Menu

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 05 de julho de 2006

TEATRO 
Ator, diretor e apresentador de televisão revolve provocações auto-referentes com o monólogo “A Voz do Provocador” 

Espetáculo volta ao cartaz hoje no Sesc Santana, às vésperas de ele lançar “Senhora Macbeth” na unidade da Vila Mariana

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Ao retornar de apresentações no interior paulista, Antonio Abujamra fica embasbacado com a receptividade de “A Voz do Provocador”, monólogo auto-referente, com o qual viaja desde 2005. Escreve, dirige, atua, não necessariamente nesta ordem.

“Os espectadores aplaudem enlouquecidos, gritam, berram. Eu termino o espetáculo dizendo: “Assim eu me sinto Mick Jagger. Por favor, de joelhos, de pé eu não quero mais”. Sou um ídolo no interior, seria eleito facilmente com 300 mil votos. Lota tudo”, diz Abujamra, 74.

Esse arroubo “pop” é tributado, principalmente, aos seis anos do programa “Provocações”, que ele apresenta na TV Cultura. O monólogo volta ao cartaz em São Paulo, a partir de hoje, no Sesc Santana, às vésperas de Abujamra estrear sua co-direção da colega protagonista Marília Gabriela em “Senhora Macbeth”, no próximo dia 14, no Sesc Vila Mariana (SP).

O ator identificou-se com a autora da peça, a argentina Griselda Gambaro, que também só decolou a carreira literária quando estava na casa dos 60 anos, justamente com a peça “Senhora Macbeth”, de meados da década de 1970. Trata-se de recriação da tragédia de Shakespeare sob o ponto de vista da mulher do tirano do título.

Best-seller pornô
Abujamra conheceu Gambaro durante um festival em Caracas. “Diverti-me muito quando ela disse que era hora de ser um sucesso e que não iria mais escrever as coisas dela, mas sim uma obra pornô para virar best-seller. Escreveu “Lo Impenetrable”, que não tem nada de pornô. Ela é uma das melhores autoras eróticas da América Latina, e mesmo assim ninguém comprou o seu livro”, diz.

De Gambaro, o Brasil já viu montagens de “Dizer Sim” (2000), texto encenado em São Paulo por Márcia Abujamra, prima, e “La Malasangre” (final dos anos 80), no Rio, por Augusto Boal.

Sobre “Senhora Macbeth”, Abujamra fala do “lirismo que nos esmaga”, do “humor cáustico”, da tentativa de mostrar a verdadeira paixão de uma mulher por um homem, sem que a ambição de Lady Macbeth seja evidenciada até a última cena. “São palavras-pétala com o sentimento trágico do mundo”, diz o trovador Abujamra a respeito da dramaturgia de Griselda Gambaro.

O desafio da co-direção, que assina com o uruguaio Hugo Rodas, radicado no Brasil e lotado em Brasília, é fazer com que a recriação dramatúrgica de Gambaro, quando levada à cena, não dependa do clássico shakespeareano para ser compreendida. “É muito difícil.”

Frases feitas
Uma conversa com ele é plena de citações. “É que são melhores do que a nossa conversa.” Às vezes, frases propagadas com brilho no olhar e na voz, uma conjugação suspeita: “Eu não agüento mais dizer poemas, entende? Se há um poema, o meu maxilar já se coloca e já sai tudo direto e bonito, melhor que todo mundo, porque declamo desde a juventude”.

Abujamra diz que “A Voz do Provocador” surgiu da necessidade de fazer um espetáculo que dissesse o que ele pensa, mostrasse coisas que ninguém sabe, nem a platéia, sobre a televisão, por exemplo. “São coisas que nenhuma universidade ensina. Eu falo sobre educação de um modo que nem o Cristóvão Buarque fala. Falo coisas violentas, fortes, boas, sempre dizendo que é preciso se divertir neste país. Não dá para viver sem humor neste país”, afirma Abujamra.

Fala, principalmente, sobre o estado de loucura que, segundo ele, domina nossa época. “Como a gente que possui razão pode cumprir todos os objetivos de uma sociedade que nos leva à loucura?”, pergunta-se.

