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Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 24 de outubro de 2005

TEATRO 
Paulo José dirige segundo espetáculo consecutivo do grupo mineiro; nas entrelinhas, há referências a Lula e Bush

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

E agora, José?

Paulo José responde em companhia de Bertolt Brecht e Galpão. Esse homem de 68 anos fala com rara propriedade da obra e biografia do dramaturgo alemão que pontuou vários momentos de sua carreira.

Segunda encenação consecutiva com o grupo mineiro, depois de “O Inspetor Geral” (2003), do russo Gogol, “Um Homem É Um Homem” vem instaurar pertinente reflexão sobre a falta de ética (pública e privada) e a fixação bélica no bangue-bangue que virou a vida contemporânea no Brasil e no mundo.

O espetáculo estreou na semana passada, em Belo Horizonte. Narra a desconstrução da personalidade do estivador Galy Gay, um sujeito simples, incitado a se passar por outro, um soldado do grupo de metralhadoras de um exército estrangeiro que invade seu país. A peça disseca a condição humana, a tentação do chamado toma-lá-dá-cá.

Publicada em 1927, se passa originalmente num acampamento militar de tropas britânicas na Índia. À época, o Ocidente já tergiversava sobre a “guerra pacificadora”, ou a “guerra preventiva”, atualizada por George W. Bush.

O presidente norte-americano não está lá denominado, ainda que se ouçam acordes do hino daquele país que hoje ocupa o Iraque. Tampouco é difícil não associar o desmonte de Galy Gay (interpretado por Antonio Edson) à crise que acomete o presidente brasileiro e o PT.

“A falha trágica do Lula é que ele quis ser presidente a qualquer preço. Vendeu a alma ao diabo”, diz José.

O viés político é subtexto. Não se politiza a cena para dizer a que veio, recurso que, segundo o diretor, gera muita incompreensão em torno de Brecht.

“Um Homem É um Homem” desliza para o escaninho da comédia, mas sabe-se que, em se tratando do autor alemão, nem tudo é o que parece. Há cenas dramáticas, líricas, musicais de cabaré e sobretudo cenas épicas, com a figura do narrador.

“Não é uma peça que se explique facilmente. É que foi escrita por um poeta. Brecht não se segura nos limites convenientes do drama. Ele se espraia”, diz José.

E o Galpão apresenta o espetáculo num circo que ergueu no quintal de um palacete imperial de 1896, picadeiro-barricada em meio a lonas envelhecidas. É como se o grupo voltasse à cena de origem com pernas-de-pau à la “A Alma Boa de Setsuan”, um Brecht levado à rua 23 anos atrás fruto de oficina com atores alemães, o berço da companhia.

Aninhado por Brecht e pelo coletivo Galpão, José agora é.



O jornalista 
Valmir Santos viajou a convite do grupo Galpão.

Um Homem É um Homem 
Quando:
 qui. a dom., às 20h; até 6/11
Onde: Casa do Conde de Santa Marinha (r. Januária, 130, Floresta, Belo Horizonte, tel. 0/xx/ 31/3273-6666)
Quanto: de R$ 10 a R$ 20

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 22 de outubro de 2005

TEATRO 
Montagem do Teatro de Narradores tira foco feminista da protagonista Nora e expõe violências pública e privada

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Quando Nora bate a porta e vai-se embora em “Casa de Bonecas” (1897), ela faz mais barulho do que tão-somente romper com a ordem matriarcal do séc. 19 recortado pela dramaturgia do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906).

A personagem encerra enigmas para além da visão universalista da mulher que abandona marido, filhos e, com licença, vai à luta.

Mais de um século depois, qual seria o seu destino? O que mudou de lá para cá?

Ao mergulhar naquilo que faz com que cada pessoa se torne o que é, o grupo Teatro de Narradores chegou a “Nossa Casa de Bonecas”, montagem que estréia hoje no Fábrica São Paulo.

