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Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 09 de novembro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Espetáculo da companhia, que estréia hoje no Sesc Pompéia, trata das barreiras físicas e simbólicas na sociedade

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Na fieira da memória da humanidade, a imagem do arame farpado puxa muito do que foi o século 20 -os campos de concentração, por exemplo- e traduz um outro tanto daquele que corre. O arame farpado é constituído por fios enrolados uns nos outros.

Só que, em intervalos iguais, estão lá as pontas agudas a ameaçar a quem se aventurar a pular a cerca.

É numa espécie de túnel circundado por essas farpas que o espectador adentra o espetáculo “Pulando Muros”, a nova montagem do grupo XPTO, em cartaz a partir de hoje no Sesc Pompéia.

A área de convivência projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) será paradoxalmente tomada por barreiras, físicas ou simbólicas.

O diretor Osvaldo Gabriele concebe uma crítica à indústria do medo, quer na cenografia -que projeta um pátio de quartel por meio de oito torres-, quer nos personagens, vítimas ou algozes.

“O nosso cotidiano reflete uma intervenção concreta no desejo de cada um. Diante de uma ameaça externa, desviamos, cortamos, nos afastamos”, diz Gabriele, 47.

A metáfora do muro ganhou mais força quando Gabriele integrou a turnê do grupo Oficina pela Alemanha, com a epopéia “Os Sertões”. Em Berlim, ele notou o quanto a queda do Muro, em 1989, ainda não baixou a poeira do medo do outro.

A geografia do espetáculo espraia-se por Cisjordânia, Rocinha e outros contrastes virtuais, sociais, culturais, religiosos etc.

Entre as cenas de colagens, há a figura do Grande Blindador, que faz citações ao presidente dos EUA, George W. Bush, e depois se transforma num apresentador de programa de TV sensacionalista.

“O espetáculo traz esse lado sombrio, mas ao mesmo tempo se propõe à ironia e à diversão”, diz o diretor do XPTO, Osvaldo Gabriele. 



Pulando Muros
Quando:
 estréia hoje, às 20h30; qua. a sáb., às 20h30; dom., às 19h. Até 11/12 
Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, SP, tel. 0/xx/ 11/3873-7700) 
Quanto: entrada franca
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 04 de novembro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Peça de 1971 do Nobel de Literatura inglês joga com fragmentos de memórias e ganha montagem inédita em SP

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A imagem de Harold Pinter, 75, foi estampada nos jornais há três semanas, por ocasião da Nobel de Literatura que lhe fora conferido. Sorrindo, apoiava-se numa bengala e trazia um curativo na testa, resquício de uma queda recente. Faz três anos, ele luta contra um câncer no esôfago. E, ainda assim, as aparências enganam.

Fragilidade? Não para quem, em agosto passado, atacava os EUA por “invadir” o Iraque, “ato bandido, ato de terrorismo estatal”, e por aí foi em suas palavras sem rodeios. Eis um conceito caro à obra do dramaturgo inglês: a busca da verdade. Ao mesmo tempo, ainda que em peças de acento realista, personagens e situações nem sempre se revelam palpáveis, abrindo janelas para planos absurdos, oníricos, por exemplo.

O público vai se deparar com essa dualidade em “Velhos Tempos” (“Old Times”), peça de 1971 que deixa de ser inédita nos palcos brasileiros a partir de amanhã, por conta de uma produção paulista que estréia no Viga Espaço Cênico, em Pinheiros.

Com tradução de Laerte Mello, que também atua no espetáculo, “Velhos Tempos” marca um deslocamento da fase anterior do dramaturgo, que os pesquisadores chamaram de “teatro da ameaça”.

Até a década de 70, seus personagens surgiam confinados dentro de casa -não à toa, sua primeira peça foi “O Quarto”, em 1956-, como que seguros em relação ao mundo exterior, ao cotidiano da cidade lá fora, invariavelmente Londres, que insistia em invadir o espaço do lar.

Em “Velhos Tempos”, a ação ainda se passa na sala ou no quarto, mas Pinter acresce o registro da memória, amplia as possibilidades de manejo dos personagens no tempo e no espaço.

