23.7.1992 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Quinta-feira, 23 de julho de 1992. Caderno A – capa
VALMIR SANTOS
Quando chegou ao Brasil, em fevereiro de 75, o diretor Lino Rojas encontrou um país em festa – era Carnaval. Vinha de uma situação nada alentadora. O Peru, onde nasceu há 49 anos, vivi intensa convulsão político-social, culminando em exílio de várias personalidades. Ele foi uma delas.
Lino Rojas não tem mídia. “Sou um ser que vive à margem, me sinto cômodo nela; há muita badalação no centro e isso não me interessa”, avisa. Lecionou na USP, onde dirigiu o grupo Tetra, formado por estudantes dos mais variados cursos. De 87 a 90, foi contratado pela Secretaria Estadual de Cultura para coordenar o projeto Teatro Comunitário na Unesp de Marília (SP). Paralelamente, deu oficinas de iniciação em São Miguel Paulista, onde nasceu seu grupo atual, o Pombas Urbanas.
Até o final do ano, monta “O Funâmbulo”, baseado em texto homônimo de Jean Genet. Em 91, o Pombas ganhou cinco prêmios no Festival da Cidade de São Paulo com a peça “Os Tronconenses”, apresentada em Mogi em abril último. Em entrevista, Rojas fala de sua razão de ser: o teatro.
O Diário – Afinal, o que é funâmbulo?
Lino Rojas – De acordo com o Aurélio, a palavra significa o indivíduo que volteia na corda bamba, no arame. “O Funâmbulo” é o nome do livro de Genet. Na minha concepção, trata-se do irmão maior de “Os Tronconenses”. É a história de um menino que cresce no palco até transformar-se em artista, um palhaço livre que sente necessidade de amor, de sensibilidade, de honestidade. Genet é um estímulo para mim, que vivo a condição de artista. Quando li “O Funâmbulo” pela primeira vez, tremia a noite inteira devido à profundidade do texto.
O Diário – Quando estréia a peça?
Rojas – Ainda este ano. Dependemos de apoio para montagem. Por enquanto, nos dedicamos aos ensaios no Tendal da Lapa, em São Paulo.
O Diário – Ano passado, o Pombas Urbanas subiu ao palco pela primeira vez e recebeu cinco prêmios no Festival da Cidade de São Paulo. É um grupo que promete, não?
Rojas – Não é pretensão, mas pelos trinta anos de experiência no teatro, sinto que o grupo possui jovens que, se lapidados, darão ótimos resultados. No momento, estamos na fase de reconhecimento externo do corpo e seus instrumentos, como espaço e gesto. Quero atingir a verdade, a cultura do ator. Ao mesmo tempo, trabalhamos a voz, a sonoridade. Afinal, voz é músculo.
O Diário – Como é fazer teatro com jovens, sem apoio financeiro e, ainda por cima, numa região carente de cultura, São Miguel?
Rojas – A gente tem que fazer milagre. Pessoalmente, vivo de bicos. Estou ligado ao Greenpeace para coordenação de eventos culturais no Brasil. Mas não é nada fixo. Acho terrível que o teatro neste País esteja ligado estruturalmente ao poder. Parece um mendigo diante das secretarias de Cultura. Uma estrutura que não permite a existência do verdadeiro artista.
O Diário – Mas como é esse artista?
Rojas – É um artista que anda sem parar. Caminhando, se faz o caminho. Andar e, quem sabe, criar asas e voar também.
O Diário – Escola forma ator?
Rojas – É muito difícil você explicar para o padeiro que ele não deve confeccionar pães com peso inferior ao exigido; pedir para o Ministério da Economia não reajustar mais o leite, porque isso provoca a morte de molhares de crianças. Assim são atores de escolas de formação: não têm consciência de que tudo que aprendeu não serve como instrumento de trabalho. Semana passada, encontrei com Antunes e ele sugeriu que fosse jogada uma bomba em todas as escolas do País. Concordo com ele.
O Diário – Apesar da tempestade, é possível identificar alguma saída para o teatro?
Rojas – Uma delas seria de grupos de atores que ajam coletivamente, transferindo energias, forças, conhecimentos que possam contribuir para o surgimento de um novo teatro no Brasil. A noção de grupo foi diluída nos últimos tempos, sobretudo por causa do violento incentivo ao individualismo. Culpa também das escolas de teatro que estão aí.
O Diário – Dos trabalhos dos diretores, o que o senhor destacaria?
Rojas – No Brasil, respeito nomes como Amir Haddad, que desenvolve um pesquisa de teatro de rua no Rio; e Antunes Filho, esse bruxo a quem amo e odeio.
O Diário – Como está o teatro latino hoje?
Rojas – Percebe-se uma relação muito fecunda com importantes nomes europeus. Miguel Rubbio (grupo peruano Yayachkani, do qual fiz parte da fundação, em 71); Enrique Buenaventura (Teatro Experimental de Cali, na Colômbia) e Maria Escudeiro (Libre Teatro Libre, da Argentina) têm muita influência de Eugênio Barba e Jerzy Grotowski, por exemplo.
16.7.1992 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Quinta-feira, 16 de julho de 1992. Caderno A – capa
Peça escrita pelo colombiano Enrique Buenaventura cutuca com a ponta do dedo as raízes da miséria do povo latino-americano
VALMIR SANTOS
Existe uma corrente no teatro latino-americano voltada para as veias abertas deste continente – como bem salientou o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Enrique Buenaventura, dramaturgo colombiano, é um exemplo. Aos 75 anos, continua acompanhando os trabalhos do Teatro Experimental de Cali, do qual foi fundador. Uma de suas peças mais importantes, “A Orgia”, está em cartaz em São Paulo, encenada pelo grupo Tektons, com direção do peruano Hugo de Villavicenzio.
