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Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 02 de outubro de 2004

TEATRO 
Inês Aranha encena no Ágora tragédia de Ésquilo 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A sedução pelo poder está na gênese das tragédias. Isso não era tão elementar há 2.500 anos, quando a democracia venceu a tirania na Grécia.

Tido como “o pai das tragédias”, por introduzir o diálogo e o coro, o poeta Ésquilo cravou em “Sete contra Tebas” mais um tento da desesperança característica de seu teatro. É a história da disputa de governo por dois irmãos. Eles vão à guerra, matam-se e levam de roldão os seguidores. A cidade é empapuçada de sangue pois fora conduzida assim por seres gananciosos.

Sintomático que uma nova montagem de “Sete” vá ao cartaz hoje, véspera de eleições. “Os candidatos se digladiam, mas os contribuintes, os cidadãos, são sempre os últimos contemplados”, diz a atriz e bailarina Inês Aranha, 38, que assina o novo espetáculo em temporada no Ágora. Ela diz que a data da estréia foi escolhida ao acaso. Com formação na Itália, ela já foi dirigida por Roberto Bacci, Antunes Filho, Eduardo Tolentino de Araújo e Roberto Lage.

“Sete” resulta de dois anos de trabalho da diretora com um conjunto de atores-criadores então integrantes da recém-nascida cia. Areópago. No palco, seis atrizes e três atores passam o tempo todo em cena. Aranha elege o coro como eixo do espetáculo. É a partir dele que desponta Etéocles, que governa Tebas e não quer largar o cargo, rompendo acordo com o irmão Polinices. Este arregimenta um exército estrangeiro para tomar as sete portas da cidade, ao lado de outros seis generais.

Na concepção de Aranha, o enredo que culmina em terror é apoiado na “partitura” de ações físicas, ainda que sob a estrutura narrativa. Não há, diz ela, cena da guerra com tratamento cinematográfico. A opção é por uma simbologia “tribal”, a condição animal dos protagonistas, com excertos africanos e indígenas presentes na cenografia e nos figurinos criados por Adriana Vaz.

O espetáculo partiu do texto traduzido pelo pesquisador Donaldo Schüler. A dramaturgia ganhou tratamento de Maucir Campanholi e de Inês Aranha.

Foi agregada a figura do rei Creonte, com ênfase na passagem em que o mensageiro comunica que o corpo de Etéocles será enterrado como herói, enquanto o de Polinices será expatriado.

Também foi pinçado trecho euripidiano de “As Fenícias”, quando Jocasta discorre sobre a amaldiçoada sina familiar. Chave para contextualizar o espectador: Etéocles e Polinices são filhos de Édipo, aquele que matou o pai, Laio, depois que identificou na esposa, Jocasta, a sua mãe. Tudo por contrariedades aos oráculos. Tudo por contradições humanas na pólis de ontem e de hoje.
 



Sete contra Tebas.
De: Ésquilo (525-456 a.C.). Tradução: Donaldo Schüler. Direção: Inês Aranha. Iluminação: Carmine D’Amore. Com: cia. Areópago (Alessandra Esteves, Bia Toledo, Claudia Campos, Gabriela Lois, Manfrini Fabretti, Rene Ramos, Sun Ra, Tieza Tissi e Venâncio Mortez). Quando: estréia hoje, às 21h; sáb., às 21h; dom., às 20h. Onde: teatro Ágora (r. Rui Barbosa, 672, tel. 3284-0290). Quanto: R$ 15. Até 12/12.

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 30 de setembro de 2004

TEATRO 
Grupo dá início hoje ao evento de 78 horas de atividades em comemoração dos seus 15 anos de existência

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Mal terá passada a alvorada, nas primeiras claridades de sexta-feira, e virá o sarau com textos do marquês de Sade (“Os 120 Dias de Sodoma”, “Justine”).

Na madrugada de domingo, o casal de velhinhos de Eugène Ionesco (“As Cadeiras”), isolado num farol, aguardará em vão os convidados aos quais pretende transmitir mensagem de salvação da humanidade. Metáfora a calhar com as horas que antecedem a visita obrigatória às urnas.

A 15ª edição do evento “Satyrianas – Uma Saudação à Primavera” instaura “fuso horário” à parte na praça Roosevelt, no centro, sede da cia. Os Satyros. De hoje a domingo, são estimadas pelo menos 78 horas de atividades, dia e noite, instadas a comemorar os 15 anos da trupe e instigar reflexões (inf.: site www.satyros.com.br).

Além do teatro (leituras e encenações), haverá simbiose com poesia e música. A abertura, hoje, às 18h, reativa a rádio Livre Satyros (em 88,7 FM), que transmitirá o evento. Na seqüência, será encenada “A Voz do Povo É a Voz de Zé”, a partir dos contos do pernambucano Marcelino Freire, com direção de Alberto Guzik.

Freire e outros escritores ou poetas participarão de “cafés literários” e “crepúsculos poéticos”. Entre eles: Marcelo Mirisola, Nelson de Oliveira, Evandro Ferreira, Juliano Garcia Peçanha, João Silvério Trevisan, Ronaldo Bressane, Joca Reiners Terron, Fábio Weintraub e Glauco Mattoso.

O poeta Ademir Assunção emendará versos ao vozeirão do cantor e compositor Edvaldo Santana, parceiro recorrente.

A senhora praça Roosevelt, convertida em personagem nos últimos tempos, mobiliza mesas-redondas sobre o amor público e privado ou, ainda, sobre a paixão pela arte do teatro.

O dramaturgo Sergio Salvia Coelho, crítico da Folha, estréia no Satyrianas “Amor: Modo de Usar” (sáb. e dom., às 23h).

Coelho também dirige o solo interpretado por Pagu Leal, que inspira o enredo: atriz curitibana chega a São Paulo para uma palestra definitiva sobre o amor “e esclarece aquela questão que nos intriga a todos, ou seja, como a inescrutabilidade da referência está implícita no relativismo cognitivo das teorias do holismo semântico”. Segundo o autor, a confusão definitiva de todas as certezas é proposital.

Ao todo, serão lidas ou encenadas duas dezenas de peças, como “Transex”, “A Filosofia na Alcova”, “O Encontro das Águas” (as três já em cartaz), “O Homem que Queria Ser Rita Cadillac”, “Análise Comportamental e Crítica da Música Eduardo e Mônica” e “Natureza Morta”.

No domingo, haverá homenagem ao ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, 70, de “Eles Não Usam Black-Tie”, “Gimba”, “A Semente” e “Um Grito Parado no Ar”, entre outras peças que reafirmaram a dramaturgia nacional nos anos 50, 60 e 70.

Folha de S.Paulo

Epopéia de um esteta

18.9.2004  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 18 de setembro de 2004

TEATRO 
Encenador italiano Gianni Ratto, no Brasil há 50 anos, é tema de documentário

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Em 1954, Gianni Ratto deixou a Itália movido por duas paixões: o teatro e as mulheres.

“Ele veio por amor a Luciana [Petrucelli, figurinista com quem viajou para o Brasil, mas depois ela voltou]”, afirma uma das suas ex-mulheres, Kati de Almeida Braga, mãe de Antonia Ratto, co-diretora de um documentário sobre o pai .

A declaração está no longa-metragem “Gianni Ratto” (título a ser confirmado), confluência da vida e da obra do diretor e cenógrafo de 88 anos, casado com a socióloga Vaner Maria Birolli Ratto.

Ele é remanescente da geração de italianos que chegou entre os anos 40 e 50 e ajudou a esquadrinhar a modernidade do teatro brasileiro (Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi etc).

Quando saiu da Itália, há 50 anos, Ratto já era um respeitado cenógrafo no meio da ópera e do teatro. Trabalhou com Giorgio Strehler (1921-97) e Paolo Grassi (1919-81), fundadores do Piccolo Teatro de Milão. Fez criações para montagens com a cantora de ópera Maria Callas, por exemplo.

“O Gianni Ratto nos deu essa consciência cultural e educacional do teatro”, diz Fernanda Montenegro, que foi dirigida por ele na mocidade.

O filme procura alinhavar a condição de esteta do homem que aprendeu a captar o belo numa obra de arte, mas também numa flor, num animal. “A beleza é uma meretriz que se entrega facilmente a santos e assassinos”, escreveu no livro de memórias “A Mochila do Mascate” (1996), uma das referências do roteiro da dupla Antonia e Gabriela Greeb, que encabeça a direção do documentário,

“Gravamos pelo menos duas seqüências, uma com uma criança lendo o livro dele e outra noturna, com uma mulher nua, fora de foco. São metáforas estéticas para momentos de silêncio”, diz Greeb, 37, que assina seu primeiro longa-metragem, depois de curtas como “A Ilusão” e “Floreados do Repique”.

O próprio Ratto é o narrador, por assim dizer. “É um filme com ele, não sobre ele”, diz Antonia, 27, que estréia no cinema. Segunda dos três filhos do encenador, ela tem formação em design gráfico; no teatro, fez assistência para Denise Stoklos no espetáculo “Calendário da Pedra”.

O filme
O documentário abre com reunião de amigos e familiares nos 87 anos de Ratto, em 27 de agosto de 2003, na casa do bairro paulistano do Pacaembu. Na ocasião, o pianista Achile Picchi executa uma rara partitura que a mãe do encenador, Maria Ratto, criara nos anos 50. Segue-se uma viagem que casa depoimentos de amigos e do próprio Ratto, numa perspectiva que dispensa cronologia e joga com fusões de imagens do mar. O agito ou mansidão das ondas sempre o seduziram.

Afinal, foram 14 dias em navio, do terminal de Crociere, em Gênova, até o cais da praça Mauá, no Rio de Janeiro, ou o porto de Santos, destinos finais naquele janeiro de 1954.

O documentário como que refaz a travessia. Acompanha Ratto ao terminal de Crociere. Testemunha encontros carregados de afetividade. Um café com os amigos Nino e Luciano, com os quais prestou serviço militar numa Itália sob regime fascista.

Conversa com o primo Corrado, que não via há meio século e com o qual compartilha uma carta, emocionado. Vai ao colégio de padres onde estudou. Recebe o beijo e o sorriso maroto do comediante Dario Fo, no intervalo de um ensaio.

Ouve as lembranças sinceras de Nina Vinchi Grassi, 94, diretora-artística do Piccolo, sobre as parcerias nos primeiros anos do teatro fundado em 1947.

Edifícios como o Piccolo e o Alla Scalla, ambos em Milão, e o Carlo Felice, em Gênova, são revisitados pelo homem que cultivou ali intimidade com a arquitetura cênica. “Não existe cena tão importante quanto o palco vazio. A partir daquele momento, tudo pode acontecer”, afirma Ratto na película.

Ainda que, no fundo, entenda como o edifício “ideal” a praça pública, como aquela do Jardim de Boboli, em Florença, onde participou da montagem de “A Tempestade”, de Shakespeare, por Strehler.

No filme, Ratto surge no mesmo local, a descrever o cenário que o marcou porque integrado à paisagem formada por lago, árvores, esculturas e uma fonte.

Artesão do teatro
Salto para o Brasil. Depoimentos de Maria Della Costa, que conheceu Ratto durante viagem à Itália, com o marido e empresário Sandro Polloni, e o convidou para dirigir “O Canto da Cotovia”, de Jean Anouilh.

Ratto se distinguia porque não se fixava apenas nas inflexões de voz para os atores, mas em sugestões mais construtivas para os personagens, como confessa um dos participantes da roda de veteranos do grupo carioca Teatro dos Sete (1959-66), reunidos especialmente para o filme.

Outras vozes vão compondo o perfil desse artesão do teatro que não gosta de ser tratado por mestre: Millôr Fernandes, Tatiana Memória (do extinto grupo Teatro Novo, que Ratto também dirigiu no Rio), Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Lauro César Muniz, Eduardo Tolentino, Celso Frateschi, Umberto Magnani, Marcos Caruso, Ariclê Perez, Kalma Murtinho, Ariela Goldmann etc.

Com produção da Homemadefilms (recém-criada por Greeb) e da Tibet Filme, “Gianni Ratto” teve patrocínio inicial da Petrobras e agora capta recursos para finalização. Deve estrear em 2005.

“Eu comi muito teatro na minha vida”, deixa escapar Gianni Ratto, sentado numa cadeira de rodas (uma neuropatia afeta movimentos das mãos e dos pés, o que não o impede de andar). A frase e a cena foram gravadas justamente quando estava dentro de um teatro italiano.

A fome de teatro continua. Há pouco, criou a iluminação (ele é um faz-tudo!) da premiada montagem de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, texto de Bosco Brasil. E segue na curadoria do projeto Formação de Público da Secretaria Municipal da Cultura, em São Paulo.

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 16 de setembro de 2004

TEATRO 
Atriz troca arrebatamento por imobilidade no “sussurante” espetáculo solo “Olhos Recém-Nascidos”, com estréia sábado

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O público afeito aos solos da atriz que passou 35 anos recriando tempo e espaço no palco, com arrebatamentos corporais ou vocais, vai deparar com uma Denise Stoklos em exercício de quietude.

“É um espetáculo meio etéreo, como se fosse música new age, meio mantra”, diz ela sobre o novo trabalho, “Olhos Recém-Nascidos”, no qual busca outro registro de atuação.

Na montagem, que estréia no sábado e ocupa a faixa do público adolescente no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo (às 16h), Stoklos passa o tempo todo sentada atrás de uma mesa.

“Faço apenas cinco movimentos. Neutralizo qualquer possibilidade de teatro para ficar numa tábula rasa e ver onde esse trampolim vai me levar”, diz.

Stoklos, 54, define o espetáculo como um rito de passagem. Quer abraçar outras formas para lidar com questões que o ofício calejou, lá se vão 12 solos. Diz ter abandonado aquilo que a qualificava.

Recorda que houve tempo no Brasil, nos anos 60 e 70, em que as possibilidades de mudança passavam pela luta armada, pela guerrilha. Na esteira da globalização, a atriz deposita suas forças no contato com o outro.

Deseja desvencilhar-se da autobiografia, ainda que incorpore o “eu” para, espera, transformar-se em espelho. Que o público percorra o caminho da intérprete em cena e descubra o seu. “Resulta como se eu sussurrasse no ouvido de cada um”, diz.

Essa espécie de intimidade tem lá um fundo pedagógico a conferir com o público-alvo. “Olhos Recém-Nascidos” discorre sobre perdas, mortes, ganhos e vida. Toca em assuntos tabus. A sociedade contemporânea, de consumo supra-sumo, não tem tempo, foge da condição de finitude das coisas, pessoas, sentimentos etc.

Para falar da despedida do antigo, próprio ou alheio, e da abertura para “a potência de energia”, Stoklos tenta se esquivar de hermetismos no texto que escreveu sob consultoria de dramaturgia de Piatã Stoklos Kignel, 24, o filho caçula.

“Fisicamente, digo que é meu espetáculo mais difícil, porque a projeção que faço de mim mesma em cena exige muito mais do que fazer o gesto em tempo interior. Não fico sentada descansando; ao contrário, tudo está em tensão no corpo”, diz.
A cenografia abre espaços mínimos para inserções de imagens (vídeo e fotografia, por Thais Stoklos Kignel, 26, filha). “Não é um espetáculo seco, mas úmido”, diz Stoklos.

Como nos solos anteriores, encaixados no escaninho do “teatro essencial”, centrado no trabalho de ator, não é perceptível a construção de um personagem. Talvez ele nem exista. Sabe-se que é Denise Stoklos pela exímia colocação corporal, ela que é especializada em mímica.