Visita
Moradores de uma região afastada do centro londrino, o casal Kate e Deeley aguarda a visita de Anna, uma antiga amiga da mulher, que não a via há 20 anos. Só que, quando começa o espetáculo, ela, a amiga, já está no palco, acompanhando a inquietação dos anfitriões pela sua chegada.

“A visita de Anna será desestruturadora para o casal. Aos poucos, o público da peça vai percebendo que ela também já conhecia o marido da amiga. Vêm à tona uma série de fragmentos de memórias, de histórias que não há como dizer se realmente aconteceram ou não”, comenta o diretor Bruno Perillo, 35.

O público é instado a pisar o terreno das possibilidades, até encontrar suas próprias deduções. Mas quem é Anna? Uma ladra? A amante da mulher? A antiga amante do marido? Anna e Kate representariam duas faces de uma mesma mulher? Uma delas estaria morta, mas sobrevivendo por intermédio da memória deles? Ou seria Deeley um homem incapaz de compreender a alma feminina?

Estabelece-se o jogo, segundo Perillo, no qual o marido e a amiga disputam a posse pela memória da mulher. Todos estão na casa dos 40 anos e tentam reconstruir o passado por meio de um embate violento.

O elenco que procura dar conta desse jogo inimista é formado por Gisele Valeri (Anna), Heloisa Maria (Kate) e Laerte Mello (Deeley).

“Pinter escreve com se fosse uma partitura, pede uma musicalidade na voz do ator, em meio a longas pausas. O intérprete tem possibilidades infinitas, mas precisa manter o pensamento ativo, não fazer a mera representação dos silêncios”, diz Perillo, ele mesmo ator ligado ao grupo Folias d’Arte, desde 1999.

Sobre essa musicalidade a que se refere o diretor, certa vez, Harold Pinter declarou: “Eu não sei como a música pode influenciar a escrita, mas tem sido muito importante para mim o jazz e a música clássica. Eu tenho com freqüência uma sensação musical quando escrevo”.

Na semana que vem, outro texto de Pinter estréia em São Paulo: “O Zelador” é encabeçado por Selton Mello. O espetáculo é dirigida por Michel Bercovitch e fará temporada no Teatro Folha a partir do dia 12. 



Velhos Tempos
Quando:
 estréia amanhã; sáb., às 21h, e dom., às 19h30; até 11/12 
Onde: Viga Espaço Cênico (r. Capote Valente, 1.323, Pinheiros, tel. 3801-1843) 
Quanto: R$ 20
 

 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 03 de novembro de 2005

TEATRO

Francisco de Assis dirige “Num Bosque”, do japonês Akutagawa, com a Cia. Círculo da Miragem

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

É bom que se diga logo: Francisco de Assis dirige o espetáculo “Num Bosque”, no qual uma mulher é violentada, mas nada tem a ver com o “maníaco do parque”. De qualquer forma, é interessante lançar os pressupostos da realidade em um projeto teatral adaptado de um conto do japonês Ryunosuke Akutagawa (1892-1927), “Yabu no Naka” (também traduzido por “Dentro do Bosque”).

Os gumes da mentira e da verdade recortam a história que Assis, 49, encena a partir de hoje no teatro Sérgio Cardoso com a Cia. Círculo da Miragem. Este e outro conto de Akutagawa, “Rashomon” (antiga ponte em Kyoto), inspiraram o cineasta Akira Kurosawa (1910-1998) na obra-prima “Rashomon” (1950), Leão de Ouro no Festival de Veneza.

De volta ao palco, “Num Bosque” elenca sete personagens. Entre a relva e as folhas de bambu pisoteadas de uma pequena cidade rural, um casal é abordado por um ladrão. Salto para adiante: o sujeito teria estuprado a mulher e matado o marido.

No conto, como na peça, a mulher, o criminoso e mais quatro testemunhas prestam depoimento a um investigador oculto, mas nem tanto: é o leitor, a platéia. Há ainda por ouvir e ver o relato do espírito do morto por meio da voz de um médium.

São sete monólogos que, de uma forma ou de outra, têm suas mentiras e verdades ecoadas na versão final do Lenhador. Primeiro ele mente, mas depois corrobora o que realmente espreitou na mata, acompanhado de seu cão.

