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Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 11 de outubro de 2007

TEATRO

Co-fundador dos Satyros, Ivam Cabral, se diz preocupado em não perder o “espírito amador” nas 80 horas de festa
 

Das 16h de hoje à meia-noite de domingo, espaços da praça Roosevelt e outros pontos da cidade recebem a maratona cultural

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Com 80 horas de atividades, o teatro vira pretexto para a programação das “Satyrianas – Uma Saudação à Primavera”. O evento que a Companhia de Teatro Os Satyros organiza de hoje a domingo, a partir da praça Franklin Roosevelt, na região central de São Paulo, toma proporções de que nem o grupo desconfiava.

Às 16h de hoje é dada a largada para cerca de 200 atrações de teatro, dança, música, literatura e artes visuais. Começa com o show ao ar livre, na praça, do grupo Ilú Oba de Min. Avança até a festa de encerramento, a partir de meia-noite de domingo, no teatro N.Ex.T. (r. Rego Freitas, 454, tel. 3106-9636).

“Neste ano, houve um inchaço que a gente precisa repensar”, diz o ator Ivam Cabral, 42, em avaliação na véspera da abertura. “Relutamos em profissionalizar o encontro justamente para manter o caráter amador”, diz o co-fundador dos Satyros, grupo criado há 18 anos e que, desde 2002, capitaneia o agito de cultura e de diversão na praça Roosevelt.

Público e artistas têm chance de se cruzar de hora em hora, praticamente, entre manhãs, tardes, noites e madrugadas. Todas as apresentações têm acesso livre, mas os organizadores esperam que o espectador colabore, definindo ele mesmo o valor de seu ingresso.

No ano passado, cerca de 12 mil pessoas acompanharam a programação. E a estimativa para este ano? “Só Deus sabe”, afirma Cabral.

O espírito amador que ele evoca é refletido, por exemplo, no mutirão espontâneo da maioria dos artistas. O orçamento geral é de cerca de R$ 25 mil, vindos da Secretaria Municipal da Cultura (em 2006, foram R$ 15 mil).

Segundo Cabral, boa parte dos recursos banca equipamentos e infra-estrutura que, nesta oitava edição, inclui a montagem de uma lona de circo (quadrada) na praça, com capacidade para 200 pessoas. É nesse espaço que acontece o projeto DramaMix.
Parceria dos grupos Satyros e Dramáticas em Cena, o DramaMix reúne 78 dramaturgos, respectivos diretores e cerca de 200 atores para fazer a leitura encenada de textos em intervalos de uma hora.

Entre as personalidades dessa mistura literal, estão os encenadores Gerald Thomas e Gabriel Villela, o ator Marco Ricca, a escritora Veronica Stigger e a apresentadora Adriane Galisteu.

Alguns espetáculos em cartaz em outros endereços da cidade também integram as “Satyrianas”, sob cachê “simbólico”. Caso de “Orestéia – O Canto do Bode”, que o Folias d’Arte apresenta em seu galpão, em Santa Cecília, e “A Casa do Gaspar ou Kaspar Hauser, o Órfão da Europa”, na sede do Ventoforte no Itaim Bibi.

Os Satyros incluem ainda na geografia do evento os seus espaços no Jardim Pantanal, na zona leste, e teatro da Vila, na Vila Madalena, zona oeste

 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 10 de outubro de 2007

TEATRO 

Juliana Carneiro da Cunha faz 7 papéis em “Os Efêmeros”, que estréia na sexta-feira em SP; ingressos estão esgotados
 

Intérprete fala de sua trajetória européia, que se inicia com a dança e culmina no trabalho com a diretora Ariane Mnouchkine

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Juliana Carneiro da Cunha coleciona poucos e memoráveis momentos na história do teatro e do cinema brasileiros -pôde ser vista pelo público nacional em trabalhos como como a peça “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” (1982), de Rainer Werner Fassbinder, em que contracenava com Fernanda Montenegro, ou o filme “Lavoura Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho, ao lado de Raul Cortez. 

Chegou a hora de conhecer a Juliana Carneiro da Cunha que interpreta em francês há 17 anos no Théâtre du Soleil. A companhia está no Brasil pela primeira vez e é das mais admiradas no cenário internacional, dirigida por Ariane Mnouchkine há 43 anos.
 
