Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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São Paulo, quinta-feira, 03 de fevereiro de 2005
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Durante o primeiro semestre de 2005, com possível renovação para o segundo, o Teatro de Arena Eugênio Kusnet, no centro, será ocupado em conjunto pela Cia. Andarilhos, pelo Núcleo Cênico Arion e pelo Canhoto Laboratório de Artes da Representação.
Eles venceram edital da Funarte, órgão do Ministério da Cultura que administra o espaço (a ocupação não prevê verba para montagens, apenas funcionários para limpeza, segurança e técnica). Concorreram 11 projetos.
A narrativa épica, aquela que agrega ponto de vista ao espectador em relação à fábula ou à encenação, e os autores latino-americanos contemporâneos, cuja maioria é ilustre desconhecida nos palcos brasileiros, compõem a face mais visível do projeto batizado de “3 em 1: Um por (Todos)2 por Hum!!!”.
A equação “mosqueteira” (à la Alexandre Dumas) encontraria solução na disponibilidade de um teto comum para os proponentes desenvolverem suas pesquisas.
“É aquele velho problema: como desenvolver um projeto estético, com profundidade, sem o luxo de cometer erros?”, diz o diretor Alexandre Mate, 50, do Canhoto Laboratório.
A interlocução é alento. “Cada grupo tem um perfil, uma linguagem, mas estabelecerá troca com a estética do outro”, diz a atriz, diretora e dramaturga Vanessa Valente, 32, da Andarilhos (1997).
O “3 em 1” começa no próximo final de semana com ensaios abertos de “Imaginários”, espetáculo da Andarilhos, que tem estréia oficial no dia 13 deste mês.
Texto e direção de Valente, “Imaginários” trata da caminhada cigana de contadores de história em meio a personagens do universo fantástico. “Somos contadores de história além de atores. O espetáculo “conversa” olho no olho”, diz a diretora.
No dia 5/3, o Canhoto estréia “Ubu Presidente”, do peruano Juan Larco (1928), uma “bufonaria continental”, diz o autor, sobre a trajetória do personagem-título em Chipaltenango, uma republiqueta latino-americana.
Larco concebe uma parábola política do “Ubu Rei”, o clássico do francês Alfred Jarry (1873-1907). A tradução é de Hugo Villavicenzio com direção de Mate.
O Núcleo Cênico Arion, terceiro proponente do projeto (em atividade desde 1995), reestréia “Senhorita Danzer”, do alemão Marius von Mayenburg, no dia 18/3.
Bernadeth Alves dirigiu e co-traduziu (com André Itaparica) a peça sobre uma família de classe média baixa que teve os três filhos enviados pelos vizinhos ao serviço social estatal sob alegação de maus-tratos.
A programação do semestre inclui ainda grupos convidados, como Cartel de Teatro, Artehúmus de Teatro, Teatro de Orelhas e Piap (grupo de percussão do Instituto de Artes da Unesp). Também serão realizados, em datas a definir, um fórum sobre teatro latino-americano e oficinas.
Já a proposta do “pague quanto puder”, adotada pela Cia. Livre durante sua ocupação no ano passado (no projeto “Arena Conta Arena 50 Anos”), foi suspensa pela Funarte “por motivos administrativos e prestação de contas junto a órgãos federais”.
Originalmente, o “3 em 1” queria seguir o exemplo da Cia. Livre. Agora, o ingresso para os espetáculos custa entre R$ 5 a R$ 15.
São Paulo, segunda-feira, 03 de janeiro de 2005
TEATRO
Pesquisadora Maria Cecília Garcia aponta “tempos sombrios” e falta de diálogo na crítica brasileira contemporânea
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Nos últimos meses, a crítica teatral perdeu espaços significativos na imprensa paulista. Desapareceu das páginas do “Jornal da Tarde” (Alberto Guzik e Sábato Magaldi) e do “Diário de S. Paulo” (Aguinaldo Ribeiro da Cunha).
