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Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 02 de dezembro de 2006

TEATRO 
Companhia questiona, em “O Círculo de Giz Caucasiano”, de Bertolt Brecht, a quem cabe o direito à propriedade de terra 

Peça dirigida por Sérgio de Carvalho alude à questão agrária com exibição de curta-metragem feito em acampamento de sem-terra 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Quando assistiu a uma montagem de “O Círculo de Giz Caucasiano” pela lendária companhia alemã Berliner Ensemble, em 1955, o pensador francês Roland Barthes (1915-1980) escreveu que a peça “realiza uma dupla intenção do teatro de Brecht: despertar e alimentar a consciência política do espectador e, ao mesmo tempo, garantir seu prazer mais franco, pois o teatro é feito para divertir”. 

Francamente mais à esquerda daquela definição de Barthes, a Companhia do Latão repõe o texto na roda meio século depois da morte do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Bússola do teatro épico-dialético cultuado em seus primeiros dez anos de história, completados em 2007, o grupo só havia encenado uma peça do autor, “Santa Joana dos Matadouros” (1998), ainda que se deixe contaminar por ele em todas as criações. 

Estréia hoje no Sesc Avenida Paulista a montagem de “O Círculo de Giz Caucasiano”, assinada por Sérgio de Carvalho e vinda de temporada no Rio. 

Já no prólogo, a questão política está dada: a quem cabe o direito à propriedade da terra? A encenação opta por atualizar o texto, escrito nos EUA durante o exílio do autor, entre 1944 e 1945 (final da 2ª Guerra). É projetado um curta-metragem feito por camponeses do grupo Filhos da Mãe Terra, do assentamento Carlos Lamarca do MST em Sarapuí (SP). 

Num mundo rural arcaico, agricultores e criadores de cabras disputam a posse de um vale fértil; uma discussão entre aqueles que nele trabalham e os que o abandonaram. “O prólogo e a peça como um todo questionam o sistema jurídico apoiado na propriedade, uma noção burguesa”, afirma Carvalho, 39, à vontade com uma dramaturgia assentada em ideais marxistas e comunistas. 

Fábula e reviravolta
“O Círculo de Giz Caucasiano” é dividido em duas partes. A primeira, em tom de fábula, narra a fuga de Grusha (Helena Albergaria) por várias regiões. 

Ela é a empregada que toma conta de uma criança abandonada pela mãe, mulher do governador, durante uma revolução palaciana. Na segunda parte, reviravolta: a mãe biológica reivindica a posse da criança, aqui como metáfora da terra do prólogo, e cabe ao juiz Azdak (Ney Piacentini), agora na chave da farsa, decidir se Grusha fica com ela ou não. Um beberrão que ascendeu da classe baixa, ele espelha a desconformidade patética da própria justiça. 

Azdak risca um círculo de giz no chão, coloca o menino no centro e pede às duas mulheres que o puxem cada uma por um braço. Aquela que o tirasse do círculo ficaria com a guarda. 

Grusha evita a força para não machucá-lo, o que põe o desfecho em suspense. A música é fundamental na narrativa. Martin Eikmeier compôs 21 canções e as executa ao lado de Mafá Nogueira, com instrumentos como piano, violoncelo e rabeca. Entre os dez atores, há convidados de outros grupos (Companhia São Jorge de Variedades, Núcleo Argonautas e Teatro do Pequeno Gesto). 



O círculo de giz caucasiano 
Onde:
Unidade Provisória do Sesc Avenida Paulista (av. Paulista, 119, tel. 3179-3700) 
Quando: estréia hoje, às 20h; sex., sáb. e dom., às 20h. Até 21/1 (não haverá apresentações entre 23 e 31/12) 
Quanto: R$ 7,50 a R$ 15 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 30 de novembro de 2006

TEATRO 

Montagem inédita com atores brasileiros estréia hoje no Sesc Vila Mariana
 

Peça conjuga “Anjo Negro”, de Nelson Rodrigues, e Missão – Lembranças de Uma Revolução”, do autor alemão Heiner Müller

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

 
“É como colocar dois pit bulls frente a frente”, diz Frank Castorf, 55. O diretor alemão do Teatro Volksbühne, dado a experimentos cênicos que desconcertam público e crítica, volta ao Brasil para conjugar a “antropofagia” de Nelson Rodrigues (1912-80) com “a sombra política e social da história” em Heiner Müller (1929-95). 