Não se recusa a perspectiva da liberação da mulher no clássico de Ibsen. “Mas a questão que nos colocamos é: qual foi o custo disso, o que mudou de fato nessa sociedade e como essa mulher se enquadra hoje?”, diz o diretor José Fernando Peixoto de Azevedo, 35.

Reduz-se o foco na protagonista e radicaliza-se a análise das relações que envolvem todos os personagens. Transposta para o contemporâneo, essa Nora da classe média paulistana (interpretada pela atriz Teth Maiello) não é “simplesmente ingênua”, diz.

É de menos conhecer as razões que a levaram a ocultar durante anos a falsificação da assinatura do pai para presentear o marido com uma viagem. Justamente os dois que a fazem de joguete.

Nora foi movida por interesses próprios antes de pôr fim ao casamento de oito anos. “Herdou uma cultura que joga com essas possibilidades”, diz Azevedo.

Ibsen nos lembra que a sabotagem é ainda uma marca dos interesses público e privado.

“Levamos a sério o fato de que mais de um século depois, tal ruptura integra-se ao movimento fetichista que envolve a vida, e que toda nova tentativa corre o risco da sabotagem”, afirma o grupo no programa do espetáculo.

Foi cotejada a tradução de Karl Erik Schollammer e Aderbal Freire-Filho, este o diretor de montagem recente que passou pela cidade. Azevedo diz que fez poucas adaptações e procurou preservar o texto de Ibsen.

O espaço cênico é dominado pelo vazio e pelo branco, no chão e ao fundo. “Esses personagens fazem um esforço grande para apagar os vestígios, por isso o passado vem à tona de maneira tão radical”, diz Azevedo.

Completam o elenco André Collazzi, Barbara Araujo, Clayton Freitas e Paulo Barcellos. 



Nossa Casa de Bonecas
Quando:
 estréia hoje, às 21h; sáb. e dom., às 20h; até 18/12 
Onde: Teatro Fábrica São Paulo (r. da Consolação, 1.623, tel. 3255-5922) 
Quanto: R$ 20
 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 21 de outubro de 2005

TEATRO 
Documento assinado pelas organizações foi entregue ao Ministério da Cultura e a comissões no Congresso

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Recursos para ações emergenciais de fomento às artes cênicas até dezembro. O item encabeça documento assinado por 114 entidades e apresentado anteontem na reunião nacional da câmara setorial de teatro em Brasília, organizada pela Funarte, órgão do MinC (Ministério da Cultura).

Ontem, o documento foi encaminhado às comissões de Educação e de Cultura do Senado e da Câmara, que podem deliberar sobre emendas do orçamento do MinC.

As entidades, que representam vários Estados, pedem prioridade para o desenvolvimento das artes cênicas e inclusão de ao menos oito itens na agenda das comissões.

Segundo o documento, em três anos de governo Lula foi lançado apenas um edital para teatro, com foco na circulação de espetáculos.

“Que em 2006 não haja contingenciamento no orçamento do Ministério da Cultura”, diz o documento, tocando o nervo exposto na pasta de Gilberto Gil.

Em 2005, foram retidos 57% do orçamento de R$ 480 milhões do MinC. O governo justifica que usou o dinheiro para o pagamento de juros da dívida externa. O próprio Gil reclamou recentemente de que ficou “à míngua” e esperava dias melhores em 2006.

As entidades reconhecem que, tecnicamente, não há prazo para o lançamento de edital até o final de 2005 (no mínimo 45 dias) e propõem emenda que destine R$ 30 milhões no início de 2006 relativos aos Prêmios Myriam Muniz (de fomento ao teatro) e Klauss Vianna (fomento à dança).

A Funarte chegou a anunciar os dois prêmios para 2005, mas recuou por falta de recursos.

“O documento está em sintonia com o que as câmaras setoriais vêm discutindo nos Estados e com os programas que elaboramos”, diz o presidente da Funarte, Antonio Grassi. O encontro também foi acompanhado pelo secretário-executivo do MinC, Juca Ferreira.

O documento endossa ainda a reivindicação de outros setores da cultura para que o MinC alcance 2% do orçamento federal -outra bandeira de Gil.