“A Orgia” é a segunda obra da trilogia “Os Papéis do Inferno”, completada com “A Professora” e “A Autópsia”. Buenaventura escreveu a peça nos anos 60. Chegou ao texto e à concepção cênica a partir de criação coletiva desenvolvida no Teatro Experimental de Cali, na Colômbia. A técnica de improvisação, aliás, é uma característica sempre presente no processo de dramaturgia do autor. Na montagem que dirige, Villavicenzio deixa claro a influência do seu mestre, com quem estudou na Colômbia. A coreografia de movimentos quebrados dos atores e o replay de cenas – mesmo que às vezes cansativo – denotam a apuração plástica. A expressão corporal é outro destaque. Percebe-se em alguns atores a movimentação das extremidades, pés e mãos.
A história de “A Orgia”, definida como tragicomédia, trata de uma velha inescrupulosa que rouba o minguado ganha-pão de seu filho surdo-mudo, um engraxate. O objetivo é organizar, todo fim de mês, uma “festa de recordação”. Para tanto, a velha convida mendigos esfarrapados para representarem personagens que marcaram sua carreira de cantora de cabaré. São coronel, bispo e um aristocrata. Qualquer semelhança com personagens da mesma estirpe, que costumam pincelar a história da América Latina, não é coincidência.
“Trata-se de uma noitada espiritual e não permitirei que manchem com o materialismo que corre”, brada a velha (Mila Rey) contra os mendigos que reivindicam a sobra da panela de comida que a matriarca oferece na orgia. No final da peça, os famigerados investem contra a velha. Agora já não são os personagens do passado, mas os miseráveis do presente, movidos pelo instinto antropofágico.
Com “A Orgia”, o Tektons do diretor Villavicenzio ganhou os festivais de São Paulo, de São José dos Campos, de Sorocaba e São José do Rio Preto. A montagem esteve em cartaz no ano passado. Volta agora para servir de catalisador de recursos – pelo menos é o que se espera – para a nova peça que o grupo já vem ensaiando. “A Celestina”, do espanhol Fernando Rojas, foi um dos primeiros textos escritos na história do teatro. O tem? Quinhentos anos de descobrimento da América. As veias continuam abertas…
A Orgia – De Enrique Buenaventura. Direção: Hugo Villavicenzio. Com Mila Rey, Renato Cuenta, Rita Lacerda e elenco. Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h. Ingressos: Cr$ 12 mil. Teatro Cenarte (rua 13 de Maio, 1040, tel. 284-6837). Até setembro.
Teatro do Sesc com nove espetáculos
Já estão selecionados os espetáculos que integrarão a Jornada Sesc de Teatro/92. Os critérios básicos para a escolha foram: texto curto, trabalho de ator e direção. São peças que têm, em média, meia hora de duração – “a one act play”. É parecido com o que acontece em mostras anuais ou específicas, como a National Festivals a All England Theatre, duas organizações inglesas. As montagens selecionadas serão apresentadas durante três dias, a partir de 31 de julho, no Teatro Sesc Anchieta, em São Paulo.
Fantasia de Pedra Furor (17 minutos). Direção de Cibele Forjaz. Com Rosi Campos
Liubliú (30 minutos). Direção de Beatriz Azevedo. Com Petrônio Gontijo e Jairo Matos.
Graças a Deus (30 minutos). Direção de Clélia Virgínia Rinaldi e Milena Milena. Com Milena Milena.
Like a Rolling Stone (45 minutos). Direção e atuação de Ânderson do Lago Leite e Lavínia Pannunzio.
Domingo (17 minutos). Direção de Patrícia Soares. Com Zeca Pezzatti
A Pescadora Queimada (40 minutos). Direção de José Antônio Garcia. Com Sérgio Mamberti, Jandir Ferrari, Iara Janra
Do Outro Lado da Ilha (35 minutos). Direção e atuação de Milena Milena e Dafne Michellepis
O Pesadelo do Ator (35 minutos). Direção de Márcia Abujamra. Com Carlos Moreno
2.7.1992 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Quinta-feira, 02 de julho de 1992. Caderno A – capa
Aos 86 anos, o criador do butô traz dois espetáculos ao Brasil e continua dançando como uma criança
VALMIR SANTOS
A leveza do ser é sustentável. O japonês Kazuo Ohno, criador da dança butô, prova isso no palco. Seus movimentos lentos conectam o homem ao espaço, ao meio. É uma interação. Nos espetáculos, paira a sensação de que este velho de 86 anos revisita a infância o tempo todo. “O estado ideal do homem é a posição fetal, onde se mantém tranqüilo e vive em harmonia com tudo que está em sua volta”. O corpo de Kazuo é lúdico. Pés e mãos, as duas palavras que significam butô, se avolumam em cada gesto. Quem o vê dançando não esquece. Guarda consigo a poção mágica da vida: cuidar muito bem do coração e do espírito, como costuma orientar o mestre.
É assim que Kazuo Ohno se encontra novamente entre nós. Sua primeira apresentação no Brasil ocorreu em 1986, em São Paulo. Ele voltou semana passada, no Festival Internacional de Londrina (PR). Dançou em Santo André e deve ir para Belo Horizonte (MG). Junto com seu filho, Yoshito Ohno, 53 anos, trouxe dois espetáculos: “Water Lilies” (ou “Lírios D’água) e “Ka Cho Fu Getsu” (“Flores, Pássaros, Vento e Lua”). O segundo é a mais recente montagem da Kazuo Ohno Dance Company, formada pelo pai e filho. “Ka Cho Fu Getsu” é a integração da alma e da natureza. Nele, o mestre do butô lida com dois extremos da existência: vida e morte. Quando a mulher dá a luz um bebê, está caminhando para a morte ao mesmo tempo em que gera uma nova vida. Sobre põem-se o fim e o começo. “A loucura extrema da loucura: a vida renasce como uma nova vida através da morte”, deduz Kazuo. Em “Water Lilies”, o dançarino, como prefere ser tratado, ao invés de ator, mergulha no universo sensorial. Inspirado no pintor francês Monet, usou toda sua experiência de vida artística como rascunho para criar um mundo de transparência, de realidade e fantasia, flutuando da beleza. “Com a ajuda de Monet, eu me libertei da forma e encontrei aquilo que repousa na Terra e no Cosmos: o lírio d’água”, conta.