“Não é ficção, mas fricção o que me interessa na relação com a platéia. O ator é apenas a antena, não é o ego dele. O “eu” é o “eu” da platéia.” 



Olhos recém nascidos.
Texto, direção, coreografia, sonoplastia, iluminação e interpretação solo: Denise Stoklos. Figurino: Karlla Girotto. Onde: Teatro Popular do Sesi – sala Osmar Rodrigues Cruz (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/3146-7405). Quando: estréia sáb., dia 18/9, às 16h; sáb. e dom., às 16h). Quanto: entrada franca.

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 16 de setembro de 2004

TEATRO 
Artistas passam duas semanas em aldeia, no Mato Grosso, para montar peça que será apresentada em oca no Sesc

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Vestindo informalmente um macacão cáqui, sobre camiseta branca, o bem-humorado encenador francês Jean Lambert-Wild destoa do cenário administrativo de um prédio na avenida Paulista e parece preparado para a aventura à qual se propõe.

Desde ontem, ele e alguns artistas da sua trupe, a Cooperativa 326, estão na aldeia Etêñiritipa, dos índios xavante de Pimentel Barbosa, no Mato Grosso.

A equipe vai passar ali duas semanas, período em que ganhará formato o espetáculo “In My Dream, I Start Walking” (“Em Meu Sonho, Começo a Andar”), que tem pré-estréias programadas para 1º a 3 de outubro na oca instalada provisoriamente no Sesc Belenzinho, em São Paulo.

Trata-se de um braço do projeto “Metamorfoses”, que será mostrado em 2005 no Festival de Teatro de Avignon, dentro do Ano do Brasil na França.

No centro da aldeia
Lambert-Wild encontrou os xavante pela primeira vez em 2002. Relatou seu sonho de trabalhar com eles. Foi aprovado pelo “wara”, palavra que designa ao mesmo tempo o centro da aldeia e o conselho no qual os índios tomam decisões.

“Pode parecer idiota, mas há cerca de três anos sonhei que trabalharia num lugar do Brasil, cuja geografia desconheço. Cheguei à verdade simples, à inteligência “naif” dos xavante, que se tratam entre si como “homens da verdade”. Eles me aceitaram e vamos sonhar juntos”, diz Lambert-Wild, 32.

O discurso é subjetivo. “Os franceses são objetivos?”, devolve. “Talvez por isso eles aparentam tanta tristeza”, acrescenta.

E insiste. “Ainda se pode compartilhar um sonho na era dos sonhos de consumo?”, coloca o encenador que voltou da primeira visita à aldeia xavante considerando que aqueles índios são “guerreiros da poesia, por penetrarem o cosmos que não conseguimos”.

Reconhece que a melhor palavra para definir o projeto é “utopia”, o que condiz com a investigação artística da parisiense Cooperativa 326, voltada para as artes cênicas, visuais e musicais, da qual é diretor-artístico desde 1998.

Lembert-Wild nasceu na ilha Reunião, departamento ultramarino francês, e sente-se um “exilado na metrópole”.

Para conceber o que pretende uma instalação sonora, “um wara sonoro e poético”, o espetáculo inclui quatro integrantes da companhia, entre eles o músico e compositor Jean-Luc Therminarias.

Atuação indígena
Haverá participação de cinco xavantes (uma das primeiras apresentações de rituais fora da aldeia aconteceu nos anos 90, quando um grupo viajou até São Paulo para um evento ao ar livre no Sesc Ipiranga).

Lambert-Wild, sua equipe e os índios chegam ao Sesc Belenzinho no próximo dia 27. Devem trazer um roteiro comum. Juntam-se a eles, então, a atriz Simone Spoladore e o ator francês Stéphane Pellicia.



In my dream, I start walking –
Direção geral: Jean Lambert-Wild. Com: índios da aldeia Etêñiritipa em Pimentel Barbosa (Paulo Francisco Supretaprá, Josias Babati Xavante, Haroldo Waia Zasé Xavante, Tsahu Tuwe Xavante e Waatô Xavante). Quando: pré-estréias nos dias 1, 2 e 3/10, sex., sáb. e dom., às 21h. Onde: Sesc Belenzinho – oca (av. Álvaro Ramos, 991, Belenzinho, SP, tel. 0/xx/11/ 6602-3700). Quanto: R$ 15.

O Diário de Mogi

O Diário de Mogi – Domingo, 25 de outubro de 1998.   Caderno A – 4

Montagem da Cia. Folias D’Arte aposta na transformação pela ética

VALMIR SANTOS

São Paulo – De Fellini, o espírito libertário. Do brasileiro anônimo, a so­brevivênCia. Em ambos, enfim, a resistência. “Folias Fellinia­nas” chacoalha as bases do país, expõe suas chagas e imediata­mente celebra a ética, em todas as suas instâncias, como única possibilidade criativa e transfor­madora para os tempos que cor­rem.

Quem, afinal, em sã consci­ência, pode compartilhar da pre­gação rasteira de que “ética demais atrapalha”? Como exercer a cidadania com a bandeira do “rouba, mas faz”? “Folias Felli­nianas” questiona tudo isso sem xenofobismo de araque. Faz um grito de alerta para esse Brasil neoliberal e globalizado que vem invertendo absurdamente os mínimos valores. A fala de um dos personagens é suprassumo: “Integridade, em tempos de crise, é crime”.

A montagem da Cia. Folias D’Arte atualiza o engajamento do teatro brasileiro nos anos 70, quando o “inimigo”, o regime militar, era mais visível. O su­porte agora está fundado não exatamente na política, mas no ser humano, na figura dos mi­lhões marginalizados socialmente e, ainda assim, depositári­os de esperanças a perder de vis­ta.

Tampouco se prega o discur­so direcionado dos Centros Po­pulares de Cultura (CPCs), no auge da União Nacional dos Estudante (UNE). Os tempos são outros. No espetáculo, o conteúdo político-ideológico é emoldurado pela alegoria, pelo vôo dos artistas.

Evoca-se o espírito mambembe, a comédia de arte, o musical, a festa popular, a poesia cantada, o painel suspenso que retrata a história do povo como nos murais de Torres García, enfim, a maté­ria-prima é toda ela composta do ato de criar, de transcender para derrubar os “muros”, para “salvar o sonho”.

“Folias Fellinianas” cita Euclydes da Cunha, Castro Al­ves, Joãosinho Trinta, entre ou­tros, para reciclar as memórias vivas. Aqui, os personagens não têm identidade. O Diretor (Gui­lherme Sant’anna), a Produtora (Nani de Oliveira), a Jornalista (Patrícia Barros), o Brasil (Ro­gério Bandeira), o Velho (Valdir Rivaben), a Mãe (Saryda Anda­ra), o Rapper (Edgar Bustaman­te) e o Anjo Branco (Fernando Correa) patinam em suas pers­pectivas a curto, médio ou longo prazo.

Reunidos por acaso em tor­no da gravação de um filme, eles serão mobilizados pela pre­sença de Ninguém (Renata Zhaneta), um mensageiro incumbido de entregar cartas, a pedalar por aí em sua bicicleta.

O texto de Reinaldo Maia, gestado em processo com o elenco, concede a Ninguém o tesouro a ser cobiçado: a plenitude de uma ética pessoal coeren­te com o mundo que o cerca; uma fluência de viver em con­traste com o final de século acelerado. A saída está no indivíduo e não na nação.

Esclarecidas as partes, tem início a canibalização de Ninguém, alçado à condição de “santo” graças às visões que têm por conta de uma dor de cabeça intermitente, pela qual roga apenas uma aspirina – mas lhe receitam a “canonização”.

O circo de horrores, com tintas neo-realistas, apresenta desde números sensacionalistas, como as irmãs siamesas (na sugestão para acabar com a fome, uma come o que a outra defeca, ciclo da miséria), até culminar com a morte de Ninguém, queimado vivo tal qual o índio Galdino Jesus dos San­tos.

É um espetáculo que não dá um soco no estômago e nem rouba o chão do espectador. Simplesmente não ignora a história que passa diante dos olhos de quem está disposto a ver. Ao peneirar o passado para constituir seu presente com verdade, “Folias Fellinianas” estabelece uma ponte contundente, porque embalada com o talento dos seus artistas.

Renata Zhaneta está à von­tade no papel masculino de Ninguém. Arma a voz e o corpo com desenvoltura, é tranqüila na passagem interativa com a platéia. Extrai magia na relação com a bicicleta, curiosamente o veículo que equilibra o personagem no chão da razão ética.

Guilherme Sant’anna não fica atrás com seu Diretor histérico, ganhando a empatia instan­tânea do público. As demais atuações também envolvem com criatividade. Uma ressalva para Rogério Bandeira (Brasil), com matizes remanescentes de “Cantos Peregrinos”, o que limita as possibilidades mil do personagem.

Na estréia, quarta-feira passada, “Folias Fellinianas” ressentia-se ainda, aqui e ali, de um excesso de retórica no texto. São algumas reiterações, dico  tomias (bem x mal, solidários x mercadores da alma) que terminam por dispersar a atenção do espectador.

O que fica, porém, é a coerência estética e ideológica da Cia. Folias D’Arte e do seu diretor, Marco Antonio Rodri   gues. Como em “Verás Que Tudo É Mentira” (1994), depois em “Cantos Peregrinos” (1997), trata-se de um projeto que elege a arte popular, em sua excelência, como veículo de formação de um público de teatro mais crítico e, por extensão, de seres humanos mais dignos com seus papéis na sociedade.

 

“Sonhar, viver, criar”, esse é o espírito. Pode haver engajamento mais honesto?

Folias Fellinianas – De Reinaldo Maia. Direção: Marco Antonio Rodrigues. Direção Musical: Sérgio Villafranca. Cenografia: Fernando Monteiro de Barros. Figurino: Atílio Belline Vaz. Preparação corporal e circense: Mariana Maia. Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Aliança Francesa (rua General Jardim, 182, Vila Buarque, tel. 259-0086). R$ 10,00 (quinta) e R$ 20,00. Duração: 120 minutos. Até final de novembro. Apoio: Fundação Conrado Wessel.

Rodrigues dirige 4 peças

São Paulo – Com “Folias Fellinianas”, Marco Antonio Rodrigues soma quatro peças na atual temporada paulistana. Andrade (leia crítica abaixo)

O musical “Cantos Peregrinos”, de José Antônio de Souza, está em cartaz há um ano e meio, agora no Teatro Ruth Escobar, com a Cia. Folias D’Arte.

A comédia “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, de Plínio Marcos, que estreou há um ano, fica até hoje no Sérgio Cardoso, interpretada por 35 atores oriundos da Oficina Cultural Oswaldo de Andrade (leia crítica abaixo).

E a tragédia “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues é encenada por alunos recém-formados no Teatro-Escola Célia Helena, onde, permanece em cartaz.

“É uma coincidência feliz poder trabalhar com essa gente que praticamente forma uma família, no bom sentido”, diz Rodrigues. “Para nós o teatro nunca deixou de ser engajado”

 

A Cia. Folias D’Arte tem cinco anos. Entre as montagens anteriores destaca-se “Verás que Tudo é Mentira” (1994), de autoria de Maia. 


Senhora dos Afogados –
Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Escola Célia Helena (rua Barão de Iguape, Liberdade, tel. 279-0470). R$ 10,00. Até dia 15.

 

Cantos Peregrinos – Sexta e sábado, meia-noite. Teatro Ruth Escobar (rua dos  Ingleses, 209, Bela Vista, tel. 289-2358). R$ 3,00 (consumação mínima).

 

“Assassinato…” traz atores sem vícios

São Paulo – O circo fala alto no peito do dramaturgo Plí­nio Marcos, 61 anos. Ele que já foi palhaço e tem no pica­deiro a base para o fazer artísti­co. “Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica”, encerrou assim o seu célebre manifesto “O Ator”.

Em “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, dos textos mais recentes (1996), o autor de “Dois Perdidos Numa Noite Su­ja” (1965) retoma a defesa orgâni­ca do artista como ser em constante conflito com a sociedade em que vive.

Plínio sabe esquadrinhar o Brasil em que vive, O poder, em sua constatação mais medíocre, é representado pela prefeitura, pela justiça, pela mídia, na base da velha e viciada estrutura.

 

Do outro lado, a resistência humanista dos artistas. Aqui, re­presentados pelos ciganos do Gran Circus Atlas. São trapezis­tas, acrobatas, enfim, gente que trabalha sob lona e sobrevive da magia de encantar o público.

Essa dualidade na forma de olhar a vida ganha relevo na montagem do diretor Marco Antonio Rodrigues, com jovens das Oficinas Culturais Oswaldo de Andrade. O espetáculo estre­ou em janeiro e encerra tempo­rada hoje no Sérgio Cardoso.

 

Pelo caráter alegórico de “O Assassinato do Anão…”, um li­belo à arte do circo, Rodrigues tem a seu favor a energia com a qual o grupo de 35 atores pisa no palco.

São interpretações despoja­das e fundamentadas em pes­quisa cênica que leva em consi­deração o corpo como instru­mento crucial para desenhar personagens tão arraigados na cultura brasileira.

 

Fábio Ferretti (Dona Ciloca), Ireny Silva (Mãe Di), Nani de Souza (Zolá Manuche), Paulo Henrique (Macaco) e Denis Go­yos (Bicha Lili), para citar al­guns, têm seus personagens nas mãos. E são papéis no limite do estereótipo, felizmente recriados de acordo com o talento de cada um. (É louvável, por exemplo, a forma como Henrique coloca seu corpo e alma à disposição do seu Macaco, sem superficialidade).

 

O diretor costura a montagem com mão barroca. É minucioso na expressão dos atores, na ocupação harmônica do espaço, in­clusive no plano aéreo. A ceno­grafia (Atílio Beline Vaz) catalisa a cena com tranquilidade, transitando da periferia para o centro do palco sem prejuízo dos territórios dedicados ora ao “co­ro”, ora à atuação solo.

 

“O Assassinato do Anão…” consagra a força do ator jovem, despido de vícios, aberto para um novo com o qual dialoga de igual para igual, sem se apeque­nar. Isso quando o diretor – caso de Rodrigues – deixa.

 

O Assassinato do Anão do Caralho Grande – De Plínio Marcos. Direção: Marco Antonio Rodrigues. Cleber Toline, José Paulo Dantas, Ibrahim Lyra, Rodolfo Falcão, Mariana Maia, Natasha Rodrigues, Nei Gomes, Allan Benatti etc. Última sessão hoje, 20h. Teatro Sérgio Cardoso (rua Rui Barbosa, 196, Bela Vista, tel. 288-0136). R$ 10,00. Duração: 100 minutos.

 

Em comédia, Dip inspira reflexão

São Paulo – “Eu não quero mudar de computador, de você, de milênio!”, protes­ta a personagem de “Por Água Abaixo”, uma “comédia filosó­fica” escrita e interpretada por Angela Dip. Esta comediante de mão cheia condensa maturidade nesta que é das suas melhores aventuras pelo teatro, escrevendo e atuando com esmerado senso de inventividade e leveza.

 

A começar pela gênese do texto. Dip se inspira na história da professora de etiqueta e dan­ça Annie Taylor. Em 1901, esta doidivanas desceu as Cataratas do Niágara (EUA), protegendo seu corvo com apenas um barril. Resultado: esconações, aqui e ali, e muita fama à custa da co­ragem.

 

Pois a atriz surge com um barril-cenário-figurino e, em torno desse objeto esférico, ela convida o público a embarcar nas desventuras de uma mulher desesperada à beira do milênio, em crise como todos, mas a ape­nas alguns minutos de se atirar da catarata.

