Menu

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 08 de março de 2005

TEATRO 
Novo espetáculo do diretor Antunes Filho, com estréia prevista para abril, traz a múltipla Arieta Corrêa em dois quadros

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

“Viver é belo e pavoroso”, diz o personagem algo kafkiano de Arieta Corrêa numa passagem do espetáculo “O Canto de Gregório”. Há cinco anos trabalhando no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do Sesc Consolação, sob o comando de Antunes Filho, a atriz de 27 anos, dez de profissão, também descobriu no ato criativo “essa verdade tão intensa”.

Haja fôlego para metamorfoses. Além do papel-título em “O Canto de Gregório”, ela pode ser vista em cartaz em “Prêt-à-Porter 6”.

Está no elenco de “Foi Carmen”, que tem pré-estréia no dia 16 na abertura do Festival de Teatro de Curitiba, incursão de Antunes pelo teatro-dança. Ainda em paralelo, há um ano ensaia “Antígona”, de Sófocles, a próxima tragédia do diretor, talvez para este semestre.

Hoje, no Centro Cultural SP, em ensaio aberto de “Prêt-à-Porter 7”, vive, numa cena, a mulher que ancora desilusões e, noutra, a garota que tateia o amor em encontro mediado pela internet.

Variações bem casadas para este Dia Internacional da Mulher, razão de Antunes topar o deslocamento do sétimo tento de “Prêt-à-Porter” (do CPT para o CCSP), ciclo nascido em 1997 com desejo de “criar um campo de ação onde o ator passa a ser um criador”.

“Prêt-à-Porter 7”, que deve estrear em abril no CPT, começa com a cena “Castelos de Areia”, criada por Juliana Galdino e Corrêa. Trata do reencontro de duas amigas de infância, após dez anos.

O quadro seguinte é “Chuva Cai e Bambu Dorme”, de e com os atores Emerson Danesi e Nara Chaib. Aqui, o encontro é ponto de partida literal. O floricultor e a jovem estudante de artes plásticas, que vai para a Europa, não conseguem conter os sentimentos que sempre os uniram.

Corrêa retorna na última parte, agora para contracenar com Marcelo Szpektor em “A Garota da Internet”. Um encontro como ponto de chegada. O relacionamento virtual flerta com a realidade.

“Não tem uma receita. A gente passa por “lugares” que posso resumir como o caos. O processo demanda muita solidão. Às vezes escrevemos como num escarro e temos que tirar possibilidades cênicas daquilo”, diz Corrêa, paulista de Bauru. Na hora do almoço de domingo passado, falava mansamente ao telefone, poupando a voz para outra peça dali a horas.



Prêt-à-Porter 7
Onde:
CCSP (r. Vergueiro, 1.000, Paraíso, SP, tel. 0/xx/11/3277-3611) 
Quando: hoje, às 19h e às 21h 
Quanto: entrada franca (retirar ingressos com antecedência)

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 03 de março de 2005

TEATRO 
“Farsas Libertinas” estréia amanhã no Crowne Plaza

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

“Se vierem, a diversão será garantida”, diz o diretor Maurício Paroni de Castro, 43, sobre “Farsas Libertinas”, a partir de amanhã em horário maldito, à meia-noite, mas em espaço nobre, o teatro do hotel Crowne Plaza.

O espetáculo com a cia. Atelier Teatral Manufactura Suspeita entra em cartaz após estudo sobre sadomasoquismo, o “Confraria Libertina”, realizado no ano passado na masmorra (“dungeon”) de um clube fetichista paulistano, o Dominna, na Aclimação.

Segundo Paroni, a peça revisita situações e papéis vivenciados no local. É concebida como uma comédia histórica com quadros encenados cronologicamente. Tratam da liberdade da criação erótica através do tempo, da pré-história ao século 19. As cenas remetem a práticas fetichistas diversas: “bondage” (amarração), “spanking” (chicotes), inversão de papéis, travestimentos, masoquismo, tortura psicológica etc.

“Farsas Libertinas” abre ciclo da Manufactura Suspeita com repertório formado por comédias de horror, do gênero francês “grand guignol”, que explora emoções suscitadas nos espectadores por situações escabrosas de dramas realistas, sempre exageradas.

Este gênero surgiu no final do século 19, na França. Espalhou-se por vários países da Europa e foi uma das grandes inspirações do cinema de horror britânico e americano, além do cinema expressionista alemão.

