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Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

TEATRO

Trajetórias de times e da cidade se misturam na comédia musical “Nos Campos de Piratininga”, que estréia hoje
 

Graça Berman e Renata Pallottini equilibram documento e ficção na comédia musical que é dirigida por Imara Reis

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Corintianos, palmeirenses, são-paulinos e demais torcedores e moradores de São Paulo vão conferir um pouco da história dos times e da cidade na autodefinida comédia musical “Nas Terras de Piratininga”, da Cia. Letras em Cena, que estréia hoje no teatro Maria Della Costa, na Bela Vista. 

“Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira!”, ouve-se a voz em off do locutor Fiori Gigliotti (1928-2006), dando partida a quase duas horas e meia de uma viagem por episódios e personagens que firmaram o futebol, da várzea aos estádios, do final do século 19 ao ano 2007. 

A dramaturgia co-assinada por Graça Berman e Renata Pallottini apoia-se em passagens documentais, como a do vapor com o qual o inglês Charles Miller, com uma bola de futebol, cruzou os mares para ancorar no porto de Santos, em 1894. 

Em paralelo, vai-se desenhando a geografia afetiva da São Paulo ao longo dos anos. Imagens num telão, por exemplo, descontraem o que é a região atual do parque Dom Pedro 2º até alcançar o que eram as margens do rio Tamanduateí com lavadeiras batendo roupa nas pedras e cantarolando. 

São incorporados trechos de crônicas, romances ou poemas de autores como Antônio de Alcântara Machado, Mário de Andrade, Juó Bananère e Oswald de Andrade, todos convertidos em personagens, ao lado do conde Francisco Matarazzo e do industrial Jorge Street. “O que conduz a narrativa é essa paixão dos paulistanos, ou daqueles que para cá vieram e envolveram-se amorosamente com o futebol e com a cidade”, diz a diretora Imara Reis. 

Quando cita o musical, diz ela, não se deseja carregar o tom espetacular. Ao contrário, a opção é por um palco nu, preenchido por atores, objetos e adereços de acordo com cada época. Algumas cenas fazem associação ao carnaval, como na alegoria a “Ô Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga. “O folião tem tudo a ver com o torcedor”, conta a diretora. 

Cada sessão deverá ser seguida de bate-papo entre jornalistas e boleiros. Hoje, estão escalados Roberto Avallone, Mário Travaglini, Muricy Ramalho, Pepe, Valdir de Moraes. Em campo, ou melhor, no palco, 13 atores defendem os dois tempos. O futebol, aliás, já havia levado a cia. a criar “Nossa Vida É uma Bola” (2002).



Peça: Nos campos de Piratininga
Quando:
estréia hoje, às 20h; seg. e ter., às 20h; até 29/4 
Onde: teatro Maria Della Costa (r. Paim, 72, tel. 3256-9115) 
Quanto: R$ 7 (para quem for vestido com a camiseta de um time) a R$ 20
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 16 de fevereiro de 2008

TEATRO 

“Arrufos”, do Grupo XIX de Teatro, reúne narrativas vinculadas aos séculos 18, 19 e 20; grupo se apresentará na Inglaterra
 

Iluminação do espetáculo traz 50 abajures, operados por atores ou espectadores; platéia é disposta por casal, mesmo quando não o são

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

As últimas linhas de “Sem Fraude Nem Favor”, em que o psicanalista Jurandir Freire Costa decompõe os dilemas do amor, dizem muito ao coração da terceira peça do Grupo XIX de Teatro, “Arrufos”, que entra em cartaz hoje em São Paulo. 

“Durante séculos, a metáfora amorosa nos ensinou a buscar a felicidade na companhia do outro e acreditar que esse ideal era imortal. Hoje, trata-se de pensar no que significa “outro”, “companhia”, “felicidade” e “ideal imortal”.” 

