Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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São Paulo, domingo, 13 de janeiro de 2008
TEATRO
Atriz estréia hoje, no horário do almoço, espetáculo na livraria Cultura
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Domingo, às 13h30, num teatro da avenida Paulista. Feito camicase, imagem que ela mesma sugere, Clarisse Abujamra se aventura em um horário pouco usual e no dia de descanso da maioria para reestrear temporada de “Antonio – Da Tua Tão Necessária Poesia”.
Com este espetáculo -ou “show”, conforme ela prefere chamar-, a partir de hoje, no teatro Eva Herz, na livraria Cultura do Conjunto Nacional, Clarisse aposta que boa parte parte dos clientes -leitores e potenciais espectadores- retardará o almoço para passar cerca de uma hora em companhia dos versos de Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Bertolt Brecht, Federico García Lorca, Fernando Pessoa, Florbela Espanca e outros.
O horário alternativo foi “testado” em dezembro, conta a atriz, quando se apresentou no mesmo espaço e teve de colocar cadeiras extras. “Foi um escândalo [a recepção]. Por isso fomos incentivados a voltar e arriscar. O horário é a grande cartada”, diz.
Clarisse circula com o espetáculo desde o início dos anos 2000, em apresentações pontuais. Agora, dirigindo a si mesma (antes era Márcia Abujamra, com quem divide o roteiro), ela é acompanhada ao teclado pelo irmão Ivam Abujamra.
A intérprete de 59 anos se diz convencida de que o público será tocado pela “delicadeza” do projeto. Em suma, ela acopla autores ao recorte autobiográfico dos “Antonios” com os quais conviveu e se envolveu até aqui, devidamente espelhados no sujeito do título.
“Cada texto ilumina as situações por que passei, são superinteligentes, bem-humorados. Nenhuma palavra é “fake”. Quando se fala do micro, fala-se do macro, não é questão de colocar meu umbigo em cena”, diz a atriz. “Estou me usando como veículo das possibilidades do amor. A platéia morre de rir e se emociona.”
Clarisse afirma que o show lhe permite, ainda, “o trunfo de quebrar o preconceito que as pessoas têm da poesia”. Diz que não se trata de um recital, mas um show, em que palavra e música farão o espectador “ir ao encontro, a um só tempo, do romance e da sensibilidade, fechando um ciclo que é um tesão”.
São Paulo, sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
TEATRO
Jogo de situações tem mais força que os diálogos em “O Mala”, avalia diretor
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Morto num acidente aéreo, em 1985, o autor norte-americano Larry Shue torna-se mais conhecido em palcos brasileiros nestes anos 2000. Depois de “O Estrangeiro” (2006), é a vez de São Paulo conhecer outra comédia deste dramaturgo e ator que tocava sua própria companhia: “O Mala”, com direção de Isser Korik.
Os dois textos têm em comum a súbita chegada de um visitante que põe a vida dos anfitriões de ponta-cabeça.
Em “O Mala” (“The Nerd”, 1981), é José Rubens Chachá quem encarna o dito cujo. Rick chega à casa do arquiteto Willum (Otávio Martins) em plena festa dos 34 anos do rapaz que lhe é tributário de uma grata dívida. A visita resulta em temporada. O enredo expõe o desespero do aniversariante e dos seus amigos para tentar livrar-se do indesejado.
Segundo Korik, 46, as peças de Shue são o que ele chama de comédias bem-estruturadas, em que o jogo de situações diz mais ao espectador do que o mero diálogo. “O público ri não do que é dito, mas do que vai acontecer”, afirma.
O ator Eduardo Leão substitui Olayr Coan, morto em acidente automobilístico no final do ano, no elenco da peça.
10.1.2008 | por Valmir Santos
A temporada de teatro esquenta a partir desta semana em São Paulo, quando as reestréias superam as estréias pontuais nos primeiros dias de janeiro. Pelo menos 20 espetáculos voltam ao cartaz até domingo.
9.1.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 09 de janeiro de 2008
TEATRO
Diretor funde vídeo, HQ e suspense “grand-guignol”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Graphic” é o espetáculo com o qual a Companhia Vigor Mortis, de Curitiba, visita São Paulo pela primeira vez. Formada há dez anos, ela quer representar em cenas e imagens o que o seu diretor e fundador, Paulo Biscaia Filho, 38, postula como um teatro de forte narrativa visual.