O espetáculo “Os Efêmeros” (Les Éphémères), de 2006, passou pelo festival Porto Alegre em Cena e estréia em São Paulo depois de amanhã, na futura unidade do Sesc Belenzinho, com ingressos esgotados -está em negociação uma data extra, provavelmente no dia 24. 

“Sempre pensei que, quando o Théâtre du Soleil fosse ao Brasil, causaria um impacto produtivo. É um teatro único, que está de pé há mais de 43 anos e que mantém suas leis, suas regras de base claras”, diz Cunha, 58 anos. “Porque costuma acontecer dessas utopias e ideais durarem quatro, cinco anos, não mais.” Ela conversou com a Folha em julho, no final de uma das sessões no Festival de Avignon, no sul da França. 

Do Sumaré à Bélgica
Nascida no Rio e criada em São Paulo, Juliana Carneiro da Cunha cumpriu uma odisséia genuína pelo mundo das artes cênicas. Aprendeu os primeiros passos de dança aos 7 anos, em aulas com a professora húngara Maria Duschenes, sua vizinha no bairro paulistano Sumaré. 

Dez anos depois, partiu para estudos na Europa, emancipada aos 17 anos para viver na Alemanha e na Bélgica, onde integrou a primeira turma da escola de Maurice Béjart, o Mudra, ao lado da francesa Maguy Marin. 

Participou de coreografias e montagens teatrais do circuito independente europeu, mas voltou ao seu país em 1978, quando ficou grávida de Mateus. Em seguida, nasceu Joana. Eles são franco-brasileiros e hoje se dedicam, respectivamente, à literatura e ao cinema. 

“Eu saí como bailarina e, quando voltei, me chamavam para trabalhar mais como bailarina. Na época, tinha aquela questão: você prefere ser bailarina ou atriz. Respondia: “Eu sou intérprete, bailarina, atriz, cantora, muda, fico de cabeça para baixo, o que for necessário para o personagem'”. 

E foi quando Celso Nunes a chamou para fazer “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, lembra. 

A intérprete voltou para a Europa em 1988, agora para dançar na companhia de Maguy Marin. Em paralelo, tentou realizar o sonho de entrar no Théâtre du Soleil, que conhecera em 1976, quando assistiu a “L’Age d’Or”, na Cartoucherie de Vincennes, sede do grupo. 

“Cheguei lá com amigos, tinha fila, serviram sopa, sanduíche, enfim, lembro-me completamente. E foi uma peça maravilhosa. Ficou essa vontade de um dia participar dessa trupe”, relembra. O que ocorreu 14 anos depois, em 1990, depois de estágio e teste. 

Em “Os Efêmeros”, Cunha interpreta sete personagens em nove histórias feitas da memória e do presente. É a que mais aparece, por assim dizer, mas no Soleil não existe a figura da primeira-atriz, do primeiro-ator. Além de Cunha, em meio a cerca de 30 intérpretes, despontam talentos como a francesa Dephine Cottu e a iraniana Shaghayegh Beheshti, para ficar nas mulheres. 

“O que você faria se soubesse que a Terra acabaria amanhã ou em uma semana? A gente improvisou em cima disso. Escolhíamos personagens vindos das lembranças da avó, da família. Situações transformadas, claro, mas pinçadas das profundezas pessoais”, diz Cunha.



Os efêmeros
Quando: de 12 a 23/10, em sessões parciais e integrais 
Onde: futura unidade Sesc Belenzinho (av. Álvaro Ramos, 915, tel. 0/xx/11/3871-7720) 
Quanto: R$ 10 a R$ 40 (ingressos esgotados). Programação paralela no site 
www.sescsp.org.br/ephemeres 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 08 de outubro de 2007

TEATRO 
“O Grande Criador”, de hoje a quarta, faz piada até com origem de Adão e Eva 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem local 

Se Deus criou o homem a sua semelhança, então isso deve dar um trabalho danado. Pelo menos na perspectiva cômica da companhia teatral portuguesa Chapitô, que apresenta “O Grande Criador”, de hoje a quarta, no palco principal do Sérgio Cardoso, na Bela Vista. 

A criação coletiva, que estreou em Lisboa há dois anos, pretende conceber um retrato “humanizado” de Deus, confrontando-O com os problemas da evolução. 