Costa e, sobretudo, a pesquisadora Mary Del Priore (“História do Amor no Brasil”) são alguns dos autores que nortearam o trabalho. O amor é construção sociopolítica, vincula-se profundamente a contextos históricos, reafirmam as três narrativas sobrepostas em “Arrufos”, dramaturgia em colaboração do grupo. 

No século 18, sobre o tripé tradição-família-propriedade, estabelecem-se as forças da religião e do Estado sobre a vida pessoal. 

Mulher, marido, filha, empregada e amante despejam sentimentos e ressentimentos entre o rumor e a contenção. Um século adiante, o trem já constitui opção ao transporte a cavalo, mas no Brasil as questões ainda são arcaizantes. Em cena, um casal é separado pelas diferenças sociais de suas famílias, a pobre e a rica. E fica evidente a idealização romântica. 

No século 20 despontam moças e rapazes independentes, que pressupõem mais “consciência” e “liberdade” nas práticas e modos amorosos. 

“É a primeira vez que nos aproximamos da nossa época. 

Também nos questionamos sobre os modelos de relacionamento”, afirma Janaina Leite. Para a atriz, a linguagem do grupo desvia do realismo de situação para jogar um pouco com a farsa. 

Normas e convenções
As três épocas traduzem as normatizações do casamento entre homens e mulheres segundo as convenções de turno. Os espetáculos anteriores tiveram suas escalas arquitetônicas representadas pelos prédios históricos e espaços públicos. A rua, a janela e a porta adquiriram mais significado sobretudo após a chegada do XIX de Teatro à Vila Maria Zélia, na zona leste da cidade. A antiga vila operária permanece como geografia da intervenção, mas com dimensão intimista. 

A direção de arte de Renato Bolelli Rebouças cria como que “um grande quarto”, diz Marques. “A platéia é a parede, os olhos dessa alcova.” 

No interior de um dos armazéns da vila, foi erguida uma estrutura de arquibancada em formato quadrado. No centro, seis atores e seis móveis adquiridos em antiquários co-habitam cerca de 2,5 m2. 

“Trocamos a narrativa do espaço pela dos objetos”, diz a atriz Sara Antunes. Conforme evoluem os quadros, os personagens rompem esse espaço. Não dava para falar de amor à luz do dia. Daí as sessões noturnas. A luz usa 50 abajures, operados por atores ou espectadores, incitados a interagir e dispostos na arquibancada por casal, mesmo quando não o são, o que dá margem ao encontro. 

Em junho, o grupo viaja para a Inglaterra. Faz 13 apresentações de “Hysteria”, sua primeira peça, nos centros culturais Barbican, de Londres, e no Contact, de Manchester, enquanto alguns dos seus atores ministram workshop sobre o processo de criação.



Peça: Arrufos 
Onde: Vila Maria Zélia (r. Cachoeira, esq. c/ r. dos Prazeres, tel. 2081-4647) 
Quando: sáb., às 20h, e dom., às 19h 
Quanto: R$ 20

 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

TEATRO 

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

O Ponkã (1983-91), um dos coletivos artísticos que ajudou a firmar as artes cênicas experimentais em São Paulo com influências orientais, é evocado no novo espetáculo do grupo de teatro de rua Buraco d’Oráculo, que completa uma década neste ano e tem sua base em São Miguel Paulista, zona leste. 

Um dos protagonistas da trajetória do Ponkã, ao lado de artistas como Luiz Roberto Galizia, Paulo Yutaka, Celina Fuji e Alice K., o ator e diretor convidado Paulo de Moraes, 51, é quem faz a ponte no espetáculo “ComiCidade”, que estréia hoje na praça do Patriarca, no centro. 

Ele afirma que o projeto com o Oráculo não transpõe a linguagem que o seu grupo acumulou em montagens como “Pássaro do Poente”, de Carlos Alberto Soffredini, dirigida por Marcio Aurélio. 

