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“Folha de São Paulo"

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Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 02 de outubro de 2004

TEATRO 
Inês Aranha encena no Ágora tragédia de Ésquilo 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A sedução pelo poder está na gênese das tragédias. Isso não era tão elementar há 2.500 anos, quando a democracia venceu a tirania na Grécia.

Tido como “o pai das tragédias”, por introduzir o diálogo e o coro, o poeta Ésquilo cravou em “Sete contra Tebas” mais um tento da desesperança característica de seu teatro. É a história da disputa de governo por dois irmãos. Eles vão à guerra, matam-se e levam de roldão os seguidores. A cidade é empapuçada de sangue pois fora conduzida assim por seres gananciosos.

Sintomático que uma nova montagem de “Sete” vá ao cartaz hoje, véspera de eleições. “Os candidatos se digladiam, mas os contribuintes, os cidadãos, são sempre os últimos contemplados”, diz a atriz e bailarina Inês Aranha, 38, que assina o novo espetáculo em temporada no Ágora. Ela diz que a data da estréia foi escolhida ao acaso. Com formação na Itália, ela já foi dirigida por Roberto Bacci, Antunes Filho, Eduardo Tolentino de Araújo e Roberto Lage.

“Sete” resulta de dois anos de trabalho da diretora com um conjunto de atores-criadores então integrantes da recém-nascida cia. Areópago. No palco, seis atrizes e três atores passam o tempo todo em cena. Aranha elege o coro como eixo do espetáculo. É a partir dele que desponta Etéocles, que governa Tebas e não quer largar o cargo, rompendo acordo com o irmão Polinices. Este arregimenta um exército estrangeiro para tomar as sete portas da cidade, ao lado de outros seis generais.

Na concepção de Aranha, o enredo que culmina em terror é apoiado na “partitura” de ações físicas, ainda que sob a estrutura narrativa. Não há, diz ela, cena da guerra com tratamento cinematográfico. A opção é por uma simbologia “tribal”, a condição animal dos protagonistas, com excertos africanos e indígenas presentes na cenografia e nos figurinos criados por Adriana Vaz.

O espetáculo partiu do texto traduzido pelo pesquisador Donaldo Schüler. A dramaturgia ganhou tratamento de Maucir Campanholi e de Inês Aranha.

Foi agregada a figura do rei Creonte, com ênfase na passagem em que o mensageiro comunica que o corpo de Etéocles será enterrado como herói, enquanto o de Polinices será expatriado.

Também foi pinçado trecho euripidiano de “As Fenícias”, quando Jocasta discorre sobre a amaldiçoada sina familiar. Chave para contextualizar o espectador: Etéocles e Polinices são filhos de Édipo, aquele que matou o pai, Laio, depois que identificou na esposa, Jocasta, a sua mãe. Tudo por contrariedades aos oráculos. Tudo por contradições humanas na pólis de ontem e de hoje.
 



Sete contra Tebas.
De: Ésquilo (525-456 a.C.). Tradução: Donaldo Schüler. Direção: Inês Aranha. Iluminação: Carmine D’Amore. Com: cia. Areópago (Alessandra Esteves, Bia Toledo, Claudia Campos, Gabriela Lois, Manfrini Fabretti, Rene Ramos, Sun Ra, Tieza Tissi e Venâncio Mortez). Quando: estréia hoje, às 21h; sáb., às 21h; dom., às 20h. Onde: teatro Ágora (r. Rui Barbosa, 672, tel. 3284-0290). Quanto: R$ 15. Até 12/12.

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 30 de setembro de 2004

TEATRO 
Grupo dá início hoje ao evento de 78 horas de atividades em comemoração dos seus 15 anos de existência

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Mal terá passada a alvorada, nas primeiras claridades de sexta-feira, e virá o sarau com textos do marquês de Sade (“Os 120 Dias de Sodoma”, “Justine”).

Na madrugada de domingo, o casal de velhinhos de Eugène Ionesco (“As Cadeiras”), isolado num farol, aguardará em vão os convidados aos quais pretende transmitir mensagem de salvação da humanidade. Metáfora a calhar com as horas que antecedem a visita obrigatória às urnas.