“Anjo Negro de Nelson Rodrigues com a Lembrança de uma Revolução: A Missão de Heiner Muller” é o título-mix que suprime vírgulas para friccionar ainda mais os dois autores. A curta temporada abre hoje no Sesc Vila Mariana. 

Os pontos de convergência entre as peças, conforme Castorf, se dão pelas questões de racismo. Em “Anjo Negro” (1946), o casal Ismael (ele preto, mas interpretado pelo branco Roberto Audio) e Virgínia (branca, mas vivida pela atriz e cantora negra Denise Assunção) nutrem ódio que é ancestral e vaza para seus filhos -os três primeiros meninos são assassinados pela mãe, enquanto a única menina, fruto da traição de Virgínia com o cunhado, viverá uma relação incestuosa com Ismael, o padrasto. 

Em se tratando de Nelson, as poucas linhas anteriores não dão conta do emaranhado de fatalidades sem fim, inclusive com direito a um coro à moda do teatro grego antigo. 

Consciência
A esse texto, Castorf aplica excertos de “A Missão – Lembrança de uma Revolução” (1979), como a dar “consciência crítica e política” aos personagens do brasileiro. Müller projeta contextos de uma revolta dos escravos na Jamaica, pós-Revolução Francesa (1789). 

Três emissários são incumbidos de incitar a rebelião dos negros contra a coroa britânica. O trio, ele mesmo com suas diferenças de classe e de raça, é formado por um escravo liberto do Haiti, um camponês da Bretanha e o filho de escravocratas jamaicanos. A ascensão de Napoleão, porém, mina tudo. 

“Não estou aqui como um bicho exótico. É bom a gente imiscuir-se em coisas que não nos cabem. Pode ser interessante contrapor Nelson a Müller”, diz Castorf, que trouxe recentemente “Estação Terminal América” (versão de “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams) e “Na Selva da Cidade”, de Brecht. 

Amanhã, ele, o diretor Antônio Araújo (conselheiro de elenco com artistas de vários grupos) e o jornalista Mario Vitor Santos conversam sobre a montagem em encontro gratuito. Sincronicidade: em Porto Alegre, o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz recentemente estreou sua “A Missão” e encerra hoje seminário dedicado a Müller. 



Anjo negro
Quando:
estréia hoje, às 21h; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 18h. Até 10/12 
Onde: Sesc Vila Mariana – teatro (r. Pelotas 141, tel. 0/xx/11/5080-3000) 
Quanto: R$ 7,50 a R$ 20,00

Encontro com Frank Castorf 
Onde:
Sesc Vila Mariana – auditório 
Quando: amanhã, às 18h30 
Quanto: entrada franca

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 25 de novembro de 2006

TEATRO 
Espetáculo de performance dirigido por Christiane Jatahy mistura ficção e realidade durante o preparo de um jantar 

Ao redor de uma mesa, cinco personagens compartilham pequenos segredos que podem ser fictícios, vindos dos atores ou até da platéia 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Peça-performance. É assim que a diretora Christiane Jatahy e sua cia. Vértice de Teatro, formada no Rio de Janeiro em 2000, definem sua mais recente montagem em que os atores são personagens, mas também eles mesmos, borrando ficção e realidade. 

Esse é o ponto de partida de “A Falta Que Nos Move ou Todas as Histórias São Ficção”, que iniciou temporada ontem no Sesc Avenida Paulista. Em “A Falta Que nos Move…”, nunca se sabe se os cinco atores estão representando ou improvisando em cena. Durante o preparo de um jantar, em tempo real, eles contam histórias para o público, relacionam-se e ainda operam luz e som. Segundo Jatahy (a mesma de “Leitor por Hora”, 2006), que também assina dramaturgia, o espetáculo toca em temas como a geração submetida à ditadura militar (1964-85) e a família com seus padrões de relação. 

O título é baseado em uma frase do filósofo polonês Arthur Schopenhauer (1788-1860), sobre a falta (no sentido de ausência) como propulsora do desejo que move os indivíduos em direção ao outro e em direção à vida. 