Depois de uma fase realista, o “guignol”, nome de um fantoche no final do século 13, passou a empregar elementos na insígnia da loucura, de fenômenos espíritas e paranormais. São dramas cruéis e violentos, cheios de depravações.



Farsas Libertinas
Direção:
Maurício Paroni de Castro 
Com: cia. Atelier Teatral Manufactura Suspeita 
Onde: teatro Crowne Plaza (r. Frei Caneca, 1.360, tel. 3289-0985) 
Quando: amanhã, à 0h; sex. e sáb., à 0h 
Quanto: R$ 20

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 03 de março de 2005

TEATRO
Estréia amanhã peça sobre jovem de 20 anos que sai da clausura dos pais

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Sacha é uma garota de 20 anos. Rica, mimada e introvertida, ela nasceu por meio de inseminação artificial (qualquer semelhança com a filha de celebridades televisivas é mera coincidência). Os pais lhe dão tudo o que o dinheiro pode, menos o que ela precisa. Sacha foge de casa e “cai na vida”.

“O texto é premonitório”, diz o diretor Paulo Fabiano, 44, em tom de brincadeira, sobre “Fuck You, Baby”, a peça que o paranaense Mário Bortolotto escreveu em 1988. A montagem da cia. Teatro X estréia amanhã, no espaço homônimo da praça Franklin Roosevelt, em São Paulo.

Na viagem de iniciação pelo mundo pós-clausura, Sacha (interpretada por Olívia Leão) atravessa situações que expõem comportamentos e atitudes sociais “deformadas”, segundo Fabiano.

Num templo de pregadores, tromba de uma vez só com Calvino, Charles Manson e uma “devota” de pombajira. Conhece o discurso único de poder do patrão numa fábrica. Cai de pára-quedas no palco de uma boate de striptease. É abusada. Vai parar na cela de uma delegacia. E finalmente reencontra Sacha Pai e Sacha Mãe, que não a reconhecem porque nunca lhe puseram os olhos, de tão ensimesmados que são.

Segundo um DJ-narrador na peça, “Sacha pulou a janela do seu bunker como um Colombo contemporâneo de saias, um Salomão pós-moderno, e o que ela vê já não surpreende mais”.

Influências
“Sacha é uma personagem demasiadamente humana, cuja ingenuidade revela os vícios sociais”, diz Fabiano, que, na encenação, incorpora citações do texto aos universos do cartum e dos filmes B.

Essa “descoberta do mundo” por Sacha encaixa-se no projeto “Olhares Urbanos” da Cia. Teatro X. Antes de “Fuck You, Baby”, o grupo encenou “Caminhador” (2004), de Gerson Steves. Os próximos dramaturgos a serem montados são Celso Cruz, Claudia Vasconcellos e Rubens Rewald.

“O projeto traz à cena espetáculos que, independentemente de gênero ou forma, buscam refletir os efeitos da sociedade de consumo sobre o indivíduo, num ambiente urbano, caótico e violento. Não só a violência das balas mas também a do desprezo, desrespeito e alienação”, diz o diretor da companhia, criada há sete anos.

Na mesma praça Roosevelt, Mário Bortolotto e o grupo Cemitério de Automóveis estão em cartaz com “O que Restou do Sagrado”, nas noites de segunda e terça, no Espaço dos Satyros.



Fuck You, Baby
Texto:
Mário Bortolotto 
Direção: Paulo Fabiano 
Com: Cia. Teatro X (Eduardo Chagas, Lígia Botelho, Olívia Leão, Fábio Espósito, Ailton Rosa, Simone Rebeque, Tamayo Nazarian, Antônio Carlos de Niggro e Chico Lobo) 
Onde: teatro X (praça Franklin Roosevelt, 124, Consolação, SP, tel. 0/ xx/11/3255-2829) 
Quando: estréia amanhã, às 21h; em cartaz de sex. e sáb., às 21h; e dom., às 20h; até 29/5 
Quanto: R$ 15

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

TEATRO 

Espetáculo sobre visita de Carlos Gardel a Caracas em 1935 estréia no galpão do grupo, no bairro de Santa Cecília


VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Um cachorro com as costelas de fora. Não ladra, mas é feroz em sua miséria. A caravana passa, indiferente, fingindo que não é com ela. A exclusão é intangível, como a um fantasma.