Ademais, fica difícil falar sobre os trabalhos. Tem dança, teatro, mímica. O cenário não existe, o palco fica nu. A partir dos movimentos de Kazuo e Yoshito, o espectador consegue desenhar uma paisagem, fruto de sua própria experiência de vida. O butô permite isso, É o vazio onde o observador consegue preencher, dispor sua emoção. Mãos e pés, as extremidades do corpo, transmitem poesia. É o belo superando com muito esforço a realidade.
Espírito comanda o corpo na dança
Na dança butô, o espírito comanda o corpo (pés e mãos). A concepção nasceu no final da década de 50, quando Kazuo Ohno atuou em “Kinjiki”, escrita por Mishima Yukio, que cometeu o haraquiri. Kazuo descobriu o butô ao lado do amigo e colaborador Tatsumi Hijikata. O mestre começou a dançar aos 28 anos, influenciado por um espetáculo da bailarina argentina Antônia Marcé. Aos 86 anos, ele diz que continua criando movimentos só possíveis de serem realizados nesta idade. Apesar das limitações físicas, flutua no palco.
“Sou este velho que acumula experiência e não fica quieto, sem se manifestar, sem transmitir sua arte”, filosofa.
28.5.1992 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Quinta-feira, 28 de maio de 1992. Caderno A – capa
Adaptação de Antunes empareda Macbeth e resulta em um espetáculo de impacto
VALMIR SANTOS
“Eu já tenho cheiro de naftalina, clorofórmio?”, pergunta, com estranhamento, o diretor Antunes Filho. De fato, ele exala contemporaneidade. “Trono de Sangue”, sua adaptação para “Macbeth”, de Shakespeare, estreou semana passada. Traz para o palco uma ação impactante da mais sinistra e sanguinária tragédia do autor inglês. A história de Macbeth a usurpar o trono do rei Duncan é envolta em suspense cinematográfico.
Tragédia perversa na definição de Antunes, “Trono” é horror sussurrante. Uma tensão explícita acompanhada de divertimento, mesmo que trágico. O pulso do espetáculo fica por conta do ator Luís melo, um Macbeth animalesco, visceral. Ao seu lado, a ex-Chapeuzinho Vermelho em “Nova Velha Estória”, Samantha Monteiro, é a víbora e frágil lady Macbeth.
No palco de tablado vermelho, estilo elizabetano, atuam ainda 16 atores, a movimentação deles remete ao Coro grego. Como no enterro do rei Duncan, onde se juntam para conduzir o caixão entoando canto japonês ao ritmo de sapateiros. A cena final é eletrizante. Sem sua Lady, que perde a razão e morre, Macbeth se vê isolado, travando batalha com o exército que quer recuperar a Justiça. O usurpador é devorado pelos soldados ao som de heavy metal.
Trono de Sangue – Com Luis Melo, Samantha Monteiro e grupo Macunaíma. De quarta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Sesc Anchieta (rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 256-2281). Ingressos: Cr$ 20 mil e Cr$ 10 mil (comerciários), de sexta a domingo; Cr$ 15 mil e Cr$ 7,5 mil (comerciários), quarta e quinta. Duração: 1h30. Até 26 de junho.
Ator virou mobília, diz diretor
Antunes Filho, 62 anos. Um dos diretores mais respeitados do teatro nacional, sempre marcado pela ousadia de experimentar, de reinventar o fazer teatral, ele continua sustentando sua única motivação cênica: o ator.
“Hoje o ator virou mobília”, sentencia. Para Antunes, quem manda no palco é o ator, imbuído de sensibilidade, manifestando sua poética real. “Diretor que não sabe trabalhar ator não é diretor, é design”, alfineta.
Gesticulando, preparando fumo no cachimbo e bastante agitado depois da semana de estréia de “Trono de Sangue”, Antunes recebeu o Diário para entrevista exclusiva, segunda-feira passada, no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc, São Paulo, onde coordena diversos núcleos de criação, com cursos de montagem, iluminação, cenografia, e outros elementos de teatro.
Diário – Como foi o processo de criação de “Trono de Sangue”, realizado paralelamente com as montagens de “Nova Velha Estória” e “Paraíso Zona Norte”?
Antunes Filho – A adaptação de “Macbeth” começou a ser trabalhada há sete meses. Os atores participaram de vários laboratórios. As pesquisas foram voltadas, por exemplo, para a maneira de andar dos séculos 16 e 17. Minhas peças são atemporais. Brinco com os estilos da época nos contextos psicopolíticos, psicossociais e psicoeconômicos. Há também pesquisas realizadas em livros. A coisa mais fundamental da vida é o imaginário. A verdade do imaginário é muito mais profunda que a verdade histórica.
Diário – Apesar de clássicos, o Sr. anunciou uma montagem antimuseu, mais uma vez jogando com experiências cênicas.