É nesse contexto de crise na cena contemporânea que a pesquisadora e dramaturga Maria Cecília Garcia apresenta suas “Reflexões sobre a Crítica Teatral nos Jornais°- Décio de Almeida Prado e o Problema da Apreciação da Obra Artística no Jornalismo Cultural” (editora Mackenzie).
Antes de discorrer sobre o enunciado do subtítulo e, por extensão, objeto central do livro, a autora cuida de introduzir a história da crítica teatral no Brasil, desde meados do século 19 até o início do 20, passando pelos escritores José de Alencar, Machado de Assis e Álvares de Azevedo.
Chega à reafirmação do ofício entre as décadas de 40 e 60 (Alcântara Machado, Brício Abreu, Oswald de Andrade, Anatol Rosenfeld, Almeida Prado, Magaldi, Barbara Heliodora etc). Apesar do lastro, com transformações que deram na moderna crítica brasileira, a autora aponta os “tempos sombrios” de uma época, a atual, em que o “espírito crítico” é quase abandonado.
Garcia, 53, quer “refletir sobre a crítica teatral como gênero jornalístico, sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto, mas com o objetivo declarado de recuperar essa crítica como elemento fundamental de desenvolvimento do teatro e da imprensa, e de contraponto ao avanço da mercantilização da arte”. A crítica, atesta, precisa recuperar o seu papel.
O livro faz um apanhado da teoria crítica: a ambição científica na linguagem estruturalista do francês Roland Barthes; a perspectiva sócio-política na dialética do alemão Bernard Dort; e a pluralidade de vozes e consciências na polifonia do russo Mikhail Bakhtin.
Garcia afirma que monologismo é mal do qual Almeida Prado (1917-2001) não sofreu no período em que escreveu para “O Estado de S. Paulo” (1947-68).
“Desde suas primeiras críticas, escritas no final dos anos 1940, ele deu mostras de uma profunda vocação para o diálogo; diálogo entre artistas e críticos, diálogo entre correntes estéticas, aparentemente confrontadas, diálogo entre jornal e público leitor”, escreve. “Essa postura dialógica acabou por configurar-se em um estilo.”
Professora, jornalista, dramaturga e também ex-crítica teatral da Folha, no início dos anos 1980, Garcia publica no apêndice longa entrevista que fez com Almeida Prado em 1998.
29.12.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
TEATRO
Diretor reclama de critérios da Lei do Fomento de SP e fala sobre nova montagem de “Antígona”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Vem cá: onde é que vocês vão à noite, nos botequins? Vou começar a freqüentar. Estou voltando à sede de brigar”, anuncia José Alves Antunes Filho, 75. Quem, dos anos 80 para trás, viu e ouviu o diretor teatral aos gritos em saguões ou platéias, desancando espetáculos que considerava ruins, não estranha os ânimos ressuscitados.
Antunes Filho critica o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo (2002), uma conquista da classe por meio do movimento Arte contra a Barbárie (R$ 7,2 milhões neste ano).
Questiona critérios das comissões e fato de grupos serem contemplados mais de uma vez (Oficina, Folias, Engenho, Vertigem, Fraternal, Cemitério de Automóveis, As Graças etc.). “Está virando o teatro dos compadres”, diz.
O coordenador do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), mantido pelo Sesc-SP, também fala (pouco) de “Antígona”, terceira incursão pela tragédia grega.
Uma das novidades da montagem, que deve estrear entre março e maio de 2005, é a introdução de um coro feminino, as bacantes, na história que Sófocles escreveu há cerca de 2.500 anos. Baco, divindade romana também conhecida por Dioniso entre os gregos, surge como personagem.
Filha de Édipo, cuja estirpe é amaldiçoada, Antígona tenta driblar o decreto do rei de Tebas, Creonte, que proíbe na cidade o enterro do irmão dela, Polinice, morto em combate com outro irmão, Eteocle.
Folha – Em São Paulo, uma mobilização da classe teatral resultou na Lei do Fomento….