 

Os queixumes vão desde a pêndega com Deus sobre a ve­lhice, passam pela implicância com as regras gramaticais (no­tadamente os coletivos de “chi­nelos”, “cupins”, espelhando a busca da própria individualidade), enfim, e chegam aos pro­testos pela modernidade que impõe mais do que interage.

 

É com esse espírito desbra­vador que a mulher não se atri­bui um nome à personagem, conferindo-lhe um caráter uni­versal pela média acaba rom­pendo totalmente com as noçõ­es de espaço, explorando todas as direções. “O chão não é o li­mite, é o teto”, filosofa.

 

Nesse movimento centrífu­go, a mulher transforma-se em furacão de si. De outra forma, não conseguiria sair do maras­mo, ir adiante para “viver, dorrmir, sonhar, quem sabe?”, como deixa claro o bordão da anti-he­roína politicamente incorreta, chata e encantadora em sua transparência.

 

Angela Dip esbanja a segu­rança de uma Denise Stoklos em monólogo, corroborada pela direção de Vivien Buckup (“Pa­ra Sempre”, “Cenas de Um Ca­samento”), que a cada espetácu­lo afina sua relação com o traba­lho de ator e, como conseqüên­cia, o privilegia com equilíbrio. (Aliás, ressalta-se aqui o femi­nismo subliminar do texto).

 

A exigência corporal de Dip é atendida com muita técnica. “Por Água Abaixo” é uma montagem enxuta. Na sua brevidade de 50 minutos, estimula a refle­xão com recursos iminentemen­te artísticos (a extremidade o­posta da solidão) e, cereja no bolo, traz uma Angela Dip em estado de graça.

 

Por Água Abaixo – Texto e atuação: Angela Dip. Direção: Vivien Buckup. Sexta e sábado, meia-noite. Teatro Crowne Plaza (rua Frei Caneca, 1.360, Cerqueira César, tel. 289-0985). R$ 15,00. Duração: 50 minutos.

 

 

Curitiba – Aos 52 anos, 47 de teatro, 26 de crí¬tica, o jornalista Alberto Guzik experimenta uma situação nova em sua carreira. Às vésperas da estréia de “Um Deus Cruel”, no 60 Festival de Teatro de Curitiba, prevista para ontem, ele confes¬sou o “frio na barriga” característico dos atores.
Trata-se da sua primeira peça levada ao palco. “Acho que consegui fazer uma coisa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro”, define seu texto. Não é exatamente novidade para quem debutou no romance ano passado, com “Risco de Vida”, também uma futura adaptação de Gerald Thomas – até 98. Dos mais influentes da cena brasileira contemporânea, o crítico do “Jornal da Tarde”, que antes passou pelo “Última Hora”, de Samuel Werner, é ator formado pela atual Escola de Artes Dramáticas da USP, antes Alfredo Mesquita; pós-graduado pela ECA-USP com tese sobre o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A seguir, Guzik fala das suas expectativas e perspectivas de autor.
O Diário – Do que trata “Um Deus Cruel”? Tem fundo autobiográfico?
Alberto Guzik – Não tem nada de autobiográfico, é um exercício de ficção. Tem a ver com minha vida no teatro. Comecei a fazer teatro com 5 anos, não parei mais. Primeiro como ator amador, depois como estudante de teatro, depois como professor, jornalista, crítico. Quer dizer, efetivamente tenho uma vida no teatro e escrevo obsessivamente sobre teatro. Então não há como não fazer essa experiência derivar quando ponho a escrever sobre teatro, em ficção. Agora, a peça não tem nada que eu pessoalmente tenha vivido. Acontece como em “Risco de Vida”, que tem uma base autobiográfica maior do que a peça, mas mesmo assim acabou sendo pequena, porque acabou uma coisa onde a ficção acabou dominando muito mais amplamente do que qualquer idéia autobiográfica ou coisa parecida. A ficção está na ponta, a ficção invade. É muito poderosa e  isso que é legal, é isso que é divertido.
O Diário – Como foi a transição do crítico para a dramaturgia?
Guzik – Não é uma passagem, é uma soma, um acréscimo; eu continuo crítico, continuo escrevendo crítica e continuarei fazendo isso enquanto eu achar que estou podendo manter a minha isenção e a minha neu¬tralidade em relação aos espetáculos que vejo. O fato de estar me aproximando cada vez mais da prática do teatro não está afe tando esse outro lado. No dia que sentir que ele está sendo afetado eu paro. Acho que dei a minha contribuição para a críti¬ca brasileira, tenho 26 anos de função e acho que já foi um bom exercício. Eu gos¬to do que eu faço não pretendo pa¬rar, mas se um dia sentir que o traba¬lho está sendo afe¬tado pelo exercício da ficção, aí eu vou me afastar, é isso que tem que ser feito. Na verdade, eu acho que o grande salto eu dei quando escrevi o ro¬mance “Risco de Vida”. Desta¬pei um alçapão e deixei sair um ficcionista que estava latente lá dentro, há muitos anos. E a peça é um desdobramento do romance¬, na medida em que nasceu do interesse do Alexandre Stockler do meu romance. Ele ficou mu¬ito interessado pelo livro. Quis fazer uma adaptação teatral, mas ficou sabendo que o Gerald Thomas já estava interessado, que eu já tinha dado os direitos, e  é uma adaptação que vai sair, que vai ser realizada, já estamos ¬conversando sobre isso.
O Diário – Como nasceu “Um Deus Cruel”?
Guzik – O projeto nasceu ano passado, a partir do segundo romance que estou escrevendo, que se chama “Era um palco iluminado”, a história de uma companhia de teatro São Paulo, dos anos 60 aos anos 90 – acho que um período deslumbrante e é a história da minha geração no teatro, acompanha a trajetória de uma companhia ao longo de 30 anos, com saltos no tempo, é claro, senão vai ficar do tamanho do “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, como oito volumes. Vou ¬fazer um volume só, do tamanho do “Risco de Vida”; umas 500 páginas, e já estou mais ou menos na metade. Quando o Alexandre começou a me sondar para escrever um texto para ele, tinha gostado muito do risco, achei que só ia escrever a peça em 98, quando terminasse o romance, porque tinha material que podia usar, que estava sobrando, algumas variantes de personagens. E daí a coisa cami¬nhou. Houve uma série de coincidências para que a peça surgisse. Tive um computador quebra¬do em Avignon (cidade francesa que abriga um grande festival) no passado, o romance estava no computador, escrevia todo dia. Tentei recuperar o romance – num caderno escrito, mas não consegui lembrar exatamente onde tinha parado, resolvi não arriscar. Então, ficção é feito dança, é uma coisa que requer uma disciplina, você tem que se dedicar àquilo todo dia num determinado horário ou dança. Lembrei-me então de uma conversa com o Alexandre, de que se fossa escrever a peça iria começar com a frase “Como assim”, e alguém respondendo “Como assim?”. Estava na praça de Avignon, num café, e aí abri o caderno e as anotações imediatamente se tornaram falas, personagens ganharam nomes, uma situação de ensaio, um di¬retor brigando com um ator, o a¬tor não entendendo direito o que é que ele faz e a peça começou a nascer, e em dois meses estava pronta a primeira versão.
O Diário – Fale um pouco sobre a história da peça?
Guzik – Uma companhia de teatro, uma garotada que sai da universidade, de uma cidade que presume-se que seja São Paulo. Ao contrário da minha ficção, esta peça não está situa¬da em nenhum momento historicamente muito preciso, mas a problemática dela data dos anos 80 para cá. É uma época sem censura, mas com censura eco¬nômica cada vez maior e que fa¬la das atividades, das dificulda¬des e das maravilhas, de fazer teatro. São cinco atores e um di¬retor que vivem o dia-a-dia de uma companhia. Então, o que o público vai ver são pedaços de ensaios, a mecânica dos ensai¬os, os bastidores, as brigas, os e¬gos, os delírios, as vaidades, as exacerbações, a generosidade, as maravilhas, as derrotas. E a¬cho que consegui fazer uma coi¬sa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro.
O Diário – Como é sua relação com a classe artística?
Guzik – Na verdade, não te¬nho amigos íntimos no teatro. Conheço todo mundo, me dou com todo mundo, mas não sou um crítico de fequentar casa. Vou a um jantar quando sou convidado, mas não sou famili¬ar das pessoas do teatro. Não é porque não gosto. Falta tempo. Em geral tendo a dormir mais cedo. Já fui muito de badalação. Tenho que escrever minha fic¬ção, trabalhar no jornal e isso toma muito tempo. Uma boa noite de sono, para ter uma boa manhã de trabalho antes de ir para a redação, porque eu escrevo de manhã antes de sair de casa, não tem o que pague. E muito mais importante que jogar conversa fora num boteco. Adoro atores, adoro diretores, adoro estar no meio deles, não tenho rigorosamente nada contra, ao contrário, mas não sou íntimo das pessoas. Nunca tive um caso de amizade tão grande com um artista que me impedisse de refletir sobre a obra dele. Quer dizer, até hoje tenho conseguido efetivamente manter essa isenção com muita tranquilidade. A crítica é um exercício de poder muito fugaz e a gente tem que saber disso com muita destrez e muita consciência do processo.
O Diário – Você chegou a viver um pouco da fase, pode-se dizer, romântica da crítica, com espaço maior nos jornais em relação ao que vemos hoje. Esse “aperto” não angustia um pouco?
Guzik – Na verdade, a gente aprende a fazer o que tem que fazer. A crítica sempre fez isso, você tem que aprender a se adaptar, o jornalismo mudou, a crítica tem que mudar. Nem eu tenho mais paciência de ficar lendo…Confesso que fiz grandes digressões sobre coisas… Era lindo, era maravilhoso, era o máximo. Você lê as críticas do Décio de Almeida Prado com um prazer extraordinário, o ho¬mem é um dos maiores estilis tas da língua, entre os autores contemporâneos. È admirável a maneira como ele escreve, in¬dependentemente de qualquer outra coisa. O único jeito de vo¬cê fazer crítica é saber que você está lá, para dar a cara pra bater e pra errar. Você erra o tempo todo, é um exercício de erro. A crítica detém um poder completamente ilusório, que é poder nenhum, na verdade você é es pancado de um lado e do outro não tem nehuma regalia, na verdade, com o fato de ser crítico. As pessoas podem achar que tem, mas não há glamour nenhum. E uma responsabilidade do tamanho de um bonde, porque o que você fala pode não levar público nenhum ao teatro, mas mexe pra danar na cabeça do artista. Então você tem que saber muito bem o que você está falando porque não é brincadeira. Acho que minha vantagem nessa passagem, se existe alguma, é que sei como a crítica é feita. Então sei como receber crítica. Já soube como receber crítica, até bordoada no romance “Risco de Vida”, espe¬ro que em “Um Deus Cruel” continue sabendo receber por que vai ser necessário. Vai ter gente que vai gostar, vai ter gente que vai odiar, vai ter gente que não vai com minha cara, então vai ter o maior prazer em revidar. Vai ter de tudo isso. A vida é isso e a gente tem que estar preparado.
O Diário – E como você es¬tá encarando a estréia?
Guzik – Estou nervoso e muito curioso. Torço muito, a cho que tem uma turma jovem, talentosa. Aposto neles. Eles estão apostando na peça. Acho este encontro de gerações maravilhoso. O Alexandre tem 23 anos, eu tenho 52. Acho o máxi¬mo isso que está acontecendo.
A gente está dando uma lição de cooperação porque no Brasil as gerações são tão comportamentadas e o trabalho entre elas tornou-se tão raro que acho que isso pode acontecer, com lucros pa¬ra ambas as partes.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do 6º FTC.
Gerald reencontra Bete Coelho em “evento”
Curitiba – Todo ano é sem¬pre igual. Foi assim, por e¬xemplo, em “Império das Meias-Verdades”, em “Nowhe¬re Man”. Gerald Thomas cercou “Os Reis do lê-lê-lê” de segre¬dinhos. Às 2 horas da madruga¬da da última sexta-feira, dia da estréia, ligou para a assessora de Imprensa do Festival de Teatro de Curitiba comunicando o adi¬amento para ontem.
Na entrevista coletiva, na tarde de quinta, já adiantava problemas com a preparação do palco e outros detalhes técnicos. “Mas o evento está pronto”, ga¬rantia após 12 dias de ensaios. “Com 53 espetáculos nas cos¬tas, 20 anos de teatro, é preciso muita razão para tomar a decisão de estrear num palco que a organização prometeu entregar na terça-feira e já está atrasado em pelo menos 36 horas”, se queixava Thomas, justificando com antecedência o adiamento.
É “evento” e não peça que marca o reencontro, cerca de seis anos depois, de Thomas com Bete Coelho, ex-primeira-atriz da Companhia de Ópera Seca. Nos últimos anos ela seguiu carreira paralela, atuando em “Rancor” e “Pentesiléias” – esta há dois anos, dividindo a direção com Daniela Thomas.
Também estão no elenco Lu¬iz Damasceno, na Ópera Seca desde o início, 11 anos atrás, e Domingos Varella; Raquel Riz¬zo, curitibana que vem desde “Unglauber”; mais o polêmico diretor e ator Dionísio Neto (“Opus Profundum” e “Perpé¬tua”) e sua primeira-atriz Rena¬ta Jesion.
Ao contrário das aparições em espetáculos anteriores, desta vez Thomas veste efetivamente a camisa de ator. “Não sou ator, mas faço papel do Gerald Tho¬mas”, ironiza. Ele define seu “evento” – que além das duas apre¬sentações no festival deve ter somente mais uma em São Pau¬lo – como um “laboratório de clonagem”.
“Não simplesmente genéti¬ca, como no caso da ovelhinha, mas clonagem semântica”, tenta explicar.
Para Thomas, a contracultu¬ra pós-anos 60, que contestava o behaviorismo, o comportamen¬to diante da sociedade, desem¬bocou “nesta ignorância, boba¬geira que começou com ‘she’s love yeah, yeah”’, na sua opini¬ão “o mais imbecil de todos os refrões”.
“Os Reis do lê-lê-lê” é uma crítica ao mundo pop, do qual os Beatles foram ícone? Sim e não. Em princípio, o “evento” não pretende dizer muito sobre os rapazes de Liverpool. Apropria-se dos nomes – Thomas é Len¬non, Bete Coelho, McCartney – e de algumas canções na trilha. Mas o encenador, que diz ter le¬vado “porrada” em Londres por não gostar do Beatles e amar os Rolling Stones, no tempo em que morou por lá, prefere desta¬car mais o “prazer do reencon¬tro” com a atriz com quem vi¬veu um affaire de quatro anos.
Em tese, não existe um fio. A sinopse que entregou para di¬vulgação, o próprio diretor con¬fessa, tem pouco ou nada a ver com o que será visto no palco. A mutação é uma das característi¬cas deste “obcecado pela for¬ma”. Thomas adora as coisas feitas pelo Homem, a beleza concreta das cidades, e dispensa as providências da natureza. Ve¬nera o asfalto, o pneu e está pre¬ocupado com quem dirige o car¬ro.
Sobre desperdiçar um bom elenco para apenas duas ou três apresentações, Thomas aponta a “efemeridade” do teatro. “Tanto faz dias ou meses”. O próximo trabalho no Brasil será em agosto, com a companhia de dança Primeiro Ato, de Belo Horizon¬te. Depois da experiência – e das divergências – com o bailarmno e coreógrafo Ivaldo Bertazzo, pa¬rece ter tomado gosto pelo mo-vimento.