Antunes – “Trono” resgata a cultura do ator brasileiro. É, antes de tudo, uma homenagem que presto ao ator de costumes Jaime Costa, pela atuação em “Caixeiro Viajante”, e à atriz Glauce Rocha, a única que vi interpretando Shakespeare como se fosse ela mesma; não recitava, brotava do seu organismo. Por outro lado, a peça é uma ruptura, porque faço uma experiência estética onde, além de usar o cinema, recorro à força centrifuga. Tiro o ator do centro do palco e coloco nas paredes, abrindo a cena. Uma espécie de poética da parede. É como o momento que o Brasil atravessa, vivemos emparedados, com medo, receio.
Diário – Explica um pouco como se dá essa valorização do ator.
Antunes – Diretor de teatro tem que saber lidar com ator. Quem manda no palco é o ator. O diretor deve apenas ajudá-lo a encontra sua poética. Hoje, os diretores são verdadeiros filhotes da ditadura no palco. Tenho fama de ser o sacristão, o ditador. Mas é o contrário. Só porque quero disciplina no CPT muitos confundem ditadura. Exijo aspectos essenciais para a constituição de liberdade. Se não tenho base, um sistema, então tenho libertinagem.
Diário – Nas últimas entrevistas o Sr. tem falado bastante do ator comediante. Não poupa sequer críticas aos atores de novela.
Antunes – Para mim, existem três categorias de ator. O primeiro é o de comédia de costumes, uma corruptela do que se vê nos programas de humor na TV. O segundo é o ator dramático, aquele que fica confinado ao texto e não vai além do que o autor escreve. E, por fim, o comediante. É aquele que pesquisa, propõe novos modelos culturais, não vive de pré-concepções. O ator comediante está afastado de tudo, fica acima da comunidade humana. Olha de cima e desce para fazer teatro, contar histórias, ajudar os homens. Ele prefere a sensibilidade à emoção.
Diário – Por que uma nova visita a Shakespeare?
Antunes – Só montei Shakespeare porque é um autor da minha época. Não faria para cultuar o museu shakespeariano. Faço um Shakespeare brasileiro, de 1992.
Diário – Qual a avaliação que o Sr. faz das peças montadas atualmente?
Antunes – Quando vou ao teatro, nunca entendo o que os atores estão fazendo; quando entendo o português, não compreendo o que falam. Meu teatro procura exatamente entender e compreender. Hoje, a molecada vem assistir “Trono” e sai dizendo: “Puxa, nunca pude imaginar que um clássico fosse assim, vivo”.
Diário – E de quem é a culpa deste entendimento incompreensível?
Antunes – Um pouco dos diretores, que não vão a fundo em nossas raízes e terminam fazendo clipe com os atores. Hoje, o ator virou mobília no palco. O clipe é uma linguagem da forma pela forma, são tensões visuais sem raízes. Já fiz isso em “Romeu e Julieta”, utilizando uma sintaxe do clipe. Agora, não posso ver um clipe na TV que acho a coisa mais chata, mais burra e mais cacete do mundo, muito repetitiva. Aliás, o pós-modernismo no Brasil se caracteriza por uma época burra. Enquanto isso, na Europa, ele recorreu ao lúdico, buscando sua tradição verdadeira. Aqui, ao contrário, vive-se atrás da cultura estrangeira, da citação pela citação, e você nunca sabe onde vai dar. Se eu assinar um espetáculo assim, tipo Bia Lessa, estou liquidado como diretor. Ela pode fazer isso, eu não.
2.4.1992 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Quinta-feira, 02 de abril de 1992. Caderno A – capa
Grupo monta, simultaneamente, “A Megera Domada” e “A Mandrágora”
VALMIR SANTOS
A disputa acirrada e a conquista pretensamente orgulhosa do poder nos tempos de Collor, de Nicolau Maquiavel ou de Willian Shakespeare, tanto faz. Até junho, o grupo Tapa continua encenando duas peças clássicas que colocam em xeque a preponderância do domínio do alheio seja pela força física, moral ou financeira. “A Megera Domada” (Shakespeare) e “A Mandrágora” (Maquiavel) trazem para o palco, em gênero de comédia, o discurso do macho e o exercício da velha corrupção, que antigamente assolava os clãs e hoje emperra a máquina de muitos governos.
“Não se culpa o autor, mas o seu tempo”, entoam em coro os atores, logo na primeira cena de “A Mandrágora”. A frase serve para reforçar o conteúdo atemporal dos textos. Maquiavel concluiu sua obra em 1503, três anos depois do Descobrimento do Brasil. “A Megera”, de Shakespeare, foi escrita entre 1593 e 1594.
Segundo o diretor do Tapa, Eduardo Tolentino de Araújo, 37 anos, “A Megera” mostra como o machismo no Ocidente atravessou os séculos e continua em voga nos dias de hoje, forçando uma submissão das mulheres nas sociedades. Na peça, a truculência de Petrúquio diante da ferina Catarina termina em uma relação de serva e senhor. Ela, encarnada em sua ideologia feminista roxa, sucumbe ao estilo bateu-levou dele. Um laço, é claro, edulcorado pelo interesse mercantilista do pai de Catarina, que cede a mão da filha em troca dos dotes pertencentes ao futuro genro.
Na maquiavélica “A Mandrágora”, Tolentino enxerga uma metáfora da conquista da mulher como se fosse o poder. “A matéria da História é escabrosa”, dispara o diretor, referindo-se aos fatos de política rasteira que permeiam a humanidade. A encenação resume-se nas tramóias de Calímaco, um conquistador barato que arrisca sua própria cabeça para passar uma noite com a bela Lucrécia, a mulher do bem-nascido Messer Nícia.
A retomada do teatro clássico é uma realidade em 1992. “Acredito que até quando for construída uma estação intergaláctica, os textos clássicos continuarão a ser encenados lá em cima”, brinca Tolentino, um dos fundadores do Tapa, em 1973, no Rio de Janeiro.