Afinal, Ele criou Adão e Eva ou simplesmente trombou com o casal paradisíaco? Será que a falta de espaço na Arca de Noé foi o verdadeiro motivo para a extinção dos dinossauros? 

Partindo de motes assim, os atores Jorge Cruz, José Carlos Garcia e Rui Rebelo desdobram-se em tipos e situações, independente de crenças -o budismo e as razões da ciência também entram na dança. “O Grande Criador” é a terceira parte da “trilogia de reciclagem”, projeto que, desde 2002, montou “Dom Quixote” e “Talvez Camões”, sempre com direção de John Mowat. 

Nascido em 1996, o grupo identifica-se com a linguagem do teatro do gesto, aquele que articula outros elementos de cena no mesmo plano do texto, como a expressão corporal, a música, os recursos visuais. 

O Chapitô tem sede na capital portuguesa. Além de produzir espetáculos, constitui um centro de formação artística. 

A sua turnê integra a série Cena Estrangeira, da Secretaria Estadual da Cultura, que inclui o Sérgio Cardoso no roteiro de espetáculos em parceria com o Núcleo Internacional dos Festivais de Artes Cênicas do Brasil. 

Na seqüência, “O Grande Criador” vai ao Riocenacontemporânea. 



O Grande Criador
Quando: hoje, amanhã e qua., às 21h 
Onde: teatro Sérgio Cardoso (r. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, tel. 3288-0136)
Quanto: R$ 10

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 06 de outubro de 2007

TEATRO 
Versão de livro de ensaísta francês sobre incesto é dirigida por Inês Aranha e protagonizada por Bia Toledo 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O ensaísta e romancista francês Georges Bataille angariou o epíteto de “pensador da transgressão”. A adaptação de “Minha Mãe” para o palco faz jus a isso, como se verá na montagem que estréia hoje em São Paulo. São cenas de enfrentamento do tabu do incesto para questionar noções de amor e violência, loucura e desejo no território do erotismo. 

Há cinco anos o escritor Elzemann Neves alimenta o projeto de adaptar e traduzir a obra, que chega ao palco por meio da Cia. Nua, com interpretação solo de Bia Toledo e direção de Inês Aranha. 

“Minha Mãe” (1966) é a primeira parte de uma trilogia inacabada do autor. No livro, a história é narrada pelo filho, que constrói a personalidade de Hélène, a mãe, a partir de sua imatura concepção de vida. A adaptação de Neves tem como desafio dar voz a Hélène, transformando-a no centro da ação. 

Na livre adaptação, Hélène dirige-se a Pierre, personagem que é como se fosse encarnado pela platéia. A ação se passa em 1906. Ela tem 32 anos, o marido acaba de morrer e o monólogo constitui sua tentativa de desnudar-se por inteiro ao filho. 

Ela dará notícias da vida libertina ao lado do marido, o homem que nunca a tocou depois de violentá-la aos 13 anos, mas que vive um casamento feito de orgias com terceiros. 

“A Hélène é muito envolvente, apesar de não ser simpática. É muito imperativa e cruel. Ela sofre um pouco pelas decisões, mas são dúvidas até certo ponto passageiras. Sua maneira de amar é bastante perturbada”, afirma a atriz Bia Toledo, 32. 

Em seu primeiro monólogo na carreira, metade da vida como atriz, Toledo multiplica-se entre as diversas máscaras de Hélène, além da dar “corpo” a Pierre a Réa, a prostituta com a qual a mãe introduz o filho no reino da libertinagem em que ela é rainha absoluta. 

Dirigindo-se ao público, a personagem explica: “Para ele, sou um quebra-cabeças de partes surpreendentes: doçura triste, melancolia fascinante, felicidade lasciva. A melancolia ele relacionava à maldade de seu pai. A alegria às minhas saídas depois do almoço, que podiam durar um dia inteiro”. 

As mudanças de tempo e espaço são pontuadas por meio da partitura física da atriz, conforme a encenação de Inês Aranha, especializada na preparação corporal de elencos. 



