Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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São Paulo, quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
TEATRO
Alexandre Reinecke monta no Tucarena o texto traduzido por Millôr Fernandes
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Harold Pinter é dado a implodir quartos e salas de três paredes. Os estilhaços da “quarta” vão parar no colo do espectador. Como na demolidora “Volta ao Lar”, possivelmente sua peça mais conhecida, e cuja montagem de Alexandre Reinecke estréia hoje no Tucarena, encabeçada por Antônio Petrin.
“É daqueles textos de fazer as pessoas ficarem coradas. Causa comoção porque as questões levantadas em 1964 ainda permanecem tabus e as sociedades retrocederam ainda mais em seu cinismo”, afirma Petrin, 68.
Para efeito de sinopse, se poderia dizer que é a história de um viúvo, três filhos, um tio e uma nora a quem elegem como receptáculo de suas carências, frustrações e fúrias. Mas é impossível descrever o que esses cinco homens e essa mulher constroem em seus diálogos, tantas as pistas subliminares.
Maior autor vivo do teatro britânico, vencedor do Nobel de Literatura 2005, Pinter, 76, costuma repetir que ele mesmo não consegue resumir suas peças. “O que sei é dizer: foi assim que se passou, foi isto que disseram, isto que fizeram.”
Aqui, traduzido por Millôr Fernandes, o dramaturgo como que embaralha a passagem bíblica do filho pródigo. A súbita chegada do professor Teddy (por Renato Modesto), vindo dos Estados Unidos com a mulher, Ruth (Ester Lacava), desequilibra de vez as relações.
Faz seis anos que partiu e não deu notícias. O patriarca Max (Petrin), que segura as rédeas do lar, o recebe com desprezo, mas logo desarma quando sabe que Ruth é mãe e lhe deu três netos -assim como sua mulher, morta, teve três filhos.
“Na verdade, não se trata da volta do filho, mas da figura feminina ausente desde a morte da mãe”, diz Petrin, que interpretou recentemente Samuel Beckett (“A Última Gravação de Krapp”, 2000) e Plínio Marcos (“Barrela”, 2005).
A partir do segundo ato, Ruth compactua num jogo de sedução do primogênito Joey (Gustavo Haddad), do irmão do meio Lenny (Eucir de Souza) e do tio Sam (Jorge Cerruti).
É quando a camada realista cede para o absurdo. Eles simplesmente querem que ela não volte para a América e passe a viver ali, dando prazer a eles, doravante cafetões.
Segundo Petrin, o que poderia induzir a uma perspectiva machista desvia para o poder de persuasão de Ruth, que é quem, ao final, tem os homens sob seus joelhos, literalmente.
13.1.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 13 de janeiro de 2007
TEATRO
Após sete anos, atriz deixa CPT de Antunes Filho e estréia “Anátema”, de Roberto Alvim, em que mata sete homens “por amor”
Personagem encontra eco no pesadelo contemporâneo, avalia atriz, para quem “o maior elogio a Antunes é continuar com minha vida”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Sem efeitos de luz, de som ou qualquer outro recurso que mascarasse a (sua) verdade sobre si mesma e sobre os sete homens que matou, uma mulher se pergunta: “Estou me confessando, como num tribunal? Ou dando um testemunho, como numa igreja?”.
O evangelho da serial killer é pronunciado por Juliana Galdino, 33, que vai à cena pela primeira vez sem a rubrica de Antunes Filho. O solo “Anátema” (excomunhão, maldição), texto e direção de Roberto Alvim, estréia hoje na Unidade Provisória do Sesc Avenida Paulista.
À Folha, Galdino falou sobre a protagonista, autodefinida “o exército de um homem só” a peregrinar do bar para a casa de suas vítimas, sempre a convite, “sem sadismo” e “por amor”. “O teatro é um elemento desarmonizador por excelência”, diz a atriz. Veja abaixo trechos da entrevista.
Um amor que remete ao amor cristão, no sentido da entrega, da doação, da compaixão. Ao perceber que a maior parte de nós já está morta -ou “enterrada”, o que é bem menos digno- percebe o assassinato como única possibilidade de ajudar, amar, aqueles cujas vidas já foram desperdiçadas e que arrastam seus corpos pelas ruas como “estátuas pré-moldadas, semeando ódio disfarçado em simpatia narcisista”.