Antunes Filho – … Pena que isso só seja feito para conseguir verbas, e não para criar um simpósio cultural para discutir o ator, o papel do diretor, o papel do crítico, o papel do autor. É importante a lei, conseguir essa verba, desde que vá propiciar a sua pesquisa. Mas as pessoas que estão recebendo fazem um teatro de maneira tradicional. Isso não é correto, deveria dar um puxão de orelha, ter uma avaliação. Como seria a avaliação no teatro, hein? Seria gozado… Em nome da inclusão, está entrando tudo. Está entrando e sufocando, jogando pela janela os antigos. É uma inclusão cega.
Folha – O fomento está em vigor há pouco mais de dois anos. Não seria uma questão de aprendizado, de ajustes?
Antunes – Precisa cair a ficha, ter mais um pouco de consciência. Estamos sendo permissivos. Não libertadores, mas libertinos. Você sabe que eu não sou do teatrão, então posso falar do lado de cá. O teatro de pesquisa deve ser mais bem avaliado. Não é qualquer coisa, qualquer um que vai lá e faz. A administração do PT foi boa, mas deveria ter tido mais critérios. Foi muito partidária. O que me chateia no PT é essa coisa dos partidários, de não dar chance aos outros. Não é comigo, mas com uma porção de gente maravilhosa que faz teatro e não teve chance, não recebeu nenhum tostão, foram discriminados. E tem pessoas que receberam três, quatro vezes. Por que a inclusão só para os partidários? Eu lamento isso. Se continuasse na prefeitura, a Marta [Suplicy], o [Celso] Frateschi, eu tenho certeza de que eles iriam modificar os critérios.
23.12.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 23 de dezembro de 2004
TEATRO
Zé Celso lembra o assassinato do irmão, Luis Antônio, ocorrido há 17 anos
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Cada vez mais o diretor José Celso Martinez Corrêa tem a percepção de que o assassinato de seu irmão (com cerca de cem facadas, num apartamento no Rio), o também ator, diretor, autor e professor Luis Antônio Martinez Corrêa (1950-87), despertou a consciência da sociedade para a homofobia no Brasil.
“O bode que foi sacrificado é o bode que o Oficina canta nesses dias em sua lembrança. Hoje, em plena ditadura da violência assassina homofóbica, é importante realizar esse ato teatral público de portas abertas, sem cobrança de ingressos”, escreve Zé Celso, 67.
O grupo Oficina Uzyna Uzona incorporou ao seu calendário, como último ato do ano, a data e o horário do episódio para uma celebração a ser repetida hoje.
Corrêa foi assassinado em 23/12 de 1987, por volta das 14h30. É o horário em que está programado o ensaio aberto do início da Quarta Expedição em “A Luta”, a terceira parte de “Os Sertões”, obra de Euclydes da Cunha que o Oficina transcria para o teatro e deve ser completada em 2005. Trata-se do trecho em que o Exército ataca o Portal de Luzes das Cunañas, vegetação que protege o arraial de Canudos, para dar passagem à “matadeira” (apelido do Withworth, um canhão importado), que iria destruir o sino da Igreja Velha de Canudos, na Bahia.
“O Oficina faz um rito à desmartirização dos corpos e à alegria, marca essencial de seu trabalho teatral”, afirma Zé Celso. “É um dia para cada presente assassinar os desgostos e desamores, atravessar o ano cristão no rito pagão de fazer sangrar, abrir o fluxo, para dar passagem aos mais importantes sentimentos.”
Nascido em Araraquara (SP), como Zé Celso, Corrêa foi assistente do irmão em “Gracias Señor” (1972) e assinou a primeira direção naquele ano, com “O Casamento do Pequeno Burguês”, de Brecht, que fez turnê européia.
Destacou-se na pesquisa musical com os espetáculos “Theatro Musical Brazileiro – Parte 1 (1860/ 1914)”, de 1985, e “Parte 2 (1914/ 1945)”, de 1987. O site do grupo (www.teatroficina.com.br) estréia hoje a sua “TV Uzyna”.