Entre as entidades que subscrevem o documento, estão a Apetesp (Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo) e a Abracirco (Associação Brasileira de Circo).

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 20 de outubro de 2005

TEATRO 
Ishin-Ha busca o limite de cada linguagem em “A Porta do Verão”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Em tradução livre, por Erika Yamauti, o nome da companhia japonesa Ishin-Ha significa “Partido da Revolução”. A trupe nasceu há 25 anos, em Osaka, motivada a confrontar as tradições nas artes cênicas. O que não implica mera ruptura.

“O teatro japonês é múltiplo, as várias correntes se respeitam e de certa forma se harmonizam. A vanguarda remete muitas vezes ao antigo”, disse o diretor Yukichi Matsumoto, 59, à Folha.

Ele é um dos fundadores da Ishin-Ha, que vem ao Brasil com o espetáculo mais recente, “A Porta do Verão” (“Natsu no Tobira”).

Em dez cenas com 28 atores-dançarinos, o espetáculo flagra um típico dia da estação, sob o ponto de vista de uma menina (Yuriko Koyama) que passa as férias assistindo à televisão e funde fantasia e realidade.

As apresentações acontecem de amanhã a domingo no Sesc Santos. Abaixo, os principais trechos da entrevista com Matsumoto.


O DESAFIO – O embate para o criador é exatamente usar as formalidades clássicas para alcançar a contemporaneidade. A Ishin-Ha já trabalhou com contos tradicionais japoneses. Acho que as peças clássicas têm características de contos e, nesse sentido, os jovens podem entender melhor seu significado, sua narrativa, de modo presente.


A MUSICALIDADE
– 
O termo Jan Jan Ópera tem a ver com os “chindonyá”, artistas de rua que antigamente andavam pelas vilas japonesas, tocando tambor, pratos, cornetas e divertindo as pessoas com o barulho, conhecido como “jan jan”. Eu busco preservar a musicalidade das palavras. Se respeitarmos a musicalidade contida nas palavras faladas, não é preciso colocar outra música. Chamar isso de ópera nos causa uma certa angústia. Por outro lado, chamar de musical também se distancia muito. Por isso, tento construir um musical sem música, utilizando a música do cotidiano.
 

O TEATRO TOTAL – Eu penso no teatro realmente como uma experiência completa. Existe um tipo de teatro, é claro, que remete à palavra, mas o que eu chamo de teatro total, que é o objetivo do Ishin-Ha, é tentar extrair a máxima potência, a especificidade de cada linguagem, seja a música, a dança, o espaço cênico. A minha concepção de cenário, por exemplo, é que ele seja como os atores: se transforme e se movimente. 



A Porta do Verão 
Quando:
 amanhã e sáb., às 20h30; dom., às 20h
Onde: Sesc Santos (r. Conselheiro Ribas, 136, Santos, tel. 0/xx/13/3227-5959).
Quanto: de R$ 10 a R$ 20 – ingressos esgotados
 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 19 de outubro de 2005

TEATRO

Intervenção do suíço Stefan Kaegi transforma porteiros em protagonistas na calçada da av. Paulista

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Quando foi a última vez em que você olhou nos olhos do porteiro do prédio, aquele homem atrás do vidro fumê, dono da voz ao interfone?

Muitas vezes alvo de galhofas, esses personagens “invisíveis” da cidade, no vão entre a classe social que guarda e a classe social que o espia da rua (e à qual pertence), ocupam a cena na intervenção “Torero Portero”, projeto que o diretor suíço Stefan Kaegi apresenta de hoje a sexta-feira na calçada e portaria do Sesc Paulista, em plena avenida cartão-postal.

Três porteiros de Buenos Aires, dois do Rio de Janeiro e um de São Paulo narram episódios da vida e do ofício em meio à dramaturgia costurada por Kaegi, que casa imagens do filme “Por Amor ou por Dinheiro” (1993), no qual um recepcionista de hotel interpretado por Michael J. Fox sonha em montar seu próprio negócio.