O Diário de Mogi

O Diário de Mogi – Domingo, 24 de outubro de 1998.   Caderno A – 2


Antonio Fagundes volta ao cartaz como professor aposentado em “Últimas Luas”

VALMIR SANTOS


São Paulo – Antonio Fa­gundes, 50 anos, é das raras estrelas da televi­são que enveredam pe­lo teatro com intimidade e respeito que o ofício pede. Para ele, um galã de novela, seria fácil arrebanhar o públi­co. Mas quando esse ator en­cabeça a produção e o elenco de uma montagem, não se es­pere o riso fácil das comédias de sala-de-estar. O Fagundes do palco é, antes de tudo, um vigia de si mesmo. Diante da construção de um personagem, ele parece exigir um ri­gor correspondente ao cum­primento do horário dos es­petáculos (um relógio ajusta­do com Brasília está postado sobre a bilheteria, para que o espectador não tenha dúvida da pontualidade).


Soa exagero para o “jeiti­nho brasileiro”, mas é apenas o exercício milimétrico da plenitude ética que deveria pautar as relações humanas nessa virada de século, quan­do os valores remam contra a maré. “Últimas Luas”, o texto que Fagundes escolheu para retornar aos palco, quatro anos depois, foi escrito pelo i­taliano Furio Bordon, um dos mais elogiados dramaturgos da nova safra italiana.

 

A peça aprofunda a questão do abandono da terceira idade, um fenômeno verificado em vários países, e a trata com fí­ligramas de protesto engajado. O mérito de Bordon, que faturou vários prêmios na Europa com sua primeira peça, escrita em 1993, é sondar o problema social acrescentando-o a potência do ser humano em superar os desafios.

 

Conta a história de um ex-professor de literatura apo­sentado, por volta dos seus 70 anos, em meio a uma crise de relacionamento com o filho e, ao cabo, consigo mesmo. Vi­úvo, independente e bem su­cedido na vida profissional, ele decide abandonar a casa onde mora com o filho e a mulher deste. Muda-se para uma casa de repouso, eufe­mismo para asilo.

 

Entre o conflito pai e filho – o orgulho é o principal estor­vo ao diálogo – e a reclusão do professor, desenvolve-se um painel ora delicado, ora muito cruel da incomunicabilidade e seus efeitos colaterais em vida. Para um papel de contornos tão difíceis, que passa a segunda parte da peça na vertigem de um solilóquio  interior, Fagundes agarra-se com determinação. A peça é dele, e sua escolha faz jus ao talen­to e ao carisma (como em “Fragmentos de Um Discurso Amoroso” ou mesmo no pro­fessor de “Oleanna”).

 

Quando caminha arrastan­do os pés; feito “velho engo­mando o chão, como formi­gas de chinelo”; quando ouve os “sons líquidos” dos “mor­tos cantando nos canos d’á­gua”; ou quando devota seu amor à plantinha, enfim, não são poucas as imagens de for­te expressão poética, bem ex­ploradas com aquela aura e­mocional que o ator emprega em seus papéis – uma carga e­mocional não exagerada, mas equilibrada.

 

Na medida em que condiciona o protagonista de “Últimas Luas” nessa perspectiva pessoal, numa espécie de papel-espelho, Fagundes ainda tateia para costurar os tempos da fala e da ação, o que prejudica certas passagens, como se viu na primeira semana da temporada. Talvez seja uma equação em mãos do diretor Jorge Takla, um encenador na acepção maior do termo, com um cenário de sua autoria que poderia ser resumido assim, e aliás o é: a profundidade vazia de uma tempestade de neve…

 

Takla soube transpor as contradições que Bordon im­prime em sua tragicomédia. A densidade flui como um sorri­so maroto no canto da boca de Fagundes, ainda que imerso na solidão, exemplo dos tipos criados pelo dramaturgo ir­landês Samuel Beckett.

No papel da esposa que morreu faz 30 anos, mas com quem o professor aposentado conversa no presente – a atemporalidade é outra característica marcante da peça, fundindo vários planos -, a atriz Mara Carvalho cumpre com elegância a brevidade que o papel lhe confere. Petrônio Gontijo, como o filho, é um contraponto um tanto melodramático, se comparado à performance suave de Fagundes – já se escreveu que o espetáculo é dele, pois não?

 

Últimas Luas – De Furio Bordon. Direção: Jorge Takla. Com Antonio Fagundes, Mara Carvalho e Petrônio Gontijo. Teatro Cultura Artística/Sala Esther Mesquita (rua Nestor Pestana, 196, Consolação, tel. 258-3616). Quinta a sábado, 21h; domingo, 18h. R$ 20,00 a R$ 40,00. Duração: 90 minutos. Até 28 de novembro.

Homenagem a João Pacífico em CD

São Paulo – Nesses quatro anos afastado do teatro, Antonio Fagundes dedicou-se a “n” projetos – foram duas novelas vive atualmente Gumercindo em “Terra Nostra”) e quatro filmes (está em cartaz com “O Tronco”, de João Batista de Andrade). Porém um dos projetos mais inusitados foi a gravação do recém-lançado “Tributo a João Pacífico”, um CD em homenagem o compositor de “Cabocla Tereza” morto no ano passado, aos 89 anos.

 

São 12 sucessos de Pacífico, onde Fagundes empresta sua voz num exercício mais solidário do que propriamente profissional. Afinal, o ator não possui voz de chegada para levar a música dolente do autor cujas interpretações de Adauto Santos, Rolando Boldrin e Pena Branca e Xavantinho, para citar alguns, são memoráveis e sedimentaram a música raiz do homem sertanejo.

 

As participações especiais de Oswaldinho do Acordeon, Joao Mulato e Duo Fel, mais a direção de arranjos de Luiz Schiavon chancelam o acabamento nusical, capricham na melodia, mas a voz não reverbera com tamanha empreitada.

 

Fagundes topou o projeto sugerido por um filho do novelista Benedito Ruy Barbosa, na época de “O Rei do Gado”. Lamenta não ter conhecido Pacífico pessoalmente – que viveu seus últimos três anos de vida em Guararema, na casa do músico Freddy-, o que confere um tom de celebração póstuma ao “Tributo”.

 

Não há dúvida de que o CD dá – e daria, se vivo – maior visibilidade ao compositor João Pacífico, tão destratado pela mídia e pelo esquema da indústria fonográfica que não lhe surrupiou pouco. Mas ninguém ouve “Pingo D’Água” ou “Chico Mulato” indiferente, ainda mais com esforço sincero de um Fagundes. Uma ressalva: pena que a capa trai a própria idéia do projeto ao privilegiar somente a imagem e o nome do artista famoso sem qualquer referência àquele que, afinal, é alvo do tributo.

Amor filial às últimas consequências

 

São Paulo – Incensado co­mo um dos bambas da dramaturgia britânica no fim de milênio, Maartin McDonagh, 29 anos, chega ao Brasil por conta da atriz e pro­dutora Xuxa Lopes. Ela assis­tiu à peça “A Rainha da Bele­za de Leenane” e comprou os direitos do texto para montá­-lo em primeira mão.

E uma história corrosiva sobre a relação filial. Se em “Últimas Luas”, de Furio Bordon [leia crítica acima] a ponte pai e filho servia de pa­no de fundo, aqui ela é via única para a depauperação hu­mana levada às últimas conse­quências.
 
Xuxa Lopes está no papel da incandescente Maureen, filha insatisfeita com a vida por causa da “missão” de sub­meter-se aos ditames da mãe, Mag, a megera fanfarrona nu­ma das interpretações mais felizes de Walderez de Barros nos últimos tempos.

 

Ainda que a filha capitali­ze até o título da peça – “a rai­nha da beleza de Leenane”, a cidade onde moram, confor­me elogio descarado de Pato Dooley (Chico Diaz), homem com quem a quarentona perde a virgindidade, ainda assim é a supermãe Mag quem enfei­xa os contrastes da tragédia e da comédia que vão pontuan­do uma história difícil de ser imaginada numa casinha lo­calizada no topo de uma mon­tanha.

 

Pois é lá, entre as quatro paredes rarefeitas de uma co­zinha, sob testemunha de talheres, panelas e fogão – espaço iminentemente das mulhe­res -, que mãe e filha vão ca­librando o embate ensaiado em anos de convivência. Intri­gas e rancores são passados à limpo assim que as figuras masculinas penetram o terri­tório da normalidade aparen­te.

 

Antes de Pato, o galantea­dor, é seu irmão quem vai ba­ter à porta. Ray Dooley (Marcelo Médici) sintetiza arro­gância juvenil, gratuidade e desprezo por tudo (inclusive pessoas) que não digam res­peito ao umbigo.

 

Para uma platéia tipica­mente classe média alta, em sua maioria composta de se­nhoras mamães, “A Rainha da Beleza de Leenane” desfere um golpe certeiro na hipocri­sia dos lares, colhendo e des­pejando seus frutos sem pie­dade ou senões.

 

E aí entra o texto e a dispo­sição de McDonagh, impetuoso e afetivo. Realista, numa só palavra, mas costurando com a matéria-prima de que é composta o ser humano quando se arroga o direito de de­pender e fazer-se dependente do outro. O autor britânico tem o mérito de promover es­se debate sem lançar julga­mento.

 

Dando seus primeiros pas­sos na direção teatral, Cana Camurati surpreende pela amarração das cenas e pelo dedo na interpretação de grandes intérpretes. Xuxa Lopes e Walderez de Barros, cada uma a seu modo, estão entra­nhadas em seus papéis mas nunca “domadas”, voláteis. São visíveis os recursos técni­cos que manejam, quer na postura corporal, quer no an­dar displicente ou no venenoso desdém mútuo das perso­nagens.

 

Nessa história, os homens entram como meros figurantes. Até quando deveriam ser determinantes – Pato é um ga­lã de meia tigela e seu irmão não passa de um poço de abobrinhas -, quem dita as regras são as mulheres, mãe e filha. Pelo menos elas pensam as­sim, umbilicais, e imaginam matar a fome (de amor) com bolachas, como quer a pobre Maureen. E como quer o escárnio do autor.

A Rainha da Beleza de Leenane – De Martin McDonagh. Tradução: Adriana Falcão e Tatiana Maciel. Com Xuxa Lopes, Walderez de Barros, Chico Diaz e Marcelo Médici. Direção: Carla Camurati. Teatro Alfa/Sala B (rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel. 5693-4000). Sexta, 21h; sábado, 19h e 21h30; domingo, 19h. R$ 30,00 e R$ 35 (sábado). Duração: 95 minutos. Até 19 de dezembro.