A imagem está na boca de um personagem comunista em “El Día que me Quieras”, do venezuelano José Ignacio Cabrujas (1937-95), montagem do Folias d’Arte (“Otelo”) que estréia hoje no galpão do grupo, em Santa Cecília.

Cabrujas concebe a visita do cantor Carlos Gardel a Caracas, em 1935, onde se apresentaria para o ditador da vez, cruza o evento com os ventos revolucionários da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (Stálin substitui Lênin) e desemboca tudo, sempre com bom humor, na sala de uma tradicional família venezuelana, os Ancízar.

O resultado é uma reflexão sobre o sonho e seus mitos, alegoria de heróis e covardes, à moda de um dramaturgo que lembra Vianinha (“Rasga Coração”), mas é pouco conhecido entre nós.

Título emprestado da canção de Gardel e Alfredo Le Pera, espectros também levados à cena, a peça faz referências ao clássico “As Três Irmãs”, de Tchecov.

Elvira Ancízar (Bete Dorgan) está pasma com a irmã mais nova, María Luiza (Simoni Boer), que quer vender a casa e se mudar com o noivo comunista, Pio Miranda (Reinaldo Maia), para a Ucrânia, nas estepes soviéticas.

Miranda busca contraponto ao ramerrame familiar. Válvula de utopia, ele diz que conhece o escritor francês Romain Rolland, um idealista; defende a “visão global” do camarada Stálin. O discurso agüenta até o porvir esbarrar numa profética palavra: a mentira, demasiada teatral.

“Ele não consegue entender como há pessoas que não se incomodam com o cachorro de costelas de fora. Hoje, no Brasil, aqueles que ainda se indignam são tratados por “dinossauros”, “viúvas do socialismo”, como se a indignação com a miséria humana fosse só uma opção ideológica”, diz Maia, dramaturgo que, coincidentemente, volta a atuar 20 anos após a montagem de outro texto de Cabrujas, “Ato Cultural”.

“Não vivemos época de ruptura, mas de acomodação”, diz o diretor Marco Antonio Rodrigues.

Na encenação, a conhecida verve musical do Folias (de “Cantos Peregrinos”, por exemplo) reveza com a farsa que avança em dois atos, num espaço cênico dominado pelo branco. As portas do galpão são abertas ao fundo da cena, arejando realidade.

“Não somos tangueiros na essência, somos mais samba, xaxado, baião. A dança está mais para gafieira. Importa o espírito marginal do tango, não-europeizado, do início da carreira de Gardel”, diz o ator e diretor musical Dagoberto Feliz, no papel do próprio.

É uma peça de perspectiva humanista, diz Dorgan. “Não se trata de perda das utopias, mas de como a mídia e os retratos social, econômico e cultural da América Latina nos afastam delas e nos impingem outros valores.”



El día que me queiras
Com: Bruno Perillo, Demian Pinto, Flávio Tolezani, Patrícia Barros, Simoni Boer, Val Pires, Imyra Santana, Bira Nogueira e outros. Onde: Galpão do Folias (r. Ana Cintra, 213, Santa Cecília, tel. 3361-2223). Quando: estréia hoje, para convidados; qui. a sáb., às 21h; dom., às 20h; até 31/7.

Folha de S.Paulo

A terceira margem do rio

22.2.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

TEATRO 
Teatro da Vertigem escolhe trecho do Tietê, em SP, como espaço alternativo para a montagem de sua quarta peça

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Quem segue pela marginal Tietê, a via nem sempre expressa de São Paulo, muitas vezes não se dá conta do rio à esquerda. Na próxima primavera, motoristas e passageiros terão a chance de inverter as coisas e olhar a cidade da perspectiva de quem navega em águas desaceleradas, espectador insólito das cenas que o grupo Teatro da Vertigem pretende criar em barco, plataformas, pontes ou bordas -onde der.

Em seus 12 anos, o Vertigem já converteu em palco igrejas, hospitais e presídios. Agora, um trecho do rio Tietê, na zona norte, entre o complexo do Cebolão e a foz do rio Tamanduateí, antes da ponte das Bandeiras (cerca de 11 km), poderá servir como espaço não-convencional para o espetáculo.

A proposta surgiu há sete meses, durante incursões do projeto “BR3”, que interagiu com o distrito paulistano de Brasilândia (zona norte) e viajou até as cidades de Brasília (Distrito Federal) e Brasiléia (Acre), num mergulho sobre conceitos de identidade e território deste gigante Brasil.