Domiciliado em São Paulo há seis anos, o grupo já levou ao palco “Viúva, Porém Honesta” (Nelson Rodrigues), “Solness, o Construtor” (Henrik Ibsen) e “As Raposas do Café”, entre outras montagens. O Tapa, hoje, consolida-se como um dos melhores grupos do país.
Elenco sua em maratona no palco
A maioria do atores do Tapa atuam nas duas peças. Desde que estrearam as montagens, no final do ano passado, o grupo se empenha em uma verdadeira maratona. De quarta a domingo apresenta “A Megera Domada”. Na terça e na primeira sessão de quarta, é a vez de “Mandrágora”. Ou seja, o elenco só descansa às segundas-feiras. Para manter o fôlego, os atores são submetidos a um intenso trabalho de preparação corporal, com aulas de tai chi chuan, esgrima, florete e até luta corpo a corpo, entre outras atividades. Tudo em nome da arte.
12.1.1992 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 12 de janeiro de 1992. Local – Página 3
VALMIR SANTOS
Estavam lá as prostitutas, os meninos de rua, os PMs armados, os evangélicos, os muambeiros e as sofridas pombas urbanas em busca de migalhas no concreto. Durante a última semana, este foi o cenário que serviu de pano de fundo para o espetáculo “O Capeta de Caruaru”, na Praça da Sé, com o grupo Teatro da Universidade de Mogi das Cruzes, o Tumc. A exemplo do que aconteceu nas praças de Mogi e Suzano, a peça do pernambucano Aldomar Conrado, entremeada por lendas absurdas da tradição nordestina e pelas tiradas políticas e sociais em voga, também cativou o público paulistano.
Na roda formada há poucos metros do marco-zero do Estado, os rostos revelavam uma maioria de migrantes do Nordeste. A identificação com as cenas e os sotaques dos personagens era inevitável. O sorveteiro António da Silva, 26 anos, soltava altas gargalhadas. “Tô gostando bastante”, disse o pernambucano de Surubim, cidade a duas horas de Caruaru. Silva só parou para assistir à peça depois de vender todos os 200 sorvetes de sua caixa de isopor. Tem saudades da terra natal, mas é “obrigado” a ficar em São Paulo. “Lá não tem emprego”, justifica.
As aventuras do prefeito António Cipriano e do padre Damião, que se passam, respectivamente, pelo beberrão Chico e o caipira Biu — esse troca-troca de personagens provoca momentos engraçados —, reportou o marceneiro Adaílton Alves Cavalcante, 32 anos, à sua infância e adolescência em Rio Tinto, na Paraíba. “Nunca havia assistido a um espetáculo em praça pública, nem em teatro de verdade”, conta. Cavalcante assistiu a todas as apresentações do Tumc na Sé. Quinta e sexta-feira, estava acompanhado da mulher, Marluce, 22 anos, e do pequeno Anderson, 2 anos.
Amor à arte
Tatiana Freitas, 8 anos, filha da vendedora autônoma Edilenice Freitas do Carmo, 27 anos, se desvencilhou dos braços da mãe e foi sentar à frente da roda-platéia. “Gostei mais da Bruxa”, afirma a menina, referindo-se ao personagem que narra as peripécias de “O Capeta de Caruaru”. Para a baiana Edilenice, que já fez aula de interpretação com a diretora teatral Maria Clara Machado, no Rio de Janeiro, é importante a iniciativa do Tumc em levar a arte cênica para a praça. “A gente percebe uma personalidade forte no grupo, de entrega, de amor à arte mesmo”, avalia, enquanto assistia à peça pela segunda vez. O ajudante de limpeza Antônio da Silva – mesmo nome do sorveteiro -, 45 anos, disse que o Tumc lembra o tempo em que vivia em Rancharia. no interior do Estado, onde costumava freqüentar o circo. Em “O Capeta”, segundo ele, os personagens caricaturados lembram os palhaços. Barba à Tiradentes, uma mochila a tiracolo, apoiando-se em um cabo de vassoura que servia de apoio por causa de uma operação recente na bacia cervical, Silva permaneceu em pé durante toda a apresentação e aplaudiu sorrindo ao final.
Cheirando cola
Poucos minutos depois do inicio do espetáculo, às 19 horas em ponto, cerca de 15 meninos e meninas de rua estavam sentados à frente do público, envoltos em cobertores. A maioria, negros. Alguns cheiravam cola de sapateiro em saquinhos plásticos. “É a primeira vez que vejo teatro na Sé”, disse Agostinho Manoel, 12 anos. Ele pertence ao grupo de menores que tem ainda Corina, 15 anos, e Fábio, 12 anos. “A gente dorme nas ruas do bairro da Liberdade”, afirma Agostinho.
Ex-detento da Febem, abandonado pelos pais desde os 7 anos, Josivaldo Aparecido da Silva, 23 anos, conhece a Praça da Sé como a palma da mão. “É superlegal ver este grupo aqui, se apresentando de graça para o povão”, elogia. Na sua opinião, a temporada do Tumc serviu como recreação para os meninos e meninas de rua donos de vidas bastante atribuladas. “Os policiais espancam, a Rota mata diariamente e ninguém fala nada”, acusa.
Deus e o diabo
Por pouco – cerca de 50 metros – “O Capeta” não trombou com os evangélicos da Igreja Sê Livre. Enquanto na roda do Tumc um cavalo que nasceu com cabeça humana casa com uma moça que pegou a doença do coqueiro e não cessa de crescer, o círculo dos pregadores do grupo Heróis da Fé ouvia as “lições” do pastor Arnaldo Albuquerque, 49 anos. “Aqui não é um picadeiro; é lugar de o homem ouvir a verdade nua e crua”, vangloria. “Aqui em Caruaru felizmente não existem as falcatruas da Saúde”, envaidece o prefeito António Conselheiro na peça do Tumc, comparando sua administração ao ministério comandado por Alceni Guerra. Neste embate pacifista, até que ponto ficção é realidade, e vice-versa?