20.12.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 20 de dezembro de 2004
TEATRO
Pensadores brasileiros e estrangeiros mesclam recortes histórico, político e estético na abordagem das artes cênicas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Para o filósofo e professor Gerd Bornheim (1929-2002), “Romeu e Julieta” não é uma peça sobre dois apaixonados adolescentes, uma redução recorrente neste e no século passado, “mas sim sobre a briga de duas famílias da aristocracia, os Capuleto e os Montecchio, luta que põe em risco a paz na cidade, e que conduz a uma triste lição: a da perda dos filhos”.
O comentário, que discorre sobre as vias políticas em Shakespeare, consta da palestra de Bornheim na abertura do seminário “O Teatro e a Cidade”, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo entre os dias 8 e 31 de outubro de 2001.
A fala do filósofo junta-se ao coro de outros 13 pensadores, brasileiros e estrangeiros, nas 300 páginas do livro “O Teatro e a Cidade, Lições de História do Teatro”, que o Departamento de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura lança hoje na Galeria Olido.
As vozes internacionais são as do italiano Roberto Tessari (que falou sobre o renascimento e a commedia dellarte), do pesquisador polonês Michal Kobialka (teatro medieval), do diretor e dramaturgista alemão Wolfgang Storch (o teatro político da República de Weimar) e do professor americano Michael Denning (teatro e política nos EUA). Ainda entre os representantes de fora do país, integram o livro o dramaturgo inglês Edward Bond (o teatro atual), o dramaturgo, diretor e pesquisador francês Jean-Pierre Sarrazac (realismo e encenação moderna no trabalho de André Antoine) e a pesquisadora russa Elena Vássina -esta radicada no Brasil-, que comenta o teatro russo moderno e seu público.
Para dar o tom da obra, uma assertiva de Tessari: “Hoje, mesmo laico, o teatro é, potencialmente, o espaço onde a cidade poderia fazer sua “kátharsis”, essa ação purificatória de expor o que deve ser separado para melhor compreendê-lo e ajuizar a respeito. Porém, dificilmente o faz. A encenação teatral, apesar de fundamentalmente cívica, incorporou bem mais o sentido estrito do divertimento e adequou-se aos cânones das belas-artes, numa exteriorização que costuma obrigar a separação do ético e do político, no rigor dos termos. O teatro hoje poucas vezes mostra plena consciência de seu poder em nossos dias excessivamente técnicos”.
São pontos de vista que encerram inquietação histórica, reflexão crítica, imaginação estética e questionamento quanto à função social do teatro.
Também deram corpo ao ciclo brasileiros como Rachel Gazzola (sobre o teatro grego), João Roberto Faria (teatros nacionais e sociedades burguesas), Tania Brandão (teatro brasileiro moderno e a representação da sociedade), Iná Camargo Costa (o teatro político entre nós) e Augusto Boal (o teatro popular no Brasil). A organização do livro é de Sérgio de Carvalho, da Companhia do Latão.
Na mesma ocasião, serão lançadas duas brochuras com registros dos programas Formação de Público (700 mil pessoas em 2004) e Teatro Vocacional (acompanhamento de cerca de cem grupos de teatro amador, ou vocacional).
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13.10.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 13 de outubro de 2004
TEATRO
Mário Bortolotto visita o tema pela primeira vez em “O que Restou do Sagrado”, com o Cemitério de Automóveis
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Quem acha que Mário Bortolotto pegou pesado em “Hotel Lancaster” (2000), sob direção de Marcos Loureiro, descida ao inferno das drogas e afins, talvez note que o buraco é ainda mais embaixo em “O que Restou do Sagrado”, seu texto mais recente.
A primeira surpresa é que esse dramaturgo e ator paranaense, à frente do grupo Cemitério de Automóveis, já freqüentou seminário por cinco anos.
Demonstra intimidade para com a expiação de culpas que promove em sua primeira visita ao tema do sagrado entre as cerca de 40 peças que escreveu. “Agora vou ser excomungado de vez”, diz Bortolotto, 42.
Ele escolheu “a dedo” a data da estréia, ontem à noite, no Espaço dos Satyros: dia de Nossa Senhora Aparecida e das Crianças. Há passagens de depravações sem fim nessa história curta de “sete cascavéis das piores” reunidas numa igreja noite adentro.