O grupo de rua o convidou para um trabalho de “limpeza gestual” dos atores. Uma das especialidades de Moraes é a preparação corporal com ênfase em técnicas japonesas. Não demorou para que ele introduzisse o Oráculo nas histórias curtas do kyogen, comédia clássica japonesa de extrato rural, em voga nos séculos 14 e 15. As farsas eram contrapostas ao rigor do drama “nô”. 

Em 1991, o Ponkã (nome inspirado na fruta derivada da mistura da laranja com a mexerica) levou o gênero à cena com “Quiogem – Loucas Palavras”. 

Moraes adaptou “à brasileira” as histórias, que giram em torno do ladrão enganado por sua vitima, da mulher que apanha do marido e se rebela, dos muambeiros que vendem gato por lebre e dos empregados que enganam seu patrão. 

“A nossa inspiração sempre foi a cultura popular, a abordagem de situações vividas por pessoas comuns, e o kyogem encaixou-se perfeitamente à proposta”, diz um dos fundadores do Buraco d’Oráculo, Adelino Alves, 31. 

Ele contracena com Edson Paulo, Lu Coelho e os atores convidados Selma Pavanelli e Johnny Jhon. 

Também participam da equipe artistas oriundos de grupos recém-nascidos na zona leste por meio de oficinas do Oráculo, como Arruacirco (Itaim Paulista) , Teatristas Periféricos (Cidade Tiradentes) e Nascidos do Buraco (São Miguel).



Peça: Comicidade
Quando: estréia hoje, às 17h; dias 15/2, 20/2, 22/2 e 29/2; e 5/3, 7/3, 12/3 e 14/3 
Onde: pça. do Patriarca 
Quanto: entrada franca 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 09 de fevereiro de 2008

TEATRO 

Jornalista e morador de rua se confrontam em espetáculo da Confraria da Criação
 

“Línguas Discordantes” tem texto de Wolff Rothstein e direção de Otávio Costa Filho, que vivem personagens que se encontram pela palavra

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Para quem vive na rua, o papelão vira cobertor ou colchão, a depender dos ventos urbanos. É seu “pedaço”. Mas há quem o invada, pise e nem se dê conta. 
Foi uma cena assim que o ator Wolff Rothstein viu anos atrás, na região do Minhocão, centro paulistano. Ponto de partida para escrever “Línguas Discordantes”, que estréia hoje na praça Franklin Roosevelt. 
A peça que ele “experimenta” desde 2006 abriu um projeto de dramaturgia com a cia. Confraria da Criação sobre o tema da exclusão. Na seqüência, virão textos que visitam travestis e garotos de programas. 
“Línguas…” aproxima ao acaso um morador de rua e um jornalista. Mário (Rothstein) se põe à margem não por causa da sua situação, mas por meio da escrita e da leitura. Quem tromba com ele na calçada, num passo descuidado, é Alberto (Otávio Costa Filho, que também assina a direção), frustrado com uma reportagem que o chefe na redação derrubou. 
“O centro desses dois universos é a palavra”, diz Rothstein, 43. Entre identificações e diferenças, o diálogo transforma os personagens. E o público, esperam os artistas, carrega a reflexão do “poderia ser comigo”. Após apresentações pontuais, como na rua do Sesc Pompéia ou num refeitório para moradores de rua na Bela Vista, os atores concluíram que o espetáculo ganha mais sentido em espaço público. Por isso a primeira temporada acontece na praça Roosevelt, do outro lado da calçada em frente ao Espaço dos Satyros Um, onde existe uma espécie de arena. 
Rothstein diz que a peça de tintas realistas não se apropria dos recursos usuais do teatro de rua, caracterizado pela busca de linguagem mais direta com o espectador. “O texto é bem teatral, valoriza o tempo da palavra, os diálogos.” 
A Confraria da Criação, em que Rothstein está há dois anos, estreou em 2000, com “Deus e os Outros Eus”, de Tereza Monteiro, com direção de Inês Aranha de Carvalho.