Para Abujamra, “o teatro é o asilo de loucos, onde o público vem à procura de sua razão”. Em determinado momento do espetáculo, ele manda acender a luz da platéia para enxergar os incautos. “E aí eu começo a falar sobre a liberdade, essa palavra machucada. A garotada pensa que é livre, mas não é. A minha geração foi a da leitura, não tinha a influência tão forte da televisão.”

Apesar do pendor pela palavra, ele contracena com imagens projetadas em um telão, algumas extraídas do seu programa, e até mesmo com uma foto sua, pendurada em um cartaz. Às vezes, se deixa entrevistar pelo público. Mas, ao cabo, não dá outra: ele é o dono da voz. 
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 02 de julho de 2006

TEATRO 
Peça “Clarices” está em cartaz no CCSP e “Se Eu Fosse Eu…” estréia no sábado 

Espetáculos se inspiram nas palavras da autora de “A Paixão Segundo G.H.” e experimentam silêncios e improvisos nos palcos 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Para Clarice Lispector (1925-77), escrever assenta mais tentativa do que realização, daí também o prazer. “Pois nem tudo eu quero pegar. Às vezes, quero apenas tocar. Depois, o que toco apenas floresce e os outros podem tocar com as duas mãos.” 

O teatro que o diga. São Paulo tem mais duas montagens inéditas inspiradas na obra da autora e com vocação para experimentar em cena. Há “Clarices”, com a cia. As Graças, que estreou sexta no Centro Cultural São Paulo. No sábado que vem, é a vez de “Se Eu Fosse Eu…”, primeiro trabalho da cia. Simples de Teatro, no Tusp. 

Entre as produções recentes que investiram nesse diálogo lítero-dramático, estão “A Pecadora e os Anjos Harmoniosos”, encenada por José Antônio Garcia, cineasta devotado à autora; “A Paixão Segundo G.H.”, por Enrique Diaz; e “Que Mistérios Tem Clarice?”, por Luiz Arthur Nunes. 

Segundo a atriz Flávia Melman, 27, da cia. Simples, a recorrência com que o teatro e outras artes visitam o universo de Lispector aponta, em muitos casos, para “regras sobre o existencialismo”. É disso que “Se Eu Fosse Eu…” quer fugir. 

“No fundo, percebemos que Clarice é muito irônica em relação ao recorte existencial. Ela falava muito sobre, mas era também uma dona-de-casa, criava os filhos, tinha medos”, afirma. 

O espetáculo é livremente inspirado no romance “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, publicado em 1969, um ano depois que o seu diretor, Antônio Januzelli, começou a dar aula na Escola de Artes Dramáticas. 

“É a conjugação da literatura da Clarice, esse corpo sem pele, totalmente à mostra, com o trabalho que desenvolvo no Laboratório Dramático do Ator [núcleo da USP], onde assimilamos que limpar é melhor que acumular quando se trata de buscar o ser”, diz Januzelli, 65, que já experimentou tal despojamento em “O Porco” (2005), solo de Henrique Schafer. 

“Se Eu Fosse Eu…” expõe em fluxo não-linear, como nas páginas, os conflitos íntimos da protagonista, Lóri, para alcançar Ulisses e se deixar levar pelo sentimento amoroso. 

Guiados pelas “mãos-mestres” de Clarice, como diz Melman, os demais atuadores também emendaram suas dramaturgias pessoais. São narrativas fragmentadas ou improvisadas por Daniela Duarte, Luciana Paes de Barros e Otávio Dantas. 

“O desafio é: como ser íntimo na arte sem ser pessoal.” Essa esfera do intimismo também é pretendida pela cia. As Graças, que vem de se apresentar em ruas e praças. 

“Quando me convidaram, as atrizes disseram que queriam um trabalho mais voltado para o silêncio, exercitar um outro lado do grupo”, diz Vivien Buckup, 49, sobre “Clarices”, parceria inaugural com As Graças. 