Convidado especial
O espetáculo da última quinta-feira, acompanhado pela reportagem do Diário, foi dedicado ao diretor César Vieira, fundador do grupo União e Olho Vivo, que completa 25 anos em março. “A peça tem técnica de teatro popular e consegue cativar o público”, analisa Vieira, 49 anos. Ele foi convidado pelo diretor do Tumc, Adamilton Andreucci Torres, 38 anos, autor de uma tese sobre o União e Olho Vivo. Na opinião de Vieira, o trabalho do grupo mogiano segue um caminho de recuperação da arte popular. Cita, como exemplo, o número de pessoas que assistia a “O Capeta” na praça da Sé, cerca de 350. “Garanto que poucos teatros contam com um público destes na platéia.” Hoje, um ingresso custa em média Cr$ 6 mil.
15.12.1991 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 15 de dezembro de 1991 – Local – Página 6
VALMIR SANTOS
Um cavalo provido de cabeça humana casou-se ontem com uma moça acometida pela doença do coqueiro — mais para girafa —, filha do cangaceiro António das Almas. O enlace aconteceu em frente à Igreja Matriz. Antes das pazes, porém, houve muita confusão. Quem passou pela praça Coronel Almeida a partir das 12 horas viu de perto as armações de uma bruxa escatológica tentando azucrinar o pacato cotidiano de uma cidade de Pernambuco. Eram os 18 integrantes do grupo Teatro da Universidade de Mogi das Cruzes, o Tumc, encenando “O Capeta de Caruaru”, de Aldomar Conrado.
Sob a direção de Adamilton Andreucci Torres, 38 anos, o Tumc optou por levar o teatro às ruas e praças públicas na passagem dos seus dez anos de existência (veja o box). “O Capeta de Caruaru” encerra a trilogia iniciada em 89 com “A Cara Nossa de Cada Dia”, seguida por “Cenas em Cena”, apresentada na UMC no final do ano passado, com participação especial do grupo folclórico Meninos da Porteira, de Sabaúna.
Por l hora e 20 minutos a praça Coronel Almeida serviu de território-limite de Caruaru. O cenário, resumido num painel de pano de cerca de oito metros de largura, lembrando o formato de uma casa, traz os indícios da caatinga nordestina: o sol abrasador, o cacto ressecado, a mula esquelética e a pequena igreja, símbolo da fé daqueles que só deixam o cariri no último pau-de-arara.
O prefeito António Cipriano e o padre Damião — que também passam, respectivamente, pelo beberrão Chico e o caipira Piu — são o pivô da história. A troca de personagens confunde os moradores. Dona Cosma está preocupada com o marido que transou com uma égua, dando origem ao cavalo de cabeça de gente. Este se apaixona pela moça que não pára de crescer e já está com a cabeça ao nível das telhas da casa. O pai, António das Almas, reivindica fervorosamente, junto à prefeitura local, um guindaste para que a filha possa se locomover. Eis os fenômenos absurdos que indicam a presença do capeta em Caruaru. Tudo, é claro, pincelado pelo humor escrachado dos nordestinos, profundos amantes da superstição.
Muitos assistiram teatro pela primeira vez na vida
A apresentação do Tumc foi marcada pela descontração. Meia hora antes do início do espetáculo, as pessoas olhavam curiosas o elenco que se maquiava e vestia a roupa de cena. Com o cenário colorido, de autoria do artista plástico Ulisses Torraga Miranda Bruno, tudo exalava teatro. Aos poucos, o público se acomodou e estava formada a roda — o palco da rua ou, no caso, da praça.
Muitos assistiam a uma peça pela primeira vez na vida. “Estava passando por aqui e resolvi apreciar. É tudo muito bonito”, disse o ajudante-geral João de Assis Siqueira, 52 anos, emocionado com a arte cênica que nunca assistiu “por falta de tempo e muito trabalho”.
A escriturária Luciana de Moraes, 21 anos, chegou na metade de “O Capeta de Caruaru” e diz que foi “pega” pela energia transmitida pelos atores do Tumc. “É difícil acompanhar teatro em Mogi”, lamenta. “Felizmente, ainda temos o Tumc por aqui.”
Crianças, acompanhada pelos pais assistiam à apresentação, sorridentes. A Bruxa horrorosa, por incrível que pareça, era o personagem que mais provocava risos. “Esse pessoal é muito divertido. Tem tudo para fazer sucesso”, comenta o garoto Ricardo Vieira dos Santos, 16 anos, que já havia conferido a peça na praça João Pessoa, no sábado passado.
“E o primeiro espetáculo que assisto. É um barato”, elogia.
Tumc faz público soltar risos e cumpre seu papel
De antemão, o teatro é das manifestações culturais que mais interfere nas transformações sociais. Quando ele é levado às ruas, às praças públicas — chega às pessoas que por “n” motivos jamais pisaram nos acarpetados teatros tradicionais— então ele assume proporções ainda maiores.
O Tumc fecha os seus dez anos de vida com chave de ouro. “O Capeta de Caruaru” disse a que veio. O público riu o tempo todo. A peça de Aldomar Conrado foi feita para isso. Mas o escracho recheado com pitadas de LBA e crise econômica fica ainda mais interessante.