A intenção é inverter os papéis sociais. “No teatro, gosto de usar e abusar desses mecanismos de representação. Busco um caráter mais documental”, diz Kaegi, 33.

O artista se diz cansado da formação de ator, sobretudo na Europa, que resulta em “artefato que os põe muito distante da vida”. Daí a predileção por não-atores.

“Torero Portero” -o título encerra mais sonoridade do que significado- nasceu na cidade argentina de Córdoba, em 2001, quando os porteiros desempregados Edgardo Freitas, Thomas Kenny e Juan Spicogna atenderam ao anúncio dos jornais para participar do projeto.

Juntam-se a eles agora os brasileiros Antônio Paulino Tadeu e Manoel Paiva Carneiro, vindos do Rio de Janeiro.

Dessa vez, a platéia vai postar-se do lado de cá da “cápsula de vidro”, a perspectiva da portaria. “Interessa-me sondar os mecanismos de teatralização que transformam nossas vidas cotidianas, demasiado artificiais”, afirma Stefan Kaegi.

Radicado na Alemanha, ele é ligado ao grupo Rimini-Protokoll, cujo trabalho também poderá ser conhecido na exposição “A Vida Interessa Mais Que o Teatro”, reunião de vídeos, fotos e textos de seis projetos no Instituto Cultural Capobianco.

Na performance “Call Cutta”, por exemplo, um espectador de Berlim atende a uma ligação de um funcionário que está na Índia, mas se passa por alemão, pois sua origem pode provocar desconfiança.



Torero Portero
Quando: hoje, amanhã e sexta, às 20h e às 22h
Onde: Sesc Paulista – portaria (av. Paulista, 119, tel. 3179-3700)
Quanto: entrada franca 

A Vida Interessa Mais Que o Teatro
Onde: Instituto Cultural Capobianco (r. Álvaro de Carvalho, 97, centro, tel. 3237-1187)
Quando: de qua. a sáb., das 14h às 18h; até 18/11
Quanto: entrada franca

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 13 de outubro de 2005

TEATRO 
Roberto Lage dirige drama do escritor japonês protagonizado por Bárbara Paz e inspirado na mulher do marquês

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

 

A mulher mantém-se fiel a todo custo. O marido passa 18 anos na prisão, acusado pelos crimes de “sodomia e corrupção de costumes”. Tratou mendigas, prostitutas e quejandos com bombons e chicotes. Mas, quando Donatien Alphonse François, o marquês de Sade, é colocado em liberdade, a marquesa Renée o abandona em troca da reclusão de um convento. Por quê? A prisão aliviava o ciúme? A mulher via nisso um auto de fé? Masoquismo?

O escritor japonês Yukio Mishima especula o enigma em “Madame de Sade” (trad. de Darci Kusano), drama que ganha montagem de Roberto Lage em São Paulo, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP).

Tomando como base o livro “A Vida do Marquês de Sade”, de Tatsuhiko Shibusawa (1928-87), Mishima intuía que algo incompreensível, mas revelador da verdadeira natureza humana, estava por trás daquele gesto de Renée.

Elegeu-a protagonista, aqui em interpretação da atriz Bárbara Paz, desafiada a outro registro que não o do conhecido talento como comediante. A marquesa surge ao lado de outras duas personagens reais: sua mãe, madame de Montreuil (por Imara Reis), o império da lei e da moral; e sua irmã, Anne (Jerusa Franco), a candura e a falta de princípios. Mishima criou ainda mais três papéis fictícios para projetar um olhar feminino sobre o pensamento de Sade, entre o sagrado e o profano: a religiosa baronesa de Simiane (por Maria do Carmo Soares); a pervertida condessa de Saint-Fond (Tania Castelo); e a criada Charlotte (Denise Cecchi), representante do povo nessa história de nobrezas nem tantas.

Trajes de razão
“Senti-me obrigado a dispensar totalmente os efeitos de cena comuns e triviais e controlar a ação exclusivamente através dos diálogos; as colisões de idéias tiveram que criar a forma do drama; as de sentimentos tiveram que ser inteiramente exibidos em trajes de razão”, diz Mishima no prefácio da peça que escreveu cinco anos antes de cometer o haraquiri (matar-se com uma espada no ventre), em 1970.

