Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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São Paulo, quinta-feira, 18 de agosto de 2005
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Não bastasse a imagem no poder, os tempos de “operação narciso” mandam mostrar tudo o que convém. O poeta, dramaturgo e ex-presidente da República Tcheca (antiga Tchecoslováquia), Vaclav Havel -no poder entre 1989 e 2003-, já escancarava isso lá no Leste Europeu dos anos 70 -antes do apogeu do império do aparecer sobre o ser-, numa das suas peças que deixam de ser inéditas no Brasil a partir de hoje, com a estréia de “Vernissage” no teatro do Sesi Vila Leopoldina, na zona oeste.
A diretora Soledad Yunge e a cia. 3 de Sangue já haviam anteriormente montado “A Audiência” (2000), que volta a entrar em cartaz na seqüência das três semanas de “Vernissage”. As duas peças compõem, assim, um pequeno, pioneiro e significativo repertório da obra de Havel, 68.
Nas duas histórias, surge Vanek (sempre interpretado por Edu Guimarães), dramaturgo e alter ego de Havel. Para sobreviver à crise econômica, o personagem intelectual trabalha numa cervejaria, armazenando a bebida em barris.
Em “A Audiência”, ele é coagido pelo chefe estúpido (interpretado por Laerte Mello) a descrever suas atividades atuais, patrulhamento ideológico na base faustiana do “eu coço as costas dele, ele coça as minhas e eu coço as tuas”, como argumenta o superior que acena com promoção. Assim como o Brasil vê autoridades e políticos que põem a alma à venda.
O assédio moral ganha proporções sexuais em “Vernissage”. Certa noite, Vanek é convidado por um casal que se diz amigo, Vera e Michael (por Vera Kowalska e Marcos Cesanae) para conhecer o apartamento que acabaram de reformar, superdecorado para a devida exposição.
Segue-se um strip-tease pequeno burguês, elogio da família e da propriedade; e dá-lhe julgamento e desprezo ao outro.
A casa como porto seguro. O filho como esteio. A comida como exemplo da boa e servil dona-de-casa. O excesso de “carinho” que o casal diz nutrir pelo amigo chega ao cúmulo da exibição de sua performance sexual para o pobre coitado que não vive bem com a mulher (Eva, oculta na peça) e anda mal acompanhado por colegas comunistas. Tudo segundo a ótica do “casal-modelo”.
Vanek chega a ser tachado de egoísta, insensível, ingrato e traidor. Tudo por resistir à engrenagem -ou pelo simples ato de tentar resistir.
“”Para que existam, Vera e Michael necessitam de fazer esse show para alguém. Numa vida em função de padrões, ter filhos é a mesma coisa que comprar uma peça de roupa”, explica a diretora Soledad Yunge, 38. Uma vida que parece ser tão utilitária quanto o descascador de amêndoas elétrico que o marido comprou em viagem à Suíça.
Yunge também assina outra peça na cidade, “A Dança do Universo”, com a cia. Arte Ciência no Palco, em cartaz no teatro João Caetano.
A Audiência Quando: de 8/9 a 7/10; qui. e sex., às 20h
Onde: Sesi Vila Leopoldina
Quanto: entrada franca
17.8.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 17 de agosto de 2005
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Quando Alonso Quijano, o bom, põe-se dentro de uma armadura para cavalgar o mundo em “Dom Quixote”, ele será mobilizado pelo conflito da realidade exterior com aquela que ocupa o vão entre o seu corpo e a couraça de metal -a despeito do fiel contraponto realista do escudeiro Sancho Pança.
A mediação de espaços da realidade e do imaginário fornece algumas pistas para sondar a obra de Miguel de Cervantes à luz, ou melhor, à sombra deste século 21.
Na gramática, como na vida, às vezes uma crase, ou a ausência dela, pode mover moinhos. Daí vem “A Sombra de Quixote”, a primeira produção da Casa Laboratório para as Artes do Teatro, que inicia temporada no sábado no Sesc Belenzinho e integra a Mostra Sesc de Artes Mediterrâneo.