Esboçada, a idéia conquistou o apoio de órgãos ou entidades que se ocupam do Tietê: a ONG S.O.S. Mata Atlântica, o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado (DAEE) e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Amanhã, o assunto será debatido na sede do Vertigem, com representantes das instituições e do grupo.
 


Após “Apocalipse 1,11”, grupo cria espetáculo baseado em viagem por Brasília, Brasiléia e Brasilândia



Durante a ocupação e expedição do “BR3”, os artistas se depararam constantemente com o elemento água e suas variantes: depósito de dejetos (os córregos em Brasilândia), fonte de lazer e umidade (o lago Paranoá, em Brasília) e meio de transporte fundamental para a população e comércio (o rio Cuiabá na passagem por Mato Grosso, o rio Acre cortando Brasiléia e o rio Madeira beirando Porto Velho, em Rondônia).

Na base do “BR3”, calhou também o cruzamento entre arcaico e moderno, primitivo e contemporâneo. “No momento, existe todo um processo de revitalização, de salvamento, de despoluição, mas, concretamente, o Tietê é um rio morto pela civilização; não tem peixe, é praticamente um esgoto a céu aberto”, diz o diretor Antônio Araújo, 38. Instiga-o trabalhar com um elemento natural dentro de uma megalópole que se contradiz na relação com a natureza.

DeslocamentoOutro fator é propiciar ao espectador um espelho do que foi a viagem por meio do deslocamento. Araújo fala em trajeto fluvial que represente o cruzamento das localidades percorridas no “BR3”.

A dramaturgia processual de Bernardo Carvalho, escritor e colunista da Folha, já contempla isso. “Quando voltamos da viagem, não queria fazer uma espécie de ilustração de cada lugar. Desejava uma história que fosse um pretexto para a gente falar dos outros lugares”, diz Carvalho, 44, que escreve seu primeiro texto para o teatro. Ainda não o batizou, mas deve concluir a primeira versão em março.

O grupo só quer comentar a história quando estiver pronta.

Não faltarão, porém, observações sobre o conflito do homem contemporâneo com sua dimensão espiritual.

“É curioso: a sociedade brasileira não é, mas o Estado deveria ser laico. Há um crucifixo no cenário da Câmara dos Deputados, numa capital construída por um comunista [Oscar Niemeyer] dentro de uma perspectiva de arquitetura totalmente moderna. É estranho, mas o país é totalmente dominado pela religião”, diz Carvalho, que, a contragosto, cedeu aos afluentes do sagrado e do profano como conseqüência da pesquisa.

Semanas atrás, quando o grupo fez a primeira viagem no trecho escolhido do Tietê, a bordo de uma lancha, notou que a instabilidade sobre as águas mexe com os sentidos do olhar, da audição, do olfato (possivelmente, o público receberá máscaras). Brecha para um estado alterado de consciência. Como nos espetáculos anteriores do grupo teatral, o Vertigem almeja que o espectador modifique a sua percepção quanto ao lugar “redescoberto”.

Por enquanto, o grupo mantém os pés no chão. Expõe agora um desejo, mas sabe que ainda há muito por fazer -e obter. A lista para infra-estrutura é extensa: transporte até a marginal, segurança, barcos para elenco e público, plataformas adaptadas etc.

Os custos podem ultrapassar a soma da produção da “Trilogia Bíblica”, conforme estima o técnico Guilherme Bonfanti, responsável pela criação de luz. Um desafio para um grupo que conta somente com uma última parcela (atrasada) da Lei de Fomento à Cultura e tem a montagem inscrita em leis de incentivo.

“O projeto tem uma proporção maior em relação ao que a gente já fez”, diz Bonfanti, 48, que torce pela sua viabilização.

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 19 de fevereiro de 2005

TEATRO 
Chega a SP montagem do grupo mineiro de texto de Philippe Blasband -obra já fora adaptada ao cinema em 1999

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Eles vão ficando, na acepção juvenil do termo, mas são traídos pelo sentimento amoroso. Maduros, um homem e uma mulher combinam que é só sexo. Não sabem seus nomes, idades, profissões, endereços etc. Aos poucos, evoluem para as demandas típicas dos seres enamorados.

Ninguém deseja impunemente, subentende-se em “Uma Relação Pornográfica”, o texto do iraniano Philippe Blasband, 40, radicado na Bélgica. A primeira montagem brasileira da peça estreou ontem no teatro Ruth Escobar com o grupo Encena, de Belo Horizonte, para temporada de duas semanas.

