Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Doutor e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos à memória do campo. Colaborador em curadorias, consultorias ou comissões para mostras, festivais e enciclopédias junto a instituições públicas e privadas.
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23.3.2010 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 15 de dezembro de 1991 – Local – Página 6
Valmir Santos
Um cavalo provido de cabeça humana casou-se ontem com uma moça acometida pela doença do coqueiro — mais para girafa —, filha do cangaceiro António das Almas. O enlace aconteceu em frente à Igreja Matriz. Antes das pazes, porém, houve muita confusão. Quem passou pela praça Coronel Almeida a partir das 12 horas viu de perto as armações de uma bruxa escatológica tentando azucrinar o pacato cotidiano de uma cidade de Pernambuco. Eram os 18 integrantes do grupo Teatro da Universidade de Mogi das Cruzes, o Tumc, encenando “O Capeta de Caruaru”, de Aldomar Conrado.
Sob a direção de Adamilton Andreucci Torres, 38 anos, o Tumc optou por levar o teatro às ruas e praças públicas na passagem dos seus dez anos de existência (veja o box). “O Capeta de Caruaru” encerra a trilogia iniciada em 89 com “A Cara Nossa de Cada Dia”, seguida por “Cenas em Cena”, apresentada na UMC no final do ano passado, com participação especial do grupo folclórico Meninos da Porteira, de Sabaúna.
Por l hora e 20 minutos a praça Coronel Almeida serviu de território-limite de Caruaru. O cenário, resumido num painel de pano de cerca de oito metros de largura, lembrando o formato de uma casa, traz os indícios da caatinga nordestina: o sol abrasador, o cacto ressecado, a mula esquelética e a pequena igreja, símbolo da fé daqueles que só deixam o cariri no último pau-de-arara.
O prefeito António Cipriano e o padre Damião — que também passam, respectivamente, pelo beberrão Chico e o caipira Piu — são o pivô da história. A troca de personagens confunde os moradores. Dona Cosma está preocupada com o marido que transou com uma égua, dando origem ao cavalo de cabeça de gente. Este se apaixona pela moça que não pára de crescer e já está com a cabeça ao nível das telhas da casa. O pai, António das Almas, reivindica fervorosamente, junto à prefeitura local, um guindaste para que a filha possa se locomover. Eis os fenômenos absurdos que indicam a presença do capeta em Caruaru. Tudo, é claro, pincelado pelo humor escrachado dos nordestinos, profundos amantes da superstição.
Box
Muitos assistiram teatro pela primeira vez na vida
A apresentação do Tumc foi marcada pela descontração. Meia hora antes do início do espetáculo, as pessoas olhavam curiosas o elenco que se maquiava e vestia a roupa de cena. Com o cenário colorido, de autoria do artista plástico Ulisses Torraga Miranda Bruno, tudo exalava teatro. Aos poucos, o público se acomodou e estava formada a roda — o palco da rua ou, no caso, da praça.
Muitos assistiam a uma peça pela primeira vez na vida. “Estava passando por aqui e resolvi apreciar. É tudo muito bonito”, disse o ajudante-geral João de Assis Siqueira, 52 anos, emocionado com a arte cênica que nunca assistiu “por falta de tempo e muito trabalho”.
A escriturária Luciana de Moraes, 21 anos, chegou na metade de “O Capeta de Caruaru” e diz que foi “pega” pela energia transmitida pelos atores do Tumc. “É difícil acompanhar teatro em Mogi”, lamenta. “Felizmente, ainda temos o Tumc por aqui.”
Crianças, acompanhada pelos pais assistiam à apresentação, sorridentes. A Bruxa horrorosa, por incrível que pareça, era o personagem que mais provocava risos. “Esse pessoal é muito divertido. Tem tudo para fazer sucesso”, comenta o garoto Ricardo Vieira dos Santos, 16 anos, que já havia conferido a peça na praça João Pessoa, no sábado passado.
“E o primeiro espetáculo que assisto. É um barato”, elogia.
Box
Tumc faz público soltar risos e cumpre seu papel
De antemão, o teatro é das manifestações culturais que mais interfere nas transformações sociais. Quando ele é levado às ruas, às praças públicas — chega às pessoas que por “n” motivos jamais pisaram nos acarpetados teatros tradicionais— então ele assume proporções ainda maiores.
O Tumc fecha os seus dez anos de vida com chave de ouro. “O Capeta de Caruaru” disse a que veio. O público riu o tempo todo. A peça de Aldomar Conrado foi feita para isso. Mas o escracho recheado com pitadas de LBA e crise econômica fica ainda mais interessante.
Sob um sol comportado, comparando-se com a temperatura dos últimos dias, o elenco suou a camisa mais uma vez. Com idades que variam de 19 a 30 anos, são todos estudantes ou ex da UMC. Compartilham os estudos com os ensaios. Adamilton os preparou muito bem. Na verdade, o Tumc tem uma característica que o difere de um grupo de teatro convencional: é um conjunto de pessoas umbilicadas pelo coleguismo de escola. Mas a amizade transcende e faz com que continue entre aqueles que já concluíram os estudos.