O caminho escolhido pela equipe de criação foi o do questionamento dos interstícios desse conflito, que levou o engenhoso fidalgo a deixar sua casa e perseguir os ideais cavalheirescos de justiça, paz e amor (além de sua amada Dulcinéia), como nos livros que o seduziram.
“Um homem veste armadura para fugir da realidade, mas uma outra realidade o chama, a teatral. Abandona o que endossou para viver um cotidiano nu e cru, em que não há espaço para a fantasia”, diz o ator paraense Cacá Carvalho, 51, que co-assina a direção com o italiano Roberto Bacci, colega da Fondazione Pontedera.
Para adentrar essa realidade “marionética”, neologismo cunhado por Carvalho, a dramaturgia do italiano Stefano Geraci elegeu passagens e temas do romance de 400 anos. Dom Quixote não é denominado, mas está lá, plenamente identificável pelo espectador.
A metáfora da sombra na peleja com a luz é como a dança da literatura com o teatro. “Importa o que a literatura sugere para o teatro e não o que o teatro pode botar de literatura dentro da cena”, diz Carvalho. O trabalho em grupo o faz lembrar de “Macunaíma” (1978), de Antunes Filho.
No galpão 2 do Belenzinho, o diretor de arte Márcio Medina “tirou tudo o que não era espaço” e criou uma caixa mágica, um salão em que o vermelho domina cenografia e figurinos, sob desenho de luz de Fábio Retti.
O conjunto Casa Laboratório surgiu em São Paulo no ano passado, em intercâmbio de Brasil e Itália -a ponte é a Fondazione Pontedera, que existe há 30 anos e com a qual Carvalho colabora há 18. Atina com a estabilidade do núcleo e conseqüente produção, formação e troca com a comunidade em geral. “Queremos o simples, eficaz e transformador”, frisa ele.
10.8.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 10 de agosto de 2005
TEATRO
Em sua terceira edição, Festival Mundial de Circo do Brasil assume palco italiano e traz duas atrações da África
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Além da acrobacia semântica no nome, o Festival Mundial de Circo do Brasil deixa cada vez mais gente de boca aberta e olhos arregalados em Belo Horizonte
Não só pelas atrações nacionais e internacionais, mas pelo formato amadurecido em cinco anos.
A terceira edição, realizada de hoje a domingo, deseja suplantar a noção de mera vitrine das artes circenses e consolidar-se como encontro que sabe conjugar entretenimento, reflexão e formação, para ficar em três pés.
Dos quatro artistas internacionais deste ano, por exemplo, não há representantes do novo ou velho e bom circo, como a França, a China ou talvez o Canadá (sede da famosa “usina” do Cirque du Soleil), acolhidos em 2001 e 2003, mas uma dobradinha que vem de Gana, na África, especificamente da capital Acra: o trio do Osibisa Acrobats e uma espécie de “one man show”, Oppon Dickson.
Segundo a organização, Dickson bebe 4,5 litros d’água em segundos e depois jorra como uma fonte durante um show de truques com fogo. Encarna a expressão do artista de rua africano.
Idem os acrobatas conterrâneos Alfred Petu, Benjamin Gyamfi e George Lamptey Odärtey, que armam saltos, pirâmides e contorcionismo ao som de ritmos nativos, habilidade colada ao humor.
Circo no teatro
Outro aspecto importante na programação do festival é a ruptura com um preconceito, como reconhece a coordenadora Fernanda Vidigal, 33.
Pela primeira vez, o festival não só flerta incestuosamente com a linguagem do seu irmão teatro, como também ocupará dois palcos italianos.
“Tínhamos certo preconceito e vimos que é era uma bobagem. O circo-teatro é tão importante quanto”, diz a coordenadora, a espelhar autocrítica do meio.
Prova disso é a presença do Circo Zanni, projeto paulista que, desde 2003, une artistas das primeiras gerações de escolas de circo do país, como a Picadeiro. São números tradicionais recriados sob lona decorada com luzinhas e chão coberto por serragem.