Blasband primeiro escreveu um roteiro para cinema dirigido por Frédéric Fonteyne em 1999 e exibido no Brasil. A peça veio depois.

“É uma proposta indecente que se transforma numa relação amorosa”, diz o diretor Wilson Oliveira, 48, um dos fundadores do Encena, há 20 anos.

Uma mulher (Christiane Antuña) busca acompanhante nos classificados de jornal. Encontra um homem (Ivan Reis) para realizar a fantasia de transar com um desconhecido. O primeiro encontro acontece num bar. Depois de amenidades, ela é assertiva: “Reservei um quarto num hotelzinho simpático, virando a esquina”.

Esse pragmatismo aos poucos cede para nuanças de quem ama: idealização, orgasmo simultâneo, mas também imperfeições.

A estrutura do texto oscila diálogos no passado, que equivalem ao durante, e no presente, o depois. O olhar retrospectivo como que tenta assimilar o arco da atração à ruptura.

Além da própria “rasteira” que levam do amor, como brinca Oliveira, Ele e Ela sofrem uma “intromissão de realidade”, quando um velho doente (Omar Jabur) invade o quarto e, súbito, desmaia. Eles o socorrem e, ao cabo, conhecem a mulher dele (Laura Cardoso, numa participação em vídeo). O retrato da relação desses corações combalidos parece intimidar os amantes.

Para interpor tempo e espaço, a encenação recorre à projeção em vídeo. São imagens que ora trazem a narrativa em off ora introduzem a velha senhora.

Os atores permanecem num espaço cênico fixo, cuja transição de tempo e lugar se dá por meio da luz ou mesmo dos figurinos. Apesar do título da peça, o autor não devassa a intimidade, apenas a sugere. Isso não impediu que o Encena, que vem pela primeira vez a São Paulo, por conta da Caravana Funarte de Circulação Regional, tivesse dificuldade em encontrar salas de teatro em Belo Horizonte. Duas delas, ligadas a entidades católicas, pediram a mudança do título. 



Uma relação pornográfica.
De: Philippe Blasband. Direção: Wilson Oliveira. Com: grupo Encena. Onde: teatro Ruth Escobar – sala Gil Vicente (r. dos Ingleses, 209, Bela Vista, tel. 3289-2358). Quando: sex. e sáb., às 21h30; dom., às 20h; até 27/2. Quanto: R$ 20.  

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

TEATRO 
Emanoel Araújo é pressionado em evento

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

“Vim aqui para aprender, para ouvir”, disse Emanoel Araújo ao abrir o debate sobre formas de financiamento à cultura, na noite de anteontem, em São Paulo. Cerca de 90 minutos depois, porém, o secretário municipal da Cultura chegou a gritar para se fazer ouvir diante dos 400 artistas de teatro, dança, circo, música, cinema e artes visuais que lotaram a galeria Olido, com capacidade para 300 pessoas. Muitos ficaram em pé e saíram “tristes, pessimistas” diante de suas declarações, como afirmou o representante da Apetesp, a associação dos produtores de teatro do Estado, Paulo Pelico.

“Tenha calma. Tivemos apenas um mês de trabalho. Pensa que sou o quê? Super-Homem, Homem-Aranha?”, respondeu Araújo a Pelico. O secretário irritou-se com a cobrança de parte da platéia dos pagamentos atrasados dos corpos estáveis do Teatro Municipal (cerca de 280 artistas, entre dançarinos, músicos e outros, aos quais Araújo se referiu várias vezes como “corpos instáveis”) e dos prestadores de serviço (um primeiro levantamento estimou as dívidas em R$ 16 mi).

“Não sou secretário das Finanças nem do Tesouro. Eu, inclusive, não devo a ninguém [referindo-se a compromissos da gestão anterior]. Se isso não agrada a vocês, não posso fazer nada. Se querem uma discussão democrática, têm que entender os dois lados.”

O secretário se queixou de que o encontro “pouco” tratou das formas de financiamento. “Se vocês querem discutir a corporação de ofício, não é aqui. Aqui se está envolvendo o governo numa discussão sobre leis de incentivo. Não adianta dizer que estamos devendo. Acho legítimas todas as considerações, mas não adianta me olharem como inimigo.”

A Folha apurou que a assessoria de Araújo, apesar de anfitrião, disse que o secretário “foi colocado numa armadilha” pelos organizadores do debate, o movimento Arte contra a Barbárie e a Cooperativa Paulista de Teatro.