Sob um sol comportado, comparando-se com a temperatura dos últimos dias, o elenco suou a camisa mais uma vez. Com idades que variam de 19 a 30 anos, são todos estudantes ou ex da UMC. Compartilham os estudos com os ensaios. Adamilton os preparou muito bem. Na verdade, o Tumc tem uma característica que o difere de um grupo de teatro convencional: é um conjunto de pessoas umbilicadas pelo coleguismo de escola. Mas a amizade transcende e faz com que continue entre aqueles que já concluíram os estudos.
Uma década em cena
1981 – “O Planeta dos Palhaços”, de Pascoal Lourenço Teudesch, e “Pluft, o Fantasminha”, de Maria Clara Machado.
1982 – “A Bruxinha Que Era Boa”, de Maria Clara Machado, e “Uma Chama de Luz”, de Botira Camorin.
1983 – “Uma Luz no Céu”, de Jane Gatt.
1984 – “Pluft, o Fantasminha de Maria Clara Machado no Século da Te-le-Visão do Pessoal do Tumc”, uma adaptação anarquista de Ademilton Andreucci Torres.
1985 – “A Vida Escrachada de Joana Martins e Baby Stompanato”, de Bráulio Pedroso.
1986/87 – “Uma Eleição em Bruxópolis”, do mogiano Denerjânio Tavares de Lyra.
1989 – “A Cara Nossa de Cada Dia”, montagem coletiva do Tumc, a partir da poética dos próprios atores.
1990 – “Cenas em Cena”, montagem coletiva do grupo, com colagem de textos de Brecht, Peter Weiss, Oswald de Andrade e Nelson Rodrigues. Participação especial do grupo folclórico Meninos da Porteira, de Sabaúna.
11.11.1990 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 11 de novembro de 1990. Local – Página 8
VALMIR SANTOS
O grupo Teatro Experimental Mogiano (TEM), um dos expoentes da arte cênica na história da cidade, está completando 25 anos de atividade. Para comemorar as bodas de prata, uma troupe de ex-atores que participaram da criação do TEM, em 1965, apresenta amanhã e terça-feira, às 20h30, no Teatro Municipal “Paschoal Carlos Magno” – com entrada franca – a peça “Ainda Tem,” retrospectiva das montagens do grupo até o início da década de 70.
Segundo Regina Lúcia Moreira Gomes, 42, e João Antônio Dias, 47, ex-atores que integram a equipe responsável pelo espetáculo, “Ainda Tem” marca o encontro de todo o elenco que atuou entre 1965 e 1972, um dos períodos mais férteis do grupo que ainda está em atividade (leia texto nesta página). “É a forma que encontramos para mostrar que o sonho, o ideal do teatro, ainda não acabou”, afirmam. “Nós, os mais velhos, passamos nossa experiência à geração que está aí e tem tudo para dar certo também”.
Hoje, boa parte dos ex-integrantes do TEM desenvolvem atividades em outras áreas. São advogados, professores, administradores, artistas plásticos, escritores, poetas. Alguns ainda moram em Mogi das Cruzes; outros se mudaram, mas não perderam contato com o grupo.
O embrião do TEM foi o Grêmio Estudantil Ubaldo Pereira (Geup) do Instituto Washington Luís, o pólo político-cultural-esportivo dos estudantes mogianos em meados da década de 60. Ali, percorreram o caminho das artes. Música, poesia e teatro eram o carro-chefe.
Semanalmente acontecia o show de auditório “Escola de Grupo”, ao vivo, onde apresentavam poemas, canções e esquetes teatrais.
A primeira apresentação do grupo aconteceu em agosto de 1965, com a leitura radiofônica da peça “Em Tempos de Inconfidência”, escrita por Milton Feliciano de Oliveira, no salão da antiga Rádio Marabá (hoje Rádio Diário de Mogi), que funcionava no prédio onde está localizado hoje o Cine Avenida.
“Em Tempos de inconfidência” antecedeu o espetáculo “Noite de Poesia e Bossa”, censurada pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão do governo federal, devido à analogia política que fazia ‘ com a situação do País, no pós-golpe militar. Era dezembro de 1965. No mesmo mês acontecia outro espetáculo, “Tem Noite Feliz”, um auto de Natal.
Depois de alegres intervenções radiofônicas e dos lamentáveis dribles sobre a marcação cerrada da censura do governo Castelo Branco, finalmente o TEM subiu ao palco para apresentar a primeira montagem efetiva: “A Exceção e a Regra”, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, com direção de Armando Sérgio da Silva. Foi encenada no Liceu Braz Cubas, em agosto de 1966 (um ano depois da criação do grupo). Participando do 4º Festival do Teatro Amador do Estado de São Paulo, realizado naquele ano, a peça obteve prêmios de melhor espetáculo, direção, sonoplastia, maquilagem e iluminação.
No ano seguinte, 1967, foi a vez de “Canudos”, histórico brasileiro sobre a vida de António Conselheiro; em 1968, ‘Yerma”, do escritor espanhol Federico Garcia Lorca, e “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, de Milton Feliciano (parte do elenco chegou a ser detida certa vez quando distribuía panfletos da peça, tida como “subversiva”); e, finalmente, “E a Sua Família Continua Unida?”, também escrita por Feliciano. Nesse período, realizaram ainda montagens infantis (“Pluft, o Fantasminha”, “A Bruxinha Que Era Boa”, “A Árvore Que Andava” c “Tio Platão”).
Ex-secretário de Cultura foi um dos idealizadores
Armando Sérgio da Silva, 44, ex-secretário municipal de Cultura, na gestão do prefeito António Carlos Machado Teixeira, foi um dos fundadores do TEM. Lembra com saudades das suas participações nos shows que aconteceram no “palquinho” do Instituto Washington Luís. Havia um quadro semelhante à “Escolinha do Professor Raimundo”, da Rede Globo, no qual, aos 14 anos, ele interpretava um dos alunos pentelhos da classe. Também foi um inveterado dublador das canções de Elvis Presley e do conjunto The Platters.