Peça:Línguas discordantes 
Onde: pça. Franklin Roosevelt (em frente ao Espaço dos Satyros Um, tel. 3258-6345) 
Quando: sáb., às 19h; até 29/3 
Quanto: grátis (se chover até meia hora antes, não haverá apresentação)
 

contracena

contracena e notaA recepção em teatro e dança aproxima-se da crítica genética, linha de pesquisa emprestada da teoria literária para palmilhar processos criativos. É o que sinaliza jornada de pesquisadores realizada na Argentina, onde assistimos a uma obra modelar dessa fricção.

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Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 04 de fevereiro de 2008

TEATRO 

Entre as nove mostras importantes de 2008, há peças de coletivos de países como Equador, Colômbia, Cuba e Peru
 

Em sua 17ª edição, evento curitibano tem nova coordenação e traz também apresentações de música, cinema e artes plásticas

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

 
Mais receptividade a espetáculos latino-americanos: eis uma tendência dos festivais de teatro pelo Brasil em 2008, sejam nacionais ou internacionais. Há notícias ainda de uma nova montagem do inglês Peter Brook, de espetáculo nipônico por ocasião do centenário de imigração japonesa e de mudanças em coordenações.

Historicamente acolhidos no Festival Internacional de Londrina (Filo), que chega à 20ª edição e aos 40 anos (somadas as fases de mostras universitária e nacional), e no Porto Alegre em Cena, na 15ª edição, países da América Latina são destaques também em territórios mineiro e paulista.

A Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, iniciativa da Cooperativa Paulista de Teatro, vai para a terceira edição em maio e confirma a vinda do colombiano Teatro de La Candelaria, do peruano Yuyachkani e do equatoriano Malayerba (leia destaques à dir.).

Os mesmos coletivos retornam ao país, entre junho e julho, para se juntar ao boliviano Teatro de los Andes e ao cubano Teatro de la Luna. Segundo Carlos Rocha, coordenador do 9º Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT-BH), é uma mostra latina integrada à programação, que está sendo definida.

Uma das expressões do tango argentino contemporâneo, a cantora Susana Rinaldi se apresentará pela primeira vez no Brasil em 20/5. O show inspira o lançamento da programação do Porto Alegre em Cena.

O festival gaúcho se vale da privilegiada localização geográfica para estabelecer interlocução contínua com produções do Uruguai e da Argentina. As atrações vizinhas ainda não foram fechadas, mas o coordenador gaúcho, Luciano Alabarse, já adianta que em setembro haverá montagens de dois grandes encenadores europeus: o inglês Peter Brook e o lituano Eimuntas Nekrosius.

Radicado na França, à frente do Théâtre des Bouffes du Nord e do Centro Internacional de Criação Teatral, Brook assina “O Grande Inquisidor” (2006), adaptação de Marie-Hélène Estienne para um dos capítulos de “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski.

Acompanhado por Joachim Zuber, o veterano Bruce Myers, que atua com Brook desde a década de 70, divisa a linha entre mártires e monstros para refletir sobre liberdade e religião na história da humanidade.

Nekrosius e seu grupo, Meno Fortas (fortaleza da arte, em lituano), trarão uma versão de “Fausto” (99), de Goethe.

De Londrina, o diretor do festival, Luiz Bertipaglia, diz que a abertura, em junho, será feita pelo espetáculo “O Oratório de Aurélia”, defendido pela atriz e acrobata francesa Aurélia Thierrée, ao lado de outros convidados. Ela é dirigida por sua mãe, Victoria Thierrée Chaplin (do Cirque Invisible), filha do comediante inglês Charles Chaplin.