Curitiba – Aos 52 anos, 47 de teatro, 26 de crí¬tica, o jornalista Alberto Guzik experimenta uma situação nova em sua carreira. Às vésperas da estréia de “Um Deus Cruel”, no 60 Festival de Teatro de Curitiba, prevista para ontem, ele confes¬sou o “frio na barriga” característico dos atores.
Trata-se da sua primeira peça levada ao palco. “Acho que consegui fazer uma coisa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro”, define seu texto. Não é exatamente novidade para quem debutou no romance ano passado, com “Risco de Vida”, também uma futura adaptação de Gerald Thomas – até 98. Dos mais influentes da cena brasileira contemporânea, o crítico do “Jornal da Tarde”, que antes passou pelo “Última Hora”, de Samuel Werner, é ator formado pela atual Escola de Artes Dramáticas da USP, antes Alfredo Mesquita; pós-graduado pela ECA-USP com tese sobre o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A seguir, Guzik fala das suas expectativas e perspectivas de autor.
O Diário – Do que trata “Um Deus Cruel”? Tem fundo autobiográfico?
Alberto Guzik – Não tem nada de autobiográfico, é um exercício de ficção. Tem a ver com minha vida no teatro. Comecei a fazer teatro com 5 anos, não parei mais. Primeiro como ator amador, depois como estudante de teatro, depois como professor, jornalista, crítico. Quer dizer, efetivamente tenho uma vida no teatro e escrevo obsessivamente sobre teatro. Então não há como não fazer essa experiência derivar quando ponho a escrever sobre teatro, em ficção. Agora, a peça não tem nada que eu pessoalmente tenha vivido. Acontece como em “Risco de Vida”, que tem uma base autobiográfica maior do que a peça, mas mesmo assim acabou sendo pequena, porque acabou uma coisa onde a ficção acabou dominando muito mais amplamente do que qualquer idéia autobiográfica ou coisa parecida. A ficção está na ponta, a ficção invade. É muito poderosa e  isso que é legal, é isso que é divertido.
O Diário – Como foi a transição do crítico para a dramaturgia?
Guzik – Não é uma passagem, é uma soma, um acréscimo; eu continuo crítico, continuo escrevendo crítica e continuarei fazendo isso enquanto eu achar que estou podendo manter a minha isenção e a minha neu¬tralidade em relação aos espetáculos que vejo. O fato de estar me aproximando cada vez mais da prática do teatro não está afe tando esse outro lado. No dia que sentir que ele está sendo afetado eu paro. Acho que dei a minha contribuição para a críti¬ca brasileira, tenho 26 anos de função e acho que já foi um bom exercício. Eu gos¬to do que eu faço não pretendo pa¬rar, mas se um dia sentir que o traba¬lho está sendo afe¬tado pelo exercício da ficção, aí eu vou me afastar, é isso que tem que ser feito. Na verdade, eu acho que o grande salto eu dei quando escrevi o ro¬mance “Risco de Vida”. Desta¬pei um alçapão e deixei sair um ficcionista que estava latente lá dentro, há muitos anos. E a peça é um desdobramento do romance¬, na medida em que nasceu do interesse do Alexandre Stockler do meu romance. Ele ficou mu¬ito interessado pelo livro. Quis fazer uma adaptação teatral, mas ficou sabendo que o Gerald Thomas já estava interessado, que eu já tinha dado os direitos, e  é uma adaptação que vai sair, que vai ser realizada, já estamos ¬conversando sobre isso.
O Diário – Como nasceu “Um Deus Cruel”?
Guzik – O projeto nasceu ano passado, a partir do segundo romance que estou escrevendo, que se chama “Era um palco iluminado”, a história de uma companhia de teatro São Paulo, dos anos 60 aos anos 90 – acho que um período deslumbrante e é a história da minha geração no teatro, acompanha a trajetória de uma companhia ao longo de 30 anos, com saltos no tempo, é claro, senão vai ficar do tamanho do “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, como oito volumes. Vou ¬fazer um volume só, do tamanho do “Risco de Vida”; umas 500 páginas, e já estou mais ou menos na metade. Quando o Alexandre começou a me sondar para escrever um texto para ele, tinha gostado muito do risco, achei que só ia escrever a peça em 98, quando terminasse o romance, porque tinha material que podia usar, que estava sobrando, algumas variantes de personagens. E daí a coisa cami¬nhou. Houve uma série de coincidências para que a peça surgisse. Tive um computador quebra¬do em Avignon (cidade francesa que abriga um grande festival) no passado, o romance estava no computador, escrevia todo dia. Tentei recuperar o romance – num caderno escrito, mas não consegui lembrar exatamente onde tinha parado, resolvi não arriscar. Então, ficção é feito dança, é uma coisa que requer uma disciplina, você tem que se dedicar àquilo todo dia num determinado horário ou dança. Lembrei-me então de uma conversa com o Alexandre, de que se fossa escrever a peça iria começar com a frase “Como assim”, e alguém respondendo “Como assim?”. Estava na praça de Avignon, num café, e aí abri o caderno e as anotações imediatamente se tornaram falas, personagens ganharam nomes, uma situação de ensaio, um di¬retor brigando com um ator, o a¬tor não entendendo direito o que é que ele faz e a peça começou a nascer, e em dois meses estava pronta a primeira versão.
O Diário – Fale um pouco sobre a história da peça?
Guzik – Uma companhia de teatro, uma garotada que sai da universidade, de uma cidade que presume-se que seja São Paulo. Ao contrário da minha ficção, esta peça não está situa¬da em nenhum momento historicamente muito preciso, mas a problemática dela data dos anos 80 para cá. É uma época sem censura, mas com censura eco¬nômica cada vez maior e que fa¬la das atividades, das dificulda¬des e das maravilhas, de fazer teatro. São cinco atores e um di¬retor que vivem o dia-a-dia de uma companhia. Então, o que o público vai ver são pedaços de ensaios, a mecânica dos ensai¬os, os bastidores, as brigas, os e¬gos, os delírios, as vaidades, as exacerbações, a generosidade, as maravilhas, as derrotas. E a¬cho que consegui fazer uma coi¬sa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro.
O Diário – Como é sua relação com a classe artística?
Guzik – Na verdade, não te¬nho amigos íntimos no teatro. Conheço todo mundo, me dou com todo mundo, mas não sou um crítico de fequentar casa. Vou a um jantar quando sou convidado, mas não sou famili¬ar das pessoas do teatro. Não é porque não gosto. Falta tempo. Em geral tendo a dormir mais cedo. Já fui muito de badalação. Tenho que escrever minha fic¬ção, trabalhar no jornal e isso toma muito tempo. Uma boa noite de sono, para ter uma boa manhã de trabalho antes de ir para a redação, porque eu escrevo de manhã antes de sair de casa, não tem o que pague. E muito mais importante que jogar conversa fora num boteco. Adoro atores, adoro diretores, adoro estar no meio deles, não tenho rigorosamente nada contra, ao contrário, mas não sou íntimo das pessoas. Nunca tive um caso de amizade tão grande com um artista que me impedisse de refletir sobre a obra dele. Quer dizer, até hoje tenho conseguido efetivamente manter essa isenção com muita tranquilidade. A crítica é um exercício de poder muito fugaz e a gente tem que saber disso com muita destrez e muita consciência do processo.
O Diário – Você chegou a viver um pouco da fase, pode-se dizer, romântica da crítica, com espaço maior nos jornais em relação ao que vemos hoje. Esse “aperto” não angustia um pouco?
Guzik – Na verdade, a gente aprende a fazer o que tem que fazer. A crítica sempre fez isso, você tem que aprender a se adaptar, o jornalismo mudou, a crítica tem que mudar. Nem eu tenho mais paciência de ficar lendo…Confesso que fiz grandes digressões sobre coisas… Era lindo, era maravilhoso, era o máximo. Você lê as críticas do Décio de Almeida Prado com um prazer extraordinário, o ho¬mem é um dos maiores estilis tas da língua, entre os autores contemporâneos. È admirável a maneira como ele escreve, in¬dependentemente de qualquer outra coisa. O único jeito de vo¬cê fazer crítica é saber que você está lá, para dar a cara pra bater e pra errar. Você erra o tempo todo, é um exercício de erro. A crítica detém um poder completamente ilusório, que é poder nenhum, na verdade você é es pancado de um lado e do outro não tem nehuma regalia, na verdade, com o fato de ser crítico. As pessoas podem achar que tem, mas não há glamour nenhum. E uma responsabilidade do tamanho de um bonde, porque o que você fala pode não levar público nenhum ao teatro, mas mexe pra danar na cabeça do artista. Então você tem que saber muito bem o que você está falando porque não é brincadeira. Acho que minha vantagem nessa passagem, se existe alguma, é que sei como a crítica é feita. Então sei como receber crítica. Já soube como receber crítica, até bordoada no romance “Risco de Vida”, espe¬ro que em “Um Deus Cruel” continue sabendo receber por que vai ser necessário. Vai ter gente que vai gostar, vai ter gente que vai odiar, vai ter gente que não vai com minha cara, então vai ter o maior prazer em revidar. Vai ter de tudo isso. A vida é isso e a gente tem que estar preparado.
O Diário – E como você es¬tá encarando a estréia?
Guzik – Estou nervoso e muito curioso. Torço muito, a cho que tem uma turma jovem, talentosa. Aposto neles. Eles estão apostando na peça. Acho este encontro de gerações maravilhoso. O Alexandre tem 23 anos, eu tenho 52. Acho o máxi¬mo isso que está acontecendo.
A gente está dando uma lição de cooperação porque no Brasil as gerações são tão comportamentadas e o trabalho entre elas tornou-se tão raro que acho que isso pode acontecer, com lucros pa¬ra ambas as partes.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do 6º FTC.
Gerald reencontra Bete Coelho em “evento”
Curitiba – Todo ano é sem¬pre igual. Foi assim, por e¬xemplo, em “Império das Meias-Verdades”, em “Nowhe¬re Man”. Gerald Thomas cercou “Os Reis do lê-lê-lê” de segre¬dinhos. Às 2 horas da madruga¬da da última sexta-feira, dia da estréia, ligou para a assessora de Imprensa do Festival de Teatro de Curitiba comunicando o adi¬amento para ontem.
Na entrevista coletiva, na tarde de quinta, já adiantava problemas com a preparação do palco e outros detalhes técnicos. “Mas o evento está pronto”, ga¬rantia após 12 dias de ensaios. “Com 53 espetáculos nas cos¬tas, 20 anos de teatro, é preciso muita razão para tomar a decisão de estrear num palco que a organização prometeu entregar na terça-feira e já está atrasado em pelo menos 36 horas”, se queixava Thomas, justificando com antecedência o adiamento.
É “evento” e não peça que marca o reencontro, cerca de seis anos depois, de Thomas com Bete Coelho, ex-primeira-atriz da Companhia de Ópera Seca. Nos últimos anos ela seguiu carreira paralela, atuando em “Rancor” e “Pentesiléias” – esta há dois anos, dividindo a direção com Daniela Thomas.
Também estão no elenco Lu¬iz Damasceno, na Ópera Seca desde o início, 11 anos atrás, e Domingos Varella; Raquel Riz¬zo, curitibana que vem desde “Unglauber”; mais o polêmico diretor e ator Dionísio Neto (“Opus Profundum” e “Perpé¬tua”) e sua primeira-atriz Rena¬ta Jesion.
Ao contrário das aparições em espetáculos anteriores, desta vez Thomas veste efetivamente a camisa de ator. “Não sou ator, mas faço papel do Gerald Tho¬mas”, ironiza. Ele define seu “evento” – que além das duas apre¬sentações no festival deve ter somente mais uma em São Pau¬lo – como um “laboratório de clonagem”.
“Não simplesmente genéti¬ca, como no caso da ovelhinha, mas clonagem semântica”, tenta explicar.
Para Thomas, a contracultu¬ra pós-anos 60, que contestava o behaviorismo, o comportamen¬to diante da sociedade, desem¬bocou “nesta ignorância, boba¬geira que começou com ‘she’s love yeah, yeah”’, na sua opini¬ão “o mais imbecil de todos os refrões”.
“Os Reis do lê-lê-lê” é uma crítica ao mundo pop, do qual os Beatles foram ícone? Sim e não. Em princípio, o “evento” não pretende dizer muito sobre os rapazes de Liverpool. Apropria-se dos nomes – Thomas é Len¬non, Bete Coelho, McCartney – e de algumas canções na trilha. Mas o encenador, que diz ter le¬vado “porrada” em Londres por não gostar do Beatles e amar os Rolling Stones, no tempo em que morou por lá, prefere desta¬car mais o “prazer do reencon¬tro” com a atriz com quem vi¬veu um affaire de quatro anos.
Em tese, não existe um fio. A sinopse que entregou para di¬vulgação, o próprio diretor con¬fessa, tem pouco ou nada a ver com o que será visto no palco. A mutação é uma das característi¬cas deste “obcecado pela for¬ma”. Thomas adora as coisas feitas pelo Homem, a beleza concreta das cidades, e dispensa as providências da natureza. Ve¬nera o asfalto, o pneu e está pre¬ocupado com quem dirige o car¬ro.
Sobre desperdiçar um bom elenco para apenas duas ou três apresentações, Thomas aponta a “efemeridade” do teatro. “Tanto faz dias ou meses”. O próximo trabalho no Brasil será em agosto, com a companhia de dança Primeiro Ato, de Belo Horizon¬te. Depois da experiência – e das divergências – com o bailarmno e coreógrafo Ivaldo Bertazzo, pa¬rece ter tomado gosto pelo mo-vimento.

O Diário de Mogi

O Diário de Mogi – Domingo, 11 de outubro de 1998.   Caderno A – 4

Inspirada na mitologia indígena, peça surpreende pelo despojamento e interpretações

VALMIR SANTOS

São Paulo – O chamado te­atro regional conquista cada vez mais espaço na cena brasileira. Desde os tempos de Ariano Suassuna (“Auto da Compadecida”), nos anos 60, até os dias que correm, ele vem descentralizando o foco do sotaque e dos cacoetes para alcançar um caráter mais universal, sem prejuízo das suas raízes.

Pode-se citar alguns encena­dores que contribuíram, em mai­or ou menor grau, com leituras inovadoras: Antunes Filho (“Ma­cunaíma”), Antonio Nóbrega (“Brincante”), Romero de An­drade Lima (“Auto da Paixão”), Carmem Paternostro (“Mer­lim”), Luiz Carlos Vasconcelos(“Vau da Sarapalha”), Nehle Frank (“Divinas Palavras”) etc.

Cada um em seu pedaço de chão (São Paulo, Salvador, João Pessoa, Recife, enfim) conceberam pesquisas de linguagem cênica que abriram flancos para o Brasil de dentro e, ao mesmo tempo, conectaram com o de fora, por obra e graça da sua eminência humana.

O espetáculo “Honorato”, em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia, filia-se a essa categoria de teatro regional que foge de facilidades como o diabo da cruz. Não foi à toa que seu diretor Paulo Ribeiro, sediado em São Paulo, levou pelo menos oito anos para chegar ao formato atual.

Ele também é autor do texto. Escreveu-o tomando como ponto de partida a lenda da Cobra Norato, garimpada pelo folclorista Luís Câmara Cascudo e vertida para o romance por Raul Bopp, dando origem à principal montagem do grupo mineiro Giramundo, comandado por Álvaro Apocalypse, outro pesquisador contumaz.

Ribeiro, ex-assistente de Vladimir Capella (“Píramo e Tisbe”), agregou outros elementos à história. O autor amplia a carga simbólica da mi­tologia indígena (Boto, Iara e Co    bra Grande) criando elementos que têm o impac­to das tragédias gregas.

Em “Honora­to”, Joana Candi­ru (Selma Luche­si) é amante de  Jaguarari (Eldo Mendes), um relacionamento que equivale à lenda amazônica do Boto, o homem misterioso que surge do nada, na calada da noite, e atrai as moças com seu olhar sedutor. Eles têm dois filhos, Honorato (Sandro Alvares) e Maria Caninana (Verônica Me­nezes). Como Ja­guarari pertence a outra instância, coube a Joana Candiru dar conta da criação de sua prole.

São informações que chegam ao espectador num pêndulo sutil de flash backs. No presente, Honorato é um jovem encruzado com a maldição da Cobra Grande, o que lhe impede de vi­ver como um ser humano co­mum. Na ânsia de libertar-se do estigma, ele conhece seu pai, Jaguarari, que lhe revela a fór­mula para afastar a Cobra Gran­de.

Se Honorato enxerga no pai redivivo a chance de uma guina­da, sua irmã tem uma posição o-posta. E ela, Maria Caninana, a propulsora de toda a tragédia.

Primeiro, esfaqueia a mãe. Depois, mata o, pai. Ao cabo de tanto sangue, é assassinada pelo irmão. Toda essa violência é deflagrada sem se apelar à visceralidade. Caminha-se pelo fio da fábula, do fantástico, sempre com precisão visual e interpre­tativa.

Como encenador, Ribeiro é econômico na medida em que a simplicidade torna-se um tesou­ro. Seus atores, jovens em mai­oria, são bem preparados. En­tregam-se por inteiro a persona­gens difíceis, porque entranha­dos de uma cultura autóctone, distante das grandes cidades.

Selma Luchesi faz uma interpretação apaixonada de Joa­na Candiru. Aos 30 anos de car­reira, a atriz domina as nuanças da mãe com parcimônia. Crista­liza a dor com controle absolu­to, sem exagero.

Eldo Mendes também se destaca como Jaguarari, perso­nagem calcado na imagem indí­gena. Nota-se a riqueza dos de­talhes, da postura de um ser que brota da natureza e desconhece condicionamentos. Mendes, co­mo Selma, como Ribeiro e co­mo toda a equipe de “Honora­to”, rezam a cartilha do instinto que a tudo move e a tudo pode – tal qual os personagens da histó­na.

É um espetáculo que emoci­ona pelo brilho ingênuo e since­ro, pela energia de atores como Renata Quintela (Joana jovem) e Daniel Alvim (Soldado de Ca­metá). Sem contar a encarnação primitiva do Pajé de Hizidio Carrigo.

Sandro Alvares, no papel-tí­tulo, não chega a arrebatar, visi­velmente pela pouca experiên­cia de palco, jovem que é. Seu Honorato pode não envolver na medida dos demais persona­gens, mas demonstra fôlego, so­bretudo nas passagens mais dra­máticas.

Rogério Moura, autor da música original do espetáculo, também entra em cena como Jo­ão, mas serve melhor ao músico do que ao ator.

(Inclusive, é um elenco que também canta letras de Geraldo Azevedo e Chiquinha Gonzaga, entre outros.)

Aliados aos intérpretes, es­tão Telumi Helen (figurinos) e J. C. Serroni (consultor visual) emoldurando uma atmosfera per­feita para uma peça que destrói completamente as noções de tempo e espaço. E sem a caricatura da floresta (o cenário des­materializa-se e fica por conta da imaginação do espectador). Mais a iluminação de Giggio Deliberato, e a suspensão está completa.

“Honorato” dá visibilidade ao trabalho de Paulo Ribeiro, tim diretor que coloca o teatro em uma escala maior, reco­lhendo-se muito aquém do tom personalista cooptado por boa parte dos colegas. Afinal, quando um jovem diretor pesquisa durante oito anos para montar uma peça – descontados problemas estruturais -, é por­que possui timing suficiente para penetrar o indevassável território do palco.

Honorato – Texto e direção:  Paulo Ribeiro. Assistente de direção: Paulo Capovilla. Assistente de iluminação: Vanderlei Conte. Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Brasileiro de Comédia (rua Major Diogo, 315, Bela Vista, tel. 3104-5523). R$ 10,00. Até 20 de dezembro.

 

‘Química’ de atrizes sustenta montagem

São Paulo – Não é a mesma coisa. Um, dois anos atrás, Rosi Campos dividia a ce­na com Zezeh Barbosa em “As Sereias da Zona Sul”. Era uma dobradinha afiada. Agora, a a­triz volta ao cartaz com nova parceira, Cláudia Borioni. E a química se renova para melhor.

Na montagem anterior, a pe­ça de Vicente Pereira e Miguel Falabella, também agora sob direção do último, promovia um encontro de duas atrizes de es­tilos se não parecidos, no míni­mo próximos.

Era um embate que as nive­lava e, de certa maneira, as con­tinha em cena – uma em função de não ofuscar a outra, tamanho o poder de cena, e vice versa.

Com Cláudia, a mudança é significativa. Sua verve é mais sutil, de gestos pequenos, de olhares capciosos. Esse desequi­líbrio sustenta o espetáculo, a­qui numa versão visualmente mais “pobre”, comparada à an­terior (no Teatro Hilton), ocu­pando aqui um teatro de poucos recursos, o Cacilda Becker, no bairro da Lapa, zona oeste pau­lista.