Os três atos compreendem 18 anos do século 18, até meses depois da Revolução Francesa. A ação se passa no salão de madame de Montreuil, em Paris. Desenrola-se um jogo de dissimulações e alianças espúrias que Lage recorta para o plano da estilhaçada política brasileira e seus vícios. A criada fica o tempo todo em cena, como se o povo espreitasse constantemente os acordos e discussões da aristocracia. 



Madame de Sade
Quando:
 estréia amanhã (para convidados); sáb. e dom., às 19h30. Até 11/12 
Onde: CCBB-SP (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/3113-3651) 
Quanto: R$ 15
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 13 de outubro de 2005

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Do Enviado ao Rio

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Três anos após ter sido revelado para o mundo na Expo 58, em Bruxelas, o tcheco Josef Svoboda participou da Bienal de São Paulo, onde foi premiado por suas instalações inovadoras na apropriação de recursos tecnológicos.

Conceitos como a “lanterna mágica” (com projeções de espelhos) e o “poliécran” (representação audiovisual com colagem de imagens projetadas em múltiplas telas) instauraram uma relação entre artes cênicas e tecnologia.

Um alentado panorama da trajetória de Svoboda (1920-2002) pode ser conferido até o final do mês na Mostra Tcheca, dentro do 6º riocenacontemporânea.

São três andares com referências a boa parte de suas criações para cerca de 700 espetáculos em vários países, invariavelmente aliando técnicas de cinema às do teatro. São mais de 50 itens, incluindo fotos, esboços, maquetes, além de exibição de vídeos.
A curadora Helena Albertová, 64, que conviveu com o artista desde os anos 80, também prepara um livro para documentar todas as produções do cenógrafo.



O jornalista 
Valmir Santos viajou a convite do festival 

Mostra Tcheca
Quando:
 ter. a dom., das 11h às 20h. Até 31/10 
Onde: Centro Cultural Telemar (r. 2 de Dezembro, 63, Flamengo, Rio, tel. 0/xx/ 21/3131-3060) 
Quanto: entrada franca 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 09 de outubro de 2005

TEATRO 
“Jung, Sonhos de uma Vida”, “Divã” e “Segredo” usam base em legado de Freud para enveredar pelos mistérios da alma

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Pode soar redundante buscar um extrato psicológico no teatro quando é de sua natureza desmascarar humanidades em comédias, dramas, tragédias e variantes. Mas a temporada atual apresenta pelo menos três peças que se aproximam dos ditos mistérios da alma à moda do legado de Sigmund Freud (1856-1939).

O espectador se depara com a vida de um grande discípulo e dissidente de Freud em “Jung, Sonhos de uma Vida”, em cartaz no Espaço Promon; compartilha revisões pessoais de uma mulher em plena crise dos 40 anos em “Divã”, no teatro Faap; e vê o depoimento pessoal dos 17 atores de “Segredo”, no Tusp (veja ao lado).

Segundo o ator Jayme Periard, 44, no papel-título de Jung, a intenção é “mostrar o homem em suas contradições e buscas, não só científicas, mas espirituais, já que na infância ele teve experiências mediúnicas”. A tônica é de uma pessoa simples, amante das artes e de outras ciências.

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) desenvolveu, com Freud, as primeiras teorias psicológicas fundamentadas no inconsciente. A dramaturgia é assinada pela psicóloga e escritora Eliana Zuckermann, que tomou como base o livro “Memórias, Sonhos e Reflexões”, de Jung.

O ponto de partida é uma entrevista que Jung concedeu aos 86 anos, a idade em que morreu. A conversa com uma jornalista o leva à relação com os pais, pacientes e as mulheres que amou (a mãe, a mulher, a amante e a filha).