A 15ª edição do evento “Satyrianas – Uma Saudação à Primavera” instaura “fuso horário” à parte na praça Roosevelt, no centro, sede da cia. Os Satyros. De hoje a domingo, são estimadas pelo menos 78 horas de atividades, dia e noite, instadas a comemorar os 15 anos da trupe e instigar reflexões (inf.: site www.satyros.com.br).

Além do teatro (leituras e encenações), haverá simbiose com poesia e música. A abertura, hoje, às 18h, reativa a rádio Livre Satyros (em 88,7 FM), que transmitirá o evento. Na seqüência, será encenada “A Voz do Povo É a Voz de Zé”, a partir dos contos do pernambucano Marcelino Freire, com direção de Alberto Guzik.

Freire e outros escritores ou poetas participarão de “cafés literários” e “crepúsculos poéticos”. Entre eles: Marcelo Mirisola, Nelson de Oliveira, Evandro Ferreira, Juliano Garcia Peçanha, João Silvério Trevisan, Ronaldo Bressane, Joca Reiners Terron, Fábio Weintraub e Glauco Mattoso.

O poeta Ademir Assunção emendará versos ao vozeirão do cantor e compositor Edvaldo Santana, parceiro recorrente.

A senhora praça Roosevelt, convertida em personagem nos últimos tempos, mobiliza mesas-redondas sobre o amor público e privado ou, ainda, sobre a paixão pela arte do teatro.

O dramaturgo Sergio Salvia Coelho, crítico da Folha, estréia no Satyrianas “Amor: Modo de Usar” (sáb. e dom., às 23h).

Coelho também dirige o solo interpretado por Pagu Leal, que inspira o enredo: atriz curitibana chega a São Paulo para uma palestra definitiva sobre o amor “e esclarece aquela questão que nos intriga a todos, ou seja, como a inescrutabilidade da referência está implícita no relativismo cognitivo das teorias do holismo semântico”. Segundo o autor, a confusão definitiva de todas as certezas é proposital.

Ao todo, serão lidas ou encenadas duas dezenas de peças, como “Transex”, “A Filosofia na Alcova”, “O Encontro das Águas” (as três já em cartaz), “O Homem que Queria Ser Rita Cadillac”, “Análise Comportamental e Crítica da Música Eduardo e Mônica” e “Natureza Morta”.

No domingo, haverá homenagem ao ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, 70, de “Eles Não Usam Black-Tie”, “Gimba”, “A Semente” e “Um Grito Parado no Ar”, entre outras peças que reafirmaram a dramaturgia nacional nos anos 50, 60 e 70.

Folha de S.Paulo

Epopéia de um esteta

18.9.2004  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 18 de setembro de 2004

TEATRO 
Encenador italiano Gianni Ratto, no Brasil há 50 anos, é tema de documentário

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Em 1954, Gianni Ratto deixou a Itália movido por duas paixões: o teatro e as mulheres.

“Ele veio por amor a Luciana [Petrucelli, figurinista com quem viajou para o Brasil, mas depois ela voltou]”, afirma uma das suas ex-mulheres, Kati de Almeida Braga, mãe de Antonia Ratto, co-diretora de um documentário sobre o pai .

A declaração está no longa-metragem “Gianni Ratto” (título a ser confirmado), confluência da vida e da obra do diretor e cenógrafo de 88 anos, casado com a socióloga Vaner Maria Birolli Ratto.

Ele é remanescente da geração de italianos que chegou entre os anos 40 e 50 e ajudou a esquadrinhar a modernidade do teatro brasileiro (Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi etc).

Quando saiu da Itália, há 50 anos, Ratto já era um respeitado cenógrafo no meio da ópera e do teatro. Trabalhou com Giorgio Strehler (1921-97) e Paolo Grassi (1919-81), fundadores do Piccolo Teatro de Milão. Fez criações para montagens com a cantora de ópera Maria Callas, por exemplo.

“O Gianni Ratto nos deu essa consciência cultural e educacional do teatro”, diz Fernanda Montenegro, que foi dirigida por ele na mocidade.

O filme procura alinhavar a condição de esteta do homem que aprendeu a captar o belo numa obra de arte, mas também numa flor, num animal. “A beleza é uma meretriz que se entrega facilmente a santos e assassinos”, escreveu no livro de memórias “A Mochila do Mascate” (1996), uma das referências do roteiro da dupla Antonia e Gabriela Greeb, que encabeça a direção do documentário,

“Gravamos pelo menos duas seqüências, uma com uma criança lendo o livro dele e outra noturna, com uma mulher nua, fora de foco. São metáforas estéticas para momentos de silêncio”, diz Greeb, 37, que assina seu primeiro longa-metragem, depois de curtas como “A Ilusão” e “Floreados do Repique”.