Box
Uma década em cena
1981 – “O Planeta dos Palhaços”, de Pascoal Lourenço Teudesch, e “Pluft, o Fantasminha”, de Maria Clara Machado.
1982 – “A Bruxinha Que Era Boa”, de Maria Clara Machado, e “Uma Chama de Luz”, de Botira Camorin.
1983 – “Uma Luz no Céu”, de Jane Gatt.
1984 – “Pluft, o Fantasminha de Maria Clara Machado no Século da Te-le-Visão do Pessoal do Tumc”, uma adaptação anarquista de Ademilton Andreucci Torres.
1985 – “A Vida Escrachada de Joana Martins e Baby Stompanato”, de Bráulio Pedroso.
1986/87 – “Uma Eleição em Bruxópolis”, do mogiano Denerjânio Tavares de Lyra.
1989 – “A Cara Nossa de Cada Dia”, montagem coletiva do Tumc, a partir da poética dos próprios atores.
1990 – “Cenas em Cena”, montagem coletiva do grupo, com colagem de textos de Brecht, Peter Weiss, Oswald de Andrade e Nelson Rodrigues. Participação especial do grupo folclórico Meninos da Porteira, de Sabaúna.
18.3.2010 | por Valmir Santos
Histórico do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, integrado ao livro “Hysteria/Hyiene”, publicação independente lançada em 2007.
16.3.2010 | por Valmir Santos
contracenaCrítica de O ruído branco da palavra noite
Formada em 2000, a Companhia Auto-Retrato, de São Paulo, concebe um espetáculo devotado ao espírito de formação da modernidade russa, no início do século XX, com reverberações fundamentais para o artista do mundo atual. O resultado é uma experiência marcante da encenação entrelaçada a trechos de peças de Tchekhov ao cotidiano de ensaios, afetos e idiossincrasias de Stanislavski, Dantchenko, Meierhold e outros mestres.
16.3.2010 | por Valmir Santos
Reportagem especial para a Revista Cavalo Louco, publicação dos gaúchos do Ói Nóis Aqui Traveiz, edição do final de 2009. Um recorte da produção de teatro de rua no Brasil dos anos 2000, nem tanto à rima e nem tanto ao ruído. Foram entrevistados o diretor André Carreira, pesquisador da Universidade do Estado de Santa Catarina; a atriz Tânia Farias, integerante da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo com mais de três décadas de atuação em Porto Alegre; e o ator Eduardo Moreira, do Grupo Gapão, cujo berço foram as praças do centro de Belo Horizonte, em 1982.
Para o livro “Borandá – auto do migrante”, organizado em 2004 pela Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes. Trata-se de iniciativa independente, um dos primeiros frutos editoriais ancorados pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Reúne o processo de pesquisa e criação do espetáculo homônimo e a íntegra do texto de Luís Alberto de Abreu, obra com a qual venceu a categoria autor do Prêmio Shell de Teatro – São Paulo, edição de 2003.
16.3.2010 | por Valmir Santos
Um recorte da temporada de 2009 sob a perspectiva de integrante da comissão do Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro naquele ano. De como o espectro de Heiner Müller ronda a cena de Frank Castorf, Companhia Teatro de Narradores e Companhia São Jorge de Variedades.
Clique no link abaixo para ler as páginas em PDF.
Para o livro “A interatividade, o controle da cena e o público como agente compositor”, organizado em 2009 pela pesquisadora Margarida Gandara Rauen (Margie), um lançamento da Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba). A professora da Unicentro, no Paraná, contou com a colaboração de colegas da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Artes Cênicas (Abrace). Os nove capítulos abrangem a estética relacional ou tratam da participação do público em performances e outros tipos de eventos cênicos em galerias e espaços urbanos. Os co-autores são os artistas pesquisadores Ciane Fernandes e Wagner Lacerda, Cristiane Bouger, Henrique Saidel, Ismael Scheffler, Lígia Losada Tourinho, Luana Raiter e Pedro Diniz Bennaton (Erro Grupo), Margie Rauen, Maria Beatriz de Medeiros, Stela Regina Fischer e Manuela Afonso (Opovoempe). O livro inclui ainda textos dos pesquisadores Christine Greiner (PUC-SP) e Stephan Baumgärtel (Udesc).
Para ler o texto completo, faça dowload do arquivo abaixo.
8.3.2010 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi, sem data. Caderno A – capa
VALMIR SANTOS
O espírito da brincadeira em “Nas Trilhas da Transilvânia”, o esboço, um ano atrás, está presente no primeiro ato de “Drácula e Outros Vampiros”, título da montagem agora em cartaz em São Paulo. Antunes Filho, aos 67 anos, libera sua verve juvenil no novo espetáculo.
Com um elenco repleto de adolescentes, a sensação é de que estamos acompanhando um bando de estudantes aprontando das suas num playground de horror e riso.
De fato, na primeira parte, com exceção do transe efêmero provocado pela vibração dos movimentos dos atores, adaptado de uma dança de Bali (kecak), não há indícios de um trabalho do qual o público assimile imediatamente se tratar da assinatura do diretor, um mestre da cena brasileira.