Até essa pressuposta pobre­za é alçada ao mote de piada para “madames” Rosi e Cláu­dia deitarem e rolarem, a la Hebe e Ana Maria Braga. A química é perfeita. Nos qua­dros, num total de quatro, as diferenças físicas (uma é alta, outra baixa), bem como os es­tilos de interpretação, constitu­em combustão para deslanchar o humor.

“O Gabinete da Dra. Hully Gully”, o segundo quadro, cris­taliza as “especialidades” de ca­da uma. Rosi, na pele da médi­ca-monstro. Cláudia, como a pobre velhinha que tem dores no rim e vê seu órgão sendo co­tado para venda.

São momentos hilários, onde a médica usa de todas as artima­nhas – incluindo um gorila – para tentar convencer a velhinha da “venda”. Mas esta não se faz de rogada e quer saber tim-tim-por-tim-tim, num confronto surrealista.

À comédia ligeira de Pereira e Falabella, ainda que pesem seus escorregões racistas, sexistas – depois instituídos de vez no programa dominical “Sai de Baixo” -, Rossi e Cláudia acrescentam seus estilos marcantes. Soltas, à vontade, despachadas, elas convertem “As Sereias da Zona Sul” em entretenimento de alta voltagem cômica.

 

As Sereias da Zona Sul – De Vicente Pereira e Miguel Falabella. Com Rosi Campos e Cláudia Borioni. Elenco de apoio: Isabela Chiapetta e Carlos Pereira. Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Cacilda Becker (rua Tito, 295, Lapa, tel. 864-4512). R$ 10,00. Duração: 80 minutos.

Curitiba – Aos 52 anos, 47 de teatro, 26 de crí¬tica, o jornalista Alberto Guzik experimenta uma situação nova em sua carreira. Às vésperas da estréia de “Um Deus Cruel”, no 60 Festival de Teatro de Curitiba, prevista para ontem, ele confes¬sou o “frio na barriga” característico dos atores.
Trata-se da sua primeira peça levada ao palco. “Acho que consegui fazer uma coisa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro”, define seu texto. Não é exatamente novidade para quem debutou no romance ano passado, com “Risco de Vida”, também uma futura adaptação de Gerald Thomas – até 98. Dos mais influentes da cena brasileira contemporânea, o crítico do “Jornal da Tarde”, que antes passou pelo “Última Hora”, de Samuel Werner, é ator formado pela atual Escola de Artes Dramáticas da USP, antes Alfredo Mesquita; pós-graduado pela ECA-USP com tese sobre o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A seguir, Guzik fala das suas expectativas e perspectivas de autor.
O Diário – Do que trata “Um Deus Cruel”? Tem fundo autobiográfico?
Alberto Guzik – Não tem nada de autobiográfico, é um exercício de ficção. Tem a ver com minha vida no teatro. Comecei a fazer teatro com 5 anos, não parei mais. Primeiro como ator amador, depois como estudante de teatro, depois como professor, jornalista, crítico. Quer dizer, efetivamente tenho uma vida no teatro e escrevo obsessivamente sobre teatro. Então não há como não fazer essa experiência derivar quando ponho a escrever sobre teatro, em ficção. Agora, a peça não tem nada que eu pessoalmente tenha vivido. Acontece como em “Risco de Vida”, que tem uma base autobiográfica maior do que a peça, mas mesmo assim acabou sendo pequena, porque acabou uma coisa onde a ficção acabou dominando muito mais amplamente do que qualquer idéia autobiográfica ou coisa parecida. A ficção está na ponta, a ficção invade. É muito poderosa e  isso que é legal, é isso que é divertido.
O Diário – Como foi a transição do crítico para a dramaturgia?
Guzik – Não é uma passagem, é uma soma, um acréscimo; eu continuo crítico, continuo escrevendo crítica e continuarei fazendo isso enquanto eu achar que estou podendo manter a minha isenção e a minha neu¬tralidade em relação aos espetáculos que vejo. O fato de estar me aproximando cada vez mais da prática do teatro não está afe tando esse outro lado. No dia que sentir que ele está sendo afetado eu paro. Acho que dei a minha contribuição para a críti¬ca brasileira, tenho 26 anos de função e acho que já foi um bom exercício. Eu gos¬to do que eu faço não pretendo pa¬rar, mas se um dia sentir que o traba¬lho está sendo afe¬tado pelo exercício da ficção, aí eu vou me afastar, é isso que tem que ser feito. Na verdade, eu acho que o grande salto eu dei quando escrevi o ro¬mance “Risco de Vida”. Desta¬pei um alçapão e deixei sair um ficcionista que estava latente lá dentro, há muitos anos. E a peça é um desdobramento do romance¬, na medida em que nasceu do interesse do Alexandre Stockler do meu romance. Ele ficou mu¬ito interessado pelo livro. Quis fazer uma adaptação teatral, mas ficou sabendo que o Gerald Thomas já estava interessado, que eu já tinha dado os direitos, e  é uma adaptação que vai sair, que vai ser realizada, já estamos ¬conversando sobre isso.
O Diário – Como nasceu “Um Deus Cruel”?
Guzik – O projeto nasceu ano passado, a partir do segundo romance que estou escrevendo, que se chama “Era um palco iluminado”, a história de uma companhia de teatro São Paulo, dos anos 60 aos anos 90 – acho que um período deslumbrante e é a história da minha geração no teatro, acompanha a trajetória de uma companhia ao longo de 30 anos, com saltos no tempo, é claro, senão vai ficar do tamanho do “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, como oito volumes. Vou ¬fazer um volume só, do tamanho do “Risco de Vida”; umas 500 páginas, e já estou mais ou menos na metade. Quando o Alexandre começou a me sondar para escrever um texto para ele, tinha gostado muito do risco, achei que só ia escrever a peça em 98, quando terminasse o romance, porque tinha material que podia usar, que estava sobrando, algumas variantes de personagens. E daí a coisa cami¬nhou. Houve uma série de coincidências para que a peça surgisse. Tive um computador quebra¬do em Avignon (cidade francesa que abriga um grande festival) no passado, o romance estava no computador, escrevia todo dia. Tentei recuperar o romance – num caderno escrito, mas não consegui lembrar exatamente onde tinha parado, resolvi não arriscar. Então, ficção é feito dança, é uma coisa que requer uma disciplina, você tem que se dedicar àquilo todo dia num determinado horário ou dança. Lembrei-me então de uma conversa com o Alexandre, de que se fossa escrever a peça iria começar com a frase “Como assim”, e alguém respondendo “Como assim?”. Estava na praça de Avignon, num café, e aí abri o caderno e as anotações imediatamente se tornaram falas, personagens ganharam nomes, uma situação de ensaio, um di¬retor brigando com um ator, o a¬tor não entendendo direito o que é que ele faz e a peça começou a nascer, e em dois meses estava pronta a primeira versão.
O Diário – Fale um pouco sobre a história da peça?
Guzik – Uma companhia de teatro, uma garotada que sai da universidade, de uma cidade que presume-se que seja São Paulo. Ao contrário da minha ficção, esta peça não está situa¬da em nenhum momento historicamente muito preciso, mas a problemática dela data dos anos 80 para cá. É uma época sem censura, mas com censura eco¬nômica cada vez maior e que fa¬la das atividades, das dificulda¬des e das maravilhas, de fazer teatro. São cinco atores e um di¬retor que vivem o dia-a-dia de uma companhia. Então, o que o público vai ver são pedaços de ensaios, a mecânica dos ensai¬os, os bastidores, as brigas, os e¬gos, os delírios, as vaidades, as exacerbações, a generosidade, as maravilhas, as derrotas. E a¬cho que consegui fazer uma coi¬sa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro.
O Diário – Como é sua relação com a classe artística?
Guzik – Na verdade, não te¬nho amigos íntimos no teatro. Conheço todo mundo, me dou com todo mundo, mas não sou um crítico de fequentar casa. Vou a um jantar quando sou convidado, mas não sou famili¬ar das pessoas do teatro. Não é porque não gosto. Falta tempo. Em geral tendo a dormir mais cedo. Já fui muito de badalação. Tenho que escrever minha fic¬ção, trabalhar no jornal e isso toma muito tempo. Uma boa noite de sono, para ter uma boa manhã de trabalho antes de ir para a redação, porque eu escrevo de manhã antes de sair de casa, não tem o que pague. E muito mais importante que jogar conversa fora num boteco. Adoro atores, adoro diretores, adoro estar no meio deles, não tenho rigorosamente nada contra, ao contrário, mas não sou íntimo das pessoas. Nunca tive um caso de amizade tão grande com um artista que me impedisse de refletir sobre a obra dele. Quer dizer, até hoje tenho conseguido efetivamente manter essa isenção com muita tranquilidade. A crítica é um exercício de poder muito fugaz e a gente tem que saber disso com muita destrez e muita consciência do processo.
O Diário – Você chegou a viver um pouco da fase, pode-se dizer, romântica da crítica, com espaço maior nos jornais em relação ao que vemos hoje. Esse “aperto” não angustia um pouco?
Guzik – Na verdade, a gente aprende a fazer o que tem que fazer. A crítica sempre fez isso, você tem que aprender a se adaptar, o jornalismo mudou, a crítica tem que mudar. Nem eu tenho mais paciência de ficar lendo…Confesso que fiz grandes digressões sobre coisas… Era lindo, era maravilhoso, era o máximo. Você lê as críticas do Décio de Almeida Prado com um prazer extraordinário, o ho¬mem é um dos maiores estilis tas da língua, entre os autores contemporâneos. È admirável a maneira como ele escreve, in¬dependentemente de qualquer outra coisa. O único jeito de vo¬cê fazer crítica é saber que você está lá, para dar a cara pra bater e pra errar. Você erra o tempo todo, é um exercício de erro. A crítica detém um poder completamente ilusório, que é poder nenhum, na verdade você é es pancado de um lado e do outro não tem nehuma regalia, na verdade, com o fato de ser crítico. As pessoas podem achar que tem, mas não há glamour nenhum. E uma responsabilidade do tamanho de um bonde, porque o que você fala pode não levar público nenhum ao teatro, mas mexe pra danar na cabeça do artista. Então você tem que saber muito bem o que você está falando porque não é brincadeira. Acho que minha vantagem nessa passagem, se existe alguma, é que sei como a crítica é feita. Então sei como receber crítica. Já soube como receber crítica, até bordoada no romance “Risco de Vida”, espe¬ro que em “Um Deus Cruel” continue sabendo receber por que vai ser necessário. Vai ter gente que vai gostar, vai ter gente que vai odiar, vai ter gente que não vai com minha cara, então vai ter o maior prazer em revidar. Vai ter de tudo isso. A vida é isso e a gente tem que estar preparado.
O Diário – E como você es¬tá encarando a estréia?
Guzik – Estou nervoso e muito curioso. Torço muito, a cho que tem uma turma jovem, talentosa. Aposto neles. Eles estão apostando na peça. Acho este encontro de gerações maravilhoso. O Alexandre tem 23 anos, eu tenho 52. Acho o máxi¬mo isso que está acontecendo.
A gente está dando uma lição de cooperação porque no Brasil as gerações são tão comportamentadas e o trabalho entre elas tornou-se tão raro que acho que isso pode acontecer, com lucros pa¬ra ambas as partes.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do 6º FTC.
Gerald reencontra Bete Coelho em “evento”
Curitiba – Todo ano é sem¬pre igual. Foi assim, por e¬xemplo, em “Império das Meias-Verdades”, em “Nowhe¬re Man”. Gerald Thomas cercou “Os Reis do lê-lê-lê” de segre¬dinhos. Às 2 horas da madruga¬da da última sexta-feira, dia da estréia, ligou para a assessora de Imprensa do Festival de Teatro de Curitiba comunicando o adi¬amento para ontem.
Na entrevista coletiva, na tarde de quinta, já adiantava problemas com a preparação do palco e outros detalhes técnicos. “Mas o evento está pronto”, ga¬rantia após 12 dias de ensaios. “Com 53 espetáculos nas cos¬tas, 20 anos de teatro, é preciso muita razão para tomar a decisão de estrear num palco que a organização prometeu entregar na terça-feira e já está atrasado em pelo menos 36 horas”, se queixava Thomas, justificando com antecedência o adiamento.
É “evento” e não peça que marca o reencontro, cerca de seis anos depois, de Thomas com Bete Coelho, ex-primeira-atriz da Companhia de Ópera Seca. Nos últimos anos ela seguiu carreira paralela, atuando em “Rancor” e “Pentesiléias” – esta há dois anos, dividindo a direção com Daniela Thomas.
Também estão no elenco Lu¬iz Damasceno, na Ópera Seca desde o início, 11 anos atrás, e Domingos Varella; Raquel Riz¬zo, curitibana que vem desde “Unglauber”; mais o polêmico diretor e ator Dionísio Neto (“Opus Profundum” e “Perpé¬tua”) e sua primeira-atriz Rena¬ta Jesion.
Ao contrário das aparições em espetáculos anteriores, desta vez Thomas veste efetivamente a camisa de ator. “Não sou ator, mas faço papel do Gerald Tho¬mas”, ironiza. Ele define seu “evento” – que além das duas apre¬sentações no festival deve ter somente mais uma em São Pau¬lo – como um “laboratório de clonagem”.
“Não simplesmente genéti¬ca, como no caso da ovelhinha, mas clonagem semântica”, tenta explicar.
Para Thomas, a contracultu¬ra pós-anos 60, que contestava o behaviorismo, o comportamen¬to diante da sociedade, desem¬bocou “nesta ignorância, boba¬geira que começou com ‘she’s love yeah, yeah”’, na sua opini¬ão “o mais imbecil de todos os refrões”.
“Os Reis do lê-lê-lê” é uma crítica ao mundo pop, do qual os Beatles foram ícone? Sim e não. Em princípio, o “evento” não pretende dizer muito sobre os rapazes de Liverpool. Apropria-se dos nomes – Thomas é Len¬non, Bete Coelho, McCartney – e de algumas canções na trilha. Mas o encenador, que diz ter le¬vado “porrada” em Londres por não gostar do Beatles e amar os Rolling Stones, no tempo em que morou por lá, prefere desta¬car mais o “prazer do reencon¬tro” com a atriz com quem vi¬veu um affaire de quatro anos.
Em tese, não existe um fio. A sinopse que entregou para di¬vulgação, o próprio diretor con¬fessa, tem pouco ou nada a ver com o que será visto no palco. A mutação é uma das característi¬cas deste “obcecado pela for¬ma”. Thomas adora as coisas feitas pelo Homem, a beleza concreta das cidades, e dispensa as providências da natureza. Ve¬nera o asfalto, o pneu e está pre¬ocupado com quem dirige o car¬ro.
Sobre desperdiçar um bom elenco para apenas duas ou três apresentações, Thomas aponta a “efemeridade” do teatro. “Tanto faz dias ou meses”. O próximo trabalho no Brasil será em agosto, com a companhia de dança Primeiro Ato, de Belo Horizon¬te. Depois da experiência – e das divergências – com o bailarmno e coreógrafo Ivaldo Bertazzo, pa¬rece ter tomado gosto pelo mo-vimento.

O Diário de Mogi

O Diário de Mogi – Domingo, 11 de outubro de 1998.   Caderno A – 4

Antunes Filho celebra humildade e sensibiliza em mais um exercício de palco com o CPT

VALMIR SANTOS

São Paulo – A espectadora questiona o elenco após a apresentação: “Qual foi meu papel nesta noite?” O que vim fazer aqui?”. A pergunta, perturbadora, sintetiza a experiência de “Prét-à-Porter 2”, mais uma empreitada de Antunes Filho à frente do seu Centro de Pesquisa Teatral (CPT/Sesc).