O serial killer é uma personificação da morte. Nesse sentido, é uma personagem numa dimensão mítica, sagrada. Nosso interesse coletivo pelos assassinos em série deriva do fato de que eles são uma espécie de Deus, são o destino.
As respostas que a personagem dá aos desafios propostos pela contemporaneidade são discutíveis, mas a percepção que ela tem do nosso estado de coisas é absolutamente lúcida.
FOLHA – Em que medida a protagonista de “Anátema” encerra elementos de tragicidade e de peregrinações refletidas em Medéia e Antígona, mulheres atemporais que você interpretou recentemente?
GALDINO – Na desmedida. Para que uma personagem mereça estar num palco de teatro, deve possuir uma biografia especial. E, como diz Nietzsche, a tragédia é o lugar onde a vida humana é vivida em toda a sua potência. Os gregos colocavam em cena personagens cujas respostas à vida espelhavam os seus piores medos. A desmedida dessas personagens encontra raízes no inconsciente coletivo, o que as torna atemporais.
Acredito que essa mulher retratada em “Anátema” encontre eco no pesadelo contemporâneo, assim como Medéia e Antígona ecoavam nas mentes dos gregos do século 5 a.C. Creio que ela se localize na esfera da discussão de questões humanas eternas e, possivelmente, insolúveis.
FOLHA – Após sete anos de uma carreira projetada e premiada com Antunes Filho, o seu primeiro espetáculo-solo, pleno em ritos de passagem, representaria uma morte simbólica do “pai” freudiano?
GALDINO – Não. O Antunes foi e sempre será um mestre para mim. E o maior elogio que eu posso fazer a ele é continuar com minha vida, criando minha obra e andando sobre meus próprios pés.
FOLHA – Por que deixou o Centro de Pesquisa Teatral?
GALDINO – Provérbio zen-budista: “Não é possível que uma árvore cresça à sombra de outra árvore”. Foram sete anos… O CPT é um centro de formação de atores. É um meio e não um fim, como o próprio Antunes gosta de dizer. A formação continua para o resto da vida. Foi extremamente importante para mim esse tempo em que estive junto do Antunes e acho que é muito importante que, agora, eu retribua, num certo sentido, tudo o que ele me deu tão generosamente. Saio do CPT tão feliz quanto entrei. Cumpri o ciclo e vou para outro, maravilha!
Triste dos que saem de lá tristes… Não entenderam nada!
9.1.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 09 de janeiro de 2007
TEATRO
Grupo Teatro Kaus organiza encontro internacional de amanhã a domingo, em parceria com Instituto Cervantes
Artistas da Argentina, do Chile e da Venezuela partilham suas experiências com brasileiros em debates, oficinas e ensaios abertos
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Ainda está aquém do corredor privilegiado que é Porto Alegre, dada a aproximação geográfica, mas São Paulo demonstra, pelo menos no âmbito dos artistas, vontade de melhorar a relação cultural com os países latino-americanos.
O teatro dá mais um passo com a o ciclo “O Teatro na América Latina – Encontros e Desencontros”, uma iniciativa do Teatro Kaus Cia. Experimental. Em parceria com o Instituto Cervantes, o grupo realiza de amanhã a domingo debates, espetáculos e oficina gratuitos com artistas convidados da Argentina, do Chile e da Venezuela, que partilham suas experiências com brasileiros.
Em maio do ano passado, a cidade viu a Cooperativa Paulista de Teatro organizar a 1ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, com cinco países. Em 2005, o Folias d’Arte, um dos grupos empenhados numa vizinhança mais ativa, criou o espetáculo “El Día que me Quieras”, do venezuelano José Ignacio Cabrujas. Em 2004, o Teatro-Escola Célia Helena publicou quatro peças inéditas no volume “Teatro da América Latina”.
“Os países da América Latina sempre tiveram a percepção de que a cultura com maiúscula estava do outro lado do mar”, diz o dramaturgo argentino Santiago Serrano, que dá oficina e participa de debates. Tal paradoxo, acredita, estaria mudando porque melhorou a auto-estima.