Curitiba
O Festival de Teatro de Curitiba troca de comando a partir desta 17ª edição, em março. Um dos seus idealizadores em 1992, Leandro Knopfholz assume a direção-geral. Ele e a empresa realizadora, Calvin Entretenimento, trabalham com a premissa de que a principal “vitrine” das produções brasileiras deve comunicar-se mais com outras áreas, como show, cinema e artes plásticas. A palavra “teatro”, por exemplo, será subtraída do nome fantasia do evento em favor do guarda-chuva Festival de Curitiba.

Entre as 21 peças a serem escaladas para a mostra oficial, estão as estréias de “Deserto”, criação em processo da Cia. Brasileira de Teatro (PR), “Volúpia”, com a Cia. Carona (SC), e ainda um destaque estrangeiro, a dança-teatro do The Condors, grupo japonês dirigido por Ryohei Kondo. Quanto à mostra paralela do festival, Fringe, a organização estima apresentar 250 espetáculos.

Os nove eventos relacionados nesta página evidenciam a ampliação do circuito e expõem o desafio de se reinventar o formato para não esgotá-lo. 
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 03 de fevereiro de 2008

TEATRO 

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

A palavra de Antônio Vieira reverbera no teatro feito espaço propício à arte de falar em público, a oratória. Não é à toa que grandes atores brasileiros, como Raul Cortez e Paulo Autran, tiveram os estudos de direito na base de sua formação.

A eloqüência implica recursos de dicção, voz e gesto. Convém ao intérprete impregnar sua alma no texto para dominar o ânimo dos que o escutam. Foi esse o elo que o ator Pedro Paulo Rangel diz ter encontrado no “Sermão de Quarta-Feira de Cinzas”, monólogo de 1994 que representou a convite do diretor Moacir Chaves.

“Fiquei emocionado com a sutileza, o alcance, a contemporaneidade de suas palavras sobre a finitude e a vaidade humanas”, diz Rangel. A enunciação era dirigida à platéia sem volteios, olho no olho, em cerca de 60 minutos sustentados pelo ofício da palavra. “A escrita do Padre Vieira obriga o ouvinte a raciocinar com ele, às vezes de maneira tortuosa, mas com a compensação do resultado cristalino das suas idéias.”

Rangel viajou com o espetáculo por alguns Estados, até 1996. Depois, fez apresentações pontuais, uma delas no Municipal de São Paulo. Ele prevê remontar a peça neste quarto centenário do nascimento do jesuíta.

A pregação barroca e o espírito satírico do “Sermão da Sexagésima” também são representados desde 1978 por Ayrton Salvanini, do interior paulista. Denise Stoklos recorreu a Vieira entre os pensadores que a guiaram em “Vozes Dissonantes”, contraponto crítico à história dos 500 anos de descobrimento do Brasil, em 2000.

Neste ano, a busca pela teatralidade na obra de Vieira é reafirmada na segunda edição do Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia Antônio José da Silva (homenagem ao escritor brasileiro do século 18).

Os textos devem ser inspirados na retórica do padre (seu uso da linguagem, diga-se, virou ferramenta sagrada para os atores de Antunes Filho). A peça vencedora será editada e encenada no Brasil e em Portugal. O autor receberá 15 mil euros. As inscrições vão até 31/3. A iniciativa é da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e do Instituto Camões.

O edital está disponível no site www.funarte.gov.br

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

TEATRO 

Companhia Teatro de Narradores parte da “Odisséia” de Homero para chegar às formas de violência na cidade
 

“Um Dia de Ulysses” estréia amanhã no Espaço Maquinaria, sede do coletivo ligado a movimentos de moradia e dos sem-terra

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Uma peculiaridade do teatro de grupo em São Paulo é a vocação para pensar a cidade em cena. É o que move a Companhia Teatro de Narradores em “Um Dia de Ulysses”, que funde histórias e figuras envolvidas em tensões sociais, políticas e existenciais sob o pano de fundo de um toque de recolher de criminosos à la PCC (Primeiro Comando da Capital). 