Suas principais artérias são o vídeo e as histórias em quadrinhos. Mas a base vem do “grand-guignol”, o gênero de terror e suspense que fez sucesso na Paris da virada do século 19 para o 20. Biscaia Filho fez mestrado numa universidade britânica sobre esse estilo de escrever, atuar e encenar que conjuga naturalismo e violência explícita, tema de palestra gratuita que realiza hoje, às 19h, no Centro Cultural São Paulo (sala de debates).
Não por acaso, a Vigor Mortis tem em seu currículo inicial peças sobre serial killers como o mineiro Febrônio Indio do Brasil, que até tatuava suas vítimas nos anos 1920.
No mesmo CCSP, começa amanhã a temporada da tragicomédia “Graphic”, escrita pelo diretor -indicado em 2007 a melhor autor no Prêmio Shell.
Um sujeito que desenha para manuais, uma executiva de finanças que criou fanzines no passado e uma artista de rua que trabalha com estêncil são os tipos que disputam vaga de quadrinista profissional numa grande editora: mote para frustrações, anseios e uma morte. “É uma peça fortemente calcada em personagens, não perdemos de vista o desenvolvimento narrativo”, afirma o diretor Biscaia Filho.
“Graphic” (2007) decorre da montagem anterior, “Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos” (2004), que reativou os ânimos do diretor e firmou um coletivo de trabalho.
Em março, a Vigor Mortis estréia “Hitchcock Blonde”, do inglês Terry Johnson, na mostra oficial do Festival de Curitiba. E, em novembro, deve lançar a versão de “Morgue Story” para o cinema, um longa.
8.1.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 08 de janeiro de 2008
TEATRO
Autor de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz” também dirige o inédito espetáculo “Cheiro de Chuva”
Montagens têm como tema a convergência de dois personagens em situações-limite; alteridade é a marca da obra do autor paulista
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Única peça de Bosco Brasil até então inédita nos palcos, “Cheiro de Chuva” (2000) estreou no Rio de Janeiro no ano passado e chega a São Paulo nesta quinta. É anterior a “Novas Diretrizes em Tempos de Paz” (2001), que impulsionou a carreira do dramaturgo na montagem de Ariela Goldmann, com Dan Stulbach e Tony Ramos.
O público tem a chance de colocar os dois dramas em perspectiva, ambos encenados no espaço Ademar Guerra, no CCSP. O próprio Brasil, 47, assina produção e direção de “Cheiro de Chuva”, além da cenografia e co-criação da trilha musical. Ele quer reafirmar a condição de pau-para-toda-obra do “teatrante”, como se refere ao trabalhador do teatro, arte com a qual lida há 30 anos.
Já “Novas Diretrizes” chega pelas mãos do diretor Fernando Couto, com o grupo Atores Associados, que vem de temporada premiada em Belo Horizonte. Na peça, o imigrante polonês Clausewitz (Olavo de Castro) desembarca no porto do Rio e é submetido a um interrogatório por Segismundo (Ari Nóbrega). A ação se passa em 18 de abril de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial está em seus últimos dias. Com medo da perseguição aos judeus, ele tenta convencer o funcionário a deixá-lo entrar no país.
Em “Cheiro de Chuva”, a convergência também se dá entre dois personagens, Aluno (Marcello Escorel) e Professora (Tânia da Costa). Nas aulas de dança, em sala espelhada, eles evoluem inevitavelmente para um jogo que vai desnudar sentimentos de si e do outro.
A obsessão pela alteridade está na base da escrita. “A idéia de que é no primeiro encontro, na troca de olhares, que você tem definitivamente um ser, o eu-tu depois transformado. Isso é força-motriz em “Cheiro de Chuva”, que preparou “Novas Diretrizes”, “Blitz” e “Cem Gramas de Dentes'”, afirma Brasil.
Atualmente morando no Rio, o autor era aliado em São Paulo, nos anos 90, de artistas que apostavam em “dramaturgia contemporânea”. Envolveu-se em iniciativas como a abertura do Teatro de Câmera na praça Roosevelt, onde estreou “Atos & Omissões”, e a criação da independente Caliban Editorial.
Segundo ele, a diversa geração anos 90 mirou a cidade e acertou em si mesma. “Sinto que o espaço privado engoliu o espaço público. O niilismo é um estágio importante para ver a realidade de outro ângulo, só que a nossa geração tropeçou nesse degrau e não conseguiu dar respostas dramatúrgicas.”