Co-autoria
Na peça-performance, também cabe ao espectador o papel literal de co-autor. Quando entra no teatro, no 10º andar do prédio do Sesc, recebe um guardanapo no qual pode deixar registradas as suas histórias. 

“Vamos trocando algumas histórias contadas na peça por novas histórias deixadas pelo público”, diz Jatahy. O elenco é formado pelos atores-criadores Cristina Amadeo, Mariana Vianna, Pedro Brício, Kiko Mascarenhas e Roberta Gualda. A cenografia é Marcelo Lipiani. 



A falta que nos move ou todas as histórias são ficção
Onde:
Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista (av. Paulista, 119, tel. 0/xx/11/ 3179-3700) 
Quando: sex., sáb. e dom., às 21h. Até 17/12 
Quanto: R$ 7,50 a R$ 15 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 24 de novembro de 2006

TEATRO

VALMIR SANTOS

Da Reportagem Local 

Do epicentro Nova York, nos anos 70, passando pela chegada à França, na década seguinte, e com forte recepção no Brasil, também nos anos 80 e 90, a cultura hip hop não só expande seu território como cada vez mais interage com outras artes. 

“Hoje, o que está em jogo na dança hip hop é continuar a explorar diferentes correntes artísticas inspiradoras da história da dança contemporânea”, afirma o bailarino e coreógrafo francês Hamid Ben Mahi, filho de imigrantes argelinos, que faz esta noite a última apresentação do solo “Chronics(s)” no Sesc Ipiranga, em São Paulo. 

A palavra em cena
O projeto marca o encontro de Ben Mahi, de formação básica autodidata, com o diretor de teatro Michel Schweizer, também francês. O espetáculo intercala decomposição, misturas e combinações nos movimentos do corpo (inclusive releitura da dança clássica) ao mesmo tempo que faz uma reflexão sobre o sentido da palavra em cena. 

Projeções em vídeo apóiam as narrativas gestuais e verbais na chave do depoimento pessoal e de assuntos polêmicos, como o racismo e a xenofobia. 

“A cultura hip hop nasce da urgência. A urgência de experimentar e de reivindicar sua existência”, afirma Ben Mahi, fundador da cia. Hors Série. 

“Ela é universal e onipresente em todas as artes: o teatro, a música, as artes de rua, o circo, o cinema”. 

Para o adido cultural da França em São Paulo, Philippe Ariagno, o trabalho de Ben Mahi soma-se às passagens recentes pela cidade do bailarino e ator francês Pierre Rigal (“Erection”) e do cenógrafo Philippe Quesne (“La Démangeaison des Ailes”), artistas adeptos do hibridismo na arte. 

Para Ariagno, “Cronic(s)” é uma “resposta perfeita aos acontecimentos que inflamaram as periferias das cidades francesas meses atrás”.



Chonic (s) 
Onde: Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, tel. 0/xx/113340-2000) 
Quando: hoje, às 21h 
Quanto: R$ 3 a R$ 12 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 23 de novembro de 2006

TEATRO

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Na França, existem hoje cerca de 1.600 companhias teatrais em atividade. Contam-se nos dedos aquelas que se aproximam do que, no Brasil, dos anos 90 para cá, se afirma como uma cultura de teatro de grupo.

Quem dá notícias da cena contemporânea daquele país de tradição secular nos palcos é o filósofo e ensaísta belgo-francês Bruno Tackels, 40.

Tackels participou em São Paulo do Próximo Ato, encontro ocorrido no último final de semana (realização do Itaú Cultural em parceria com representações da Alemanha, Espanha, França e Reino Unido).

“Nos anos 80, floresceram vários grupos, mas a maioria não é exatamente independente, pois depende de dinheiro para criar co-produções nos espaços públicos que ocupam. Isso não torna possível o trabalho coletivo e contínuo”, disse Tackels durante sua estada.

Durante quatro dias de encontro, mergulhou-se em questões relativas às especificidades do teatro de grupo. Por exemplo, quanto ao modo de produção, o processo de criação compartilhada do espetáculo ou do texto e a mobilização por políticas públicas.