O próprio Ratto é o narrador, por assim dizer. “É um filme com ele, não sobre ele”, diz Antonia, 27, que estréia no cinema. Segunda dos três filhos do encenador, ela tem formação em design gráfico; no teatro, fez assistência para Denise Stoklos no espetáculo “Calendário da Pedra”.

O filme
O documentário abre com reunião de amigos e familiares nos 87 anos de Ratto, em 27 de agosto de 2003, na casa do bairro paulistano do Pacaembu. Na ocasião, o pianista Achile Picchi executa uma rara partitura que a mãe do encenador, Maria Ratto, criara nos anos 50. Segue-se uma viagem que casa depoimentos de amigos e do próprio Ratto, numa perspectiva que dispensa cronologia e joga com fusões de imagens do mar. O agito ou mansidão das ondas sempre o seduziram.

Afinal, foram 14 dias em navio, do terminal de Crociere, em Gênova, até o cais da praça Mauá, no Rio de Janeiro, ou o porto de Santos, destinos finais naquele janeiro de 1954.

O documentário como que refaz a travessia. Acompanha Ratto ao terminal de Crociere. Testemunha encontros carregados de afetividade. Um café com os amigos Nino e Luciano, com os quais prestou serviço militar numa Itália sob regime fascista.

Conversa com o primo Corrado, que não via há meio século e com o qual compartilha uma carta, emocionado. Vai ao colégio de padres onde estudou. Recebe o beijo e o sorriso maroto do comediante Dario Fo, no intervalo de um ensaio.

Ouve as lembranças sinceras de Nina Vinchi Grassi, 94, diretora-artística do Piccolo, sobre as parcerias nos primeiros anos do teatro fundado em 1947.

Edifícios como o Piccolo e o Alla Scalla, ambos em Milão, e o Carlo Felice, em Gênova, são revisitados pelo homem que cultivou ali intimidade com a arquitetura cênica. “Não existe cena tão importante quanto o palco vazio. A partir daquele momento, tudo pode acontecer”, afirma Ratto na película.

Ainda que, no fundo, entenda como o edifício “ideal” a praça pública, como aquela do Jardim de Boboli, em Florença, onde participou da montagem de “A Tempestade”, de Shakespeare, por Strehler.

No filme, Ratto surge no mesmo local, a descrever o cenário que o marcou porque integrado à paisagem formada por lago, árvores, esculturas e uma fonte.

Artesão do teatro
Salto para o Brasil. Depoimentos de Maria Della Costa, que conheceu Ratto durante viagem à Itália, com o marido e empresário Sandro Polloni, e o convidou para dirigir “O Canto da Cotovia”, de Jean Anouilh.

Ratto se distinguia porque não se fixava apenas nas inflexões de voz para os atores, mas em sugestões mais construtivas para os personagens, como confessa um dos participantes da roda de veteranos do grupo carioca Teatro dos Sete (1959-66), reunidos especialmente para o filme.

Outras vozes vão compondo o perfil desse artesão do teatro que não gosta de ser tratado por mestre: Millôr Fernandes, Tatiana Memória (do extinto grupo Teatro Novo, que Ratto também dirigiu no Rio), Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Lauro César Muniz, Eduardo Tolentino, Celso Frateschi, Umberto Magnani, Marcos Caruso, Ariclê Perez, Kalma Murtinho, Ariela Goldmann etc.

Com produção da Homemadefilms (recém-criada por Greeb) e da Tibet Filme, “Gianni Ratto” teve patrocínio inicial da Petrobras e agora capta recursos para finalização. Deve estrear em 2005.

“Eu comi muito teatro na minha vida”, deixa escapar Gianni Ratto, sentado numa cadeira de rodas (uma neuropatia afeta movimentos das mãos e dos pés, o que não o impede de andar). A frase e a cena foram gravadas justamente quando estava dentro de um teatro italiano.

A fome de teatro continua. Há pouco, criou a iluminação (ele é um faz-tudo!) da premiada montagem de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, texto de Bosco Brasil. E segue na curadoria do projeto Formação de Público da Secretaria Municipal da Cultura, em São Paulo.