Peça: Cheiro de chuca
Onde: CCSP – espaço Ademar Guerra
Quando: estréia dia 10/1; qui. a sáb., às 21h; dom., às 20h. Até 3/2
Quanto: R$ 15
3.1.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 03 de janeiro de 2008
TEATRO
Editora Martins Fontes lança obra que reúne 20 peças do autor carioca do século 19 que inovou o gênero no teatro do país
Pesquisadora Vilma Arêas reavalia conteúdo social e rigor na linguagem do comediógrafo que tem peças lançadas em três volumes
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Às vezes lida de maneira superficial, a obra de Martins Pena (1815-1848) encerra mais complexidades do que se imagina. Quem acha que “O Noviço” é sua melhor comédia pode se surpreender com o poder de síntese do ato único de “O Namorador ou A Noite de S. João”, sua dialética amorosa e o jogo dos diferentes estratos sociais.
Exímio criador de textos curtos, Pena tem sua obra cômica reavaliada, na forma e no conteúdo, em breve e conciso ensaio com o qual a professora Vilma Arêas, titular de literatura brasileira na Unicamp, introduz o leitor às 20 peças que preenchem os três volumes de “Martins Pena – Comédias”, lançamento recente da editora Martins Fontes, pela coleção “Dramaturgos do Brasil”.
São compreendidos os períodos de 1833-1844 (com oito peças, entre elas a seminal “O Juiz de Paz da Roça”, “Os Dois ou O Inglês Maquinista” e “O Judas em Sábado de Aleluia”; de 1844-45 (com cinco textos, incluídos “O Noviço” e “O Namorador”); e 1845-47, com sete comédias, como “Quem Casa, Quer Casa”, “As desgraças de Uma Criança” e “O Usurário” (a remissão a “O Avarento” é debitada à influência confessa e certeira de Molière num tempo em que a estrutura para artes cênicas no país era limitada, evidentemente, mas já demonstrava potencialidades com Pena, o ator João Caetano, o circo popular e cia).
Para Arêas, o autor “reelaborou formalmente a comédia farsesca, pois transferiu a responsabilidade da ação cômica dos criados tradicionais para outros tipos de situações, fugindo ao mesmo tempo da comédia centrada no amor”.
Figuração do escravismo
A inovação mais importante, porém, foi introduzir na organização simétrica da comédia a assimetria básica da figura do escravo. “O lugar desse personagem cria uma situação teatral nova, longe da tradição que o associava ao simples palhaço.
Sua presença no palco funciona como uma espécie de elemento retardador em meio às cores e vertigens do jogo cômico”, afirma a pesquisadora.
Em vez dos “lugares-comuns” de que “escrevia mal e desleixadamente”, de que “era indiferente a questões sociais e interessado somente em fazer rir com suas farsas, supostamente ingênuas”, a análise de Arêas expõe um comediógrafo que era homem de teatro por excelência (e de ópera por extensão, um tenor que também compunha árias).
Filho de juiz, órfão de pai, com um ano, e de mãe, aos dez anos, Pena deu conta de figuração do escravismo na sociedade brasileira. Ele aproximou formações retórica e histórica, avalia Arêas. “Com isso, não deixa de ser curioso que raramente Martins Pena tenha sido representado por atores brasileiros em sua época, e sim por portugueses, o que não deixa de criar uma situação “um pouco estranha”, conforme observa Décio de Almeida Prado.”
3.1.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 03 de janeiro de 2008
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O pensamento crítico ou mesmo o registro histórico da atual produção de teatro encontram lugar nas edições das revistas “Folhetim”, iniciativa do grupo Teatro do Pequeno Gesto, do Rio, e “Subtexto”, do Galpão Cine Horto, de Belo Horizonte.
Na “Folhetim” número 26, a pesquisadora Alessandra Vannucci traça um perfil de Gianni Ratto (1916-2005). Destacam-se ainda na nova edição o ensaio do francês Alain Ollivier sobre o teatro numa sociedade regida pelo liberalismo e pelo culto ao sucesso e a entrevista com José Renato, fundador do Teatro de Arena em SP, nos anos 1950.
O quarto número da “Subtexto” traz um levantamento dos grupos em atividade na maioria dos Estados, com dados preliminares, fornecidos pelos próprios artistas.
Subyexto
Edição: Galpão Cine Horto
Quanto: distribuição gratuita; 94 págs.; www.galpaocinehorto.com.br
2.1.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 02 de janeiro de 2008
TEATRO
Sesi e British Council lançam núcleo em SP que, a partir de hoje, recebe textos de teatro para análise e futura montagem
Núcleo de Dramaturgia forma primeira turma neste ano; inspiração vem do Royal Court Theatre, do qual Noel Greig foi orientador
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Escritores aprendem muito falando com (e ouvindo) outros escritores. É essa percepção elementar, mas pouco praticada, que o dramaturgo inglês Noel Greig gosta de reforçar logo no primeiro dia de papo com autores iniciantes em projetos de formação de que participa dentro e fora de seu país.