Dramaturgo conhecido pelas histórias com personagens errantes, bêbados e deslocados, geralmente em ambiente urbano, Bortolotto confessa que desejava tratar do sagrado antes, mas só agora encara suas inquietações sobre religião no palco e na direção.
Personagens confessam pedofilia, chacinas e outros vitupérios em tintas realistas. Mas não conseguem se arrepender sinceramente, ainda que disso dependa o destino de um mundo falido.
A começar pelo Padre que os convoca (interpretado por Nelson Peres), ele mesmo um personagem em crise de fé. “A gente se agarra a qualquer coisa em que a gente possa acreditar. Pode ser um deus ou um cartão de loteria esportiva”, despacha.
Agora vem Lilís, a atriz pornô, na pele de Lavínia Pannunzio: “Pensando bem, eu nunca consegui entender um sujeito que coloca o próprio filho numa cruz e o faz literalmente comer o pão que o Diabo amassou. No mínimo, ele não merecia ganhar presente no Dia dos Pais”.
E as máscaras vão caindo: a escritora Cibele (papel de Fernanda d’Umbra), a secretária (Mariana Leme), o pedófilo (Wilton Andrade), o empresário mauricinho Roby (Gabriel Pinheiro) e o matador de travestis Val (Bortolotto). “Deus é a desculpa do mundo”, afirma Val.
“Sou católico. Quero acreditar que Deus me deu livre-arbítrio, que sou senhor do meu destino, mas às vezes me pego pensando que ele está de brincadeira com a gente”, diz Bortolotto.
Em meio ao humor corrosivo, há algum fiapo de esperança, nem que seja na epígrafe de santo Agostinho: “Deus permitiu o mal para dele extrair o bem”.
Anteontem, após o almoço, a caminho da pelada de toda segunda-feira à tarde com os amigos, Bortolotto lançava ao menos uma pista para tanta indagação: “O futebol é a única coisa que restou do sagrado”, chuta o também responsável pela trilha (“spiritual, gospel e uns sons demoníacos”).
A nova montagem marca o retorno do grupo de 22 anos à fase “nômade”, depois de encerrar ocupação no teatro Alfredo Mesquita, na zona norte de São Paulo. Contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro, o Cemitério sente-se em casa ali na praça Roosevelt.
São Paulo, quarta-feira, 13 de outubro de 2004
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Certa noite, o comerciante Majer Jesion, judeu de ascendência polonesa, acompanhou a filha adolescente até o teatro da Hebraica, em São Paulo.
Eles assistiam a uma apresentação da peça “Bent”, do americano Martin Sherman, quando veio a cena dos presos que removiam pedras de um canto para o outro num campo de concentração.
“Esse era o meu “trabalho” lá”, disse Jesion, emocionado. A filha Renata tinha 11 anos.
Mais de duas décadas depois, no apartamento do bairro do Paraíso, pai e filha dividem lembranças com o repórter para alavancar outras ainda mais distantes, vividas pelo hoje aposentado Jesion, 80, prisioneiro de guerra que sobreviveu na Alemanha de 1940 a 1945, Segunda Guerra.
As agruras do período são pinceladas num “pequeno épico de estações”, como a autora define a peça “121.023J”, escrita a partir de entrevistas com o pai.
Renata, que já trabalhou com Antunes Filho, Gerald Thomas e Dionisio Neto e está no filme “Olga”, convidou Ariela Goldmann para a direção. Vai contracenar com Zemanuel Piñero e Mauro Schames. A temporada estréia hoje no Sesc Ipiranga.
O título embaralha os meses de nascimentos de Jesion e da autora, somados à inicial do sobrenome, mas poderia ser o “143.062” tatuado no braço esquerdo dele. O comerciante morava em Gostynin, a 120 km de Varsóvia, na Polônia. Tinha 17 anos quando um dia saiu de casa para comprar pão e nunca mais voltou: foi detido e deportado para a Alemanha.