“O Zanni lança um novo olhar, mas dialoga com a tradição, apesar de não ser uma família circense, como ocorre à maioria dos circos sob lona no Brasil”, diz Vidigal. O nome do coletivo é uma referência a um dos matizes da Commedia Dell’Arte na Itália do século 16 (o zanni eqüivaleria ao bufão), quando era comum mambembar para levar a arte de cidade em cidade.
Por falar nisso, o festival costuma demarcar território à parte em Belo Horizonte: a Cidade do Circo. Ela está localizada no Centro Cultural Casa do Conde de Santa Marinha, no centro.
Em torno do circo
Em meio aos espetáculos, há espaço para exposições e lojas especializadas em circo.
É lá que será lançado amanhã, às 16h, um livro fundamental, “Circo Nerino” (Pindorama Circus/Editora Códex), um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2005 na categoria reportagem e biografia, escrito a quatro mãos pela atriz e especialista Verônica Tamaoki e por Roger Avanzi, 82, o palhaço Picolino 2, filho de Nerino Avanzi (1886-1962), cuja lona subiu e desceu entre 1913 e 1964, percorrendo vários Estados.
Também foi montado cabaré para as noites da Cidade do Circo, de amanhã a sábado, sob comandado de DJs como o pernambucano Dolores. No último dia, haverá canja dos artistas ganenses com o grupo Tambor Mineiro.
São Paulo, quarta-feira, 10 de agosto de 2005
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O governo paulista anunciou ontem, por meio da Secretaria da Cultura, investimento de R$ 3 milhões no Programa Extraordinário de Fomento às Artes Cênicas, destinado às áreas de circo, dança e teatro.
O valor equivale a cerca de um terço do Programa de Fomento ao Teatro criado pela Prefeitura de São Paulo em 2002.
Os R$ 3 milhões do Estado devem servir como estímulo à produção amadora e profissional, além de apoiar circulação de espetáculos pelo interior de São Paulo e visar a formação de público.
Parte desse valor também será usado para subsidiar a Campanha de Popularização do Teatro deste ano, mais conhecida como a “Campanha da Kombi”, que terá ingressos a R$ 4 -parceria com a Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp).
Edital do Programa Extraordinário de Fomento será publicado nos próximos dias, afirma o secretário da Cultura, o cineasta João Batista de Andrade. Júri único repartirá o “bolo” para as três áreas.
Segundo Andrade, 65, o Programa Extraordinário de Fomento é entendido como uma “prévia” do projeto de lei que criaria o Programa de Ação Cultural, que casaria incentivos fiscais e recursos orçamentários.
Sua equipe elabora o documento para submetê-lo à Assembléia Legislativa, casa que, em junho, emperrou a votação do projeto de lei do Fundo Estadual de Arte e Cultura, conflito entre oposição e situação.
Apoiado por várias entidades, o fundo prevê o fomento anual de R$ 100 milhões para áreas como hip hop, cinema, música, artes plásticas etc.
“A secretaria nunca teve, sistematicamente, uma política de incentivo à produção cultural na sociedade. O programa lançado sinaliza uma mudança desse quadro”, afirma o secretário da Cultura.
Classe teatral
Segundo o presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, Ney Piacentini, o novo programa reflete disposição da Secretaria da Cultura de dialogar com os artistas. “Tomará que o extraordinário vire ordinário”, diz.
Em 2004, cerca de 400 artistas realizaram ato no teatro Oficina em repúdio à ex-secretária da Cultura Cláudia Costin. Divulgaram o manifesto “DeSPreparo e DesreSPeito na Cultura”.
A cerimônia de lançamento do Programa Extraordinário de Fomento às Artes Cênicas aconteceu ontem de manhã na sede da secretaria. Estavam presentes o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, que recebeu a medalha de mérito “Ordem do Ipiranga”.