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 16 de setembro de 2004

TEATRO 
Atriz troca arrebatamento por imobilidade no “sussurante” espetáculo solo “Olhos Recém-Nascidos”, com estréia sábado

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O público afeito aos solos da atriz que passou 35 anos recriando tempo e espaço no palco, com arrebatamentos corporais ou vocais, vai deparar com uma Denise Stoklos em exercício de quietude.

“É um espetáculo meio etéreo, como se fosse música new age, meio mantra”, diz ela sobre o novo trabalho, “Olhos Recém-Nascidos”, no qual busca outro registro de atuação.

Na montagem, que estréia no sábado e ocupa a faixa do público adolescente no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo (às 16h), Stoklos passa o tempo todo sentada atrás de uma mesa.

“Faço apenas cinco movimentos. Neutralizo qualquer possibilidade de teatro para ficar numa tábula rasa e ver onde esse trampolim vai me levar”, diz.

Stoklos, 54, define o espetáculo como um rito de passagem. Quer abraçar outras formas para lidar com questões que o ofício calejou, lá se vão 12 solos. Diz ter abandonado aquilo que a qualificava.

Recorda que houve tempo no Brasil, nos anos 60 e 70, em que as possibilidades de mudança passavam pela luta armada, pela guerrilha. Na esteira da globalização, a atriz deposita suas forças no contato com o outro.

Deseja desvencilhar-se da autobiografia, ainda que incorpore o “eu” para, espera, transformar-se em espelho. Que o público percorra o caminho da intérprete em cena e descubra o seu. “Resulta como se eu sussurrasse no ouvido de cada um”, diz.

Essa espécie de intimidade tem lá um fundo pedagógico a conferir com o público-alvo. “Olhos Recém-Nascidos” discorre sobre perdas, mortes, ganhos e vida. Toca em assuntos tabus. A sociedade contemporânea, de consumo supra-sumo, não tem tempo, foge da condição de finitude das coisas, pessoas, sentimentos etc.

Para falar da despedida do antigo, próprio ou alheio, e da abertura para “a potência de energia”, Stoklos tenta se esquivar de hermetismos no texto que escreveu sob consultoria de dramaturgia de Piatã Stoklos Kignel, 24, o filho caçula.

“Fisicamente, digo que é meu espetáculo mais difícil, porque a projeção que faço de mim mesma em cena exige muito mais do que fazer o gesto em tempo interior. Não fico sentada descansando; ao contrário, tudo está em tensão no corpo”, diz.
A cenografia abre espaços mínimos para inserções de imagens (vídeo e fotografia, por Thais Stoklos Kignel, 26, filha). “Não é um espetáculo seco, mas úmido”, diz Stoklos.

Como nos solos anteriores, encaixados no escaninho do “teatro essencial”, centrado no trabalho de ator, não é perceptível a construção de um personagem. Talvez ele nem exista. Sabe-se que é Denise Stoklos pela exímia colocação corporal, ela que é especializada em mímica.

“Não é ficção, mas fricção o que me interessa na relação com a platéia. O ator é apenas a antena, não é o ego dele. O “eu” é o “eu” da platéia.” 



Olhos recém nascidos.
Texto, direção, coreografia, sonoplastia, iluminação e interpretação solo: Denise Stoklos. Figurino: Karlla Girotto. Onde: Teatro Popular do Sesi – sala Osmar Rodrigues Cruz (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/3146-7405). Quando: estréia sáb., dia 18/9, às 16h; sáb. e dom., às 16h). Quanto: entrada franca.

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 16 de setembro de 2004

TEATRO 
Artistas passam duas semanas em aldeia, no Mato Grosso, para montar peça que será apresentada em oca no Sesc

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Vestindo informalmente um macacão cáqui, sobre camiseta branca, o bem-humorado encenador francês Jean Lambert-Wild destoa do cenário administrativo de um prédio na avenida Paulista e parece preparado para a aventura à qual se propõe.

Desde ontem, ele e alguns artistas da sua trupe, a Cooperativa 326, estão na aldeia Etêñiritipa, dos índios xavante de Pimentel Barbosa, no Mato Grosso.