Além de Araújo e Pelico, estavam à mesa o diretor regional do Sesc, Danilo Santos de Miranda, o consultor de patrocínio Yacoff Sarkovas, o diretor Luiz Carlos Moreira (Engenho Teatral) e o dramaturgo Aimar Labaki.

Várias intervenções da mesa e da platéia, ainda que breves, pontuaram questões como as “raquíticas” dotações da cultura nos Orçamentos municipal, estadual e federal; a distorção do dinheiro público pela iniciativa privada (“É preciso regulamentação para não confundir marketing como ação cultural”, disse Miranda); o “achatamento de cachês”; a programação dos equipamentos dos CEUs e a necessidade de mais políticas públicas, nas formas de programas ou fundos.

Teatro Municipal
Emanoel Araújo faz uma reunião hoje com o secretário adjunto, Francisco Almeida Ribeiro, integrantes dos Patronos do Municipal e críticos de música para tentar definir o nome do novo diretor artístico do Teatro Municipal.

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

TEATRO 
Estréia de Ignácio de Loyola Brandão na dramaturgia evoca mito argentino

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

O teatro sempre atentou Ignácio de Loyola Brandão, 68. Nascido em Araraquara (SP), como Zé Celso, ele dividiu pensão com o diretor do Oficina em São Paulo. Era espectador assíduo do Oficina e do Arena. Quando assistiu ao espetáculo “Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite” (1958), no Rio, saiu tão emocionado que dizia para si que um dia escreveria uma peça com o fôlego daquele clássico de Eugene O’Neill.

Depois de lançar 27 livros, o romancista, contista e cronista finalmente reata com o sonho da dramaturgia. Acaba de escrever sua primeira peça, “A Última Viagem de Borges”, uma evocação ao homem e à obra do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986).
A montagem de Sérgio Ferrara, com cenografia e figurinos da artista Maria Bonomi, estréia dia 17/3 no Festival de Teatro de Curitiba e entra em cartaz em 25/3 no Sesc Anchieta, em São Paulo.

Não é um texto biográfico, tampouco adaptação. Instigado por Bonomi e Ferrara, Brandão encontrou uma porta livre na obra de Borges para a recriação.

A partir das chaves da palavra e da memória, tão caras ao autor de narrativas como “História Universal da Infâmia”, “O Aleph” e “O Livro de Areia”, Brandão chegou à seguinte gênese: certo dia, Borges descobriu a palavra perfeita, aquela que contém todas as outras, tal o Aleph, acesso infinito aos fatos e circunstâncias do mundo; mas, da mesma forma que encontra a palavra-mor, Borges a perde, a esquece, e o único lugar no qual pode tentar reavê-la é a Biblioteca de Babel.

“As palavras são astuciosas e armam ciladas para nos desafiar. A minha palavra fugiu. Escapou e se ocultou. Eu a construí durante um longo tempo com sílabas articuladas cheias de ternuras e temores”, diz o personagem Borges (Luiz Damasceno), emparelhado com o escritor do conto “A Biblioteca de Babel”.

Em plena maturidade, Borges decide então partir em busca da palavra perdida. A sua mulher, María Kodama (viúva na vida real, personagem interpretada por Flávia Pucci), entende a demanda espiritual, existencial, mas teme por uma viagem sem volta. Respeita-o, no entanto. Deixa-o partir em seu caminho solitário.

Para acompanhá-lo na expedição, Borges escolhe três nomes entre personagens e autores que o marcaram para sempre: o aventureiro inglês “sir” Richard Francis Burton (1821-1890), tradutor de “As Mil e Uma Noites” (interpretado por Fernando Pavão); a sedutora Sherazade (Pucci), contadora de histórias; e Funes (Olayr Coan), aquele que contém em si a memória de todas as coisas e nutre certo ódio pelo seu criador, Borges, que o deixa paralítico sobre uma cama no conto “Funes, o Memorioso” (na peça, surge em cadeira de rodas).

Há um quarto agregado, o jovem guia de Borges (Rodrigo Bolzan), “olhos e movimentos” do escritor cego, espécie de Tirésias, o adivinho das tragédias gregas.

Tal qual Homero ou Gulliver, Borges cumprirá uma rota plena de obstáculos, saindo de Buenos Aires. Brandão joga com o duplo, com espelhos, labirintos -recursos borgeanos.