“Fica expressa a dedicação de todos em proteger a auto-imagem. A mulher não assume que houve prazer, que tinha problemas no seu relacionamento. O marido não assume que teve medo, que foi covarde no episódio. E o bandido não admite ter sido seduzido. Como explicar que fora enganado por uma mulher?”, diz o diretor, dando pistas sobre o quebra-cabeça feito de desejo, egoísmo, orgulho, cobiça e dissimulação. Um ardil.

Akutagawa, que se suicidou aos 35 anos, narra com a precisão de um haicai. Condensa imagens que transportam o interlocutor para aquele bosque.

O santista Assis é professor da escola de teatro Indac, em São Paulo, onde conheceu parte dos atores da Cia. Círculo da Miragem (Daniel Warren, Ruy Andrade, Cristina Jimenes, Sandra Bermudez, Marcos Almeida e Edimilson Andrade).



Num Bosque
Quando: estréia hoje, às 21h; qua. e qui., às 21h. Até 29/12 
Onde: teatro Sérgio Cardoso – sala Paschoal Carlos Magno (r. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, tel. 0/xx/11/3288-0136) 
Quanto: R$ 20

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 02 de novembro de 2005

TEATRO 
Ganha montagem na cidade peça do escritor italiano comparado ao ganhador do Nobel de Literatura Harold Pinter

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Apontada pela crítica italiana como versão siciliana do britânico e agora Nobel de Literatura Harold Pinter, a dramaturgia do italiano Spiro Scimone, 41, chega ao Brasil por meio de “Bar”, espetáculo que abre temporada hoje no teatro da Memória, Instituto Cultural Capobianco.

A peça de 1996 traz diálogo composto de frases curtas, falas de linha única entre o garçom Nino (interpretado por Bruno Kott) e o freguês e amigo Petru (Alvize Camozzi).

O primeiro sonha em arrumar um trabalho no qual possa mostrar sua habilidade na preparação de coquetéis. O segundo se revela um viciado em pôquer.

A reunião daquela noite é para armar um plano contra um terceiro personagem, Jani, principal adversário de Petru no jogo. Jani jamais aparece em cena, mas boa parte do que se conversa lhe diz respeito.

“É um texto em que você precisa de um tempo de contato para começar a encontrar onde estão seus pontos fortes”, diz Cacá Toledo, 28, que assina a direção com Camozzi, responsável ainda pela tradução e montagem (com o cenógrafo William Zarella).
Pausas e ações convivem sem a rubrica e sem intervenção do autor. “Os personagens têm uma interdependência e ao mesmo tempo se desagradam ao extremo; há o jogo de palavras e os equívocos de comunicação”, diz Toledo.

Para recriar a atmosfera de um bar, são usados amplificadores e microfones que reproduzem burburinho e efeitos sonoros de pratos, copos e talheres.

Zarella criou uma cenografia que divide dois ambientes por meio de um compensado de madeira, um teto que ameaça desabar. Na parte de baixo, fica o espaço onde os atores atuam. Em cima, sugere-se um depósito.

Nessa relação de condutor e conduzido, os personagens estão como que trancados no bar, condicionados num espaço pequeno. O mundo exterior constituirá uma ameaça, daí a paradoxal dificuldade em abandonar o território que os oprime.

“As ações ditas “principais” não são assistidas pelo espectador, como as visitas de Jani, da mãe, o jogo, um assassinato etc. “Bar” me deixa uma grande impressão de ser uma peça escrita a partir de improvisações dos atores”, diz Toledo. 



Bar 
Quando:
 qua., às 21h (estréia hoje); até 14/12
Onde: Instituto Cultural Capobianco – teatro da Memória (r. Álvaro de Carvalho, 97, centro, tel. 3237-1187)
Quanto: R$ 20
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 01 de novembro de 2005

TEATRO 
Mostra, resultado de cursos ministrados no espaço por Samir Yazbek, aposta na despretensão e na síntese dos textos

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Na esteira dos novos (e nem tanto assim) autores que buscam espaço na cena paulistana, a 1ª Mostra de Dramaturgia Contemporânea do Teatro do Centro da Terra é fruto de processo de criação consumido ao longo de 2005.