Jesion passou por quatro campos de concentração. Sofreu os piores momentos no de Birkenau, em Auschwitz. Transportado para outra realidade, ele teve no pão escasso o alimento que o mantinha em pé; e numa desconhecida voz que o “acompanhava”, a sua principal interlocutora no “jogo da sobrevivência”.
Renata, 31, apreende a história do pai sob perspectiva “leve, picaresca”. “Não é uma peça para sensibilizar a colônia judaica. Quero universalizá-la”, diz a caçula que sonha ainda com versão para documentário (“As Manhãs de Majer”, roteiro pronto).
Um bom retrato seria o do homem que se diz habituado a “começar do zero”. Há quatro anos, Jesion foi operado no coração. Nada, talvez, se comparado a dois momentos de risco citados na peça, nos últimos dias como prisioneiro dos nazistas.
Quando já tinha sido acolhido pela Cruz Vermelha, eis que Jesion deparou com soldados da Juventude Hitlerista. Foi conduzido a um delegado anti-semita. Perguntado se era judeu, disse que sim. Levou um tapa do delegado, que incumbiu um soldado de lhe dar um fim. “Eu sobrevivi até agora. Se tiver que me matar, não atire pelas costas”, pediu Jesion ao soldado que o mandara caminhar. “Leb wohl”, ordenou-lhe o soldado, em alemão, algo como “adeus”, “vá, se manda”.
E assim fez Majer Jesion. Depois da guerra, ele deambulou mais alguns anos pela Alemanha. Chegou ao Brasil em 1949, atendendo ao chamado de uma tia. Era Carnaval no Rio de Janeiro. “Puxa, saí do inferno diretamente para o hospício”, brincou.
Logo mais à noite, a dois dias de completar 81 anos, assistirá ao espetáculo ao lado da mulher, Jamile. “A vida tem sido muito boa, não posso me queixar.”
9.10.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 09 de outubro de 2004
TEATRO
Entram em cartaz montagens de Ilo Krugli, Márcio Aurélio, Ivan Sugahara e solo de dança de Marta Soares
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
A encampação incomum de quatro novas produções neste sábado, entre dança e teatro adulto, além da reestréia de um infantil, reafirmam a vocação do Sesc Belenzinho para as artes cênicas.
Inauguram temporada o solo de dança “O Banho”, de Marta Soares; o drama “Avalanche”, montagem carioca do diretor Ivan Sugahara para o texto do americano David Rabe; o musical “Espírito da Terra”, baseado em canções do alemão Frank Wedekind, encenação de Márcio Aurélio; e o clássico “Bodas de Sangue”, do espanhol Federico García Lorca, pelo diretor Ilo Krugli, cujo grupo Ventoforte faz 30 anos e inclui no pacote o infantil “História de Lenços e Ventos”, de autoria do próprio.
Antes, um retrospecto. Em outubro de 98, a exposição “Fantasia Brasileira – O Balé do 4º Centenário” ocupou uma antiga fábrica do grupo Moinho Santista. Foi uma espécie de batismo cultural do espaço de 31 mil m2, convertido, três meses depois, em unidade do Serviço Social do Comércio.
A visibilidade conquistada pelo Sesc Belenzinho passa também por criações de Antunes Filho, Ivaldo Bertazzo, Cacá Carvalho e grupo Lume. A unidade abriga um palco italiano e espaços alternativos (dois galpões, um subsolo e uma oca estilizada).
Agora, aos espetáculos. “O Banho” é inspirado na vida de dona Yayá, como era conhecida Sebastiana de Mello Freire (1887-1961), nascida em Mogi das Cruzes e moradora do Bexiga, mulher da alta sociedade paulistana. Ao ser diagnosticada doente mental, ela teve sua casa transformada em hospital psiquiátrico privado, onde permaneceu por cerca de 40 anos. No subsolo do Belenzinho, a performer Marta Soares surge imersa numa banheira.