Seu nome é mais comumente associado à direção de movimento de atores, o que às vezes, segundo Buckup, pode indicar prolongamento da direção, ofício que reveza na carreira desde meados dos anos 90, com “Cenas de um Casamento”, de Ingmar Bergman. 

Com roteiro de trechos de obras, crônicas e depoimentos da autora, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Daniela Schitini surgem como três vozes ou faces do universo ficcional de Lispector; três velhinhas que, em meio ao cotidiano, trocam lembranças, paixões e também desejos secretos. 



Clarices

Quando: sex. e sáb., às 21h; e dom., às 20h; até 6/8 
Onde: Centro Cultural SP (r. Vergueiro, 1.000, tel. 3883-3400) 
Quanto: R$ 10 

Se Eu Fosse Eu… 
Quando:
estréia dia 8/7, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 20h; até 13/8 
Onde: Tusp (r. Maria Antônia, 294, tel. 3255-7182) 
Quanto: R$ 15 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 20 de junho de 2006

TEATRO 
“Corteo” e “Lovesick” são opostos ao formal “Saltimbanco”, que vem ao Brasil 

Locadoras recebem trabalho poético sobre enterro de palhaço e documentário sobre espetáculo erótico feito em 2003 pelo grupo

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Às vésperas da primeira temporada brasileira do grupo canadense Cirque du Soleil (São Paulo em agosto, Rio em novembro), o país já tem 15 títulos de DVDs de seus espetáculos, a maioria lançada recentemente. 

O último a chegar às lojas, neste mês, é “Corteo”, que estreou em 2005. Sai também um documentário sobre os bastidores do espetáculo erótico “Zumanity” (2003), destinado aos pais, e não aos filhos que verão “Saltimbanco” ao vivo. Esta montagem de 1994, disponível em DVD e já exibida em canal a cabo, não tem o impacto dos últimos trabalhos de Soleil. 

O “Saltimbanco” que vem ao Brasil, uma direção correta de Franco Dragone, apoiada nos números circenses que deixam a narrativa em segundo plano, tem em “Corteo” um contraponto que parece ter ficado claro ao grupo: é preciso risco também na concepção, e não apenas na execução. O clown suíço Danielle Finzi Pasca, de quem o Brasil conhece o solo “Ícaro”, apresentado nos anos 90 com o grupo Teatro Íntimo Sunil, assina criação e direção. 

O ponto de partida de “Corteo” é o enterro de um palhaço. A morte acessa o espaço da fantasia e da comicidade numa parada de artistas em que o protagonista é conduzido por anjos ou pedala numa bicicleta suspensa no ar. Em meio às performances aéreas, há espaço para a cena de um teatro de tom mais intimista. Seus intérpretes emanam poesia do rigor técnico, paradigma que Pasca estabelece bem nos ensaios, como se vê no material extra. 

Em “Lovesick”, o diretor Lewis Cohen acompanha a criação de “Zumanity” (2003), “o outro lado” do Soleil, um espetáculo adulto em formato de cabaré. É conduzido por uma drag queen, mas a transgressão passa ao largo das imagens clichês sobre o sexo em Las Vegas.



Corteo
Distribuição:
Sony 
Quanto: R$ 30, em média 

Lovesick
Distribuição:
Sony 
Quanto: R$ 30, em média 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 17 de junho de 2006

TEATRO
Diretor Marcio Aurélio, de “Agreste”, adapta romance de José Roberto Torero 

Peça, que estréia no Sesc Santana, lança olhar crítico ao passado brasileiro ao tratar da figura oculta do secretário de dom Pedro 1º

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Como assim não cabe?”, retruca um injuriado dom Pedro 1º diante de um escrivão com falta de espaço para deitar no papel aquele nome quilométrico do “defensor perpétuo do Brasil” martelado nos primeiros anos escolares: D. Pedro 1º é uma figura emblemática entre aquelas que não cabem em si em “Chalaça -°A Peça”, que estréia hoje no Sesc Santana, baseada no romance “O Chalaça” (1995), do colunista da Folha José Roberto Torero. 

“A grande questão da peça é mostrar como o individualismo inviabilizou, e ainda inviabiliza, o desenvolvimento em todos os sentidos”, diz o encenador Marcio Aurélio, 56. 