Um morador de cortiço, uma prostituta, um travesti, uma cineasta, um ator e uma militante sem-teto têm suas trajetórias embaralhadas no espetáculo que estréia amanhã, aniversário de São Paulo, no Espaço Maquinaria, sede da companhia na Bela Vista. 

A idéia da viagem como organização da experiência, do aprendizado, como exposta na “Odisséia”, poema épico de Homero, motiva os Narradores desde 2005. O processo foi transformado e contaminado pelas cenas de intervenções do grupo junto a movimentos sociais como o de moradia do centro (MMC) e o dos sem-terra (MST). Os artistas chegaram a contracenar com a reintegração de um prédio na rua do Ouvidor, na região da Sé, e a desapropriação de outro, na Casa do Politécnico da USP (Cadopô), no Bom Retiro. 

“Não é uma adaptação da “Odisséia” nem uma transcriação documental do material que a gente levantou. É, sim, uma tentativa de organizar essas referências numa fábula”, diz o diretor, José Fernando de Azevedo, 33. 

Uma fábula bastante difusa, segundo ele, por meio da qual o espectador acompanha pequenas histórias do centro da cidade. É o caso do homem que volta ao cortiço onde morou dez anos antes e se depara com um shopping. “A questão do regresso é marcante. O sujeito volta a seu lugar para rever sua Penélope, sua São Paulo”, afirma a atriz Barbara Araujo, 30, numa referência a Ulysses, guerreiro grego que volta a Ítaca após a destruição de Tróia. 

Desenham-se ainda as trajetórias da prostituta e do travesti, com os respectivos filhos no encalço; a militante por moradia que vira tema de documentário; a cineasta pequeno-burguesa que é questionada sobre sua imersão; e o ator que enfrenta impasse com os colegas, que não conseguem levantar um espetáculo. 

Aqui, diz Azevedo, ocorrem citações a “Um Grito Parado no Ar”, de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006). Trata-se de exercício de “metateatro” no qual a equipe não consegue deslanchar nos ensaios para uma montagem na época da ditadura. De certa forma, a idéia espelha dilemas e obstáculos dos próprios Narradores, que completam dez anos. 

As apresentações acontecem numa sala do Maquinaria com capacidade para 40 pessoas. O espaço cenográfico (por Cristiane Cortilio) sugere uma área em construção, entre madeirites e uma janela, por meio da qual é possível espiar a cidade.



Peça: Um dia de Ulysses 
Onde: Espaço Maquinaria (r. Treze de Maio, 240, tel. 0/xx/11/3259-7580) 
Quando: estréia amanhã; sex., sáb. e dom., às 20h. Até maio 
Quanto: R$ 10
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

TEATRO 

Heron Coelho dirige adaptação de obra de Chico Buarque e Ruy Guerra que foi censurada em 1974
 

Produção que relativiza o conceito de traição de personagem histórico foi montada em 1980; versão estréia em São Paulo

