérgio Roveri, de São Paulo, expõe de forma cruel e tragicômica o cotidiano de um casal desempregado que administra a miséria na esquina, território de pedintes e ambulantes, engolidores de fogo etc.

Duas mulheres cutucam a falocracia na comédia “A Mulher com Ele”, de Rosangela Petta, de São Paulo. Uma executiva perde a vaga de vice-presidente de um banco, vê preconceito por ser mulher, toma um porre com uma amiga avoada e recém-separada e, por fim, descobre que um pênis nasceu entre suas pernas.

O texto escrito po Petta será lido à noite, com interpretação de Ilana Kaplan e Thereza Piffer, sob direção de Cristina Mutarelli.

Debate
Antes, pela manhã, ocorre uma mesa-redonda com participações do ator Ricardo Pucetti, do grupo Lume, e dos diretores Eduardo Tolentino de Araújo, do Tapa, e Marco Antonio Rodrigues, do Folias d’Arte.

A mediação será feita pelo crítico e ator Alberto Guzik, que integra o conselho editorial da Hamdan, ao lado do também crítico Marcos Ribas de Faria e do diretor Paulo César Bicalho.

Guzik já dirigiu e atuou em peças de Roveri, selecionado entre os 414 textos enviados para a coleção neste ano.

A responsável pela coleção, Soraya Hamdan, 46, não vê problema. “Foi a segunda vez que o Sérgio [Roveri] enviou um texto. Ele é um autor de porte, com trabalho continuado, não é um dramaturgo sazonal”, diz Hamdan.

Dos 20 espetáculos publicados nos volumes anteriores, 16 já foram levados à cena.



Especial Dramaturgias
Quando: hoje, às 11h (mesa-redonda) e às 20h (leitura da peça “A Mulher com Ele”, de Rosangela Petta) 
Onde: CCBB-SP – teatro (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/ 3113-3651) 
Quanto: entrada franca

Coleção Teatro Brasileiro – sexto volume
Editora: Hamdan (distribuição gratuita para bibliotecas pelo e-maildoacaohamdan@terra.com.br
Quanto: R$ 29 (230 págs.)