A equipe vai passar ali duas semanas, período em que ganhará formato o espetáculo “In My Dream, I Start Walking” (“Em Meu Sonho, Começo a Andar”), que tem pré-estréias programadas para 1º a 3 de outubro na oca instalada provisoriamente no Sesc Belenzinho, em São Paulo.

Trata-se de um braço do projeto “Metamorfoses”, que será mostrado em 2005 no Festival de Teatro de Avignon, dentro do Ano do Brasil na França.

No centro da aldeia
Lambert-Wild encontrou os xavante pela primeira vez em 2002. Relatou seu sonho de trabalhar com eles. Foi aprovado pelo “wara”, palavra que designa ao mesmo tempo o centro da aldeia e o conselho no qual os índios tomam decisões.

“Pode parecer idiota, mas há cerca de três anos sonhei que trabalharia num lugar do Brasil, cuja geografia desconheço. Cheguei à verdade simples, à inteligência “naif” dos xavante, que se tratam entre si como “homens da verdade”. Eles me aceitaram e vamos sonhar juntos”, diz Lambert-Wild, 32.

O discurso é subjetivo. “Os franceses são objetivos?”, devolve. “Talvez por isso eles aparentam tanta tristeza”, acrescenta.

E insiste. “Ainda se pode compartilhar um sonho na era dos sonhos de consumo?”, coloca o encenador que voltou da primeira visita à aldeia xavante considerando que aqueles índios são “guerreiros da poesia, por penetrarem o cosmos que não conseguimos”.

Reconhece que a melhor palavra para definir o projeto é “utopia”, o que condiz com a investigação artística da parisiense Cooperativa 326, voltada para as artes cênicas, visuais e musicais, da qual é diretor-artístico desde 1998.

Lembert-Wild nasceu na ilha Reunião, departamento ultramarino francês, e sente-se um “exilado na metrópole”.

Para conceber o que pretende uma instalação sonora, “um wara sonoro e poético”, o espetáculo inclui quatro integrantes da companhia, entre eles o músico e compositor Jean-Luc Therminarias.

Atuação indígena
Haverá participação de cinco xavantes (uma das primeiras apresentações de rituais fora da aldeia aconteceu nos anos 90, quando um grupo viajou até São Paulo para um evento ao ar livre no Sesc Ipiranga).

Lambert-Wild, sua equipe e os índios chegam ao Sesc Belenzinho no próximo dia 27. Devem trazer um roteiro comum. Juntam-se a eles, então, a atriz Simone Spoladore e o ator francês Stéphane Pellicia.



In my dream, I start walking –
Direção geral: Jean Lambert-Wild. Com: índios da aldeia Etêñiritipa em Pimentel Barbosa (Paulo Francisco Supretaprá, Josias Babati Xavante, Haroldo Waia Zasé Xavante, Tsahu Tuwe Xavante e Waatô Xavante). Quando: pré-estréias nos dias 1, 2 e 3/10, sex., sáb. e dom., às 21h. Onde: Sesc Belenzinho – oca (av. Álvaro Ramos, 991, Belenzinho, SP, tel. 0/xx/11/ 6602-3700). Quanto: R$ 15.

O Diário de Mogi

O Diário de Mogi – Domingo, 11 de novembro de 1990. Local – Página 8

VALMIR SANTOS

O grupo Teatro Experimental Mogiano (TEM), um dos expoentes da arte cênica na história da cidade, está completando 25 anos de atividade. Para comemorar as bodas de prata, uma troupe de ex-atores que participaram da criação do TEM, em 1965, apresenta amanhã e terça-feira, às 20h30, no Teatro Municipal “Paschoal Carlos Magno” – com entrada franca – a peça “Ainda Tem,” retrospectiva das montagens do grupo até o início da década de 70.

Segundo Regina Lúcia Moreira Gomes, 42, e João Antônio Dias, 47, ex-atores que integram a equipe responsável pelo espetáculo, “Ainda Tem” marca o encontro de todo o elenco que atuou entre 1965 e 1972, um dos períodos mais férteis do grupo que ainda está em atividade (leia texto nesta página). “É a forma que encontramos para mostrar que o sonho, o ideal do teatro, ainda não acabou”, afirmam. “Nós, os mais velhos, passamos nossa experiência à geração que está aí e tem tudo para dar certo também”.