Da escrita ao palco, a trajetória permite paralelo com repertório mostrado há pouco pela recém-nascida Cia. dos Dramaturgos.

No Centro da Terra, estão seis dramaturgos de primeira viagem que despontaram em cursos ministrados há três anos por Samir Yazbek, autor de “O Fingidor” (Prêmio Shell de Teatro-SP, 1999).

A mostra começa hoje, com três peças permanentes a cada noite, às terças e quartas.

“Considero o resultado como um exercício de estilo, uma busca muito particular dos autores em expressar determinados temas”, diz Yazbek, 38. Não há propriamente um recorte comum.

“São textos de média duração, escritos de forma despretensiosa, uma qualidade de síntese que destoa daquela inclinação comum ao rebuscamento quando se tenta ser contemporâneo.”

Do surgimento da idéia à encenação, o princípio foi o da coletivização, diz Yazbek. Leu-se e discutiu-se os textos sempre em grupo. Mesmo na etapa final, quando atores e diretores foram agregados, os dramaturgos não deixaram de compartilhar, de promover mudanças aqui e ali.

Em “Meu Lado Daqui, Seu Lado de Lá”, que abre a primeira noite, a atriz Gisela Marques, 36, escreve sobre a ruptura brutal de um casamento, “a incapacidade do ser humano em lidar com sua própria sombra”.

Na peça “Um Q”, do engenheiro aeronáutico Mauro Hirdes, 46, um homem se vê impossibilitado de estabelecer uma relação afetiva real e recorre à fantasia para moldar uma cópia da amada conforme sua perspectiva de mundo.

Em “Desencontro”, a produtora Priscila Nicolielo, 24, trata do eterno retorno de ex-namorados que se reencontram por acaso.

Amanhã, são mais três peças. Em “Encaracolado”, escrita e dirigida pelo ator Eduardo Brisa, 26, casal vive o dilema da falta de espaço provocado pelo apego do marido a bens materiais. A situação fica crítica com uma gravidez.

Formada em marketing e com extensão em dramaturgia na Universidade da Califórnia (EUA), Juliana Rosenthal, 25, criou “Feliz Aniversário”, em que registra três fases na vida de uma mulher que odeia festejar aniversários.

Por fim, um segredo provoca as dores de um encontro amoroso refletido por um casal de escritores em “Um Chão Feito de Mar”, da musicista Patrícia Maês, 35.

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 30 de outubro de 2005

TEATRO

Associação estima que 60% dos “palcos” são ocupados por grupos alternativos como Jogando no Quintal e Folias

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O público liga para o telefone celular da produção do espetáculo, pergunta se ainda há lugares, o preço do ingresso e, por fim, pede um ponto de referência. A geografia do teatro paulistano mudou nos últimos anos.

Há muito o que ver em outras regiões da cidade, além-bairro Bela Vista. Brotam espaços no centro e nas zonas oeste e leste.

É o vigor do chamado teatro “off”, aquele que transita fora do palcos convencionais, conforme noção importada da Broadway norte-americana.

Presume-se que os grupos alternativos ou experimentais se arrisquem mais na criação dos textos e no modo de encená-los, por exemplo, do que os congêneres do circuito comercial, o dito “teatrão”. O que não impede de ter coisas boas e ruins dos dois lados.

O ator Carlos Meceni, 54, presidente da Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp), estima que dos 98 espaços da cidade, pelo menos 60% são off, “com média de 30 lugares”.

É o caso do Café Sarajevo, na rua Augusta, onde está em cartaz “O Confessionário do Sultão”, com dramaturgia e supervisão de Maurício Paroni de Castro
.
No mesmo Sarajevo, espaço que também é uma casa noturna, o diretor apresentou, em 2004, “Pornografia Barata”, com seu Atelier Teatral Manufactura Suspeita. Também um ano atrás, levou “Confraria Libertina” a um clube de sadomasoquismo, no bairro da Aclimação.

“Na Itália, esse movimento é chamado de “teatro de porão”, no qual os artistas às vezes trabalham em condições precárias, mas com resultados estéticos bastante sofisticados”, diz o encenador Paroni de Castro, 44.

Casos de sucesso
Com premiações e indicações ao Prêmio Shell, o grupo Folias d’Arte montou há quase seis anos o seu espaço, o Galpão do Folias, que fica em Santa Cecília, na região central.