É seu segundo trabalho consecutivo junto à cia. Les Commediens Tropicales, de Campinas, que adaptou o texto finalizado por um dos intérpretes, Carlos Canhameiro. 

A opção por um certo revisionismo histórico também era flagrante em “Galvez – Imperador do Acre” (2005), transposição para o palco do romance do amazonense Márcio Souza. 

“A gente não foi treinado para olhar criticamente as coisas”, diz Aurélio. Seu diagnóstico é de “analfabetismo funcional” do país quando se trata de “ler” o passado e a incidência no presente. Trata-se de “organizar as lentes para as diferentes realidades”. 

“Pensadores como Darcy Ribeiro e Adorno já alertavam para a importância de chegar à raiz do mito, “matá-lo” para efetivar uma apropriação, uma renovação”, afirma o diretor, o mesmo do premiado “Agreste”. 

Secretário de dom Pedro 1º, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, foi um personagem importante do Brasil Império, mas nutrido à sombra. É sujeito oculto, mas se fala dele o tempo todo.

“Esse tipo de pessoa sabe de tudo o que acontece e pode fazer com que um governo inteiro caia quando revela a verdadeira face de alguns poderosos”, diz Canhameiro, que arrematou a dramaturgia. 

A cia. Les Commediens Tropicales surgiu em 2002, junção de ex-alunos de artes cênicas da Unicamp. A consolidação veio no ano seguinte com “Terror e Miséria no 3º Reich”, um Brecht montado por Marcelo Lazzaratto. 

Além dos personagens da obra de Torero (imperatriz Leopoldina, marquesa de Santos etc.), a adaptação de “Chalaça” acresce referências da cientista social e política Isabel Lustosa, do Rio. Ela é autora de “D. Pedro 1º -°Um Herói sem Nenhum Caráter”, livro no qual disseca outras figuras históricas, como José Bonifácio, Líbero Badaró e o pintor francês Jean-Baptiste Debret. 

Nessa “teatralidade da história”, transcorre uma espécie de “CPI dos Nove”, diz Aurélio. São nove atores revezando os mesmos personagens, depoimentos plenos em tragicidade ou pura galhofa -um monitor de TV no palco reproduz imagens captadas em cena por uma câmara. 

“Eles promovem uma dança das cadeiras de salão, na qual as personalidades do poder mudam a bunda de lugar, mas continuam falando a mesma merda. É triste saber que isso acontece há séculos com o mesmo tacão [domínio tirânico].” 



Chalaça – A Peça
Quando:
estréia hoje, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 9/7 
Onde: Sesc Santana – teatro (av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 6971-8700) 
Quanto: R$ 4 a R$ 10 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 14 de junho de 2006

TEATRO 
Brasil, Cingapura e Inglaterra fazem encenação sobre contraste entre relações virtuais e presenciais

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Imagine Nelson Rodrigues escrevendo “Vestido de Noiva” preocupado em transpor os três planos da sua narrativa (realidade, alucinação e memória) para as janelas de um computador. Guardadas as proporções, é o que o projeto “Play on Earth” pretende fazer, ao misturar relações presenciais e virtuais com atores simultaneamente em palcos nas cidades de São Paulo, Cingapura e Newcastle (Inglaterra). 

A inusitada experiência estréia hoje, às 22h, no anfiteatro da Unip. Ao mesmo tempo, considerando os fusos horários incluídos, será acompanhada numa galeria inglesa e num teatro alternativo de Cingapura. 

“A idéia é que tela e palco espelhem uma coisa só”, afirma Rubens Velloso, 55, diretor da Cia. Philia 7, criada no ano passado e co-realizadora do projeto com a londrina Station Opera House e a cingapuriana TheatreWorks. 

Os atores (quatro em São Paulo e três em cada uma das demais cidades) farão pouco uso da palavra (cada um em sua língua) e interpretarão uma história fragmentada, uma dramaturgia apoiada em movimentos e gestos. As três telas sobrepostas em cada local projetarão uma “verdade comum”, de acordo com Velloso, uma trama que diga respeito a questões conceituais sobre sinapse, virtualidade e realidade. 