Um Antunes surpreendente e aventureiro é o que desponta nesta montagem do Centro de Pesquisa Teatral (CPT). A começar pelo peso do tratamento visual em cena. Parênteses para a equipe de J.C. Serroni, com um cenário entranhado no mito do vampiro, sobretudo nas texturas. Idem para o tratamento de sombra na iluminação de Davi de Brito.
No início, muito gelo seco ao som de Black Sabbath. A competente trilha sonora de Raul Teixeira é crucial nas passagens em que a atmosfera, a instalação do clima (gótico ou passional, com direito a tango), importa mais do que propriamente o jogo interpretativo.
Sim, o ator que Antunes sempre colocou em primeiro plano, surge aqui diluído. O álibi talvez fique por conta da safra de novatos, a maioria com “bagagem” de apenas quatro meses de CPT.
Resta a investida no coletivo, na “coreografia” de palco que o diretor domina muito bem. O deslocamento dos coros (Mortos-Vivos, Comitê de Recepção e Dracula’s Club, por exemplo) se dá harmoniosamente no espaço cênico.
Antunes inverte a expectativa para trazer à tona o “trash” que assume em sua formação. Permite-se revelar um outro lado criador – mais anárquico, por que não? É escancarado o ar patético com o qual constrói o Drácula interpretado por Eduardo Cordobhess. Um Drácula palhaço.
No segundo ato, volta o encenador-cabeça. E “Drácula e Outros Vampiros” diz a que veio. Entra em cena a metáfora da burguesia sanguessuga e da direita extremista que avança à beira do próximo milênio. A síntese do espetáculo demora, mas aparece: a cena em que Drácula é convertido em Hitler, emoldurado no esquife, discursando raivosamente. A intolerância está na ordem do dia.
Mas não é o arremate antuniano que se esperava. Apesar das várias citações (o coreógrafo Kurt Jooss, a cineasta Leni Riefenstahl, o escritor Baudelaire), a peça resulta uma metáfora pálida. Nem Sepultura, ao final, dissimula a frustração. A concepção da montagem que fruía na cabeça de Antunes quando da conversa com os jornalistas, na véspera da estréia, prometia mais encantamento e fúria.
DRÁCULA E OUTROS VAMPIROS – Concepção e direção: Antunes Filho. Com Grupo Macunaíma (Lulu Pavarin, Geraldo Mário. Ludmila Rosa e outros). Quarta a sábado, 21h; domingo, 19h. TEATRO SESC ANCHIETA (rua Doutor Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 256-2281). R$ 16,00 e R$ 20,00 (sábado). 75 minutos
4.3.2010 | por Valmir Santos
Esta casa saúda e inverte um pouco a premissa do Teatro Jornal, o conjunto de técnicas que Augusto Boal e atores do Teatro de Arena “editaram” na São Paulo de 1970.
Os artistas escolhiam uma informação do jornal do dia para lê-la em cena e despertar o senso crítico do espectador. Era mais ou menos isso, sob ditadura.
Espectador da vez, Valmir Santos, repórter de teatro desde 1990, deseja ler a cena nos tempos que correm e compartilhar reflexão, prazer e informação.
Boas-vindas.
outono de 2010
3.3.2010 | por Valmir Santos
[Prefácio ao livro Esumbaú, Pombas Urbanas! – 20 anos de uma prática de teatro e vida, da jornalista Neomisia Silvestre. São Paulo: Instituto Pombas Urbanas, 2009, p. 9-13; projeto gráfico Sato > casa da lapa; revisão Dórica Krajan; 144 p.]
Voar? Mas eu não sei voar. O que eu faço é brincar com o vento. (…)
Onde quer que eu caia,uma outra criança irá me colocar no céu,
porque aqui é o meu lugar. Solta a linha!
A personagem Pipa em Ventre de lona, de Lino Rojas
Num piscar de séculos, a aldeia indígena, uma terra boa para a agricultura nas várzeas do Rio Tietê, transformou-se em chão para milhares de migrantes nordestinos que viram o céu coberto pela fumaça amarela do enxofre da fábrica. Crescido às custas da industrialização, o bairro de São Miguel Paulista contava 367 anos de história oficial, pós-colonização e catequese pelos brancos, quando o Grupo Pombas Urbanas bateu asas ali, em 1989, como fruto da perseverança do ator, diretor e dramaturgo Lino Rojas. Filho de mãe descende justamente de índios do planalto peruano, ele vivia no Brasil havia 14 anos quando fora cativado pela disponibilidade nata de jovens da região em seus primeiros passos para jogar com essa arte. De fato, certa ancestralidade atravessa a formação do coletivo e serve de base às abordagens conceituais e temáticas dos seus espetáculos, além de orientar a lida e a vida em comunidade. Trata-se de um projeto artístico singular firmado na pororoca do Teatro de Grupo na cidade, a partir dos anos 1990, em paralelo a outros pares que descentralizaram a geografia cênica e redimensionaram a face social do Teatro em São Paulo e em outras partes do Brasil.
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