3.8.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 03 de agosto de 2005
TEATRO
Ator adapta novela fantástica do escritor russo e inaugura novo espaço no centro; solo tem direção de Roberto Lage
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Século 19. Ele mora num quarto miserável, trabalha numa repartição pública, entre pilhas de processos, e jaz entediado com a vida, consciência do ridículo que sempre foi, e com aqueles que o cercam e endossam.
Faz dois anos, comprou um revólver e se promete o suicídio toda noite que volta para o cortiço. Mas aquela foi diferente, chuvosa e gelada, em que uma pobre menina segurou seu braço e lhe implorou ajuda, devidamente rejeitada, para provar que não sentia piedade humana.
Chegou ao quarto, sentou-se na velha poltrona e pegou no sono. Acordou outro, como rumina o protagonista de “Sonho de Um Homem Ridículo”, novela de Dostoiévski adaptada para o teatro pelo ator Celso Frateschi, 53.
O solo de mesmo nome, com direção de Roberto Lage, estréia amanhã no teatro da Memória, no Instituto Cultural Capobianco, que abre as portas no centro.
Frateschi envereda pela narrativa elíptica do russo Dostoiévski (1821-81), que confronta existência e espaços do nada, da razão e do sonho. É neste que o funcionário público, na adaptação, tira dos ombros o fardo da verdade de se saber ridículo e coloca em xeque a noção de felicidade.
Seu niilismo esbarra na menina-estrela, fração de segundos que não desgruda da memória e o projeta ao fantástico, pois que a vida é sonho, como escreveu o poeta dramático espanhol Calderón de La Barca no século 17.
“Acho que o protagonista nunca foi um suicida. Ele é extremamente autocentrado, o que lhe provoca desânimo geral, mas basta o sonho para desestruturar a idéia do suicídio, que não era tão arraigada assim”, diz Frateschi.
Segundo o ator, 35 anos de palco, a trajetória do seu personagem não culmina em redenção, mas em perseverança. Na dramaturgia, correlacionou excertos de outra novela de Dostoiévski, “Memórias do Subsolo”.
Em sua quarta direção de um espetáculo com Frateschi -parceiros no Ágora – Centro para Desenvolvimento Teatral-, Lage deseja aliar poesia e narrativa à atuação e à encenação.
A cenografia de Sylvia Moreira sugere quatro partes no palco: o vazio, a rua, o quarto e um ícone religioso que recebe imagens criadas por Elisa Gomes.
São Paulo, quarta-feira, 02 de agosto de 2005
TEATRO
Companhia prepara “Na Linha de Fogo”, sua nova peça
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Depois de “Os Collegas” (2003), espetáculo que revisitou os bastidores do poder na era Collor (1990-92) -mão na luva para a fiada de corrupção rediviva-, a Cia.de Atores Bendita Trupe investiga outra violência endêmica no país, a criminal, que atinge morro e asfalto.
A segunda etapa do ciclo “Da Cidadania Ultrajada à Marginalidade – Os Protagonistas da História”, que começa hoje na loja Fnac da av. Paulista, colhe vivências e pareceres do poder, já mirando a peça “Na Linha de Fogo”, próxima montagem da companhia, prevista para novembro.
“O crime organizado atinge todas as estruturas da sociedade: da comunidade mais simples, onde se instala o traficante, aos poderes da República; passa pela polícia, pela justiça e pela política”, afirma a diretora Johana Albuquerque, 40, que assina a curadoria do ciclo.
“Existe violência na camada de baixo da sociedade civil e corrupção disseminada na camada de cima. As duas têm forte intercâmbio”, acredita a diretora.
Segundo Albuquerque, a idéia dos quatro encontros gratuitos, sempre às terças-feiras, é ouvir as diferentes versões dos protagonistas dessa história: a menina de rua, o policial, o sobrevivente do massacre, aquele que assiste às crianças e jovens carentes, o representante da segurança pública, o sociólogo, o antropólogo, o pesquisador, o líder comunitário, o diretor de ONG etc.