“O coletivo constrói sempre o seu próprio texto, busca novas linguagens e estruturas para contar sua história (…) Ele [coletivo] é a essência do teatro, seja ele épico ou trágico. Mesmo um monólogo é coletivo, se dirige a alguém, ao outro. O coletivo é entendido como o desdobramento do ator para o público e deste para a cidade. Na Grécia Antiga, o coro nasceu como representação da cidade”, completou o filósofo. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 16 de novembro de 2006

TETRO

Às vésperas dos 26 anos de sua morte, Nelson Rodrigues ganha seminário, tem romance montado e peça adaptada ao cinema
 

Obra do autor é discutida no Recife, enquanto “A Mentira” ganha adaptação para o teatro; filme “Vestido de Noiva” estréia amanhã
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Sempre, sempre, sempre teve esses surtos na vida ou depois da morte do velho”, diz Nelson Rodrigues Filho, 61. E “surto”, vindo do caçula, soa bastante rodriguiano para falar dos projetos que pipocam às vésperas dos 26 anos de morte de Nelson Rodrigues (1912-80), no próximo 21 de dezembro. 

Nelsinho conversou por telefone com a Folha minutos antes de sair de casa na noite de terça-feira, no Rio, para assistir à estréia de “A Mentira” em Laranjeiras. Estava acompanhado de sua mãe, Elza, 88. 

Aquele romance, escrito em 1953, publicado durante 18 semanas no “Flan” -suplemento dominical do jornal “A Última Hora”- e recuperado somente em 1996, ganha sua primeira adaptação para o teatro, pelo pesquisador de sua obra e encenador Caco Coelho, em pleno salão nobre do Fluminense, fazendo jus ao tricolor fanático. 

Na história, Lúcia, 14, descobre que está grávida. Sua mãe, dona Ana, revela que seu marido, dr. Maciel, na verdade não é o pai da moça. Com medo do escândalo, ele tenta escondê-la numa fazenda, mas a mãe discorda. Instaura-se o impasse. A Cia.

Circo de Estudos Dramáticos, dirigida por Coelho, leva 13 atores à cena, entre eles os convidados Nuno Leal Maia, Denise Del Vecchio, Monique Alfradique e Edi Botelho. 

“Aqui, ele já assinava Nelson Rodrigues, não usava o pseudônimo Suzana Flag e deflagrava a fase das tragédias cariocas, que iniciaria com “A Falecida”, também de 1953″, diz Coelho. 

Homenagem
Em Recife, o Festival de Teatro Nacional homenageia o dramaturgo, que deixou a cidade aos quatro anos, quando a família se mudou para o Rio. Dentro do festival, o seminário “Nelson Rodrigues e a Cultura Brasileira” começou ontem e segue até domingo com personalidades convidadas a refletir sobre as peças do autor. 

“A obra dele tem um paradoxo: Nelson é o pai do teatro moderno brasileiro e trabalha com elementos arcaizantes como poucos no mundo. Há uma tensão entre o homem de teatro [da palavra] e a potência plástica e formal enorme, ao mesmo tempo tão grudada ao arcaico”, diz o artista plástico Nuno Ramos, 46, que falou ontem sobre “Vestido de Noiva” (1943). 
Também foram escalados para o seminário -com curadoria do dramaturgo Aimar Labaki e do diretor Antonio Cadengue- o psicanalista Mauro Meiches, o jornalista Eugênio Bucci, o colunista da Folha Marcelo Coelho e os diretores Eduardo Tolentino de Araújo e Luiz Arthur Nunes. 
Na programação, consta a montagem carioca de “Toda Nudez Será Castigada” (2005), por Paulo de Moraes, da Armazém Cia. de Teatro, e um ciclo com filmes adaptados de peças de Nelson, inclusive o longa que entra em circuito nacional amanhã, “Vestido de Noiva”, na versão do primogênito Joffre Rodrigues. 

Fusão de obras
Em São Paulo, o diretor Frank Castorf, do teatro Volksbühne, na Alemanha, ensaia com atores brasileiros uma fusão de “Anjo Negro” (1946), uma das peças míticas de Nelson, com “A Missão, Lembrança de uma Revolução”, do alemão Heiner Müller (1929-95). 

No elenco, Denise Assunção, Roberto Audio, Georgette Fadel e um coro de atores negros. A estréia está prevista para o dia 30/11, no Sesc Vila Mariana. Antes, no dia 22/11, a Cia. A4, de Salvador, estréia curta temporada de “InSônia” no Sesc Avenida Paulista, adaptação e direção de Hebe Alves para o monólogo “Valsa nº 6” (1951). 