Como na versão primeira, que veio a público em março passado, não se trata de espetáculo, mas de “trabalho”, de “apresentação”. Tampouco corresponde a moldes como “happening”, “performance” ou “work in progress”. A melhor forma de compreender o novo Antunes Filho é, tal como ele, desarmar-se das verdades estabelecidas; é arriscar-se em busca da simplicidade, o que é extremamente complexo em se tratando da natureza humana.

Foram deixados de lado os “truques”, “macetes”, tudo a favor da essência da interpretação, da dramaturgia, da concepção estética, enfim.

Em sua franqueza e despojamento, “Prét-à-Porter 2” desconstrói para reerguer a poesia cênica desbotada no balaio pós-pós.

Sob o primado absoluto do ator, a quem delega o poder da criação em instância maior – e advogando para si a capa de coordenador, não mais diretor -, Antunes vive um hiato dos mais produtivos.

Ele está nu, cercado por jovens em seus primeiros passos no teatro e com toda a energia redobrada para erguer e destruir coisas belas. É sob essa condição transitória que se deve ir ao Sesc Consolação. O encenador escolheu um caminho radical e horizontal que vai de encontro ao público pela via do avesso.

É como se estivéssemos detrás da coxia, contemplando as tentativas, os erros, os acertos. Tal procedimento não constitui propriamente novidade no teatro, mas surpreende por causa do quilate de um Antunes. Aqui, a ruptura é total.

Antes de cada cena – sempre interpretadas por duplas -, os atores fazem a chamada “gênese” do personagem, espécie de resumo biográfico que situa o espectador na ação que virá a seguir.

A eliminação simbólica do vão entre palco e platéia, por conta da proximidade da semi-arena montada no hall do Sesc Consolação, transcende ao espaço e é refletida na atuação, no texto, na cena como um todo. Daí o impacto do público diante da experimentanção, do não-espetáculo que instiga tanto quanto.

“Prét-à-Porter” sustenta-se sobretudo pelo modo como sua dramaturgia é levada à cena. Fica claro que a construção do texto e o trabalho de voz (ainda incipiente, mas há anos-luz da realidade dos intérpretes brasileiros) ganharam status de bola da vez no CPT.

São histórias curtas, não necessariamente interligadas. Desesperados, angustiados, presos no porão da consciência, perambulando alhures, seus personagens se (des)equilibram no limite da existência.

Há o tempo interior, o silêncio, a palavra introjetada e depois reverberada com peso beckttiano. Como no excerto de um diálogo em “Horas de Castigo”.

ELE – Onde é que a gente está quando não está dentro da nossa cabeça?

ELA – Fora da cabeça…

ELE – Não, a gente não está.

ELA – É.

O diacho é que, amiúde distanciamento, naturalismo, enfim, há momentos em que a emoção nos captura a lembrar que, na essência humana como ela é, ou no teatro sem filtro, nada subverte a condição de seres vivos no contato olho a olho, corpo a corpo.

Lianna Matheus, Sílvia Lourenço, Emerson Danesi, Luiz Pãetow e Sabrina Greeve exercitam seus textos com segurança. São atores, são autores, são personagens, são discípulos-teen do “mestre” Antunes e, no entanto, não esmorecem diante de tanta responsabilidade. Ao contrário, levam a caravana com coragem.

Incomoda, porém, um certo ar etéreo nas interpretações, uma frieza atribuída ao tratamento naturalista que está em xeque. (Mas lembre-se: não estamos diante de um espetáculo).

E ainda que a razão nos guie pelo “contrário” do projeto – o público é instado,  desde o início, a cumprir seu papel de coadjuvante, inclusive retirando-se da sala a cada intervalo -, ainda assim, não há como se esquivar do envolvimento.

Somos cúmplices incondicionais dessa cruzada anti-naturalismo que faz justamente uso do seu duplo. É a contramão do entretenimento comezinho, da expiação midiática que bloqueia os sentidos e dessensibiliza a todos.

Antunes Filho está decantando os jovens atores perante os olhos de um espectador acuado pela desaceleração cometida em cerca de três horas. Com voz para opinar/desabafar ao final, o público é assim demovido da violenta passividade desse final de milênio. E aí, é amar ou odiar – jamais a indiferença.

São privilegiados  aqueles que perscrutam o exercício de palco “Prét-à-Porter 2” e sentem seu pulso. É o chamado geral de quem há pouco girou em torno de si em “Gilgamesh”, mas não atingiu o eixo; pôs os bichos para fora em “Drácula”, mas não seduziu; e agora, em mais um zero a zero, celebra a humildade para encarar a tragédia grega (“Fragmentos Troianos”?) que vem por aí.

Prét-à-Porter – Criação coletiva dos atores do CPT. Coordenação: Antunes Filho. Sábado, 19h50. Sesc Consolação/Hall de Convivência (rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 234-3077, após 13h). R$ 10,00 e R$ 5,00 (comerciários e estudantes). Duração: 180 minutos. Até dezembro.

 

“Giramundo” homenageia Myrian Muniz

São Paulo – O colega Marcos Caruso (“Porca Miséria”) lhe atribui, apropriadamente, um “humor  paulista de sotaque italiano”. De fato, é a veia da comediante que ganha relevo nos 40 anos de carreira da atriz Myrian Muniz, celbrandos agora com o lançamento de uma espécie de “biografia associada”.

Organizado por Maria Thereza Vargas, o livro “Giramundo – Myrian Muniz, o Percurso de Uma Atriz” percorre os seus melhores momentos no palco, na TV, no cinema e na sala de aula, sob a ótica dos amigos que somou ao longo do caminho. Claro, também foi recolhido um rico depoimento da própria.

Apesar da relutar inicialmente à homenagem, recolhendo-se à sombra das aulas do curso que ministra na Capital, Myrian, 66 anos, acabou cedendo ao projeto de Maria Thereza (também autora da biografia de Cacilda Becker, em parceria com Nanci Fernandes, e no momento preparando uma retrospectiva dos últimos 20 anos do Oficina, hoje Uzyna Uzona, de Zé Celso.

“Giramundo” reúne artigos de diretores, atores e ex-alunos de Myrian Muniz. A arte de ensinar interpretação continua rendendo bons momentos para a atriz. Ela já deu aulas na Escola de Artes Dramáticas (EAD), onde também formou-se sob a batuta do lendário Alfredo Mesquita; foi uma das fundadoras da Escola Macunaíma; e há 15 anos inspira atores nas salas da Funarte, no Santa Cecília.

Passaram pelas suas mãos, por exemplo, Paulo Betti, Eliane Giardini e Cristina Pereira. Os três têm seus depoimentos registrados no livro. Também estão lá os diretores Gianni Ratto, Gianfrancesco Guarnieri, Fauzi Arap, Marcos Caruso, Augusto Boal, Carlos Alberto Soffredini, mais a cineasta Ana Carolina, que, por assim dizer, “monopolizou” o talento de Myrian na tela grande (“Mar de Rosas”, “Das Tripas Coração”, sendo que o próximo, “Páscoa em Março”, estréia ano que vem).

Na TV, o colega Juca de Oliveira lembra sua presença no seriado “Nino, o Italianinho” (1969), onde Myrian roubava  a cena na pele de Dona Benta.

Da Bruxa Caolha de “A Bruxinha que Era Boa” (1962), de Maria Clara Machado, até a Michelina de “Porca Miséria” (1993), é no teatro que Myrian fez as pazes com a vida. É a paixão maior, que aprendeu a cultivar nas suas passagens pelo Oficina, TBC e Arena – e continua disseminando no coração dos jovens aspirantes do palco, a despeito de todas as dificuldades de ontem e de hoje.

A organizadora Maria Thereza Vargas escalou um time coeso, dando um tratamento confessional e ao mesmo tempo longe da reverência óbvia.

Com uma diagramação arejada, corroborada por um excelente álbum fotográfico (são 52 imagens), que pontua os artigos do início ao fim, “Giramundo” testemunha o que Myrian Muniz faz e continua fazendo pelo teatro brasileiro. Felizmente, sublima mais a vida que está aí, em curso, do que a efeméride, regra editorial (quiçá, cultural) no País.

Giramundo – Myrian Muniz, O Percurso de Uma Atriz – Organização de Maria Thereza Vargas. Lançamento da Editora Hucitec (tel. 240-9318 ou 543-0653). 198 páginas. R$ 30,00.

Atriz ensina jovens há 25 anos

São Paulo – O curso de interpretação teatral com a atriz Myrian Muniz já tem uma tradição de 25 anos. Depois de passar pela EAD, Sesc, Macunaíma, ela agora dá aulas na Funarte.

Além de dotar os alunos com as ferramentas básicas do teatro, o curso trabalha passo a passo a montagem de um espetáculo através de improvisações, jogos dramáticos, pesquisas de textos, palestras sobre temas específicos, leituras de mesa, desenhos, figurinos, cenários, iluminação etc.

Curso de Interpretação Teatral Myrian Muniz – Segundas e terças, das 20h às 23h. Funarte (Alameda Nothman, 1.058, tel. 3662-5177). Matrícula. R$ 50,00; mensalidade, R$ 150,00.