“O mútuo desconhecimento entre as Américas espanhola e portuguesa parece residir na falta de uma verdadeira vontade de integração de parte das elites governantes desde o século 19”, afirma outro participante do ciclo, o diretor e tradutor peruano Hugo Villavicenzio, radicado no Brasil desde 1975.
“Reconhecer as nossas diferenças é fundamental. O teatro latino-americano tem muitos aspectos comuns, sua preocupação com a história recente, seu envolvimento social e político, seu vigor criativo, seu experimentalismo etc. Tudo isso tem que ser conhecido pelas novas gerações”, diz.
Para Serrano, projetos como o que acontece esta semana servem, “não para borrar as diferenças e globalizar a cultura, mas sim para descobrir nossa própria identidade em relação a outros povos vizinhos”.
O ciclo faz parte de projeto mais amplo do Teatro Kaus, batizado “Fronteiras – O Teatro na América Latina”, selecionado no Programa de Fomento. Estão previstas a abertura da sede do grupo, na rua Augusta; a montagem de duas peças em fevereiro, “A Revolta”, de Serrano, e “El Chingo”, do venezuelano Edílio Peña; e o lançamento de um caderno com o registro de todos os processos.
Para o diretor do Teatro Kaus, Reginaldo Nascimento, trata-se de um pequeno traço do vasto universo teatral dos vizinhos latinos. “A intenção é socializar as informações de nossas pesquisas e divulgar o teatro desses países.”
4.1.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 04 de janeiro de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Luz, contra-luz, sombra e imagem em corte seco são recursos que Antunes Filho maneja com muita inspiração em seu “Vestido de Noiva” para a TV, de 1974.
A obra de Nelson Rodrigues (1943), clássico da dramaturgia brasileira, também o é do teleteatro produzido nos anos 60 e 70, como se vê no destaque da série “Antunes Filho em Preto e Branco”, na TV Cultura.
Das precárias condições técnicas da época emerge uma sofisticada concepção estética. Ao expressionismo latente -planos da realidade, memória e alucinação-, Antunes funde sua condição de devoto da poética cinematográfica, ele que vinha de dirigir o filme-único “Compasso de Espera” (1970).
O preto-e-branco parece convir aos abcessos psicológicos, ao tom fantasmagórico de algumas cenas; pêndulo das marchas nupcial e fúnebre que ecoam no casarão cenográfico (alpendres, janelões, escadas, espelhos etc). Zela-se ainda pela interpretações, Lilian Lemmertz (1938-1986) e Nathália Timberg à frente, como Alaíde e Madame Clessi, respectivamente, divas carnais e espirituais dessa história de amor (e morte) de duas irmãs pelo mesmo homem, mas não só. No final, a atriz Denise Weinberg, o diretor Marco Antônio Braz e a pesquisadora Cristina Brandão dão pistas fundamentais desse marco da TV.
25.12.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
TEATRO
Diretor retoma a obra do dramaturgo pela sexta vez ao anunciar a montagem de “Senhora dos Afogados” para 2007
De 1947, uma das peças míticas e “desagradáveis” do autor terá encenação apoiada no grotesco e no expressionismo
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Um dos responsáveis por redimensionar a obra do dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-80), apanhá-lo pelo espinho e pela raiz da “flor de obsessão”, Antunes Filho volta pela sexta vez ao autor no segundo semestre de 2007. Vai levar ao palco “Senhora dos Afogados”, escrita em 1947.
Suas últimas incursões foram “Nelson 2 Rodrigues”, de 1984 (junção das peças “Toda Nudez Será Castigada” e “Álbum de Família”), e “Paraíso Zona Norte”, de 1989 (“Os Sete Gatinhos” e “A Falecida”). Os espetáculos decalcavam dos personagens o inconsciente coletivo com o qual Antunes, 77, balizou seu palco na década de 80 e parte da de 90, extasiado pela teoria dos arquétipos do suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), contraponto ao inconsciente individual freudiano.
Aliás, estaria o encenador em movimento de “eterno retorno”, para lembrar o mito do romeno Mircea Eliade (1907-86), outra fonte recorrente? “A Pedra do Reino”, que adaptou do romance de Ariano Suassuna e reestréia em janeiro, apresenta traços picarescos umbilicais em relação a “Macunaíma” (1978), de Mário de Andrade.