Já ao vivo, cada elenco poderá ter improvisos em paralelo ao que se vê no vídeo. “O desafio é dar unidade a isso tudo”, diz o diretor. 

A transmissão será feita via internet, pelo sistema “streaming” (tecnologia que permite teleconferências, por exemplo). Segundo Velloso, o projeto conta com tecnologia que garantirá uma boa conexão entre os palcos nos três continentes. “Temos uma linha de telefonia especial para internet e Voip (Voice over Internet Protocol). 

Caso aconteça uma falha técnica, o espetáculo não será prejudicado devido à dramaturgia ao vivo”, afirma Marisa Riccitelli Sant’Ana, co-diretora de produção em São Paulo. 

As apresentações de “Play on Earth” na capital paulista serão realizadas até o dia 24/6 em diferentes horários -manhã, tarde e noite-, por causa do fuso dos três países. A temporada coincide com a realização do Festival Internacional de Artes de Cingapura, de 1º a 25/6.



Play on Earth
Quando:
estréia hoje, às 22h; amanhã, às 10h; dia 16, às 10h; dia 17, às 5h; dia 21, às 22h, dia 22, às 10h; dia 23, às 15h; e dia 24, às 15h 
Onde: Anfiteatro Unip Paraíso (r. Vergueiro, 1.211, tel. 0/xx/11/2166-1000) 
Quanto: R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 08 de junho de 2006

TEATRO 
Para o diretor do Brasil em Cena, realidade é o foco do teatro brasileiro e alemão das novas gerações

VALMIR SANTOS 
Enviado especial a Berlim 

Ele é interlocutor pontual do teatro brasileiro na Alemanha. Já participou de encontro da cia. do Latão em São Paulo e levou para o seu país o “Apocalipse 1,11”, do Teatro da Vertigem. O berlinense Matthias Lilienthal é diretor artístico do Hebbel am Ufer (HAU), um complexo com três edifícios nas proximidades de um canal de Kreuzberg, bairro de formação imigrante da capital, onde terminou ontem o pioneiro festival Brasil em Cena. “Tenho a impressão de que o teatro brasileiro está cada vez mais voltado para a realidade social”, diz Lilienthal, 46. Ele vê fenômeno parecido com artistas das novas gerações em Berlim. Estariam menos afeitos às querelas ideológicas da reunificação das Alemanhas Ocidental e Oriental (1990). O foco agora são os problemas de sua gente, aqui e agora. Vem daí, quem sabe, o interesse do público em travar contato com nomes de teatro até então desconhecidos do “país do futebol”. Em geral, as apresentações lotaram durante os nove dias do evento. Tanto as de um grupo recém-nascido, o Espanca!, de Belo Horizonte (“Por Elise”), em primeira viagem ao exterior, quanto as da calejada Cia. dos Atores, do Rio, que já levou “Ensaio.Hamlet” a cidades como Paris, Nova York e Moscou. Mais sete produções circularam pelos HAU 1, 2 e 3: os espetáculos “Agreste”, da Cia. Razões Inversas (SP); “Arena Conta Danton”, da Cia. Livre (SP); “O Assalto”, do grupo Oficina Uzyna Uzona (SP); “Cavalo Marinho Revisitado”, do Coletivo Pernambuco (PE); e as performances “Futebol”, do coletivo Frente 3 de Fevereiro (SP); e “Tanque” e “Canibal”, de Marco Paulo Rolla (MG). Em paralelo, Zé Celso dirigiu uma leitura dramática de “O Rei da Vela” com atores do teatro Volksbühne. Criado há quase três anos, o HAU convida atrações internacionais dedicadas a experimentos em dança e teatro mas também acolhe a produção independente. “A programação investe em teatro jovem feito por diretores jovens para um público jovem”, diz Lilienthal. Os espaços são estatais e somam ainda apoio de duas fundações -o orçamento anual atinge 4 milhões (R$ 11,7 milhões). Pouco, se comparado a dois respeitados teatros acima do HAU em termos de contemporaneidade: o Volksbühne (fundado em 1914) e o Schaubühne (1962). E o que dizer do teatro e cia. Berliner Ensemble (1949, mas edifício barroco de 1892), que teve o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht e a atriz Helene Weigel entre os revolucionários idealizadores? Segundo Lilienthal, nem a sua geração, a da ruptura pós-68 (também a de Frank Castorf, de Christoph Marthaler), nem a atual (“crescida sob estado de bem-estar terrorista”) dialogam com a linhagem tradicional.