Sônia, uma garota de 15 anos, surge em seus últimos instantes de consciência, transitando os planos da alucinação, memória e realidade. A personagem ganha quatro faces distintas na montagem baiana.



9º Festiva de Recife de Teatro Nacional
Quando: até 20/11; programação e endereços no www.recife.pe.gov.br/pr/seccultura/festivalteatro 
Quanto: de R$ 1 a R$ 5


A Mentira
Quando: ter. a qui., às 21h30. Até 20/12 
Onde: Fluminense Futebol Clube (r. Álvaro Chaves, 41, Laranjeiras, Rio, tel. 0/xx/21/ 2553-7240, r. 251) 
Quanto: R$ 20



Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 11 de novembro de 2006

TEATRO 
“Todos os Homens Notáveis” está em cartaz no teatro João Caetano, em SP

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Os sentidos mais elevados da vida que Peter Brook busca retratar no filme “Encontros com Homens Notáveis” (1979), baseado na trajetória do místico greco-armênio George Gurdjieff, são opostos às tentações mais rasteiras do homem contemporâneo eleitas pelo grupo Teatro do Incêndio em “Todos os Homens Notáveis”. 

A peça, escrita pelo também diretor Marcelo Marcus Fonseca, 35, estreou ontem no teatro João Caetano e trata do binômio mídia e poder. No enredo, o dono de uma emissora de TV é eleito governador graças à articulação feita com um amigo, que também é dono de jornal, e com um marqueteiro. 

Em paralelo, um jornal concorrente põe um jornalista recém-formado para investigar a vida do governador. Desdobram-se daí as situações tragicômicas que envolvem os seres por trás das máscaras do poder. 

“A peça transcende as falcatruas tramadas entre a mídia e o poder e expõe o humano, o governador que é apaixonado por uma garota de programa, por exemplo”, diz Fonseca. 

O diretor afirma ter cuidado em desviar de maniqueísmos políticos. Quer proporcionar reflexão, mas que o público trilhe seus próprios caminhos. “A tônica da peça é a visão do publicitário que, diante de tudo, tem a clareza de que o mundo é um mercado”, diz Fonseca. 

“Todos os Homens Notáveis” apóia-se numa teatralidade épica, com brechas para elementos do realismo e do fantástico. A encenação tenta revelar os pontos de vista do povo, dos governantes e da mídia. 

O humor e as contradições desse tripé são espelhados no jogo dos atores com os personagens, na manipulação das palavras e na distorção física (como a do caráter). Parte da trilha (direção musical de João Urbilio) é executada ao vivo pelos atores (piano, baixo, percussão etc). Entre os 13 intérpretes, estão Camila Turim, Gustavo Engracia e Liria Varne.



Todos os homens notáveis
Quando:
sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h; até 17/12 
Onde: teatro João Caetano (r. Borges Lagoa, 650, tel. 0/xx/11/5573-3774) 
Quanto: R$ 10 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 09 de novembro de 2006

TEATRO 
Núcleo de dramaturgia da TV Cultura estréia hoje série com 16 adaptações que o diretor realizou nos anos 70

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O núcleo de dramaturgia da TV Cultura que produziu em 2005 o programa “Senta Que Lá Vem Comédia”, duvidosa introdução da arte do teatro para as massas nas noites de sábado, é o mesmo que resgata os teleteatros que Antunes Filho produziu na casa nos anos 1970.

A série semanal “Antunes Filho em Preto e Branco” serve como paradigma de que a relação do teatro com a televisão, e vice-versa, pode ser mais estimulante. Serão exibidos 16 programas adaptados de textos de autores nacionais e estrangeiros, como o italiano Luigi Pirandello, o americano Tennessee Williams, o russo Fiódor Dostoiévski, mais Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Lygia Fagundes Telles etc.

“Eu tive um aprendizado incrível na televisão, só fiz grandes autores”, diz Antunes, 76. “Mesmo quando se fazia mal um teleteatro, a gente estava experimentando, abria frente, ao contrário dessa coisa que está aí, parada, morna, essas telenovelas que parecem esquifes [caixão de defunto].”