“Se alguém quer escrever para teatro, precisa se envolver com esse fazer, não importa se como ator, diretor, faxineiro, pintor de cenário ou como ouvinte durante os ensaios. Teatro é uma forma de arte colaborativa”, disse Greig à Folha, em outubro, reproduzindo conteúdo de uma das aulas do work-shop que ministrou em São Paulo para duas turmas de autores “novos” e “emergentes”.
Greig deu o pontapé na parceria do Sesi (Serviço Social da Indústria) com o British Council (organização que promove a cultura britânica pelo mundo) para a criação do Núcleo de Dramaturgia, canal de estímulo continuado à escrita teatral. A inspiração vem do The Royal Court Theatre, o tradicional centro londrino de fomento ao autor contemporâneo.
A partir de hoje (e por prazo indeterminado), o núcleo recebe textos de maiores de 16 anos que jamais foram publicados ou encenados. As peças, ou esboços, serão avaliadas por uma equipe coordenada pela professora de literatura Munira Mutran (USP) e devolvidas em até três meses.
Os interessados devem preencher a ficha de inscrição no sitewww.sesisp.org.br/centrocultural. Na página estão as instruções e o endereço para o qual devem ser enviado um ato de uma peça com no mínimo 15 e no máximo 20 laudas (21 mil a 28 mil caracteres). Quem demonstrar potencial de desenvolvimento fará parte da primeira turma do núcleo, a ser estabelecida ainda neste ano.
Autores jovens
Com 40 anos de carreira e mais de 60 peças escritas, Greig, 63, foi um dos orientadores do Royal Court. Ele se diz acostumado a formar gente na faixa de até 25 anos, como um grupo de ascendência asiática com o qual trabalha atualmente, no leste de Londres, numa adaptação de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare.
“A vantagem de um espaço fomentador é que os autores têm chance de conhecer todo o processo de produção”, diz Greig. A iniciativa recém-criada em São Paulo prevê montagem dos melhores textos a partir de 2009. O Sesi capitaneou as duas edições da Mostra de Dramaturgia Contemporânea (2002 e 2003), que reaqueceram a área em nível nacional.
Greig diz que gostou da convivência de quatro dias com 24 moças ou rapazes que participaram do workshop. “Eles foram criativos, abertos a novas idéias e demonstram desejo de aprender, o que facilitou bastante o meu trabalho”, afirma.
Nem todos eram do meio teatral. Havia advogados, jornalistas. “Gosto de trabalhar com pessoas de outros campos. É bom trabalhar tanto com gente mais jovem como lidar com quem já traz bagagem de vida.”
Orientador de dramaturgos inovadores, como o britânico Martin Crimp, montado há pouco em Curitiba e São Paulo, Greig concilia o conteúdo da estrutura clássica da escrita para teatro, desde Aristóteles, com o princípio da ruptura e do experimento.
“Sarah Kane e Samuel Beckett conheciam bem os cânones da dramaturgia. O clássico e o contemporâneo não estão separados”, diz.
27.12.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
TEATRO
Musical carnavalesco de sucesso no Rio e em SP é destaque entre lançamentos deste final de ano no suporte digital
“Romeu e Julieta”, “Notícias Populares”, “A Casa” e “Conversas Folianescas” completam a série de DVDs à venda nas lojas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O suporte digital permite ao espectador das artes cênicas complementar a memória que ele constrói quando assiste ao espetáculo, ao vivo. Fenômenos da história recente do teatro brasileiro, como “Romeu e Julieta” (1992), montagem de Gabriel Villela para o Grupo Galpão, e o musical carioca “Sassaricando – E o Rio Inventou a Marchinha” (2007), integram lançamentos em DVD neste final de ano.
A novidade é que agora já não se trata de gravar somente a peça, em si desafio e tanto, mas de olhá-la sob a perspectiva de um documentário, como faz Paulo José com o Grupo Galpão (leia abaixo). Ou então nem mesmo ater-se à cena, mas ao processo histórico do teatro contemporâneo, como faz o grupo paulista Folias d’Arte com a série de cinco entrevistas com criadores e pensadores.