Minha Mãe
Onde: teatro Crowne Plaza (r. Frei Caneca, 1.360, tel. 3289-0985) 
Quando: estréia hoje, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 20h. Até 25/11 
Quanto: R$ 30 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 04 de outubro de 2007

TEATRO 

Oitavo Riocenacontemporânea recebe atrações do Brasil, Itália, França e Inglaterra
 

São 70 produções nacionais e estrangeiras; Oficina e Teatro da Vertigem estão entre os grupos paulistas que participam do festival
 

VALMIR SANTOS

Da Reportagem Local

Um dos principais irrigadores das artes cênicas cariocas nos últimos dez anos, o festival Riocenacotemporânea olha para trás para fazer seu “inventário”, o eixo eleito. A oitava edição, que começa hoje, leva o Oficina Uzyna Uzona, do diretor José Celso Martinez Corrêa, ao mesmo cenário onde apresentou “As Bacantes” em 1996: a zona portuária, no Centro Cultural Ação da Cidade. Desta vez, é encenado “Os Sertões”, cuja primeira peça abre o festival hoje à noite. 

Os dez dias de evento mexem ainda com outras memórias em cerca de 70 atrações nacionais e estrangeiras. Não são só espetáculos acabados. Há aqueles em processo, performances, instalações, leituras etc. 

A participação de grupos paulistas inclui também o Teatro da Vertigem, do encenador Antônio Araújo, que remonta “BR 3” em trecho da baía de Guanabara, repetindo a aventura sobre o rio Tietê, no ano passado; e a companhia Livre, de Cibele Forjaz, que leva “Vemvai – O Caminho dos Mortos”. 

Do Rio, acontecem as estréias de “Velatura – Estação Terminal”, com a companhia Ensaio Aberto; “Por uma Vida um Pouco Menos Ordinária”, de Gilberto Gawronski; e “Sutura”, por Felipe Vidal. 

Entre os 14 projetos internacionais, está a montagem de “Hey Girl!”, da italiana Societas Raffaello Sanzio, dirigida por Romeo Castellucci. Graças à tecnologia, uma menina se multiplica como um prisma transparente e mostra várias as facetas ao mesmo tempo. 

Do Reino Unido, vem o ator Tim Crouch, do Public Parts Theatre. Da França, o coreógrafo Josef Nadj. Da Espanha, a companhia La Carnicería Teatro, de Rodrigo García. Da Argentina, o grupo El Periférico de Objetos. De Portugal, uma mostra de espetáculos locais.



8º Riocenacontemporânea
Onde: palcos e espaços alternativos do Rio; tel. 0/ xx/21/2246-0176 e site
www.riocenacontemporanea.com.br
Quando: de hoje a 14/10 
Quanto: grátis e de R$ 10 a R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 29 de setembro de 2007

TEATRO 

Autor co-dirige texto inédito sobre disputa entre “morador” de rua e idosa
 

Com dois personagens, um banco e uma praça, Arap diz evocar “Dois Perdidos” de Plínio Marcos, e “Zoo Story”, do americano Edward Albee
 

VALMIR SANTOS

 Da Reportagem Local

No sábado passado, Fauzi Arap ligou para a Folha para comunicar a morte do dramaturgo José Vicente, a quem atribui influência decisiva na sua escrita para teatro, bem como a Plínio Marcos (1935-99). São autores que dirigiu ou atuou em peças dos anos 60. 

Uma semana depois, o paulistano Arap, 69, estréia o texto inédito “Chorinho”, de 2006, e reintroduz uma das máscaras com as quais embaralha os ofícios no teatro há 46 anos, nunca fixando-se numa função. “Chorinho” tem co-direção dele com Marcos Loureiro (o mesmo de “Hotel Lancaster”, de Mário Bortolotto) e cumpre temporada no Espaço Parlapatões, na praça Roosevelt. 

Com dois personagens, um banco e uma praça, Arap diz evocar “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, de Plínio Marcos, e mais especificamente “Zoo Story”, do norte-americano Edward Albee, 79. 

Se nesta última dois homens desconhecidos digladiam-se pelo espaço de um banco, metáfora de suas diferenças sociais, em “Chorinho” o território de disputa é estendido à praça em si. Bom que se diga: o enredo não tem nada a ver com a Roosevelt tão cortejada nos dias atuais. 

A aposentada solteirona (Claudia Mello) e o “morador” de rua (Caio Blat) são freqüentadores do local e têm seus estranhos mundos postos em rota de colisão. Ela quer ficar em paz, ele tenta se aproximar. Ele é vegetariano, mas ela só descobre quando lhe traz um bife. 