“Tínhamos receio no início, por causa da região degradada, com mendigos, usuários de drogas. Mas isso não nos atrapalhou”, diz a atriz Patrícia Barros, 37.

Depois da popularidade conquistada por “Otelo” (2003), o espetáculo mais recente, “El Dia que Me Quieras”, segue lotando as arquibancadas móveis do galpão, agora com 57 lugares.

“Se me detivesse à questão da violência, do medo, então não iria a nenhum teatro na cidade”, diz a bancária aposentada Maria Cristina Costa, 50, que acompanha as peças do Folias.

Outro caso emblemático da tendência off é a trajetória do espetáculo “Jogando no Quintal”. Atualmente, ele acontece numa escola do Butantã, na zona oeste, para onde arrasta uma invejável “torcida” de cerca de 600 espectadores por noite, todo primeiro final de semana do mês.

Dois times de palhaços-atletas disputam a supremacia nas improvisações que têm de durar segundos e são sugeridas e julgadas pelo público.

A mediação é feita por um árbitro-palhaço que não tem a mínima chance de ser corrompido diante da platéia atenta.

O primeiro jogo aconteceu em outubro de 2002, num quintal da rua Cotoxó, na Pompéia. Havia cerca de 50 espectadores na casa do palhaço César Gouvêa, 33, um dos idealizadores do projeto, ao lado de Márcio Ballas, 33.

Para Gouvêa, a movimentação off reflete um “cansaço” do circuito convencional. “O que é esse circuito? Como sobreviver diante da dificuldade de divulgação?”, questiona.

A Lei de Fomento (cerca de R$ 9 milhões repassados aos grupos desde 2002 pela prefeitura) também serviu de alavanca.

No próximo final de semana, a Companhia Jogando no Quintal comemora o terceiro ano do espetáculo com participação do elenco de “Terça Insana”, cuja carreira também despontou num espaço off por excelência, o Núcleo Experimental de Teatro, N.Ex.T, na rua Rego Freitas, no centro. Meses depois, conquistou o espaço nobre do bar Avenida Club, em Pinheiros.

O conceito de off muda com o tempo. Em 1979, por exemplo, havia um teatro chamado Off no Itaim Bibi, na zona sul, hoje um bairro “in”, de acordo com o produtor cultural Celso Curi, atual diretor do Centro Cultural São Paulo. Há nove anos Curi edita o “Guia Off de Teatro”, em formato de bolso e distribuído gratuitamente (20 mil exemplares).

“O fato de pipocarem tantos espaços é bom, mas o trabalho artístico muitas vezes não consegue incorporar uma boa administração, e o público escorre pelas mãos”, diz Rafael Schiesari, 22, produtor artístico do Galpão Raso da Catarina, na Vila Madalena, que desde 2000 realiza, mensalmente, o “Sarau do Charles”.

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 29 de outubro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Empresário pretende construir shopping no local

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O Grupo Silvio Santos iniciou na tarde de anteontem a demolição de imóvel onde funcionava uma sinagoga na rua Abolição, bairro do Bexiga, integrada ao quarteirão onde o teatro Oficina está há 47 anos.

Segundo o diretor José Celso Martinez Corrêa, a movimentação evidencia que já foi iniciada a obra do shopping center que o Grupo Silvio Santos pretende construir no seu terreno. Zé Celso encabeça luta para fazer valer as idéias originais dos arquitetos Lina Bo Bardi (1914-92) e Edson Elito. É deles o projeto de reinauguração do espaço em 1983, quando previam a construção de um “teatro de estádio” na extensão dos fundos e laterais do Oficina.

Em negociações recentes com o Grupo SS, o diretor sugeriu a preservação do prédio do templo israelita, a fim de transformá-lo em sede de uma universidade para formação de artistas.

Por meio de sua assessoria, o engenheiro Eduardo Velucci, porta-voz do Grupo SS, confirma a compra do imóvel que pertencia ao Templo Israelita Brasileiro Ohel Yaacov (rua Abolição, 457).

A Federação Israelita do Estado informa que as atividades da sinagoga foram transferidas provisoriamente para a Associação Beneficente e Cultural B’nai B’rith, no Jardim Paulistano.