Em “Avalanche”, com tradução de José Almino, David Rabe retrata situações mediadas por avanços tecnológicos e banalização da violência. “É uma reflexão bem-humorada sobre as relações humanas em tempos de internet e celular, em que a comunicação é mais rápida e menos profunda”, diz o ator Bruce Gomlevsky, que contracena com Marcos Azevedo, Ludmila Rosa e outros.
Interpretado por Débora Duboc, acompanhada ao piano por Lincoln Antonio, “Espírito da Terra”, no galpão 2, é baseado no cancioneiro tragicômico de Wedekind (1864-1918), de tintas sociais e eróticas (não por acaso, a cenografia remete a um açougue). No entrecho, sob tradução de Christine Röhrig, há a história de uma mulher que “perdeu seu coração”. O espetáculo fez pré-temporada em 2000, no Sesc Anchieta, quando Duboc estava grávida.
Autor recorrente na história do Ventoforte, Lorca (1898-1936) é revisitado por meio de “Bodas de Sangue”, finalmente incorporado ao repertório, um sonho de Krugli. Extraído de episódio real, o enredo trata de triângulo amoroso com desfecho trágico: no dia do casamento, camponesa foge com um antigo amor.
Primeira montagem do Ventoforte, “História de Lenços e Ventos” (1974) recorre a bonecos, panos, latas, instrumentos musicais e outros objetos inesperados. Narra as aventuras de Azulzinha (um lenço) e seu amigo Papel (um pedaço de jornal). Eles enfrentam o poder opressivo do Rei Metal Mau. Ambientada nos quintais mágicos da infância, a fábula escrita por Krugli fala de liberdade, vontade de voar, crescer e conhecer novos horizontes.
Esta reunião de cinco atrações pode ser encarada como um compasso de espera para os seis anos do Sesc Belenzinho, a serem completados oficialmente em janeiro.
7.10.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 07 de outubro de 2004
TEATRO
Temporada paulistana recebe espetáculos do grupo Nós do Morro e dos diretores Hamilton Vaz Pereira e Ivan Sugahara
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
A partir desta semana, três produções do Rio de Janeiro convergem para temporadas em São Paulo, dizendo muito sobre um teatro de mais experimento e risco, contraponto àquele apoiado nas convenções “televisivas” com mais efeito em palcos cariocas.
O grupo Nós do Morro, da comunidade do Vidigal, completa 18 anos e declara “intromissão” ao “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare. Vai ao cartaz amanhã, no teatro Augusta.
Aos 30 anos de carreira, um dos fundadores do Asdrúbal Trouxe o Trombone (1974-84), desbundado grupo que injetou sangue novo na cena carioca e brasileira, o ator, diretor e dramaturgo Hamilton Vaz Pereira encena “A Leve, o Próximo Nome da Terra”. A “tragédia ridente”, como diz, pré-estréia amanhã no Teatro Folha, para convidados, e segue temporada a partir de sábado.
Também no sábado, chega “Avalanche”, direção de Ivan Sugahara (ligado ao grupo Os Dezequilibrados) para o texto do americano David Rabe, 64. No Sesc Belenzinho.
Latente na maioria dos moradores de Vidigal, a música ganha corpo na adaptação de “Sonho de uma Noite de Verão”, traduzido por Luiz Paulo Corrêa e Castro.
O diretor e cenógrafo Fernando Mello Costa apostou na “aptidão” do Nós do Morro. A fábula musical pretende dialogar com o universo do fantástico recriado por Shakespeare no século 16.
Porém é na peça dentro da peça, quando atores amadores representam a lenda mitológica de Píramo e Tisbe para a realeza, que o projeto se aprofunda.
Moradores de rua e catadores de papel, personagens na peça do grupo “Burro sem Rabo” (2003), migraram para o “Sonho” como “seqüestradores” dessa trupe de atores e acabam “incluídos” nesse teatro desejoso da linguagem popular tão cara a Shakespeare.
“Somos uma sociedade partida neste país. A única forma de quebrar estigmas e estereótipos é por meio da qualidade, senão vira paternalismo”, diz Guti Fraga, 52, ator e supervisor do Nós do Morro, para quem a perspectiva social não está dissociada da arte.