Na Rádio Marabá, Armando realizou vários esquetes. Os programas eram escritos por Antônio Benetazzo, desaparecido durante a ditadura (de acordo com Armando, sua ossada foi encontrada há poucos meses numa vala clandestina do cemitério Dom Bosco, no bairro paulistano de Perus). A locução ficava por conta de Sérgio Corrêa.
Segundo Armando, o TEM surgiu da necessidade de se fazer um teatro voltado para a pesquisa, desvinculado da prática convencional. Identifica o grupo com o movimento Oficina, emergente nos anos 60, pelo trabalho mais espontâneo, não levando tanto em consideração a apuração técnica e formação do ator, a exemplo do que acontecia no Teatro de Arena.
Armando Sérgio dirigiu “A Exceção e a Regra”, de Brecht, uma das peças mais premiadas do TEM. Permaneceu no grupo até 1967, quando foi estudar na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde atualmente leciona pós-graduação na disciplina Interpretação do Ator, tendo estrelas globais entre os alunos, como Irene Ravache e Regina Braga. Também dá aulas no curso de Comunicação Social da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).
Na sua opinião, o movimento teatral em Mogi “sempre foi forte”. Cita, como exemplo, os 23 grupos que existiam na cidade durante sua gestão na Prefeitura (1982-1988). Armando, no entanto, se esquiva de avaliar a arte cênica mogiana na atualidade, alegando estar “afastado” das atividades locais em função das aulas na USP. Dos 23 grupos que citou, hoje, pelo menos 80% se dissolveram. (V.S.)
Diretora diz que montagem ignora nomes fundamentais
Na opinião da diretora do TEM, Clarice Jorge, 53, há 20 anos no grupo, o espetáculo preparado para homenagear os 25 anos deixou nomes importantes de fora. “Os ex-atores se detiveram apenas aos primeiros cinco anos do TEM e se esqueceram dos outros 20 anos”, disse. “Eles não foram leais e, para o homem, lealdade é fundamental, sob risco de se tornar tão somente um bicho a mais na natureza”.
Entre os integrantes que passaram pelo grupo, Clarice cita Mário e Marco Aurélio Namura, Paulo Fernandes, Levi Quintas Oliveira, Mário e Márcia Clacenko, Carlos Leonel Pastos, Aírton Durval da Mota, Marina Nogueira, Gina Muffo e José Miguel de Matos.
Clarice afirmou que foi convidada a participar da montagem de “Ainda Tem”, mas achou por bem não entrar na peça porque ainda atua no TEM. “Não sou ex”, disse. “Continuo no exercício da atividade teatral, o que na minha opinião é mais importante que comemorar os 25 anos”.
O TEM dos anos 90 se resume a seis atores. O grupo é presidido pelo escritor Nelson Albissú. Atualmente ensaiam “Os Cantores do Rádio”, de Albissú, cuja estréia está programada para janeiro do próximo ano — em dezembro serão feitas apresentações em creches e entidades carentes de Mogi, em caráter beneficente.
A diretora lembra/emocionada da peça “Ultima Estação”, também escrita por Albissú, que percorreu mais de 120 cidades entre 1985 e 1988. A montagem mais recente do grupo foi “O Aniversário de Mamãe Júlia”, do mesmo autor, realizada no ano passado. (V.S.)
Feliciano escreveu “Ainda Tem”, uma retrô das peças
Principal autor das peças montadas pelo TEM durante os primeiros seis anos de vida do grupo, o escritor e poeta Milton Feliciano de Oliveira, 47, preparou “Ainda Tem” para o reencontro dos amigos. “Nossa aventura teatral foi importante”, conta. “Retratamos um período em que Mogi teve uma forte resistência político-cultural e, por isso, não poderíamos deixar os 25 anos passarem em branco.”
Feliciano integrou o TEM de 1965 a 1971. Entre as principais montagens de sua autoria, estão “Tiradentes”, “Canudos”, “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, “E a Sua Família Continua Unida?” e “Leone e Lena”. Foi um dos idealizadores do show “Escola de Grupo”, no Instituto Washington Luís, a gênese do grupo.
Em “Tiradentes”, censurada pelo Dops, Feliciano fez um paralelo com o sufoco do regime militar vigente. “Através da história de Joaquim José da Silva Xavier, que curiosamente não se auto-intitulava doutor, tampouco era alienado, mostramos a batuta dos militares sobre nossas cabeças”, explica. Na oportunidade, ficou detido no Dops, em São Paulo, durante quatro horas tentando convencer “Dona Solange” – a mulher da tesoura – a liberar a peça. Nada conseguiu.
O escritor se afastou do TEM em 1971, quando se mudou para Porto Alegre (RS). Em 1977, voltou para Mogi com “Bandeirinha ou Boné, Cavalheiro?”, com o grupo Teatro Sérgio Corrêa. Foi uma passagem rápida. No ano de 1980 trouxe ao público mogiano “Amor (te) Natal”, uma versão diferente sobre a vida de Jesus Cristo. Esta peça também foi censurada em 1970 e liberada uma década depois.
Hoje, à frente da Distribuidora Porto Alegre, Milton Feliciano continua escrevendo. Na última quinta-feira lançou o livro “Olhei Minha Vida” – uma retro do seu fazer teatral. Em “Ainda Tem”, que será apresentado amanhã e terça no Municipal, traz fragmentos das peças que montou no grupo, além da leitura de poesias e trechos de músicas da época. “Teatro se comemora com teatro”, afirma. (V.S)