O Grupo SS obteve da prefeitura neste mês o alvará para demolição. Segundo o arquiteto Marcelo Ferraz, que junto com Marcelo Suzuki apresentou o projeto arquitetônico que foi acordado pelas duas partes (Silvio Santos e Oficina), a construção do shopping ainda não foi aprovada pelos órgãos municipais. Velucci afirma, no entanto, que a obra deverá ser iniciada no primeiro semestre de 2006.

Zé Celso discorda sobretudo quanto à gestão do “teatro de estádio”, que reivindica para um conselho de artistas e não de empreendedores.

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 29 de outubro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Luis Melo protagoniza “Daqui a Duzentos Anos”, encenação de Márcio Abreu com três histórias curtas do autor russo

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Vou, sento, fecho os olhos e fico pensando se os que virão depois de nós, daqui a cem ou 200 anos, e para quem estamos abrindo caminho, vão se lembrar de nós com uma única palavra de gratidão.”

Eis o trecho de uma carta do escritor russo Anton Tchecov (1860-1904) contada pelo ator Luís Melo ao final de “Daqui a Duzentos Anos”. No espetáculo, o espectador senta, abre os olhos e escuta vozes do século 19 desejosas de tocar feito um aperto de mão. Com absoluta devoção à palavra e seus silêncios, a montagem do grupo curitibano Ateliê de Criação Teatral, o Act, chega a São Paulo após passar pelo Rio, para temporada no Sesc Belenzinho.

“O exercício da escuta tornou-se muito difícil hoje em dia”, diz Luis Melo, 47. Na encenação de Márcio Abreu, a transposição de três contos de Tchecov se dá numa arena, espaço que costuma ser mais exigente na relação público-ator. Ao centro, um tablado de cinco metros de diâmetro é ocupado pelos atores Melo, André Coelho e Janja, além da musicista Edith de Camargo (do grupo Wandula).

Eles trazem à luz narradores e personagens criados por Tchecov, consagrado por peças como “As Três Irmãs” e “A Gaivota”.

O primeiro conto, “O Amor”, é o mais bem-humorado, por assim dizer. Sujeito apaixonado pela noiva sente-se oprimido pelas exigências da preparação do casamento. Passa a cerimônia e vem nova frustração, agora pela rotina da vida de casado, embora sustente que o amor sobrevive a tudo.

Em “O Caso do Champanhe”, o chefe de uma pequena estação de trem nas estepes divaga em torno da vida monótona que leva com a mulher. É apaixonado ao ponto da explosão, o que contrasta com o lugar onde vivem. A mesmice é perturbada pela chegada de uma visita inesperada.

Na última história curta, “Brincadeira”, surge um Tchecov talvez mais lírico. Um homem recorda uma história de amor de juventude. Especialmente a passagem em que desce de trenó uma montanha de gelo, junto com uma jovem. Seduzida, ela confundia sua voz com a do vento ao ouvir as palavras “eu te amo”.

Os atores buscam ancorar o olho no olho, a fala ao pé do ouvido do universo dos contadores de histórias (que não são atores, mas envolvem tanto quanto eles com suas “partituras”).

Segundo Melo, os textos não-dramáticos de Tchecov constituem um exercício de observação para o ator que também persegue a não-representação.

“A intenção é dar liberdade para que a imagem surja para o espectador”, diz Melo.

Com a trilogia de contos tchecovianos sobre os vícios e as virtudes do amor, o diretor Márcio Abreu, 34, afirma ter aprofundado seu conhecimento sobre a obra do autor russo.

“Quem vem ao espetáculo esperando um Tchecov sedimentado, não vai encontrá-lo. Não há aqueles clichês atribuídos à sua dramaturgia “excessiva, melancólica, de discurso pessimista, que dilata equivocadamente o tempo” etc. Isso faz com que a gente perceba o quanto ele é mal interpretado, mal lido. Sua obra é tridimensional”, diz Abreu. 