Hoje, boa parte dos ex-integrantes do TEM desenvolvem atividades em outras áreas. São advogados, professores, administradores, artistas plásticos, escritores, poetas. Alguns ainda moram em Mogi das Cruzes; outros se mudaram, mas não perderam contato com o grupo.

O embrião do TEM foi o Grêmio Estudantil Ubaldo Pereira (Geup) do Instituto Washington Luís, o pólo político-cultural-esportivo dos estudantes mogianos em meados da década de 60. Ali, percorreram o caminho das artes. Música, poesia e teatro eram o carro-chefe.

Semanalmente acontecia o show de auditório “Escola de Grupo”, ao vivo, onde apresentavam poemas, canções e esquetes teatrais.

A primeira apresentação do  grupo  aconteceu em agosto de 1965, com a leitura  radiofônica  da peça “Em Tempos de Inconfidência”, escrita por Milton Feliciano de Oliveira, no salão da antiga Rádio Marabá (hoje Rádio Diário de Mogi), que funcionava no prédio onde está localizado hoje o Cine Avenida.

“Em Tempos de inconfidência” antecedeu o espetáculo “Noite de Poesia e Bossa”, censurada pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão do governo federal, devido à analogia política que fazia ‘ com a situação do País, no pós-golpe militar. Era dezembro de 1965. No mesmo mês acontecia outro espetáculo, “Tem Noite Feliz”, um auto de Natal.

Depois de alegres intervenções radiofônicas e dos lamentáveis dribles sobre a marcação cerrada da censura do governo Castelo Branco, finalmente o TEM subiu ao palco para apresentar a primeira montagem efetiva: “A Exceção e a Regra”, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, com direção de Armando Sérgio da Silva. Foi encenada no Liceu Braz Cubas, em agosto de 1966 (um ano depois da criação do grupo). Participando do 4º Festival do Teatro Amador do Estado de São Paulo, realizado naquele ano, a peça obteve prêmios de melhor espetáculo, direção, sonoplastia, maquilagem e iluminação.

No ano seguinte, 1967, foi a vez de “Canudos”, histórico brasileiro sobre a vida de António Conselheiro; em 1968, ‘Yerma”, do escritor espanhol Federico Garcia Lorca, e “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, de Milton Feliciano (parte do elenco chegou a ser detida certa vez quando distribuía panfletos da peça, tida como “subversiva”); e, finalmente, “E a Sua Família Continua Unida?”, também escrita por Feliciano. Nesse período, realizaram ainda montagens infantis (“Pluft, o Fantasminha”, “A Bruxinha Que Era Boa”, “A Árvore Que Andava” c “Tio Platão”).


Ex-secretário de Cultura foi um dos idealizadores

Armando Sérgio da Silva, 44, ex-secretário municipal de Cultura, na gestão do prefeito António Carlos Machado Teixeira, foi um dos fundadores do TEM. Lembra com saudades das suas participações nos shows que aconteceram no “palquinho” do Instituto Washington Luís. Havia um quadro semelhante à “Escolinha do Professor Raimundo”, da Rede Globo, no qual, aos 14 anos, ele interpretava um dos alunos pentelhos da classe. Também foi um inveterado dublador das canções de Elvis Presley e do conjunto The Platters.

Na Rádio Marabá, Armando realizou vários esquetes. Os programas eram escritos por Antônio Benetazzo, desaparecido durante a ditadura (de acordo com Armando, sua ossada foi encontrada há poucos meses numa vala clandestina do cemitério Dom Bosco, no bairro paulistano de Perus). A locução ficava por conta de Sérgio Corrêa.

Segundo Armando, o TEM surgiu da necessidade de se fazer um teatro voltado para a pesquisa, desvinculado da prática convencional. Identifica o grupo com o movimento Oficina, emergente nos anos 60, pelo trabalho mais espontâneo, não levando tanto em consideração a apuração técnica e formação do ator, a exemplo do que acontecia no Teatro de Arena.

Armando Sérgio dirigiu “A Exceção e a Regra”, de Brecht, uma das peças mais premiadas do TEM. Permaneceu no grupo até 1967, quando foi estudar na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde atualmente leciona pós-graduação na disciplina Interpretação do Ator, tendo estrelas globais entre os alunos, como Irene Ravache e Regina Braga. Também dá aulas no curso de Comunicação Social da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).