Sob o tema “Depoimento Vivencial”, o debate de hoje une Esmeralda do Carmo Ortiz, que sobreviveu na rua durante oito anos (como narra no livro “Porque Não Dancei”); Yvonne Bezerra de Mello, presidente do Centro Brasileiro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente e autora de “As Ovelhas Desgarradas e seus Algozes – A Geração Perdida nas Ruas”; e André du Rap, rapper e ator amador que depôs contra policiais no massacre do Carandiru (1992) sob ameaças de morte.
A mediação será feita pela psicóloga Ligia Daher. Criada em 1999, a Bendita Trupe vai ler trechos de obras dos participantes, além de depoimentos de vítimas.
Como em “Os Collegas”, a companhia. gera, desde o ano passado, um arquivo documental e ficcional em compasso colaborativo para a criação do texto e demais elementos da cena, desenvolvidos no teatro Ágora e na Oficina Cultural Oswald de Andrade.
A primeira fase do ciclo “Da Cidadania Ultrajada à Marginalidade”, em 2004, focou os debates no jornalismo investigativo e em áreas como cinema, literatura e música que abordassem violência e poder paralelo.
O projeto da Bendita Trupe foi selecionado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro, cujos contemplados foram anunciados na semana passada.
9.6.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 09 de junho de 2005
TEATRO
Dirigido por Eugenio Barba, grupo da Dinamarca adapta texto do escritor italiano e leva peça a Londrina, Curitiba e Brasília
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Dos 40 anos do grupo Odin Teatret, nascido na Noruega e depois radicado na Dinamarca, a atriz italiana Roberta Carreri testemunhou três décadas de história do conjunto capitaneado pelo conterrâneo Eugenio Barba e reconhecido mundialmente pelo filtro antropológico com o qual vê as artes cênicas, vertente seguida no Brasil principalmente pelo grupo Lume, de Campinas (SP).
O Odin Teatret retorna ao país através da cidade que mais o acolheu nesses anos todos: Londrina, no norte paranaense. A própria Carreri já se apresentou em outras ocasiões no Festival Internacional de Londrina (Filo). Ela volta, agora, com “Salt” (sal), de 2002, atuando ao lado do músico dinamarquês Jan Ferslev.
Sob direção de Barba, a montagem é inspirada em “Cartas ao Vento”, um dos textos do romance “Está Ficando Tarde Demais”, do italiano Antonio Tabucchi, 61.
O mote: uma mulher viaja de uma ilha a outra do Mediterrâneo, em busca de um amado desaparecido.
A turnê de “Salt” passa depois por Brasília e Curitiba. A seguir, trechos da entrevista com Carreri, 53, que estréia hoje no Filo.
O LIVRO – O texto de Tabucchi serviu como ponto de partida. Há o pressuposto de uma grande obra, claro, mas a encenação também diz por si mesma. A música é constante, há imagens criadas pela relação com objetos, com a luz, com o canto. Isso faz com que o espetáculo seja compreendido, independentemente da língua. Na Escandinávia, por exemplo, foi um êxito, e, lá, as pessoas não falam italiano. De qualquer maneira, o público brasileiro vai receber o texto da peça traduzido e um artigo de Tabucchi.
HUMANIDADE – O espetáculo não tem uma perspectiva feminista, mas existencial. Fala de um ser humano que busca outro ser humano.
GESTAÇÃO – O processo de criação foi longo. Eu e o Jan trabalhamos sobre ele desde 1996. Ele criou músicas por meio de instrumentos que nunca tocou; eu encontrava movimentos para essas músicas, além de objetos que teriam a ver com o tema viagem. Com o tempo, foram superpostos música, texto, objetos, cenas e, lentamente, a luz. Foram cinco anos de uma pesquisa prazerosa, em paralelo a turnês de outros espetáculos do Odin. Depois, Eugenio assistiu ao resultado e concluiu que, a partir dali, poderíamos chegar a um espetáculo. Sugeriu o livro de Tabucchi, recém-lançado. Por cinco meses, Eugenio fez o trabalho de combinação entre os materiais que eu e o Jean havíamos produzido. Muita coisa mudou, mas muita coisa ficou também.