O repórter VALMIR SANTOS viajou a convite do teatro HAU e do Instituto Goethe SP 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 06 de junho de 2006

TEATRO 

Grupo teatral Frente 3 de Fevereiro realiza intervenção em passeata alemã contra neonazistas
 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Berlim 

Em sua passagem por Berlim, no final de semana, o coletivo Frente 3 de Fevereiro, grupo teatral de São Paulo, trabalhou com uma questão incômoda para o país-sede da Copa do Mundo -o racismo. O grupo protagonizou uma ação direta durante passeata contra ataques neonazistas a imigrantes em certos bairros ou cidades, as chamadas “go no areas”. E, horas depois, incorporou imagens do ato no próprio espetáculo-manifesto “Futebol”, escalado para o festival de teatro Brasil em Cena. Na manhã de sábado, cerca de 50 pessoas partiram do prédio do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha em direção ao Portão de Brandenburgo, na região central da cidade. Sob garoa, protestavam contra o espancamento de um alemão de origem etíope numa cidade vizinha a Berlim. Aliado a coletivos locais, como Kanak Attack e Togo Action, a Frente 3 de Fevereiro levou uma bandeira de 20 m x 15 m, carregada por várias mãos. No tecido preto, que cobria o asfalto de uma calçada a outra, lia-se em tintas brancas: “Know go area”, uma corruptela em inglês para a zona em que os imigrantes procuram não ir por causa da violência. Ao intervir em ruas, praças e diante das lentes de uma emissora de TV, a bandeira agigantou a passeata. “Não faz sentido trazer o espetáculo sem discutir as relações raciais no mundo contemporâneo”, diz o DJ Eugênio Lima, 38, uma das 20 vozes da Frente, que tem médicos, advogados, grafiteiros, sociólogos, artistas plásticos etc. A bola não rola em “Futebol”, para surpresa, talvez, de alguns espectadores alemães que vestiam a camisa brasileira na noite de estréia em um dos três endereços do complexo teatral Hebbel am Ufer (HAU). Apoiado em vídeo e música ao vivo, traz a fala condutora da atriz Roberta Estrela d’Alva, texto baseado em conversa com o cineasta Noel Carvalho (“Dogma Feijoada”). 

Origens
O coletivo paulista nasceu como uma forma de mobilização após o assassinato do dentista negro Flávio Ferreira Sant’Ana, em fevereiro de 2004, por policiais militares do Estado. As primeiras ações da Frente 3 de Fevereiro aconteceram em estádios de futebol, na seqüência do episódio ocorrido com o jogador Grafite, ofendido de maneira racista pelo argentino Desábato. Em três jogos televisionados, as torcidas ajudaram a abrir uma bandeira com precisão coreográfica.



O repórter VALMIR SANTOS viajou a convite do teatro HAU e do Instituto Goethe SP
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 28 de maio de 2006

TEATRO 

Quatro espetáculos, como “Os Meninos e as Pedras” e “As Turca”, trazem personagens oriundos do Oriente Médio
 

Três dos quatro espetáculos paulistanos com essa temática têm sessão hoje; preço do ingresso varia de R$ 14 a R$ 40

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Sempre complexas, questões relativas ao Oriente Médio ganham abordagem, de formas direta e indireta, em quatro espetáculos na temporada teatral da cidade. Três deles tem apresentação hoje: “Os Meninos e as Pedras”, no Viga Espaço Cênico; “As Turca”, no teatro Bibi Ferreira; e “Emma Goldman: Amor, Anarquia e Outros Casos”, no Espaço dos Satyros 1. Já “Feliz Aniversário” tem sessões às quartas e quintas-feiras, no Teatro Folha.