Daqui a Duzentos Anos
Quando:
 estréia hoje, às 19h; sáb. e dom., às 19h; até 11/12 
Onde: Sesc Belenzinho – galpão 1 (av. Álvaro Ramos, 915, tel. 6602-3700) 
Quanto: R$ 15
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 26 de outubro de 2005

TEATRO

Pesquisadora organiza textos diversos do intelectual italiano que influenciou a modernização dos palcos nacionais

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Dentre os artistas europeus que imigraram para o Brasil nos anos 40 e 50, o italiano Ruggero Jacobbi conciliou, como poucos, reflexão teórica e gesto criador, sobretudo em seu campo dileto, o do teatro.

O veneziano Jacobbi (1920-1981) “fez a cabeça” da geração formada ideológica e esteticamente no processo de modernização do teatro brasileiro, diz a pesquisadora Alessandra Vannucci, que organizou “Crítica da Razão Teatral – O Teatro no Brasil Visto por Ruggero Jacobbi”.

O livro reúne ensaios, críticas, resenhas ou notas que o intelectual publicou durante seus 14 anos de Brasil, entre 1948 e 1962, em periódicos como “Folha da Noite” (1952-56) -que posteriormente se fundiu à “Folha da Manhã” e à “Folha da Tarde” e deu origem à Folha- e “Última Hora” (1951-53).

A obra sai em parceria da seção São Paulo do Istituto Italiano di Cultura com a Perspectiva, a mesma do alentado estudo teórico-biográfico “Ruggero Jacobbi” (2002), de Berenice Raulino.

Na Itália, a obra de Jacobbi é revisitada. Recentemente, foram lançados seis livros de ou sobre ele. No ano que vem, virá à luz sua poesia, face menos conhecida.

“Crítica da Razão Teatral” tem lançamento hoje, no CCBB do Rio, em mesa-redonda com o ator Sérgio Brito, a professora da Uni-Rio Tânia Brandão e Vannucci, 37. Abaixo, trechos da entrevista com Vannucci.

TEATRO DO DIRETOR Jacobbi veio ao Brasil dentro de uma missão geracional: a instalação do teatro do diretor como paradigma de modernidade. Mas Jacobbi, que se dizia “um literato de passagem pelo teatro, só que esta passagem durou quase uma vida inteira”, escolhia o palco pela sua instância social que poderia compensar a “fundamental irresponsabilidade dos literatos”.

POSTURA MILITANTECom espírito pioneiro e atuação antiparadigmática, Jacobbi buscou soluções de subsistência e cânones alternativos para a modernidade no Brasil na fase em que, diversamente da Itália, a indústria do espetáculo se implantava já em moldes vinculados ao consumo de massa. Essa percepção política motiva sua atuação crítica, assim como sua prática de direção sempre ao contextualizar a obra e ao investigar as conexões entre fatos da cultura e territórios reais que ele percorre no dia-a-dia da metrópole: porque em teatro “não se trata de dar vida a coisas mortas, mas de ver se ainda estão vivas”.

Uma postura militante que o levou a professar “heresias” como a de preferir um bom samba a qualquer delírio dodecafônico, um belo vaudeville a uma metafísica peça de vanguarda e, principalmente, a recusar o “cetro” da direção na década que consagra a primazia do teatro do diretor sobre o velho sistema estrelar.

CRÍTICA E CRIAÇÃOJacobbi surge não somente como diretor de teatro, cinema e televisão, mas também, simultaneamente, como crítico, professor, jurado, tradutor, dramaturgo, espectador profissional (comandando as palmas) e, ainda, poeta (inédito) pelas “virtudes” de uma implacável insônia. Jacobbi exercia a crítica como a melhor ferramenta de intermediação orgânica entre intelectual e sociedade. 



Crítica da Razão Teatral – O Teatro no Brasil Visto por Ruggero Jacobbi
Autora: Alessandra Vannucci (org.) 
Editora: Perspectiva 
Quanto: R$ 40 (336 págs.) 
Lançamento: hoje, às 18h30, no CCBB do Rio (r. 1º de Março, 66, centro, 4º andar, tel. 0/xx/21/3808-2020)

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 15 de outubro de 2005

TEATRO

Seis anos depois, texto de Aimar Labaki ganha remontagem assinada por Reginaldo Nascimento na praça Roosevelt

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Seis anos atrás, quando foi montada pela primeira vez, a peça “A Boa” repercutiu como uma paulada na esmola social. Lula vinha de perder sua terceira eleição e talvez já esboçasse o Fome Zero para o dia em que chegasse lá. São Paulo não tinha amanhecido com mendigos massacrados em calçadas do centro. E o cineasta Sérgio Bianchi ainda não havia lançado “Quanto Vale ou É Por Quilo?”.