ESMERO – No mais recente espetáculo do Odin, “Sonho de Andersen” [baseado na obra do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, 1805-1875], que estreou em outubro de 2004, Eugenio pediu aos atores que demonstrassem, um ano depois, o resultado de suas pesquisas, improvisações. Cada um tinha que apresentar um solo de uma hora, com música e tudo o que tivesse direito, e ainda elaborar uma direção que envolvesse os demais atores. Ao cabo, Eugenio tinha 13 horas e meia de material. Só a partir daí ele começou a ensaiar.
PRAZER DO PENSAR – Uma das filosofias do Odin é perseverar na realização dos seus sonhos, dobrar o espírito do tempo. Isso significa não fazer espetáculos somente por prazer, mas por prazer que estimule o pensar.
EXTRAPALCO – O trabalho do Odin não se restringe à sala de espetáculos. Dez anos depois de seu surgimento, a companhia começou a trabalhar em ruas, praças. Não era mais o espectador que buscava o ator, mas o ator que buscava o espectador em seu bairro. Nunca optamos por um entretenimento gratuito, mas sempre por aquele que estimule em níveis político, social. Não somos um teatro de partido, mas um teatro muito político, no sentido da pólis, que interfere na cidade com a sua ética.
8.6.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 8 de junho de 2005
TEATRO
Grupo apresenta oito peças de seu repertório atual e de convidados internacionais em temporada no Sesc Belenzinho
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Campinas
Em 1985, quando foi convidado para integrar o Laboratório Unicamp de Movimento e Expressão (Lume) no ano em que esse núcleo interdisciplinar de pesquisas teatrais veio à luz, em Campinas (SP), o ator Carlos Simioni ouviu a seguinte assertiva do seu idealizador, o também ator Luís Otávio Burnier (1956-95). “Se você quer vir, venha para ficar 20 anos. Preciso desse tempo para chegar até o final dessa pesquisa.”
Duas décadas se passaram, Burnier morreu há uma, e a trajetória peculiar do grupo Lume espelha lapidações em plena fase de popularidade pós-“Café com Queijo”, o espetáculo com o qual vingou pela primeira vez uma longa temporada na capital paulista em 2003, no Sesc Belenzinho.
É lá que abre hoje uma mostra com oito criações do seu repertório e duas de artistas internacionais que lhe serviram de fonte em suas linhas de pesquisa, um japonês e outro italiano (veja programação no quadro ao lado).
Explica-se: nos primeiros dez anos, o Lume praticamente permaneceu recluso em sala, fixado na apuração técnica.
Na entrevista que segue, Simioni e mais três dos sete atores do núcleo (a brasiliense Raquel Scotti Hirson, 33, o mineiro Jesser de Souza, 40, e o paulista Renato Ferracini, 34) comentam as especificidades dos seus espetáculos e a visibilidade que parece não ter volta: a mostra passou por Rio, Fortaleza e, até outubro, alcança Goiânia, Brasília e a Campinas natal. Em meio à gira, acontecem apresentações no Festival Internacional de Londrina, na França e no Fringe do Festival de Edimburgo, na Escócia.
Folha – Vocês já tinham realizado mostra semelhante?
Carlos Simioni – Não, é a primeira vez. O mais interessante é que nem é uma retrospectiva. São os espetáculos que estão no repertório atual. Mas é a primeira vez que reunimos todos ao mesmo tempo. Tanto que estamos surpresos com o montante de trabalho para colocar tantas peças em cena em tão pouco tempo. Você sai de um espetáculo como o “Kelbilim” e, no dia seguinte, entra no “Cravo, Lírio e Rosa”, que é clown, outra coisa. Ou então “Café com Queijo” [mimese corpórea, ou imitação, com base na cultura popular] e “Shi-Zen” [elementos do butô japonês].
Raquel Scotti Hirson – Na semana passada, em Fortaleza, tive a primeira experiência de entrar em três espetáculos um dia após o outro. Por um momento, não se sabe exatamente onde a coluna está, dá um pequeno estranhamento.