Hamilton Vaz Pereira, 52, diz que jamais escreve ou dirige espetáculos que apontem para a negação da vida. Ao contrário, sublima “o que a vida é, com suas encrencas e maravilhas”.
Em “A Leve, o Próximo Nome da Terra”, seis brasileiros mandam notícias e cenas de vários pontos do planeta, como Nova York, Amsterdã, Florença e Berlim. Estão viajando para estudar, trabalhar ou passear.
Os personagens aparentemente vivem situações do cotidiano, mas redobradas em emoção porque fora do país. São homens e mulheres “maduros”, que invocam o passado, por vezes os ancestrais gregos, por exemplo, ao mesmo tempo que se ocupam do futuro por meio da família.
Oito histórias “algo absurdas, extraordinárias”, em oito cenários distintos, sugeridos pelas imagens projetadas ao fundo. Os personagens/atores (interpretados por Leticia Spiller, Caio Blat, Floriano Peixoto e outros) passam o tempo todo num palco despido de recursos cenográficos. Quando pisam um retângulo chão, estão em cena.
Em “Avalanche”, a terceira produção do Rio, quatro homens ligados à indústria do cinema em Hollywood têm seus caminhos cruzados e “vivem perigosamente”, compartilhando mulheres, festas e drogas.
5.10.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 05 de outubro de 2004
TEATRO
Cristina Cavalcanti encena texto inédito dos irmãos Presnyakov, representantes da nova dramaturgia russa
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Tudo em “Terrorismo” tomba para a ordem do dia, ainda que em tom de farsa trágica: a ameaça de bomba em avião, o conflito étnico, o sadismo de soldados, o suicídio etc.
O mundo lá fora é só apocalipses, mas a costura desse texto da nova dramaturgia russa, cuja primeira montagem estréia hoje no Viga Espaço Cênico, é feita do que vai pela consciência de personagens à beira da explosão.
Foi em 2000, antes da atual onda terrorista naquela federação (o teatro em Moscou, a escola em Beslan), antes mesmo do 11 de Setembro, que os irmãos Oleg e Vladimir Presnyakov, nascidos na região da Sibéria, verteram para o papel a cadeia de (auto)destruição em marcha, não é de agora.
“A nosso ver, nos anos 90, formou-se nitidamente um novo tipo de consciência, para a qual o ponto de referência de valor não é mais a criação, mas a destruição”, diz Oleg, professor universitário de literatura russa. Ele e Vladimir, professor de psicologia e pedagogia, ambos na casa dos 30 anos, responderam por e-mail a questões mediadas pela diretora da peça, Cristina Cavalcanti, e pela tradutora Klara Gouriánova, russa naturalizada brasileira.
“Terrorismo” contém seis cenas, fragmentos que sugerem um quebra-cabeça. O passageiro tenta embarcar, mas o aeroporto é fechado devido a malas suspeitas. Enquanto isso, na casa dele, a mulher contracena no jogo de fetiche com o amante, amarrada à cama. Num escritório, uma funcionária se enforca na sala do psicólogo. Numa caserna, soldados antiterroristas riem de fotos tiradas de vítimas de bombas.
Numa praça, duas velhinhas reclamam da “moda das etnias”, até que um sujeito com malas se aproxima. Finalmente, o passageiro da primeira cena reaparece sentado num avião. Dificuldades em afivelar o cinto.
Com tal sinopse, a peça, que já foi montada pelo Teatro de Arte de Moscou e pelo Royal Court de Londres, poderia decolar para maniqueísmo, mas evita culpas.
“É uma peça sobre uma sociedade contaminada pelo medo e que acaba, assim, agindo contra si mesma. A simples idéia de que o terror possa acontecer já é corrosiva e causa danos irreparáveis”, diz a diretora Cavalcanti, 35, que debuta no ofício.
A ênfase é na expressão corporal e na relação do ator com o espaço (a cenografia se resume apenas a seis cadeiras mutantes). A transição de cenas é feita às claras, assumindo-se os figurinos que se repetem e apoiando-se no movimento de luz.