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O diretor Heron Coelho fala de “Calabar – Breviário” com bom humor. Parece contrastar com o peso histórico e político do drama musical de Ruy Guerra e Chico Buarque. Ele traz à luz a peça escrita em 1973 e censurada pela ditadura antes da estréia, no Rio, em 1974. 
Mas tais dimensões, diz o artista, 30, estão mantidas na adaptação que estréia amanhã no Sesc Avenida Paulista, na seqüência de sua bem-sucedida “Gota D’Água – Breviário” (2006), releitura da obra de Buarque e Paulo Pontes. 
O personagem-título é uma referência a Domingos Fernandes Calabar, mameluco pernambucano que viveu no século 17. Ele foi educado por jesuítas e era aliado da Coroa Portuguesa, mas passou a apoiar os holandeses na invasão ao Nordeste do Brasil, a partir de 1632. 
Na historiografia, seu nome é constantemente relacionado à traição, ato que Buarque e Guerra relativizam na obra. Calabar, propriamente, não aparece em cena. Sua história surge por meio de outros nomes, como o português Mathias Albuquerque e o índio Felipe Camarão, além do que seriam sua mulher, Bárbara, e sua amante, Anna de Amsterdam. 
Em seus “breviários”, Coelho diz praticar liberdades e alegorias que sugerem diálogo com o que Fernando Peixoto, diretor da montagem abortada (1974) e da anistiada (1980), pretendia no “Calabar – O Elogio da Traição” original: divertir o público, espalhando pontos de interrogação, dúvidas e perplexidades. 
Para Coelho, o texto reflete “a alma brasileira ignorada, destroçada, elidida em um dos mais violentos processos de colonização na América Latina”. 
Há ao menos 27 anos “Calabar” não ganhava uma produção à altura. Era a terceira perna na trilogia que Gabriel Villela sonhava completar anos atrás, após encenar “Ópera do Malandro” e “Goda D’Água”), em torno da obra de Buarque para o teatro. 
Para muitas gerações, a canção “Tatuagem”, de Chico e Ruy Guerra, consagrada na voz de Elis Regina, deve ganhar outros sentidos ao ser cantada, na peça, num ato de execução, como ilustram os versos: “Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva/ Marcada a frio, ferro e fogo/ Em carne viva”. 
Dos dois, constam também canções como “Não Existe Pecado ao Sul do Equador”, “Bárbara” e “Cala a Boca, Bárbara”, esta uma corruptela para o nome do herói. A trilha incorpora ainda outras composições de Guerra, como “Esse Mundo É Meu” (com Sérgio Ricardo). 
Além do espaço em formato de arena, os “breviários” de Coelho são caracterizados por música ao vivo e uma espécie de inversão na relação ator-personagem. “Não quero que se construa personagem, mas que este seja o ator ou a atriz. A Joana [em “Gota D’Água’], por exemplo, é a Georgette Fadel.”



Peça: Calabar – Breviário
Quando: de sex. a dom., às 21h. Até 2/3 
Onde: Sesc Avenida Paulista (av. Paulista, 119, tel. 0/xx/11/3179-3700) 
Quanto: R$ 20
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 15 de janeiro de 2008

TEATRO 
Drama contemporâneo é tema de encontros com especialistas e autores 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A mão dupla que Brasil e França firmaram nos últimos anos no teatro resulta em mais um projeto: “Novas Dramaturgias Brasileira e Francesa em Debate”, no CCSP (Centro Cultural São Paulo).

Autores e artistas protagonizam série gratuita de encontros, leituras dramáticas e exibição de documentários relativos ao drama contemporâneo.

O evento abre hoje com uma videopalestra do ensaísta e crítico Jean-Pierre Thibaudat. Ele é autor da biografia “Le Roman de Jean-Luc Lagarce” (2007).

A obra de Lagarce (1956-1995) constitui exemplo desse intercâmbio, levado à cena recentemente por Antônio Araújo, Márcio Abreu e Marcelo Lazzaratto. É o primeiro autor da coleção Palco sur Scène (“Até o Fim do Mundo”, 2006), edição bilíngüe da Imprensa Oficial, em parceria com o Consulado Geral da França e sob coordenação Marinilda Bertolete Boulay, que acaba de lançar “Bosco Brasil – Cheiro de Chuva e Novas Diretrizes em Tempos de Paz”.

Bosco, que participará de uma mesa sobre dramaturgia nacional, está em cartaz com as duas peças do livro no mesmo centro cultural.

Outro destaque é a exibição, amanhã, de vídeos sobre Philippe Minyana (1946), o documentário biográfico “A Secreta Arquitetura do Parágrafo: Encontro com Philippe Minyana”, e a adaptação de uma das suas peças, “Inventários”.

Também foram escalados para os encontros o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, o ator e crítico de teatro Alberto Guzik, os dramaturgos Rubens Rewald, Rodrigo de Roure e Newton Moreno e o adido cultural da França em São Paulo, Phillipe Ariagno.