Há tempos ele não revia os trabalhos. Poderá fazê-lo agora, na era digital, como os telespectadores que terão a chance de acompanhar atuações de Nathália Timberg, Raul Cortez, Jofre Soares, Lilian Lemmertz, Elizabeth Savalla, Tony Ramos, Denise Stoklos e outros artistas, às vezes em seus verdes anos de carreira.

O projeto começa hoje com “A Casa Fechada”, de 1975 (leia sinopses ao lado), e os programas duram em média 75 minutos, divididos em três blocos intercalados por depoimentos de artistas, alguns do elenco original, ou estudiosos. A programação vai até fevereiro.

“Vestido de Noiva”
“Não me venha com idéias, Antunes.” Era o que o diretor mais ouvia nos corredores da TV Cultura, em 1974, durante os dez dias em que, ao lado da equipe, trabalhou na adaptação e produção da peça “Vestido de Noiva”, tido pelo próprio e por especialistas como o auge de seu teleteatro, encabeçado por Lilian Lemmertz, Edwin Luisi, Nathália Timberg e Célia Olga.

Ao contrário das produções gravadas em um, dois dias, aquele texto de Nelson Rodrigues (1912-80), que superpunha planos da realidade, da memória e da alucinação da protagonista, mereceu atenção especial de Antunes no programa “Teatro 2”, idealizado pela atriz Nydia Licia e inspirado no seminal “Grande Teatro Tupi” (1956-1965), da extinta TV Tupi de São Paulo.

No “Teatro 2”, Antunes revezava mensalmente com outros diretores, como Antônio Abujamra, Fernando Faro e Cassiano Gabus Mendes. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 08 de novembro de 2006

TEATRO 
Diretor esteve no Rio para participar de evento de imersão no trabalho do Odin Teatret, companhia que criou há 42 anos 

A antropologia teatral, conceito disseminado por Barba, influenciou grupos brasileiros; companhia está em festival até o fim do mês

VALMIR SANTOS 
Enviado especial ao Rio

O teatro carioca está em estado de graça, e não só pelas comédias. Durante quatro semanas, até 28/11, público e artistas têm chance de dialogar concretamente (até para desmitificá-lo, por que não?) com um dos mais antigos grupos em atividade na Europa, o Odin Teatret, nascido há 42 anos na Noruega, radicado dois anos depois na Dinamarca e desde sempre dirigido pelo italiano Eugenio Barba. 

Esse ziguezague por nacionalidades expõe os vetores artísticos, culturais e políticos de Barba, 70, disseminador do conceito de “antropologia teatral”, que define como o estudo do comportamento biológico e sociocultural do homem em registro de representação. 

As técnicas que Barba e equipe conceberam para o treinamento de ator têm forte acolhida em países latino-americanos. No Brasil, as pontes mais emblemáticas são o Festival de Teatro de Londrina e o grupo Lume. Foi o co-fundador daquele grupo de Campinas, 21 anos atrás, Luis Otávio Burnier (1956-95), quem trouxe o diretor pela primeira vez ao Brasil, há quase duas décadas. 

A seguir, trechos da entrevista com Barba, que foi embora ontem, deixando seus artistas no Festival Odin Teatret (cinco espetáculos, demonstrações, exibição de vídeos e workshop), uma iniciativa do CCBB-RJ.


FOLHA – Por que a antropologia teatral repercute mais na América Latina? 

EUGENIO BARBA
Na Europa, existe uma forte tradição clássica de teatro. Todos sabem o que é, o ator deve se formar nas velhas escolas. Na América Latina, não. Nos anos 70, por exemplo, surgiu todo um teatro que não tinha modelo, a não ser aquele comercial. A maioria dos artistas era experimental. Eles lutavam em níveis sociais e culturais sob influências de gerações anteriores, como as de Stanislavski, Brecht, Artaud e Grotowski. Souberam formular as aspirações de como tratar em nível individual uma arte que já estava estruturada de certa maneira na sociedade, de modo a subverter sua recepção.