Folha – Dá para interpretar que os últimos anos foram de maior visibilidade? A imagem que se tem do Lume é da pesquisa fechada. Vocês estariam mais abertos?
Souza – A gente nunca teve preocupação com publicidade. A gente nunca gastou esforços, energias nem dinheiro para se lançar, para criar um calendário do Lume, uma camiseta, um boné. A marca, o investimento do Lume, sempre foi: vamos entrar na sala, vamos pesquisar e o que resultar daí vai ser o nosso logotipo. A opção que acabamos fazendo foi a de um caminho muito lento, mas muito consolidado também pela experiência e pela prática.
Simioni – Para Brasil, para São Paulo, nos últimos dois, três anos, estamos mais visíveis por causa do “Café com Queijo”, do “Shi-Zen”. Nunca tínhamos feito longa temporada em São Paulo, antes do Sesc Belenzinho. Ao mesmo tempo, só para resumir um pouquinho a história, nos primeiros dez anos do Lume a idéia era se fechar mesmo. Só havia o “Kelbilim” como espetáculo, mas era um experimento. A idéia era que tínhamos que investir no trabalho do ator, não importava o espetáculo. Um mês antes do Luís Otávio morrer, tivemos uma reunião, eu, ele e o Ricardo [Puccetti], e dissemos assim: “OK, estamos fechando dez anos, vamos ver como vão ser os dez anos seguintes. Agora, vamos abrir”. A questão era: tínhamos muito material de trabalho e como torná-lo espetáculo? Havia muitos contatos com o exterior. Em 18 anos, por exemplo, o Lume já tinha viajado para 21 países, mas ainda não tinha público em São Paulo, com exceção dos nossos alunos, de parte da classe artística.
Souza – Houve um momento, há quatro anos, que a gente detectou que as pessoas formadoras de opinião falavam do Lume sem nunca ter visto um espetáculo.
Folha – Haveria aí algum problema de ruído na comunicação do grupo?
Simioni – A gente queria provar para a universidade [Unicamp, que dá infra-estrutura ao Lume] que era possível, sim, ter um grupo de pesquisa de ator, científico. Arte também pode ser pesquisada. Então, a gente batia o martelo na técnica. Tudo que mostrávamos fora daqui eram justamente demonstrações técnicas. Foi-se criando a imagem do Lume em torno da técnica, até para nós, como se fosse a técnica por si só. Esse fantasma da técnica nos seguiu por um bom tempo. O mais importante, para mim, é descobrir que a técnica, realmente, é somente um trampolim. Você não consegue se segurar apenas na técnica. Mesmo agora, na mostra, nós, atores, vemos a beleza da técnica, sua função extraordinária, mas é preciso algo mais.
Souza – É um segundo passo dentro da própria técnica. A maneira como entendo técnica não é a mecânica de como se vai fazer. A técnica pressupõe que você se comunique com o outro, que estabeleça relação. O trabalho técnico é para desenvolver essa capacidade, essa habilidade. A técnica é para você não parecer técnico.
Renato Ferracini – A gente foi acusado de ficar muito entre a gente. Mas, nesses anos todos, trouxemos [as dançarinas japonesas Natsu] Nakajima, [Anzu] Furukawa, [o italiano], Nani [Colombaioni], [a canadense] Sue Morrison, Luiz Carlos Vasconcelos [do Piollin, da PB] e outros. Buscamos uma relação que pressupõe uma criação do próprio espectador, com uma postura ativa diante da recriação do tempo, do ritmo, do extracotidiano.
7.6.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 07 de junho de 2005
TEATRO
Programação inclui vídeos
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Em plena gestação de seu primeiro espetáculo, inspirado no romance “Dom Quixote” de Miguel de Cervantes, que estréia no dia 16 de agosto, a Casa Laboratório para as Artes do Teatro desenvolve, neste e no próximo mês, atividades gratuitas para pesquisa e formação no Sesc Belenzinho, zona leste de São Paulo.