“Levantar o Nelson agora é importante. Ainda há muito desentendimento a respeito dele”, diz o diretor. “Querem torná-lo um autor somente pornográfico e reacionário, de novo. De vez em quando, é bom reafirmar que ele é um grande poeta”, avalia.
Prestes a completar 25 anos à frente do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), em 2007, braço do Sesc em São Paulo, Antunes decidiu ir ainda mais a fundo no universo mítico rodriguiano que já visitara em “Álbum de Família”.
Também fazem parte do agrupamento das chamadas “peças míticas” (ou “desagradáveis”, como dizia o autor) as obras “Anjo Negro” e “Dorotéia”. Essa classificação dos 17 textos de Nelson para teatro foi proposta nos ano 80 pelo crítico Sábato Magaldi -e endossada pelo autor. Ela compreende ainda as “peças psicológicas” e as “tragédias cariocas”.
As “Peças Míticas” foram escritas entre 1945-49 e têm em comum a influência estrutural das tragédias gregas. Antunes brinca que, na largada, já se adentra “Senhora dos Afogados” em desvantagem, dadas as sombras que a acompanham, como “Electra Enlutada”, de Eugene O’Neill, e “Orestéia”, de Ésquilo, influências de Nelson.
O mar é um personagem invisível em “Senhora…”, mas “próximo e profético, que parece sempre estar chamando os Drummond, sobretudo as suas mulheres”, como diz a rubrica.
Na casa dos Drummond, ou as pessoas se afogam (o filho) ou são afogadas (as irmãs Dora e Clarinha) por Moema, que deseja ser a “filha única” do pai e chega mesmo a conspirar para a morte da mãe. Chefe da família, o juiz Misael idealizava a castidade e a fidelidade do clã, mas o próprio traíra e matara uma prostituta 19 anos antes, com golpes de machado no pescoço. Perde-se o paraíso e jaz o romantismo desencantado.
“Essa peça está varrida de suicidas, incestuosos, adúlteras e insanos. (…) Num mundo como o nosso, definitivamente infeliz e doente, é quase uma obrigação ser também infeliz, também doente. Permito-me uma comparação: rir neste mundo é o mesmo que, num velório, acender um cigarro na chama de um círio”, escreveu Nelson no programa da primeira montagem. Foi em 1954, no Rio, sob vaia e sob direção de Bibi Ferreira. Até hoje, é das menos montadas profissionalmente entre as 17.
Para Antunes, o subtexto dá notícias de uma purificação por meio da atrocidade. “Isso é Artaud puro”, diz o diretor, citando o teatrólogo francês Antonin Artaud (1896-1948). “Nelson tem esse ímpeto libertário, mas com muita ironia, muito sentido brasileiro, não europeu, americano ou grego.”
Recentemente, Antunes montou obras de Sófocles e Eurípides, mas a tragicidade que deve imprimir aqui depende de “o herói escorregar na casca de banana”. Ou seja, sua opção declarada é pelo grotesco, pela carnavalização. Admite que nutria resistência quanto a “Senhora…”, que “não dava pedal com seu clima pesado”. A saída é colar o horrível ao disforme.
“É burra a decisão de se fazer um Nelson Rodrigues trágico e mítico. Não se deve esquecer que se trata de uma tragédia brasileira na qual o grotesco é fundamental. Se Shakespeare sabia usá-lo tão bem, a comédia no meio da tragédia, por que o Nelson não pode fazer muito mais? Ele não tem nada a perder; é brasileiro, latino-americano, não é um inglês.”
21.12.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O documentário televisivo “Nelson Rodrigues, Personagem de Si Mesmo” (1993), que a Cultura reprisa hoje à noite, é das melhores introduções à vida, à obra e às idéias do genial dramaturgo morto em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos.
Uma coisa é ler Nelson. Bem outra é vê-lo, ouvi-lo. Como sob o fundo azul do extinto “Vox Populi” da mesma TV Cultura, em 1978: “O único lugar onde o ser humano sofre realmente e paga seus pecados é nas minhas peças”, diz, com uma placidez no rosto que contrasta com a voz anasalada e tonitruante.