“É uma disputa surda, invisível, que alimenta a peça de forma continuada, como se a praça fosse personagem”, diz Arap. 

Seguem-se sete quadros que oscilam tentativas de aproximação e rejeição, dramas e humores. Outros tipos orbitam os protagonistas por meio dos diálogos, sem que apareçam: a terapeuta dela, um delegado, os travestis e ladrões noturnos etc. “Está em debate também certa miserabilidade da vida e das relações contemporâneas.” 

Arap se diz entusiasta das atuações de Mello, com quem já trabalhou, dona de “algo de chapliniano na sua forma de atuar”, e Blat, que atuou há pouco em outro texto seu, “O Mundo É um Moinho”, no Rio. 

Autor bissexto, guarda outros textos inéditos na gaveta, entre eles “Mata no Peito e Chuta”. Fala de um jogador do Corinthians seqüestrado na véspera de uma decisão por um torcedor fanático do time que o mantém num barraco, indignado com o pragmatismo mercantilista em voga no futebol. Fauzi Arap é são-paulino. 



Chorinho
Onde: Espaço Parlapatões (pça. Franklin Roosevelt, 158, tel. 0/xx/ 11/ 3258-4449) 
Quando: estréia hoje, às 21h; sáb., às 21h e dom., às 20h. Até 11/11 
Quanto: R$ 30 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 19 de setembro de 2007

TEATRO 

Mostra chega ao décimo dia; destaque são montagens de Tchecov e Kane
 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Porto Alegre 

Na longa jornada desta 14ª edição, a ultrapassar 70 atrações de teatro, dança e música, o festival Porto Alegre em Cena chega ao décimo dia -restam oito na grade- pontuado pelas produções do Mercosul. E corrobora a bienal de arte também em curso na cidade. 

Claro que o compasso de espera é pela estréia nacional do Théâtre du Soleil, o grupo francês que encerra o evento na semana que vem, com quatro apresentações de “Les Éphémères” (ingressos esgotados). 

Enquanto isso, Argentina (com sete espetáculos) e Uruguai (cinco) dominam a programação internacional. A começar pela carismática presença de China Zorrilla, 85. 

Na primeira semana, a atriz uruguaia protagonizou o drama “El Camino a la Meca”, produção argentina dirigida por Santiago Doria. Drama, vírgula, porque Zorrilla é sobretudo uma comediante, a mesma do longa-metragem “Elsa e Fred – Um Amor de Paixão” (2005). 

Há uma curiosa convergência para dois dramaturgos europeus, um clássico e outro contemporâneo, mortos nas pontas extremas do século 20: o russo Anton Tchecov e a inglesa Sarah Kane. Eles têm muito a dizer, conforme as montagens do festival. 

Do primeiro, assistiu-se à recriação do argentino Daniel Veronese para “Tio Vânia” em “Espía a una Mujer que se Mata”, em que o terreno da criação artística é cotado como se fosse um pedaço de terra à venda. 

Hoje, estréia a percepção uruguaia de “Ivanov”, obra de iniciação do jovem Tchecov, sob direção de Sergio Pereira. O acréscimo do subtítulo “El Hombre Perdido” adianta o que virá da fusão de cinismo, depressão e hedonismo do personagem, um latifundiário. 

Para concluir o recorte tchecoviano, a carioca Cia. dos Atores traz, de sexta a domingo, “A Gaivota – Tema para um Conto Curto”, direção de Enrique Diaz, o mesmo de “Ensaio.Hamlet”, apresentado na semana passada no 6º Festival Internacional de Buenos Aires. 

De Sarah Kane, estréia hoje “4:48 Psicosis”, direção do uruguaio Juan Tocci para o solo de Alejandra Cortazzo. No final de semana, o argentino Cristian Drut encenou “Crave”, outra peça dela. Ambos os trabalhos ecoam o verbo em desespero da jovem inglesa e sua fé incondicional no teatro. 

Na dança, o destaque é Julio Bocca. Em “Boccatango”, que entra em cartaz hoje, o bailarino interpreta coreografias para canções de Astor Piazzolla e outros, acompanhado de músicos e cantores. Também passaram pelo evento Antunes Filho (“A Pedra do Reino”) e Samir Yazbek (“O Fingidor” e “O Invisível”), entre outros.