Para Ferrara, “A Última Viagem de Borges” carimba auto-conhecimento no rito de passagem. “Enquanto ele acha que a palavra que busca é só dele, fica desconectado do mundo. Na hora em que entende que a palavra é comum a todos, aí entra em contato com o cosmos; aí ele pode morrer”, diz Ferrara, 37, que teve apoio do diretor Fauzi Arap no projeto.

Sobre a contemporaneidade do homenageado, Maria Bonomi, 69, fala em “abertura ao mistério”, em “transformação do olhar”.

“O possível e o impossível estão extremamente trançados. Em Borges, a imaginação torna-se uma forma conhecimento. Ao recolocar as questões do destino do homem, ele não substitui a intuição, a paixão e o lúdico na grande aventura que é a vida”, diz a cenógrafa, que já trabalhou com Antunes Filho, Flávio Rangel, Ademar Guerra e agora volta a trabalhar com Ferrara (“Tarsila”).

Para “tocar o intocável no tempo-espaço lúdico”, Bonomi lança mão de projeções. As imagens de filmes (“O Espelho”, do russo Andrei Tarkovski, por exemplo) e quadros (o argentino Xul Solar, o belga Magritte) bailam entre palavras no universo sideral.

“Será um espetáculo muito sensorial. As pessoas vão perder a respiração. Como se pegássemos o público pelas mãos e disséssemos: feche os olhos que nós vamos pular.”

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

TEATRO 
Monólogo é inspirado em romance de Machado de Assis

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

O mais recente Machado de Assis (1839-1908) convertido para o teatro estréia amanhã depois de cumprir o seguinte ciclo: um professor canadense que vive em Londres leu a tradução em inglês do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, adaptou-o na forma de monólogo e este, finalmente, foi trazido de volta à língua-mãe por um diretor brasileiro, ex-aluno do professor.

Powell Jones, 70, conheceu o clássico no início dos anos 2000, pelas mãos do paraense Zadoque Lopes, então estudante de arte dramática no City Lit Institute, em Londres. Primeiro, fez adaptação para uma peça radiofônica. Depois, trabalhou na versão para o palco, “Brás Cubas, Últimas Palavras”, que ganha temporada no teatro Fábrica São Paulo.

“O Machado tem uma coisa bem inglesa: a ironia, o humor, o escracho que instigam e fazem pensar”, diz Lopes, 39. É sua primeira direção no Brasil após 13 anos na Inglaterra. Quem interpreta o espetáculo é Éderson José, que também estudou em Londres, onde conheceu Lopes.

Enquanto aguarda o próprio funeral, Brás Cubas narra a sua história para a platéia. Rememora a família, as paixões, em especial a musa Virgília e o amigo Quincas Borba. “A peça é fiel ao romance”, diz Lopes. “Vejo o personagem Brás Cubas em vários setores da sociedade, uma pessoa extremamente egocêntrica e universal.”

Foram apenas cinco semanas para montagem do espetáculo. Apesar do tratamento realista da encenação, a cenografia (Paula di Paoli) traz elementos surrealistas: “Uma cama com cabeça e pernas de hipopótamo”.
No final dos anos 90, São Paulo também assistiu ao solo “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, com Cássio Scapin no elenco e direção de Regina Galdino.



Brás Cubas, últimas palavras

De: Machado de Assis. Adaptação: Powell Jones. Direção: Zadoque Lopes. Com Éderson José. Onde: teatro Fábrica São Paulo (r. da Consolação, 1.623, tel. 3255-5922). Quando: estréia amanhã, às 21h; sex. e sáb., às 21h; dom., às 20h; até 1º de maio. Quanto: R$ 25.

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 09 de fevereiro de 2005

TEATRO 
Felipe Hirsch e Daniela Thomas assinam dois espetáculos em homenagem ao artista, “Avenida Dropsie” e “Sketchbook”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Um edifício de dois andares e 7,7 metros ganha corpo no número 55 da avenida Dropsie, no palco do Teatro Popular do Sesi. Pelo espaço dessa via urbana fictícia transitarão cerca de 120 personagens, passageiros da obra do norte-americano Will Eisner (1917-2005), o mestre das histórias em quadrinhos.