Iniciativa ítalo-brasileira lançada em 2004, a Casa Laboratório consolida um grupo estável de trabalho nos campos da criação artística e da produção. É co-dirigido pelo ator Cacá Carvalho e pelo encenador italiano Roberto Bacci, da Fondazione Pontedera Teatro.
A programação abre hoje com ciclo de vídeos sob curadoria e apresentação do dramaturgo italiano Stefano Geraci.
Trata-se do documentário inglês “Unknown Chaplin” (Chaplin desconhecido), de Kevin Brownlow e David Gill. Dividido em três episódios, reúne imagens raras de alguns filmes de Charlie Chaplin (1889-1977) que escaparam por sorte da destruição.
Através de tais cenas, diz Geraci, “é possível descrever algumas regras da composição teatral que pertencem a um território da dramaturgia: território dos atores-autores”.
Entre os dias 6 e 8 de julho, a também italiana Carla Pollastrelli, responsável pela formação de produtores da Casa Laboratório e co-diretora da Fondazione Pontedera, vai apresentar e comentar o ciclo de vídeos sobre o teatrólogo polonês Jerzy Grotowski (1933-1999).
O filme “Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski” (1992), dirigido por Marianne Arhne, conta a trajetória do grupo Teatro Laboratório de Wroclaw, nascido no final dos anos 50 na Polônia, uma experiência artística fundamental na história do teatro da segunda metade do século 20, que montou peças como “Doctor Faustus” e “Akropolis”.
Esta última, do final dos anos 60, ganha documentário de mesmo nome com introdução do encenador inglês Peter Brook. Também serão exibidos trechos do espetáculo “O Príncipe Constante” (1965). Por fim, um vídeo com ênfase nos exercícios físicos, “O Treinamento no Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski” (1972), com direção de Torgeir Wethal, ligado ao grupo dinamarquês Odin Teatret.
De 21 de junho a 2 de julho, a pesquisadora italiana Francesca della Mônica dará uma oficina de voz. No dia 2 de julho, acontece a aula aberta “A abordagem do método das ações físicas”, com Silvia Pasello, da Fondazione Pontedera. Todos os palestrantes estão ligados à Casa Laboratório, ao lado de Carvalho, Bacci, do cenógrafo Márcio Medina e do dramaturgo Celso Cruz.
7.6.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 07 de junho de 2005
TEATRO
Companhias de Argentina, Bolívia e Chile circulam por festivais em Londrina, Curitiba, Brasília e Rio de Janeiro
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Temporada de teatro sul-americano no Brasil. Isso é raro. Historicamente dedicado ao segmento, o Festival Internacional de Londrina (Filo 2005) irradia projetos como Corredores Culturais do Mercosul (que também vai a Curitiba e a outras cidades do interior paranaense) e a Mostra Internacional de Teatro (MIT), que percorre os centros culturais do Banco do Brasil em Brasília e Rio.
A programação conjunta envolve pelo menos três projetos emblemáticos. É o caso de “Gemelos” (gêmeos), espetáculo com ex-integrantes da Cia. La Troppa, do Chile, dissolvida em março passado após 18 anos de atividades.
Os atores assumem o lugar dos bonecos para dar vida aos personagens adaptados da história da escritora húngara Agota Kristof (“O Grande Caderno”). Trata-se da infância de dois irmãos gêmeos numa cidade européia durante a Segunda Guerra Mundial.
Da Bolívia, o grupo Los Andes traz “En un Sol Amarillo” (sob um sol amarelo). Retrata a corrupção na seqüência do terremoto de 1998 que abalou cidades camponesas daquele país.
A jogatina financeira que rege as vidas pública e privada também se reflete na montagem do grupo argentino El Patrón Vazquez para “La Estupidez”, de Rafael Spregelburd. Em chave cômica, três policiais em serviço, um grupo de amigos em férias, dois contrabandistas de obras de arte, um cientista que mantém uma relação problemática com o filho e uma jovem em cadeira de rodas se desdobram em “papéis” como jogadores compulsivos, investigadores e mafiosos italianos.