 

  
O jornalista Valmir Santos viajou a convite da organização do Porto Alegre em Cena 

14º Porto Alegre em Cena
Quando: até 30/9 
Onde: vários locais (informações em www.poaemcena.com.br
Quanto: R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 15 de setembro de 2007

TEATRO 
Versão para obra de Cervantes tem estrutura de desfile de escola de samba 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem local 

Há anos em busca do mar, uma companhia de teatro assenta no chão de concreto da praça da República. É a metáfora que move a Cia. São Jorge de Variedades no espetáculo que estréia hoje, “O Santo Guerreiro e o Herói Desajustado”, uma versão do “Dom Quixote” de Cervantes para a rua. 

Espaço e relação com público sempre nortearam os trabalhos do grupo, diz o ator e diretor da vez, Rogério Tarifa, 31. “O desafio foi não cairmos em clichês do que seja “fazer teatro de rua”. 

Buscamos o melhor teatro possível nesse novo espaço.” 

A dramaturgia que ele assina com Marcelo Reis e Alexandre Krug promove um encontro de Quixote com São Jorge Guerreiro. Perdidos na metrópole, “inadaptáveis à contemporaneidade”, Quixote e Sancho Pança são socorridos pelo santo popular.

Fixados em lutas solitárias, os personagens seriam revelados à importância do sentido da coletividade. 

O roteiro segue a estrutura de um desfile de escola de samba. “Trazemos o espírito das festas populares para o teatro. São manifestações teatrais no seu sentido mais puro, e é preciso quebrar as barreiras. A cada sessão, um coletivo de arte será convidado a criar o final da peça conosco”, diz Tarifa. 

“O Santo Guerreiro…” envolve 28 profissionais da São Jorge, nascida em 1998. “Desde o início nos colocamos como Quixotes, cavaleiros diante de uma realidade absurda como a de hoje. Qual o sentido de fazer teatro? Em que medida ele interfere na vida urbana?”, questiona o diretor.



O Santo Guerreiro e o  Herói Desajustado
Quando: hoje, às 16h; sex., às 12h, e sáb. e dom., às 16h. Até 28/10 
Onde: pça. da República, s/ nº, tel. 3824-9339 
Quanto: grátis 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 12 de setembro de 2007

TEATRO

Ator de “Os Sertões” adapta e dirige obra de Camus
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

É preciso muito cinismo para alimentar tempos medíocres. O escritor franco-argelino Albert Camus (1913-60) ergue essa sentença com despudor em “A Queda”, novela publicada em meados dos anos 1950. 

“[O livro] trata do homem moderno mais moderno que existe: o cínico”, diz o ator Aury Porto, 43. Ele adapta, dirige e está no elenco de “A Queda”, versão teatral que estréia hoje no Sesc Consolação. 

“Esse é o homem da hora em nossa sociedade. Não importa a classe, a orientação sexual, a geração, o grau de instrução, a profissão, o sexo: estamos todos imersos na hipocrisia e no cinismo. Isso virou a estrutura de nossa organização social”, afirma Porto, um dos protagonistas de “Os Sertões”, do Oficina, aqui em projeto paralelo. 

Para um tempo vazio, um profeta idem, como se autodefine o João Batista que ciceroneia um interlocutor por ruas e inferninhos de Amsterdã. João Batista, citação à figura bíblica do Novo Testamento, é nome fantasia de um sujeito que não terá sua identidade revelada. 

Essa “criatura diabólica”, nas palavras de Porto, dispara ironias para convencer o ouvinte das suas verdades e idéias, na condição de um excêntrico juiz penitente. O livro reflete a polêmica ideológica travada por Camus e Jean-Paul Sartre no pós-guerra, o que pôs fim à amizade desses intelectuais. 

As referências à mitologia cristã também atraíram Porto, que deparou com o livro pela primeira vez em 1989, estudante de teatro na USP, e desde então viu amadurecer o interesse pela obra. 

“Essa mitologia é tratada de forma mais crítica por Camus do que por Euclydes da Cunha, que é um cristão mais adaptado”, diz, ao comparar os autores de “O Estrangeiro” e “Os Sertões”. 