Em nova parceria do diretor Felipe Hirsch com a cenógrafa Daniela Thomas, a Sutil Companhia de Teatro (de “Os Solitários” e “A Morte de um Caixeiro-Viajante”) homenageia o artista que sempre lhe serviu como referência (pensamento, tempo, espaço) e agora salta ao primeiro plano com duas peças de uma vez, “Avenida Dropsie” e “Sketchbook” -projeto que, segundo Hirsch, veio à luz antes da morte de Eisner, no mês passado, aos 87 anos.

“Avenida Dropsie” entra em cartaz no próximo dia 25 com a ambição de verter para o teatro as idéias que perpassam algumas das célebres “graphic novels”, romances gráficos do autor, como “Nova York: A Grande Cidade” (1987), “City People Notebook” (1989), “Pessoas Invisíveis” (1992) e “Avenida Dropsie – A Vizinhança” (1995), esta uma remissão ao endereço comum a várias de suas histórias.

Segundo Hirsch, não se trata de mera apropriação da linguagem dos quadrinhos em interpretação, cenografia, iluminação e demais elementos de cena.

“Apesar do humor, da ironia, é um Will Eisner mais dark, realista, preto-e-branco, ao contrário daquela visão mais romântica que a maioria das pessoas tem dele”, diz Hirsch, 32. “Não é uma obra pessimista. Sua base é otimista, mas traz constantemente uma doença, um tumor social, um questionamento.”

Oito atores interpretam pessoas comuns que habitam o centro urbano e costuram sentimentos de despedida, de solidão, de injustiça, enfim, obstáculos que, ainda assim, não demovem alguns de ir atrás dos possíveis “pequenos milagres” da vida.

“A gente sempre viu a obra do Eisner por meio desses olhos curitibanos, do universo gótico, nostálgico e melancólico. É a nossa referência do sul. Aprofundamos isso no espetáculo”, diz o ator Guilherme Weber, 30, um dos fundadores da Sutil, há 11 anos, e invariavelmente co-criador das montagens com Hirsch e a atriz Erica Migon. Também estão no elenco Magali Biff, Roney Facchini, Joelson Medeiros, Maureen Miranda, Leonardo Medeiros e Paulo Alves.

A palavra é âncora em vários momentos, quer na boca dos personagens, quer projetadas em um filó (tecido) à frente do palco, com os títulos de capítulos do roteiro montado por Hirsch ou mesmo reflexões de Eisner, um humanista da arte seqüencial.
As paredes do edifício cênico são transparentes. A luz dá vazão ao seu interior e ao painel de fundo, no qual Eisner desenhou sua Nova York natal.

Na concepção, “Avenida Dropsie” recua um tanto da narrativa de memória, recurso que pontuou os últimos trabalhos da Sutil. Aqui, predomina a ação no presente, ainda que a ferramenta da memória deixe as mãos de Hirsch e vá para as de Eisner, evocado em breves intervenções por meio de voz em off, provavelmente a do ator Gianfrancesco Guarnieri.

“Somos bastante fiéis ao Will Eisner, ao mesmo tempo em que fazemos nossa leitura. Lógico, existem os puristas dos quadrinhos, que são piores que os shakespeareanos, mas acho que eles ficarão felizes”, diz o diretor.

A versão mais autoral, por assim dizer, estará em “Sketchbook”, que estréia duas semanas depois no Popular do Sesi (10/3), com temporada às quartas e quintas-feiras.

Equipe e elenco repetidos, o espetáculo é como que um “lado B” de “Avenida Dropsie”, com esboços da montagem que entra em cartaz daqui a 16 dias.

De acento mais experimental, tal caderno de rascunho, “Sketchbook” trará cenas que não deram certo; cenas que deram certo demais, mas trilharam outros caminhos, e personagens que se recolocaram. “A minha idéia é trabalhar com uma lista de cenas e invertê-la a cada apresentação, entregá-la aos atores 15 minutos antes”, diz Hirsch, que tentará “”outras sensações emocionais” sem acabamento, sem tela, sem grafismo, luz reprogramada e por aí afora. Um pouco de raciocínio embaralhado.



Avenida Dropsie.
 Onde: Teatro Popular do Sesi (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/3146-7406). Quando: estréia dia 25/2, às 20h; sex. e sáb., às 20h; dom., às 19h. Quando: entrada franca (retirar ingressos com uma hora de antecedência). Até 5/6.

Sketchbook. Onde: Teatro Popular do Sesi. Quando: estréia dia 10/3; qua. e qui., às 20h. Quando: entrada franca (retirar ingressos com uma hora de antecedência). Até 2/6.