Na sua opinião, o movimento teatral em Mogi “sempre foi forte”. Cita, como exemplo, os 23 grupos que existiam na cidade durante sua gestão na Prefeitura (1982-1988). Armando, no entanto, se esquiva de avaliar a arte cênica mogiana na atualidade, alegando estar “afastado” das atividades locais em função das aulas na USP. Dos 23 grupos que citou, hoje, pelo menos 80% se dissolveram. (V.S.)


Diretora diz que montagem ignora nomes fundamentais

Na opinião da diretora do TEM, Clarice Jorge, 53, há 20 anos no grupo, o espetáculo preparado para homenagear os 25 anos deixou nomes importantes  de  fora.   “Os  ex-atores  se detiveram apenas aos primeiros cinco anos do TEM e se esqueceram dos outros 20 anos”, disse. “Eles não foram leais e, para o homem, lealdade é fundamental, sob risco de se tornar tão somente um bicho a mais na natureza”.

Entre os integrantes que passaram pelo grupo, Clarice cita Mário e Marco Aurélio Namura, Paulo Fernandes, Levi Quintas Oliveira, Mário e Márcia Clacenko, Carlos Leonel Pastos, Aírton Durval da Mota, Marina Nogueira, Gina Muffo e José Miguel de Matos.

Clarice afirmou que foi convidada a participar da montagem de “Ainda Tem”, mas achou por bem não entrar na peça porque ainda atua no TEM. “Não sou ex”, disse. “Continuo no exercício da atividade teatral, o que na minha opinião é mais importante que comemorar os 25 anos”.

O TEM dos anos 90 se resume a seis atores. O grupo é presidido pelo escritor Nelson Albissú. Atualmente ensaiam “Os Cantores do Rádio”, de Albissú, cuja estréia está programada para janeiro do próximo ano — em dezembro serão feitas apresentações em creches e entidades carentes de Mogi, em caráter beneficente.

A diretora lembra/emocionada da peça “Ultima Estação”, também escrita por Albissú, que percorreu mais de 120 cidades entre 1985 e 1988. A montagem mais recente do grupo foi “O Aniversário de Mamãe Júlia”, do mesmo autor, realizada no ano passado. (V.S.)

 

Feliciano escreveu “Ainda Tem”, uma retrô das peças

Principal autor das peças montadas pelo TEM durante os primeiros seis anos de vida do grupo, o escritor e poeta Milton Feliciano de Oliveira, 47, preparou “Ainda Tem” para o reencontro dos amigos. “Nossa aventura teatral foi importante”, conta. “Retratamos um período em que Mogi teve uma forte resistência político-cultural e, por isso, não poderíamos deixar os 25 anos passarem em branco.”

Feliciano integrou o TEM de 1965 a 1971. Entre as principais montagens de sua autoria, estão “Tiradentes”, “Canudos”, “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, “E a Sua Família Continua Unida?” e “Leone e Lena”. Foi um dos idealizadores do show “Escola de Grupo”, no Instituto Washington Luís, a gênese do grupo.

Em “Tiradentes”, censurada pelo Dops, Feliciano fez um paralelo com o sufoco do regime militar vigente. “Através da história de Joaquim José da Silva Xavier, que curiosamente não se auto-intitulava doutor, tampouco era alienado, mostramos a batuta dos militares sobre nossas cabeças”, explica. Na oportunidade, ficou detido no Dops, em São Paulo, durante quatro horas tentando convencer “Dona Solange” – a mulher da tesoura – a liberar a peça. Nada conseguiu.

O escritor se afastou do TEM em 1971, quando se mudou para Porto Alegre (RS). Em 1977, voltou para Mogi com “Bandeirinha ou Boné, Cavalheiro?”, com o grupo Teatro Sérgio Corrêa. Foi uma passagem rápida. No ano de 1980 trouxe ao público mogiano “Amor (te) Natal”, uma versão diferente sobre a vida de Jesus Cristo. Esta peça também foi censurada em 1970 e liberada uma década depois.

Hoje, à frente da Distribuidora Porto Alegre, Milton Feliciano continua escrevendo. Na última quinta-feira lançou o livro “Olhei Minha Vida” – uma retro do seu fazer teatral. Em “Ainda Tem”, que será apresentado amanhã e terça no Municipal, traz fragmentos das peças que montou no grupo, além da leitura de poesias e trechos de músicas da época. “Teatro se comemora com teatro”, afirma. (V.S)