Porto contracena com Luah Guimarãez, Ricardo Morañez e Rogê. O espetáculo teve consultoria teórica de Manuel da Costa Pinto, crítico da Folha. Cearense de Lavras da Mangabeira, Porto está radicado em São Paulo há 20 anos, envolvido sobretudo com o grupo Oficina. Em 2006, co-dirigiu e atuou com Renée Gumiel em “Cinzas”, de Samuel Beckett.



A queda
Onde:
Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000) 
Quando: estréia hoje, às 21h 
Quanto: R$ 10 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 11 de setembro de 2007

TEATRO 

Daniel Veronese reflete sobre a arte do espetáculo em duas peças no festival Porto Alegre em Cena
 

Evento na capital gaúcha vai apresentar “Teatro para Pájaros”, de Veronese, e “Espía a Una Mujer que se Mata”, adaptação de Tchecov
 

VALMIR SANTOS
Em Buenos Aires 

Na Argentina, é comum usar a expressão “teatrista” para designar o sujeito que transita por várias funções. O carpinteiro Daniel Veronese, 51, é um deles. Herda o ofício do pai e do avô, mas vai aplicá-lo mesmo, com direito a metáfora e tudo, no campo das artes cênicas. 

De manipulador de bonecos a diretor e autor devoto dos intérpretes, em 20 anos Veronese se tornou dos artistas mais influentes e respeitados na efervescente produção de Buenos Aires -476 peças apresentadas em agosto, segundo a revista “Llegas”. 

Dois trabalhos recentes de Veronese serão vistos no festival Porto Alegre em Cena, cuja 14ª edição começou ontem com show de Vitor Ramil, e segue com teatro, dança e música até o dia 30. “Teatro para Pájaros”, de sua autoria, e “Espía a Una Mujer que se Mata”, versão de “Tio Vânia”, do russo Anton Tchecov, são reflexos de maturidade e disposição ao risco. Ele é um dos fundadores ativos do grupo El Periférico de Objetos (1989), que já se apresentou no Brasil, e sublinha de forma radical “a teatralidade a partir da energia do ator”. 

“Cada vez mais me distancio de dispositivos cênicos como luz, figurino e música, tudo que vá além do ator. Se o ator é afetado, então essa ficção entra no corpo do espectador com mais força”, diz Veronese, que faz carreira paralela ao Periférico. 

Os dois espetáculos têm brechas para o teatro dentro do teatro e trazem indagações contemporâneas. Em “Teatro para Pájaros”, com sessões amanhã e quinta no teatro Álvaro Moreyra, a sala de um apartamento abriga seis personagens que se querem movidos por essa arte, mas com “estratégias” diversas, que conflitam ética e corrupção de ideais. 

Em “Espía a Una Mujer que se Mata”, sábado e domingo no teatro Bruno Kiefer, Veronese visita um Tchecov de 1901 para pensar a busca da verdade em todos os planos da vida. O embate entre o sonhador Tio Vânia que administra uma fazenda e o egocêntrico professor de arte que tenta vendê-la expõe feridas familiares. 

Até domingo, “Espía…” estava em cartaz no teatro El Camarín de las Musas, no bairro de Almagro, um dos principais espaços do circuito independente de Buenos Aires – onde também era possível assistir a outra incursão “tchecoviana” do encenador, “Un Hombre que se Ahoga” (2004), releitura de “As Três Irmãs”. 

Veronese diz falar de lugares obscuros da vida, como a dor e a morte, para construir uma poética teatral que irradie o oposto: o amor. “Se o público se emociona, tem a ver com o esforço de desmitificar o teatro como criador de falsas ilusões. Isso ocorre quando concentro minha anarquia no jogo com os atores.” 

Argentina (com sete espetáculos) e Uruguai (seis) são os países com mais representantes no Porto Alegre em Cena. 

Numa edição pontuada por grandes nomes da cena internacional, como o grupo francês Théâtre du Soleil e o japonês Sankai Juku, o festival gaúcho faz questão de reafirmar sua condição de principal porta de entrada dos países vizinhos.



14º Porto Alegre em Cena
Quando: vários horários; até 30/9 
Onde: vários locais (lista completa em www.poaemcena.com.br, informações no tel. 0/xx/51/3212-3464 e 0/xx/51/3212-2432) 
Quanto: R$ 20