Em busca de casar palavra e emoção, o diretor Rogério Fabiano pretende colocar em primeiro plano atitudes ou sentimentos como coragem, inteligência e sensibilidade. Em sua opinião, não é preciso entender de psicanálise para compreender o espetáculo.
Em “Divã”, Lilia Cabral vive Mercedes, a protagonista do romance de mesmo nome da gaúcha Martha Medeiros. Trata-se de uma quarentona casada, com dois filhos, vida estabilizada, que resolve procurar um analista.

A curiosidade transforma-se numa experiência devastadora. Surgem várias faces dela: a discreta, a apaixonada, a ciumenta, a sensual etc. Somam-se as figuras do marido e da melhor amiga, como a sugerirem contrapontos.

Em “Segredo”, o grupo Tusp apresenta a sua terceira incursão pelos quatro elementos: “Horizonte” (2000) elegeu a água; “Interior” (2002), a terra. Agora, o ar serve à metáfora daquilo que está “invisível”. O elemento fogo terá lugar em projeto para 2006.
Histórias vividas pelos atores costuram a dramaturgia, uma sucessão de quadros que tratam de amor, fé, sexualidade, família, violência, solidão e esperança.

“Não se trata de expor a intimidade das pessoas como fenômeno contemporâneo de comunicação”, diz o diretor Abílio Tavares. Ele quer dar conta dos sentimentos mais profundos das pessoas, despertando nelas o desejo de mudança. O grupo contou com assessoria terapêutica e fez um retiro na serra da Mantiqueira. 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 08 de outubro de 2005

TEATRO 
Profissionais do riso “batem bola” com a platéia de torcedores no espetáculo futebolístico “Jogando no Quintal”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Neste fim de semana, tem jogo na quadra da escola municipal Desembargador Amorim Lima, no Butantã. De um lado, 12 palhaços e suas variações sem fim. De outro, cerca de 600 “torcedores” passionais. Nos últimos anos, a bola da vez tem sido “Jogando no Quintal”, espetáculo que não é circo, não é teatro, não é pelada -e isso não importa.

O boca a boca se iniciou em 2001. Precipitou uma geografia da “palhaçaria futebol clube” por casas e quadras da zona oeste.

Você talvez já tenha ouvido falar da história dos palhaços César Gouvêa e Márcio Ballas, ambos de 33 anos. Eles decidiram criar, no quintal da casa do primeiro, um espetáculo que unisse duas paixões: palhaço e futebol.

A brincadeira nasceu do desejo de pesquisar novas possibilidades artísticas para essa figura que transita o picadeiro e o palco. Ballas havia recém-chegado da Europa, onde trabalhou com a Palhaços sem Fronteiras, organização não-governamental internacional na Espanha que atua com populações em zonas de conflito e exclusão.

Foi lá que ele tomou conhecimento da experiência de um espetáculo de improviso teatral sob as regras do hóquei, esporte popular entre os europeus.

“Jogando no Quintal” é enredado pelo fictício Clube de Regatas Cotoxó (CRC), com direito a todos os ritos (e risos) futebolísticos conhecidos do brasileiro: dois times (camisa azul versus camisa cor-de-abóbora, por exemplo), hino do clube, placar, bandeiras, juiz, jogadores e, é claro, torcida.

O território do CRC é demarcado desde a chegada à escola: luzinhas coloridas à entrada conduzem a um “estádio” com arquibancada e barracas de bebidas e guloseimas em seu entorno. Afinal, são três horas de duração, com direito a intervalo do primeiro para o segundo tempo.

A idéia é deixar o público à vontade para sugerir sentimentos, situações ou objetos com os quais os dois times são obrigados a improvisar cenas, tudo ao som de uma banda.