Em cerca de 60 minutos, a roteirista e diretora Cristina Fonseca compõe um painel farto em registros radiofônicos e de imagens (entrevistas a outras emissoras, além de trechos de filmes, teleteatros, ilustrações, fotografias etc). Plínio Marcos (1935-99), Zé Celso, Antunes Filho, Fernanda Montenegro, Sônica Oiticica, Sábato Magaldi estão entre os depoimentos que ecoam o sentido revolucionário de seu teatro.
O recorte biográfico vem por meio do narrador e das falas de irmãos, da viúva Elza, do filho Nelsinho. O programa deixa entrever ainda a ambígua relação com os militares e o patrulhamento à esquerda e à direita do “feroz moralista” que preferia Chacrinha aos sociólogos.
17.12.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, domingo, 17 de dezembro de 2006
TEATRO
Tradicional reduto do cinema, a avenida se consolida também como espaço para as artes cênicas, em locais como o Sesc e o Itaú Cultural
Unidade Provisória herdou vocação para encontro ao vivo com a arte, também possível no Centro Cultural Fiesp e na Casa das Rosas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O drama é cada vez mais forte entre o Paraíso e a Consolação. Com seis endereços para cinema, a avenida Paulista também consolidou, nos últimos tempos, espaços e públi- cos cativos para a dança e o teatro.
Invariavelmente nervosa, dado o vaivém de pessoas e veículos -ou por causa do congestionamento mesmo-, a centenária Paulista, com seus 115 anos recém-completados, tem lá sua reserva de arte que pede o encontro ao vivo.
São quatro locais em que o espectador se depara com espetáculos inclinados ao experimento nos campos da encenação e da dramaturgia. Ou seja, não têm o apelo de comédias “fáceis” com rostos conhecidos da televisão.
A exceção deste perfil é um quinto teatro, o da Gazeta, que está em recesso e volta em janeiro. Até dois anos atrás, havia ainda a sala do Centro Cultural Santa Catarina, mas a programação teatral está suspensa.
Inaugurada em abril, a Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista, no edifício de 15 andares onde funcionava a sede administrativa do Serviço Social do Comércio em São Paulo, aos poucos tornou-se referência. Herdou a vocação do Sesc Belenzinho para uma intensa e elogiada programação em artes cênicas. A unidade da zona leste passa por reformas e deve reabrir apenas em 2009.
No “condomínio”, os andares do 9º ao 12º são adaptados ao sabor de cada criação. Com freqüência, as cenografias incorporam o “skyline” da paisagem de concreto avistada pelos janelões. Não existem palcos, e sim espaços não-convencionais em que a disposição da platéia e da cena são variáveis (de 40 a cem lugares).
Neste domingo, o cartaz do Sesc Paulista, em pleno final de temporada, elenca três peças e uma coreografia (veja a programação ao lado).
“Na Paulista, convive-se com passantes de todas as naturezas, o trabalhador, o mendigo, o curioso, enfim, é uma avenida cuja exuberância é ligada à capacidade constante de transformação”, diz a gerente da unidade, Elisa Maria Americano Saintive, 51, que anuncia um café no piso, em janeiro, e comedoria no 15º, em maio.
Territórios cênicos
Os vizinhos Itaú Cultural e Casa das Rosas também são territórios cênicos. Aquele, mais pontualmente. Esta abre as portas inclusive para a escrita teatral, com seu Centro de Dramaturgia Contemporânea e com a residência recente da Cia. dos Dramaturgos.
Uma das suas integrantes, a diretora Paula Chagas, faz hoje a última apresentação da peça “Pé na Estrada”.
Inaugurado em 1963, o Teatro Popular do Sesi (TPS) tem a sala batizada com o nome de seu ex-diretor e fundador, Osmar Rodrigues Cruz, 82. Trata-se de endereço cultural dos mais antigos da avenida, hoje incorporado ao Centro Cultural Fiesp.
“Timão de Atenas” encerrou na sexta-feira sua temporada no TPS, Shakespeare protagonizado por Renato Borghi. No mezanino do Centro Cultural Fiesp, o Núcleo Experimental do Sesi apresenta até hoje “Quem Nunca”, com direção de Renata Melo.
Já não se vêem as costumeiras e espichadas filas para o TPS no número 1.313 da av. Paulista. Agora, é preciso pagar para assistir às sessões de sexta-feira e de sábado; a retirada de ingressos gratuitos para quinta-feira e domingo se dá a partir das 12h.