FOLHA – Como a comunidade de Holstebro recebeu o grupo em 1966? [Antes, ele informa que foi naquela bucólica cidade da Dinamarca que o cineasta Carl Theodor Dreyer rodou “A Palavra”, de 1954] 

BARBA
No início a comunidade nos rejeitou. Os camponeses até tinham ficado satisfeitos com a notícia de nossa chegada, em 1966. Mas depois se frustraram porque a gente não fazia teatro toda noite. A televisão local fez um reportagem mostrando nosso treinamento de voz, de corpo, e essa noção de teatro laboratório foi um choque para os camponeses. Vieram reações violentas. Os cidadãos fizeram uma assembléia, a única de que tenho notícias nesses 40 anos. Foi um encontro difícil, mas o prefeito convenceu a maioria a esperar por mais três anos para ver o resultado. Estamos lá até hoje.
 

FOLHA – Em seus escritos, o sr. lembra, citando o mímico francês Étienne Decroux (1898-1991), que o teatro não precisa de ter leis, mas seus artistas devem encontrar as suas… 

BARBA
Mais que leis, eu diria que são constatações óbvias, mas esquecidas por aqueles que pensam somente em termos de categorias da arte. O teatro é uma estranha convenção. As pessoas vêm para ver outras pessoas. Agora, o único animal que é capaz de ser observado por outro é o ser humano. Se uma vaca for observada por 500 pessoas, ela não reage, não liga. Mas, se você está comendo num restaurante e alguém da mesa vizinha começa a olhar, você se pergunta por quê. É da natureza humana reagir à mirada do outro. O teatro é isso: um humano sendo observado por outro. O desafio é transformar esse momento de embaraço em algo que também embarace quem olha.
 

FOLHA – Qual o futuro dessa arte? 

BARBA
Cada vez mais o teatro vai se constituir num refúgio. Um lugar e ao mesmo tempo uma prática em que o animal humano, que é social, pode refugiar-se para encontrar o outro. Um espaço para adoção de intimidade e, ao mesmo tempo, de separação. Um espaço em que se possa refletir sobre as tragédias da aldeia ou das que ameaçam a humanidade.



O jornalista 
VALMIR SANTOS teve a hospedagem paga pelo Festival Odin Teatret

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 02 de novembro de 2006

TEATRO 

A companhia programou cerca de 45 eventos nos próximos três dias pela cidade
 

As atrações, que acontecem perto da praça Roosevelt, têm entrada franca ou, em algumas delas, o espectador decide quanto quer pagar

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

O festejo cultural “Satyrianas, uma Saudação à Primavera” amplia seu raio de ação neste ano. De hoje a domingo, a tradicional celebração da estação e do aniversário (17º) de seu idealizador, a Cia. de Teatro Os Satyros, se espraia por outros espaços além da pça. Roosevelt.

Biblioteca Mário de Andrade, Teatro Fábrica São Paulo, Companhia do Feijão e N.Ex.T. incorporaram-se à programação que trança artes cênicas, literatura, música, cinema digital, intervenções, bate-papos etc. Chegam a cerca de 45 as atrações. A entrada é gratuita, exceção aos espetáculos teatrais para os quais o espectador define o valor do ingresso (veja ao lado).

Na Roosevelt, onde Os Satyros “moram” desde 2000 -no Espaço Um e depois um “puxadinho” no Espaço Dois-, o seu mais recente vizinho, o Espaço Parlapatões, também abre as portas ao evento.

No meio teatral, os artistas costumam usar a expressão “merda!” para se desejarem boa sorte em dias de estréia, mas não só. Hoje à tarde, na abertura, os Parlapatões levam dois esquetes à praça, “Cagar é Bom” e “Amor, Eu Quero Te Ver Cagar”, típicos do humor de baixo-ventre do grupo.

A geografia das “Satyrianas”, festa que Os Satyros compartilham desde 1991, espichou até para a rodovia Dutra. O projeto carioca “CEP 20.000 – Centro de Experimentação Poética”, evento mensal que acontece há 16 anos e acolhe várias formas de expressão, terá alguns representantes capitaneados pelo poeta Chacal.

O diretor José Celso Martinez Corrêa e seu grupo, Oficina Uzyna Uzona, serão homenageados na madrugada de amanhã e farão um cortejo do seu teatro até a praça Roosevelt. Zé Celso seguirá o movimento numa “carruagem”. No domingo à tarde, o homenageado é o pesquisador Fernando Peixoto. A festa de encerramento será no N.Ex.T. (r. Rego Freitas, 454, tel. 3106-9636), à meia-noite de domingo.