Num lugar imaginário, o “quintal” da casa deles, Yonatham, um menino judeu, e Fátima, uma menina árabe, protagonizam um encontro que traz à tona os conflitos existentes entre seus povos. Mais que isso, a possibilidade de convivência, de diálogo.
“Os Meninos e a Pedra” foi escrito por Antônio Rogério Toscano em 2002. A peça é definida pelo próprio autor como “dramaturgia para jovens”.

A encenação de Juliana Monteiro (assistente de Newton Moreno em “Assombrações do Recife Velho”) busca contrapor um tema polêmico às brincadeiras infantis que sustentam o jogo cênico dos atores. “Mas a gente busca fugir da caricatura da criança”, diz o ator Luiz Gustavo Jahjah, 29. Sua família tem ascendência árabe, mas ele interpreta o menino judeu, papel que também é assumido em cena por seu colega Judson Cabral. Já a atriz Cecília Schucman, de ascendência judia, faz a menina árabe junto com Ligia Yamaguti. Todos integram o Núcleo Entrelinhas de Teatro, formado por aprendizes da Escola Livre de Teatro de Santo André.

Em “As Turca”, Nura, Dulce e Vitória são irmãs. Na peça, a também atriz Andréa Bassitt, bisneta de libaneses, expõe o drama de uma família árabe e cristã às voltas com o fim da fartura de outrora, quando seus familiares chegaram ao Brasil na corrente imigratória do início do século 20.

Apesar da crise de fundo, às vezes em primeiro plano, “As Turca” escora-se na veia comediante de atrizes como Cláudia Mello (a irmã mais velha) e Juçara Morais (a do meio). Bassitt interpreta a caçula. Toda a ação se passa dentro de uma cozinha, onde as personagens põem a mão na massa para assar esfihas.

Numa das passagens do espetáculo dirigido por Regina Galdino, chega a notícia, via telejornal, de um atentado à bomba numa universidade norte-americana em Beirute. O episódio atingirá diretamente o coração daquela família.

Judeus na Lituânia
Atentado, fabricação de bomba, também é por aí que mais se aproxima a relação com o Oriente Médio contemporâneo em “Emma Goldman -Amor, Anarquia e Outros Casos”, solo interpretado por Agnes Zuliani e dirigido por Rodrigo Garcia.

O texto da americana Jessica Litwak faz um panorama da judia da Lituânia que imigrou para os EUA em 1885 e lá exerceu a maior parte de suas atividades políticas até ser deportada em 1919. Segundo Zuliani, Goldman foi precursora da esquerda de 1968 em sua defesa da liberdade e em seu experimentalismo de comportamento. “Ela foi uma grande divulgadora das artes em suas palestras nos EUA, sendo uma das primeiras a falar, naquele país, dos grandes dramaturgos modernos, como Ibsen, Strindberg e Tchecov”, afirma a atriz, que contou com o apoio do Centro da Cultura Judaica.

Uma mulher judia também está à frente de outra peça em cartaz, o monólogo “Feliz Aniversário”, com Danielle Maia. 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 27 de maio de 2006

TEATRO 
Com clássico shakespeariano, Jô Soares dirige pela segunda vez em três anos

Elenco reúne expoentes do humor, como Ilana Kaplan, veteranos como Glória Menezes e atores do “circuito alternativo”