O texto de Aimar Labaki ganha nova montagem na cidade reforçado pelo debate, pelo menos em alguns segmentos da sociedade, de noções de assistencialismo, paternalismo, voluntariado e afins. O autor expõe conflito entre o desejo de ser bom e o fracasso da bondade ou suas contradições.

A peça promove o reencontro de dois jovens que um dia se conheceram na faculdade. Ricardo vive na rua, mendigo a pregar versos bíblicos. Verônica é rica e solitária; vê naquela trombada do acaso a chance para desaguar o poço de generosidade que imagina guardar dentro de si.

Decidida a “devolvê-lo à civilização”, tal qual um Kaspar Hauser (o jovem mudo encontrado na Alemanha do século 19 com um livro de orações), Verônica “resgata” o rapaz para a sua casa.

Lá pelas tantas, Ricardo diz que perdeu seu passado na primeira noite que dormiu ao relento. “A gente sempre acha que o mal é a falta de conhecimento. Ledo engano. O bem é que é ingênuo e mal informado”, afirma o rapaz, procurando desconversar das responsabilidades de uma certa Corporação da qual seria presidente.

Ética e política, filantropia e revolução são algumas das entrelinhas com as quais o diretor Reginaldo Nascimento procura trabalhar na encenação de “A Boa”, em cartaz a partir de hoje no Espaço dos Satyros 2, na praça Franklin Roosevelt, em São Paulo.

“Às vezes, o bem ganha contornos de mal”, diz Nascimento, 29. Ele está ligado à Kaus Cia. Experimental (de “Vereda da Salvação”, texto de Jorge de Andrade) e foi convidado a dirigir os atores Igor Kovalewski e Ana Paula Vieira, nos papéis que foram interpretados, na primeira montagem, por Milhem Cortaz e Ana Kutner, dirigidos por Ivan Feijó.

Visto recentemente em “O Mata-Burro” (Cia. dos Dramaturgos), no Centro Cultural São Paulo, Kovalewski desce agora a outro porão, com os longos cabelos e barba acentuando a perspectiva cristã presente nos diálogos.

Apesar do contexto urbano sugerido pelo texto, Nascimento acha que a história cabe em qualquer lugar. Como diz Ricardo, a rua é um planeta.

O diretor quer enfatizar a proximidade de público e atores dispostos numa atmosfera intimista, compartilhar solidões.

A cenografia de Robson Stancov traz elementos que remetem aos ambientes da peça: a rua, a casa e a corporação. Nos figurinos, Helena Moraes tenta traduzir a condição social das personagens.

Em 2002, “A Boa” foi montada em Salvador pelo diretor Gil Vicente Tavares, com a Cia. de Teatro Contemporâneo, em projeto que contou com a parceria de uma ONG. No mesmo ano, a peça foi publicada pela Boitempo.

De certa forma, a corrosão de certos diálogos de “A Boa” encontra encontra eco em “Prego na Testa”, o texto do americano Eric Bosogian que Aimar Labaki traduziu e dirigiu há pouco, protagonizado por Hugo Possolo.

Como ilustra este diálogo entre Ricardo e Verônica, cuja sedução “do bem” inclui até o sexo: “Você não pode ser tão burra! Eu falei, eu te avisei, você não me escutou. Eu disse: eu estou na rua por que não caibo em lugar nenhum. E atrás de mim vêm 10 milhões. E não cabem 10 milhões na sua casa! Lembra?”.



A Boa
Texto: Aimar Labaki 
Direção: Reginaldo Nascimento 
Com: Igor Kovalewski e Ana Paula Vieira 
Quando: estréia hoje, às 19h; sáb., às 19h; e dom., às 18h. Até 18/12 
Onde: Espaço dos Satyros 2 (pça. Franklin Roosevelt, 124, centro, SP, tel. 0/xx/11/3258-6345) 
Quanto: R$ 20