Outro aspecto inovador é a aposta das gravadoras na viabilidade dos projetos de teatro em DVD. Depois da Trama, com “Terça Insana” (2004), a Warner Music chega com “Notícias Populares”, espetáculo da Companhia de Comédias Os Melhores do Mundo, de Brasília; e a Biscoito Fino capturou mais que depressa o fenômeno “Sassaricando”, que teve sua primeira tiragem esgotada.
É uma edição bem-cuidada, oscilando imagens em close dos seis atores-cantores Eduardo Dussek, Soraya Ravenle, Pedro Paulo Malta, Alfredo Del-Penho, Ivana Domenico e Juliana Diniz num passeio por mais de cem marchinhas que marcaram o inconsciente coletivo não só do carioca, mas do brasileiro, como destaca a historiadora e idealizadora do espetáculo, Rosa Maria Araújo, co-autora junto do jornalista e crítico Sérgio Cabral.
Quem dirige o espetáculo é Cláudio Botelho, para quem o projeto tem um quê de teatro de revista em sua viagem pelo túnel do tempo no espírito da irreverência e da crônica social, comportamental e política que atravessou épocas.
Há 12 anos na estrada, a companhia Os Melhores do Mundo teve a chance registrar “Notícias Populares” (1997) em DVD, após apresentá-lo em várias capitais. “A gravação ficou bem equilibrada, inclusive a captação de áudio, e dá uma boa idéia do que é o espetáculo. Claro, nunca é possível retratar exatamente como é ao vivo, mas o projeto em DVD tem seu gosto especial”, diz Adriano Siri, 39, que contracena com Ricardo Pipo, Adriana Nunes, Victor Leal, Jovane Nunes e Welder Rodrigues.
Formado há quatro anos, o grupo paulistano Redimunho ousa levar seu primeiro espetáculo ao suporte digital, “A Casa” (2006), em DVD duplo. O diretor e autor Rudifran Pompeu, 40, calcula ter investido cerca de R$ 10 mil para gravar o espetáculo apresentado em espaço não-convencional, um casarão construído no início do século 20, na Bela Vista.
Com dramaturgia inspirada no universo de Guimarães Rosa, as cenas se passam nos cômodos e no quintal da habitação, na rua Major Diogo, onde atualmente funciona a Escola Paulista de Restauro.
A série “Conversas Folianescas”, do Folias D’Arte, prevê entrevistas com personalidades teatrais. O primeiro pacote inclui os diretores José Renato (fundador do Arena) e Roberto Lage (Ágora), entre outras.
São Paulo, sábado, 22 de dezembro de 2007
TEATRO
“Cypriano e Chan-ta-lan ou Folias e Sensações de 1973” é apresentado amanhã
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Há 19 anos, os artistas do teatro Oficina fazem da data de 23 de dezembro rito para a vida em contraponto à morte do ator, diretor e autor Luis Antônio Martinez Corrêa, irmão de José Celso. Ele foi assassinato a facadas no apartamento do Rio, em 1987.
Tinha 37 anos e acabara de encenar a segunda parte da premiada trilogia “Theatro Musical Brazileiro”.
É exatamente um roteiro de musical pouco conhecido de Corrêa que ganha leitura “encenada e festejada” às 14h30 de amanhã, na pista do Oficina.
“Cypriano e Chan-ta-lan ou Folias e Sensações de 1973” é uma parceria de Corrêa com Analu Prestes. Trata-se de um “poema mágico trágico farsesco musical”, afirma Zé Celso, 70, que viu o irmão encenar a obra antes de ser censurada.
No enredo, o príncipe Cypriano, “menino vampiro” herdeiro do trono da Golconda, busca seu amor, a camponesa Chan-ta-lan, que está desaparecida. É uma viagem apaixonada, à maneira do conto de fadas, com direito a passagens por florestas no país das maravilhas de Alice e pelos jardins suspensos da Babilônia.
Na trilha, interpretações de José Miguel Wisnik para Vivaldi ou de Celso Sim para um poema de Maiakóvski. Marcelo Drummond e Pascoal da Conceição co-dirigem a leitura.
Canudos
Na quarta-feira passada, Zé Celso entregou ao ministro Gilberto Gil (Cultura), em Brasília, o pedido de outorga de paisagem cultural às cidades de Quixeramobim (CE), berço de Antônio Conselheiro, e Canudos (BA), local da guerra no final do século 19.
Euclydes da Cunha retratou o conflito em “Os Sertões”, obra que a companhia Oficina Uzyna Uzona levou à cena, em cinco partes.
O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) acolheu o processo que deve reforçar a preservação dos territórios.