O espetáculo mensal (sempre no primeiro final de semana) conquistou popularidade fora do circuito convencional. Não falta talento aos palhaços-atletas da Companhia do Quintal para manter o pique no lugar



Jogando no Quintal
Quando:
 hoje, às 21h, e amanhã, às 19h 
Onde: escola Desembargador Amorim Lima (r. Prof. Vicente Peixoto, 50, Butantã, tel. 3672-1553) 
Quanto: R$ 15
 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

 


 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 08 de outubro de 2005

TEATRO

Peça baseada em contos de Monteiro Lobato leva 120 criadores ao largo da Memória para discutir uso do espaço público

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Na São Paulo da década de 20, a polícia era dada a combater o “parasitismo urbano”. Até engraxate tinha de apresentar licença aos fiscais da prefeitura para “exercer legalmente a sua profissão”. Enquanto isso, a vestal administrativa era carcomida pela corrupção em seus mais variados graus. Ontem como hoje.

Um recorte da “imoralidade pública” na obra de Monteiro Lobato (1882-1948) inspira a peça “Honestamente”, âncora de uma intervenção coletiva de mesmo nome que ocupa o centro paulistano amanhã, na região do Anhangabaú, com produção do vizinho Instituto Cultural Capobianco.

Cerca de 120 artistas estão envolvidos no projeto que prevê a saída de dois cortejos às 11h, um da Biblioteca Mário de Andrade e outro do Teatro Municipal, que convergem para o Largo da Memória, onde a peça será encenada por volta das 12h de um domingo de ruas mais vazias.

“Honestamente” é resultado de oficina de dramaturgia ministrada pela tradutora Christine Röhrig em 2004. Trata-se de livre adaptação de dois contos de Lobato, “Um Homem Honesto” e “O Fisco”, escritos nos anos 20.

No primeiro, humilde funcionário de repartição pública, que atende por João Pereira, é motivo de chacota na família e entre amigos porque encontra um pacote de dinheiro no trem e o devolve à polícia. Em casa, não suporta a pressão e a zombaria da mulher, uma doceira, e das filhas “desejosas” de tudo que o dinheiro pode. Bem e Mal materializados para um desfecho trágico.

Já em “O Fisco”, o narrador associa a cidade a um organismo humano, no qual os passantes, por exemplo, formam a artéria, e os gatunos são micróbios perturbadores da ordem.

A dramaturgia traz à tona face menos conhecida de Lobato, autor consagrado pelas historias infanto-juvenis.

A relação do morador com a cidade e as fissuras antiéticas nos planos público e privado compõem a narrativa de “Honestamente”, chapiscada pelas denúncias de corrupção que abalam o governo Lula e pelas ações “higienistas” que a gestão José Serra pratica, segundo críticos à sua administração.

“São Paulo era muito diferente no início do século 20, mas a desonestidade não mudou”, diz Röhrig, 47. “A peça é um grito entalado. Basta ver os cidadãos que estão sendo expulsos dos espaços públicos, e os moradores cada vez mais isolados em seus bunkers ou atrás dos vidros fumês.”

Não por acaso, a apresentação tem cume no largo da Memória, espaço praticamente abandonado e um literal mictório público.

Coube ao ator e diretor Alvise Camozzi, 31, italiano que vive em São Paulo, dar liga ao emaranhado de participações em “Honestamente”. Constam os núcleos da Cia. Paidéia de Teatro (dirigida por Amauri Falseti, que já encenara a peça no ano passado); a Cia. Zaum (formada por pacientes do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Água Funda, dirigido por Cássio Santiago); e Cia. Elevador de Teatro Panorâmico (de Marcelo Lazaratto).

“O projeto impulsiona o questionamento da nossa relação com o dinheiro”, diz Alvise.

O mutirão artístico soma o maracatu do grupo O Imaginário da Percussão Popular, o coral da Paidéia, a orquestra Olho d’Água e atores e músicos do Centro Cultural Monte Azul.

A intenção é desenhar um percurso trágico por asfalto e calçadas. Antes, serpenteia a serenidade, a festa e a simetria. Ao fim, há a conseqüente implosão da harmonia e vem a última parada do bonde de João Pereira. Tudo por causa de alguns mil-réis.



Honestamente
Onde: largo da Memória, s/ nº, região central (mais informações pelo tel. 0/xx/ 11/3237-1187) 
Quando: amanhã, às 12h. Única apresentação 
Quanto: entrada franca