Atento à agenda do corredor cênico, o público encontra seu modo de contracenar.
14.12.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
TEATRO
As cias. dos Atores e Os Satyros têm publicadas suas trajetórias em torno da experimentação cênica e dramatúrgica
Os Satyros contou com um integrante jornalista para relatar sua história; a cia. carioca organizou visões de atores e pesquisadores
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O teatro brasileiro contemporâneo ainda está aquém da maioridade editorial. Mas a cultura de teatro, cultura de ler e ver, tenta cada vez mais transcender à cena. Um dos indícios é a convergência de lançamentos de livros sobre dois importantes grupos de teatro do país, um do Rio de Janeiro e outro de São Paulo: “Na Companhia dos Atores – Ensaios Sobre os 18 Anos da Cia. dos Atores” e “Os Satyros – Um Palco Visceral”.
São publicações que reafirmam a importância do movimento de teatro de grupo no Brasil, dos anos 90 para cá. O registro é parte inerente da criação e da reflexão.
Edição conjunta da Aeroplano e da Senac Rio, “Na Companhia dos Atores” foi organizado por Enrique Diaz (ator e diretor), Fabio Cordeiro (co-diretor) e Marcelo Olinto (ator e figurinista). Com projeto gráfico caprichado, cujas imagens dialogam com a inquietação e a irreverência características da história da companhia, o livro procura dimensionar a importância desse agrupamento de artistas na cena carioca dos últimos anos. E o faz não apenas pela voz dos seus integrantes, mas amparado em pontos de vista, às vezes dissonantes, de pesquisadores como Clóvis Dias Massa, Cristina Ribas, Fátima Saadi, Silvana Garcia e Silvia Fernandes.
O olhar retrospectivo não surge de modo linear, mas entrecortado por depoimentos, ensaios e sobretudo fotografias dos espetáculos, imagens que têm igual peso na narrativa.
Na introdução, Diaz inicia sua “fala” com reticências, sinal de que a “obra aberta” é uma das premissas. É divertido o relato da peça de origem, “Marat/Sade” (1988), livre adaptação da obra de Peter Weiss, erguida “com três atores, cinco refletores de 500 W, uma piscina tony com um pano preto para disfarçar o azul do plástico. E um guitarrista convidado. E pijamas. E era bom”.
Ainda que fruto da reunião de amigos interessados em pesquisar algumas coisas sobre pessoas que admiravam sem as conhecer, como os pensadores e criadores de teatro Tadeusz Kantor, Bob Wilson e Meyerhold, a base teórica não era tratada com displicência, nunca foi; fazia parte do jogo que vai dar em concepções bem-sucedidas, como nas visitas à obra de Oswald de Andrade, “nosso parceiro e referência”, “permanente coringa das artes e das letras”, na voz de Diaz: “A Morta” (1992) e “O Rei da Vela” (2000).
Ou a obsessão pela realidade da cena, no “duelo” entre a pesquisa e o como trazê-la a público, embates das inquietantes montagens de “A Bao A Qu -Um Lance de Dados” (1990), “Melodrama” (1995) e “Ensaio.Hamlet” (2004).
Praça Roosevelt
A Companhia de Teatro Os Satyros ruma para os 18 anos, em 2007, com forte presença na cena da cidade de São Paulo.
Radicada há cinco anos na praça Franklin Roosevelt, região central, transformou a geografia humana local sobretudo pelo vetor da arte do teatro. São dois espaços com programações de segunda a segunda, abertos a outros grupos. Predominam as peças de caráter experimental no texto, na direção ou na interpretação.
Em “Os Satyros – Um Palco Visceral”, que sai pela Imprensa Oficial (coleção Aplauso), o jornalista, crítico e ator Alberto Guzik reconta a história do grupo dando voz a seus fundadores, o diretor Rodolfo García Vázquez e o ator Ivam Cabral.