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

No terceiro Shakespeare em 30 anos de carreira, somada a fase amadora (já atravessou “A Tempestade” e “Hamlet””), Marco Ricca vive o dissimulado e traiçoeiro Ricardo 3º, personagem-título da peça que ele desejava protagonizar e produzir desde os anos 90. O sonho é materializado no espetáculo que estréia hoje para convidados, no teatro Faap, e cumpre temporada a partir de amanhã. Ricca surge ao lado de 14 atores, um elenco dos mais ecléticos já reunido na cidade. Estão lá comediantes talentosos como Denise Fraga, Ary França e Ilana Kaplan, a contracenar com a experiência de Glória Menezes e Roney Facchini, mesclados a intérpretes projetados na cena mais experimental, como Edu Guimarães, Laerte Mello, Marcos Suchara, Maurício Marques e Maria Manoella. Todos sob a batuta de Jô Soares, que engata o segundo projeto para teatro em menos de três anos (o primeiro foi “FrankensteinS”). O que sugere mais entusiasmo para com a arte que abraçou com mais força nos anos 60 e 70 (leia ao lado). Soares também assina tradução e adaptação da sangrenta história do “javali” que encurrala suas “ovelhas” sem defesa, para usar uma imagem do texto, mas depois acaba ele mesmo enfrentando o resultado do lance de dados que jogou. Essa quintessência do teatro, o jogo, encontra terreno fértil nessa peça do início da carreira de Shakespeare (1593), inspirada nos 30 anos da guerra dos clãs York e Lancaster. Ricca, 43, incorpora as múltiplas faces do conspirador da Coroa, Ricardo 3º. “Tem horas que parece que são dois espetáculos: um faço não para, mas com a platéia, e outro acontece internamente, na maneira de contar essa história”, diz. Estudiosos da obra costumam comparar o encantador e cruel conspirador da Coroa a um mestre-de-cerimônias, em meio ao castelo e campos de batalha. “Não é exatamente o que a gente faz, mas essa leitura é possível, como quem convida à carnificina oficial”, explica o protagonista.



Ricardo 3º

Onde: teatro Faap (r. Alagoas, 903, Higienópolis, tel. 0/xx/11/3662-7233) 
Quando: a partir de amanhã, às 18h; qui. e sex., às 21h30; sáb., às 21h; e dom., às 18h. 
Quanto: R$ 50 e R$ 60 (sáb. e dom.) 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 26 de maio de 2006

TEATRO 
“Centro Nervoso” estréia hoje, com referências às ondas recentes de violência

Texto é construído sobre 13 cenas do cotidiano e marca primeira experiência do autor na direção teatral; elenco contribuiu

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Talhado em criações colaborativas com grupos como Teatro da Vertigem (“Apocalipse 1,11”, 2000) e Cia. Livre (“Arena Conta Danton”, 2005), o escritor e dramaturgo Fernando Bonassi chega à direção teatral. “Centro Nervoso” estréia hoje no Sesc Anchieta. São 13 cenas do cotidiano, resultado de contos ou artigos do colunista da Folha. O autor exprime dores e urgências do mundo real em paralelo ao exercício de musicalidade sobre as palavras. “Os textos têm referências históricas aos episódios dos últimos dez dias em São Paulo. Quem lê ao menos um jornal por ano já sabia o que ia acontecer naquela segunda-feira [15/ 5, dia do toque de recolher do PCC]. Estamos a um passo da barbárie. Esse será o modelo para o Brasil nos próximos anos, o estado de guerra civil, se não houver distribuição de renda”, diz Bonassi, 43. A dor presente na escrita, por vezes trágica, é ampliada para a chave do humor em cena, resultado que o autor diz surpreendê-lo e revela a contribuição direta do elenco, que “levou as histórias para casa” e as recriou. O quarteto Eucir de Souza, Malu Bierrenbach, Pascoal da Conceição e Thereza Piffer passeia por personagens dos mais manifestos aos anônimos, como a mulher que matou o marido aos poucos, envenenando o feijão dele, ou o duplo de Pelé que foi jogado às traças, ofuscado pelo sucesso do rei do futebol. O desafio do Bonassi diretor (palavra sobre a qual não bota muita fé) é traduzir as crônicas do cotidiano para um palco a ser preenchido ou esvaziado.

Também são seus aliados Lucienne Gudes (dramaturgismo), Vivien Buckup (direção corporal), Alessandra Domingues (desenho de luz), Marcelo Pellegrini (música original) e Daniela Garcia (direção de arte, cenografia e figurinos), entre outros.



Centro nervoso
Quando: estréia hoje, às 21h; de qui. a sáb., às 21h; dom., às 19h; até 9/7 
Onde: Teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000) 
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (qui.)