“A palavra fica na boca do Rodolfo e do Ivam, na forma de uma longa conversa em que procurei ficar o mais invisível possível”, diz o autor, há três anos integrado ao elenco. Entre as montagens marcantes de Os Satyros, grupo também de Curitiba, estão “Sades ou Noites com os Professores Imorais” (1990), depois “Filosofia na Alcofa”, cuja remontagem está em cartaz; “Antígona” (2003); e “A Vida na Praça Roosevelt” (2005). A mesma Imprensa Oficial lança “O Teatro de Ivam Cabral – Quatro Textos Para um Teatro Veloz” (R$ 15, 280 págs.), onde o ator mostra sua face de dramaturgo.
São Paulo, sexta-feira, 08 de dezembro de 2006
TEATRO
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Campinas
Nascida há três anos, a Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral) passa a atuar como movimento de representação política. Foi o que decidiram 55 grupos reunidos durante três dias em Campinas, entre segunda e anteontem. O documento do terceiro encontro nacional bate na principal lei de incentivo fiscal do país, a Rouanet, de 1991, que permite às empresas patrocinar por meio de dinheiro público (dedução no IR).
Segundo o texto, “por atender a interesses privados, norteados pelos departamentos de marketing das empresas, a lei se mostra concentradora de renda e submete a esfera da produção simbólica aos interesses mercantis”.
Entre as reivindicações, a mais imediata é pela aprovação do projeto de lei federal Prêmio de Fomento ao Teatro Brasileiro. Também foram sugeridos programas de circulação de grupos e de cessão de espaços. A Redemoinho (www.redemoinho.org) elegeu conselho nacional com integrantes do Galpão (MG), Ói Nóis Aqui Traveiz (RS), Teatro Vila Velha (BA), Ensaio Aberto (RJ), Folias d’Arte (SP), Engenho Teatral (SP) e Barracão Teatro (Campinas)
São Paulo, quarta-feira, 06 de dezembro de 2006
TEATRO
Além de ensaios de “Západ”, projeto realiza encontros públicos com artistas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
No teatro paulistano de agora, a etapa de ensaio já não constitui território indevassável. Com freqüência, o espectador compartilha o processo de criação de grupos que fazem da atividade profissional um campo recíproco de conhecimento.
O novo trabalho da Companhia de Teatro Balagan, “Západ – A Tragédia do Poder”, é exemplo disso. Com encenação de Maria Thaís, o grupo faz oito ensaios abertos gratuitos a partir de amanhã, no Tusp -onde estréia em 11 de janeiro.
Desde a semana passada, quando a Balagan (dez anos em 2007) abriu residência no local, o público acompanha uma série de encontros com pensadores e artistas, como o encenador e pedagogo russo Jurij Alschitz. “É um projeto que divide com o espectador comum e com artistas que participam de workshop aquilo que nos formou”, diz Thaís, 46.
Palavra de origem russa, “západ” significa “ocidente”. Thaís viveu por cerca de cinco anos em Moscou, onde integrou a equipe do encenador e pedagogo Anatoli Vassiliev. “Západ” diz respeito à clausura humana gerada pelo poder, daí o vínculo com as montagens de “Sacromaquia” (2000) e “Tauromaquia” (2004), que tratavam da condição de isolamento nos universos feminino e masculino. A esses espelhos invertidos, soma-se uma terceira via que independe de gênero.
O mote são as correspondências trocadas no século 16 entre o czar russo Ivan, o Terrível, e a rainha inglesa Elizabeth 1ª. Recorrendo não às cartas em si, mas ao imaginário arquetípico e alegórico, os dramaturgos Alessandro Toller (inspirado na imagem da juventude sem potência), Newton Moreno (a vida adulta como representação) e Luís Alberto Abreu (a maturidade como reflexão) escreveram três histórias ou movimentos distintos. Os sete atores e demais criadores da Balagan constroem uma reflexão atemporal dos interstícios do poder público, num espaço público e com verba pública (Lei de Fomento).
Um espetáculo que se quer meio, não fim em si mesmo.
Programação paralela
O grupo também organiza encontros temáticos, sempre às 18h, na sala 100 do Centro Cultural Maria Antonia, mesmo endereço do Tusp. Participam os professores da USP Gilberto Safra (“A Memória do Humano: A Contribuição de Alguns Pensadores Russos”, hoje); Wanderley Messias da Costa (“Território e Poder”, amanhã); Sérgio Cardoso (“Sobre a Servidão Voluntária”, sexta) e o escritor e tradutor Paulo Bezerra (“A Experiência Russa”, dia 15).