Curitiba – Aos 52 anos, 47 de teatro, 26 de crí¬tica, o jornalista Alberto Guzik experimenta uma situação nova em sua carreira. Às vésperas da estréia de “Um Deus Cruel”, no 60 Festival de Teatro de Curitiba, prevista para ontem, ele confes¬sou o “frio na barriga” característico dos atores.
Trata-se da sua primeira peça levada ao palco. “Acho que consegui fazer uma coisa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro”, define seu texto. Não é exatamente novidade para quem debutou no romance ano passado, com “Risco de Vida”, também uma futura adaptação de Gerald Thomas – até 98. Dos mais influentes da cena brasileira contemporânea, o crítico do “Jornal da Tarde”, que antes passou pelo “Última Hora”, de Samuel Werner, é ator formado pela atual Escola de Artes Dramáticas da USP, antes Alfredo Mesquita; pós-graduado pela ECA-USP com tese sobre o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A seguir, Guzik fala das suas expectativas e perspectivas de autor.
O Diário – Do que trata “Um Deus Cruel”? Tem fundo autobiográfico?
Alberto Guzik – Não tem nada de autobiográfico, é um exercício de ficção. Tem a ver com minha vida no teatro. Comecei a fazer teatro com 5 anos, não parei mais. Primeiro como ator amador, depois como estudante de teatro, depois como professor, jornalista, crítico. Quer dizer, efetivamente tenho uma vida no teatro e escrevo obsessivamente sobre teatro. Então não há como não fazer essa experiência derivar quando ponho a escrever sobre teatro, em ficção. Agora, a peça não tem nada que eu pessoalmente tenha vivido. Acontece como em “Risco de Vida”, que tem uma base autobiográfica maior do que a peça, mas mesmo assim acabou sendo pequena, porque acabou uma coisa onde a ficção acabou dominando muito mais amplamente do que qualquer idéia autobiográfica ou coisa parecida. A ficção está na ponta, a ficção invade. É muito poderosa e  isso que é legal, é isso que é divertido.
O Diário – Como foi a transição do crítico para a dramaturgia?
Guzik – Não é uma passagem, é uma soma, um acréscimo; eu continuo crítico, continuo escrevendo crítica e continuarei fazendo isso enquanto eu achar que estou podendo manter a minha isenção e a minha neu¬tralidade em relação aos espetáculos que vejo. O fato de estar me aproximando cada vez mais da prática do teatro não está afe tando esse outro lado. No dia que sentir que ele está sendo afetado eu paro. Acho que dei a minha contribuição para a críti¬ca brasileira, tenho 26 anos de função e acho que já foi um bom exercício. Eu gos¬to do que eu faço não pretendo pa¬rar, mas se um dia sentir que o traba¬lho está sendo afe¬tado pelo exercício da ficção, aí eu vou me afastar, é isso que tem que ser feito. Na verdade, eu acho que o grande salto eu dei quando escrevi o ro¬mance “Risco de Vida”. Desta¬pei um alçapão e deixei sair um ficcionista que estava latente lá dentro, há muitos anos. E a peça é um desdobramento do romance¬, na medida em que nasceu do interesse do Alexandre Stockler do meu romance. Ele ficou mu¬ito interessado pelo livro. Quis fazer uma adaptação teatral, mas ficou sabendo que o Gerald Thomas já estava interessado, que eu já tinha dado os direitos, e  é uma adaptação que vai sair, que vai ser realizada, já estamos ¬conversando sobre isso.
O Diário – Como nasceu “Um Deus Cruel”?
Guzik – O projeto nasceu ano passado, a partir do segundo romance que estou escrevendo, que se chama “Era um palco iluminado”, a história de uma companhia de teatro São Paulo, dos anos 60 aos anos 90 – acho que um período deslumbrante e é a história da minha geração no teatro, acompanha a trajetória de uma companhia ao longo de 30 anos, com saltos no tempo, é claro, senão vai ficar do tamanho do “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, como oito volumes. Vou ¬fazer um volume só, do tamanho do “Risco de Vida”; umas 500 páginas, e já estou mais ou menos na metade. Quando o Alexandre começou a me sondar para escrever um texto para ele, tinha gostado muito do risco, achei que só ia escrever a peça em 98, quando terminasse o romance, porque tinha material que podia usar, que estava sobrando, algumas variantes de personagens. E daí a coisa cami¬nhou. Houve uma série de coincidências para que a peça surgisse. Tive um computador quebra¬do em Avignon (cidade francesa que abriga um grande festival) no passado, o romance estava no computador, escrevia todo dia. Tentei recuperar o romance – num caderno escrito, mas não consegui lembrar exatamente onde tinha parado, resolvi não arriscar. Então, ficção é feito dança, é uma coisa que requer uma disciplina, você tem que se dedicar àquilo todo dia num determinado horário ou dança. Lembrei-me então de uma conversa com o Alexandre, de que se fossa escrever a peça iria começar com a frase “Como assim”, e alguém respondendo “Como assim?”. Estava na praça de Avignon, num café, e aí abri o caderno e as anotações imediatamente se tornaram falas, personagens ganharam nomes, uma situação de ensaio, um di¬retor brigando com um ator, o a¬tor não entendendo direito o que é que ele faz e a peça começou a nascer, e em dois meses estava pronta a primeira versão.
O Diário – Fale um pouco sobre a história da peça?
Guzik – Uma companhia de teatro, uma garotada que sai da universidade, de uma cidade que presume-se que seja São Paulo. Ao contrário da minha ficção, esta peça não está situa¬da em nenhum momento historicamente muito preciso, mas a problemática dela data dos anos 80 para cá. É uma época sem censura, mas com censura eco¬nômica cada vez maior e que fa¬la das atividades, das dificulda¬des e das maravilhas, de fazer teatro. São cinco atores e um di¬retor que vivem o dia-a-dia de uma companhia. Então, o que o público vai ver são pedaços de ensaios, a mecânica dos ensai¬os, os bastidores, as brigas, os e¬gos, os delírios, as vaidades, as exacerbações, a generosidade, as maravilhas, as derrotas. E a¬cho que consegui fazer uma coi¬sa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro.
O Diário – Como é sua relação com a classe artística?
Guzik – Na verdade, não te¬nho amigos íntimos no teatro. Conheço todo mundo, me dou com todo mundo, mas não sou um crítico de fequentar casa. Vou a um jantar quando sou convidado, mas não sou famili¬ar das pessoas do teatro. Não é porque não gosto. Falta tempo. Em geral tendo a dormir mais cedo. Já fui muito de badalação. Tenho que escrever minha fic¬ção, trabalhar no jornal e isso toma muito tempo. Uma boa noite de sono, para ter uma boa manhã de trabalho antes de ir para a redação, porque eu escrevo de manhã antes de sair de casa, não tem o que pague. E muito mais importante que jogar conversa fora num boteco. Adoro atores, adoro diretores, adoro estar no meio deles, não tenho rigorosamente nada contra, ao contrário, mas não sou íntimo das pessoas. Nunca tive um caso de amizade tão grande com um artista que me impedisse de refletir sobre a obra dele. Quer dizer, até hoje tenho conseguido efetivamente manter essa isenção com muita tranquilidade. A crítica é um exercício de poder muito fugaz e a gente tem que saber disso com muita destrez e muita consciência do processo.
O Diário – Você chegou a viver um pouco da fase, pode-se dizer, romântica da crítica, com espaço maior nos jornais em relação ao que vemos hoje. Esse “aperto” não angustia um pouco?
Guzik – Na verdade, a gente aprende a fazer o que tem que fazer. A crítica sempre fez isso, você tem que aprender a se adaptar, o jornalismo mudou, a crítica tem que mudar. Nem eu tenho mais paciência de ficar lendo…Confesso que fiz grandes digressões sobre coisas… Era lindo, era maravilhoso, era o máximo. Você lê as críticas do Décio de Almeida Prado com um prazer extraordinário, o ho¬mem é um dos maiores estilis tas da língua, entre os autores contemporâneos. È admirável a maneira como ele escreve, in¬dependentemente de qualquer outra coisa. O único jeito de vo¬cê fazer crítica é saber que você está lá, para dar a cara pra bater e pra errar. Você erra o tempo todo, é um exercício de erro. A crítica detém um poder completamente ilusório, que é poder nenhum, na verdade você é es pancado de um lado e do outro não tem nehuma regalia, na verdade, com o fato de ser crítico. As pessoas podem achar que tem, mas não há glamour nenhum. E uma responsabilidade do tamanho de um bonde, porque o que você fala pode não levar público nenhum ao teatro, mas mexe pra danar na cabeça do artista. Então você tem que saber muito bem o que você está falando porque não é brincadeira. Acho que minha vantagem nessa passagem, se existe alguma, é que sei como a crítica é feita. Então sei como receber crítica. Já soube como receber crítica, até bordoada no romance “Risco de Vida”, espe¬ro que em “Um Deus Cruel” continue sabendo receber por que vai ser necessário. Vai ter gente que vai gostar, vai ter gente que vai odiar, vai ter gente que não vai com minha cara, então vai ter o maior prazer em revidar. Vai ter de tudo isso. A vida é isso e a gente tem que estar preparado.
O Diário – E como você es¬tá encarando a estréia?
Guzik – Estou nervoso e muito curioso. Torço muito, a cho que tem uma turma jovem, talentosa. Aposto neles. Eles estão apostando na peça. Acho este encontro de gerações maravilhoso. O Alexandre tem 23 anos, eu tenho 52. Acho o máxi¬mo isso que está acontecendo.
A gente está dando uma lição de cooperação porque no Brasil as gerações são tão comportamentadas e o trabalho entre elas tornou-se tão raro que acho que isso pode acontecer, com lucros pa¬ra ambas as partes.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do 6º FTC.
Gerald reencontra Bete Coelho em “evento”
Curitiba – Todo ano é sem¬pre igual. Foi assim, por e¬xemplo, em “Império das Meias-Verdades”, em “Nowhe¬re Man”. Gerald Thomas cercou “Os Reis do lê-lê-lê” de segre¬dinhos. Às 2 horas da madruga¬da da última sexta-feira, dia da estréia, ligou para a assessora de Imprensa do Festival de Teatro de Curitiba comunicando o adi¬amento para ontem.
Na entrevista coletiva, na tarde de quinta, já adiantava problemas com a preparação do palco e outros detalhes técnicos. “Mas o evento está pronto”, ga¬rantia após 12 dias de ensaios. “Com 53 espetáculos nas cos¬tas, 20 anos de teatro, é preciso muita razão para tomar a decisão de estrear num palco que a organização prometeu entregar na terça-feira e já está atrasado em pelo menos 36 horas”, se queixava Thomas, justificando com antecedência o adiamento.
É “evento” e não peça que marca o reencontro, cerca de seis anos depois, de Thomas com Bete Coelho, ex-primeira-atriz da Companhia de Ópera Seca. Nos últimos anos ela seguiu carreira paralela, atuando em “Rancor” e “Pentesiléias” – esta há dois anos, dividindo a direção com Daniela Thomas.
Também estão no elenco Lu¬iz Damasceno, na Ópera Seca desde o início, 11 anos atrás, e Domingos Varella; Raquel Riz¬zo, curitibana que vem desde “Unglauber”; mais o polêmico diretor e ator Dionísio Neto (“Opus Profundum” e “Perpé¬tua”) e sua primeira-atriz Rena¬ta Jesion.
Ao contrário das aparições em espetáculos anteriores, desta vez Thomas veste efetivamente a camisa de ator. “Não sou ator, mas faço papel do Gerald Tho¬mas”, ironiza. Ele define seu “evento” – que além das duas apre¬sentações no festival deve ter somente mais uma em São Pau¬lo – como um “laboratório de clonagem”.
“Não simplesmente genéti¬ca, como no caso da ovelhinha, mas clonagem semântica”, tenta explicar.
Para Thomas, a contracultu¬ra pós-anos 60, que contestava o behaviorismo, o comportamen¬to diante da sociedade, desem¬bocou “nesta ignorância, boba¬geira que começou com ‘she’s love yeah, yeah”’, na sua opini¬ão “o mais imbecil de todos os refrões”.
“Os Reis do lê-lê-lê” é uma crítica ao mundo pop, do qual os Beatles foram ícone? Sim e não. Em princípio, o “evento” não pretende dizer muito sobre os rapazes de Liverpool. Apropria-se dos nomes – Thomas é Len¬non, Bete Coelho, McCartney – e de algumas canções na trilha. Mas o encenador, que diz ter le¬vado “porrada” em Londres por não gostar do Beatles e amar os Rolling Stones, no tempo em que morou por lá, prefere desta¬car mais o “prazer do reencon¬tro” com a atriz com quem vi¬veu um affaire de quatro anos.
Em tese, não existe um fio. A sinopse que entregou para di¬vulgação, o próprio diretor con¬fessa, tem pouco ou nada a ver com o que será visto no palco. A mutação é uma das característi¬cas deste “obcecado pela for¬ma”. Thomas adora as coisas feitas pelo Homem, a beleza concreta das cidades, e dispensa as providências da natureza. Ve¬nera o asfalto, o pneu e está pre¬ocupado com quem dirige o car¬ro.
Sobre desperdiçar um bom elenco para apenas duas ou três apresentações, Thomas aponta a “efemeridade” do teatro. “Tanto faz dias ou meses”. O próximo trabalho no Brasil será em agosto, com a companhia de dança Primeiro Ato, de Belo Horizon¬te. Depois da experiência – e das divergências – com o bailarmno e coreógrafo Ivaldo Bertazzo, pa¬rece ter tomado gosto pelo mo-vimento.

O Diário de Mogi

O Diário de Mogi – Domingo, 13 de setembro de 1998.   Caderno A – 4

Montagem de Beth Lopes, com Regina Braga, traduz força e lirismo do drama de Tennessee

VALMIR SANTOS

São Paulo – Há Tennessee Williams (1911-83) para todos os gostos. Pode-se encarar seus textos a partir da bruma indelével da superfície. Pode-se mergulhar mais fundo e deparar com seres atordoados pela existência. E neste patamar, ora rastejando, ora reunindo for­ça para dobrar o destino, que se vai enxergar nos olhos e tocar na alma dos seus personagens.

Em cartaz no Teatro Faap, a história de “À Margem da Vida” (44) se passa no plano baixo, o subsolo, espaço imaginário compreendido entre o asfalto e o teto de uma ponte. Para vir à público, no palco, a família Wingfield precisa descer as es­cadas de um cenário cinza e im­pessoal, como as paredes de concreto dos túneis do metrô.

Frieza e distanciamento vi­sual conferem com o enredo. Estamos diante de um núcleo humano em dissolução. Aman­da (ReginaBraga), a célula-mater, tenta a todo custo sustentar as aparências se agarrando aos fiapos do cotidiano comezinho.

Laura (Luah Guimarãez), a filha envolta em “bolha” de ti­midez gestada pela perna ligeiramente maior que a outra, pre­fere se abster de tanta hipocrisia e cria seu mundo paralelo, habi­tado pelos bichinhos de vidro que coleciona desde criança. E um esforço inglório, pois a freu­diana castração materna, aqui, é elevada à potência de morte, simbólica e gradativa.

Recai sobre Tom (Gabriel Nunes Braga), o varão dos Wing­field, a atitude dissonante. Não se trata de escape machista do autor. Ao contrário, o corte um­bilical do filho é questão de sobrevivência. Romper com o de­terminismo do lar constitui etapa das mais dificeis para jovens in­quietos diante das possibilidades da vida descortinada pelo tempo.

Tom foi submisso até o limi­te em que já não pertencia a si, mas à mãe e, por extensão, à ir­mã. Como o pai, que abandonou o barco no passado – mas é um personagem que flutua nas entrelinhas do texto com peso de­terminante -, ele também deixa o “bunker”.

“O homem é por instinto guerreiro, vai à guerra”, afirma Tom na vã ilusão de convencer Amanda do comichão poético que lhe invade e impede de ver o cor-de-rosa da realidade pintada pela mãe.

Tennessee Williams escreveu um drama que explicita o processo de crescimento pela via da dor. Em verdade, as op­ções de Laura e Tom são iguais. As escolhas, porque inerentes ao âmago de cada um, elas sim são diferentes.

Toda essa pungência de “À Margem da Vida” desponta com equilíbrio na montagem dirigida por Beth Lopes. Equilíbrio não propriamente de espírito, mas de estado. Há um domínio preciso da diretora na reorganização do espaço e da atuação que traduz a essência do dramaturgo norte-americano, sem verter tanta den­sidade para melodrama ou em­polação – um risco eminente.

Lopes conta com uma equipe dos sonhos de qualquer diretor. Daniela Thomas fez a direção de arte, com cenário de Felipe Tas­sara, iluminaação de Wagner Pin­to e música composta por Marcelo Pellegrini. Luz e trilha, em particular, harmonizam a delica­deza interior dos personagens com a tempestade por que pas­sam – cuja melhor metáfora é a britadeira cortando o concreto…

Na base da interpretação, o e­lenco passou pelas mãos de Re­nata Meio (“Domésticas”). Ao que parece, a coreógrafa traba­lhou mais no sentido de conten­ção do que propriamente expan­são, como requer um Tennessee Williams, contrastando com a fisicalidade recorrente dos espetá­culos anteriores de Beth Lopes.

Luah Guimarãez é quem des­pende maior esforço para levar sua Laura adiante. Há um tênue fio a separá-la da loucura, mas a consciência não lhe escapa por completo (“O que vamos fazer do resto de nossas vidas”, per­gunta) – o que também tem lá o seu custo.

Regina Braga consegue ex­trair humor do histerismo da Amanda. Como recomenda o au­tor, a mãe não deve ser interpre­tada sob o signo fácil do exage­ro, do estereótipo. A atriz não só segue à risca, como amplia as possibilidades da personagem, conferindo-lhe uma estatura mais demasiadamente humana na insegurança e na insensatez.

A revelação fica por conta de Gabriel Nunes Braga, filho de Regina. Seu Tom transita entre ação e narração com naturalidade. É encantador acompanhar o per­sonagem no desprendimento da família, na disposição em sair para a vida – ou “para o cinema”, como insiste no álibi de boêmio e poeta que é. Enfim, uma inter­pretação segura.

O ator André Boll surge sem comprometimento na segunda metade da peça no papel de Jim, Amigo de serviço de Tom, que a mãe tenta empurrar para Lau­ra sem sucesso.

Com esse Teneessee Willi­ams, Beth Lopes dá por encer­rada, definitivamente, a fase “O Cobrador” com a qual ficou estigmatizada nos últimos anos, à frente da Cia. de Teatro em Quadrinhos – sem desmerecer aquela montagem marcante no início da década, mas o tea­tro, como a vida, é ciclo. “À Margem da Vida”, superprodu­zida esteticamente simples, co­roa a maturidade e o talento de uma grande diretora parcimo­niosa na arte de tocar o público.

À Margem da Vida – De Teneessee Williams. Tradução: Marta Góes. Figurino: Verônica Julian e Flávia Ribeiro. Programação visual: Gringo Cardia. Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Teatro Faap (rua Alagoas, 903, Higienópolis, tel. 3662-1992). R$ 25 e R$ 30,00.

 

“Doce Lembrança” reinventa saudade

São Paulo A delica­deza que Beth Lopes pers­cruta em “À Mar­gem da Vida” sur­ge em estado bru­to em “Doce Lembrança”, a montagem que di­rigiu com seus a­lunos de interpre­tação na EAD/USP. A pe­ça permaneceu dois meses em cartaz, até final de agosto, e tem perspectiva de reestrear em breve.

Adaptação da obra fundamental de Ecléa Bosi – “Memória e Soci­edade: Lembran­ças de Velhos” -, o espetáculo expõe uma diretora que já se sabia aliada à exigência física dos atores, mas não se vislumbra­va, até aqui, uma diluição mais ver­tical de tempo e espaço, liberando-os, ao menos de vez em quando, da ação em si.

De cunho experimental, o trabalho resultou extremamente rico em signos, a começar pela ocupação inventiva do porão do Centro Cultural São Paulo. O público era recebido com bolos e pãezinhos, acompanhados de chá e café, bem ao estilo dos nossos avós.

Conquistado pela boca – a gastronomia como poderosa a­liada da memória -, sentamos na platéia semi-arena para acom­panhar a aventura de seis perso­nagens pelo túnel do tempo de suas vidas.

E tudo começa pelo extre­mo, lá na outra ponta, na infân­cia. “Pirulito que bate bate/ Pi­rulito que já bateu…”, entoam. A memória, essa instância sublime que conjuga tristeza e alegria, é recomposta aos poucos, em in­sights mútuos.

Da mesma forma, e paralelamente, vai-se dando a recons­trução – ou “reinvenção” – dos móveis e adereços. Aos poucos, eles ganham forma em cena.

Um amálgama de corpos ar­queados, cacarejos e cacoetes; mais panos, rendas, flores, fo­tos, cartas, documentos, sapa­tos, enfim, desenham um es­forço tremendo diante do senti­mento da saudade, tão peculiar à alma brasileira.

As principais passagens polí­ticas do País, como o auge da Era Vargas, são pincelados aqui e ali. Num Brasil que não leva a sério os dois extremos da vida, o velho e a criança, o entrelaçamento do privado e do público é alentador.

Quando se fala em terceira i­dade, esse “palavrão”, remete-se logo aos eternos problemas da Previdência Social. “Doce Lembrança” não passa ao largo disso, mas valoriza mais o indivíduo -ou a amizade e sua celebração em grupo.

A via aqui é a da felicidade possível e, porém, esmaecida num passado não muito distante e pouco distinto dos nossos au­cestrais. A cena final, em que cada personagem retorna ao cai­xote que lhe cabe nesta reta final da vida, é memorável.

Trata-se, sobretudo, do resul­tado de um elenco esforçado, dis­posto a empreender a gana da sua juventude, sem sobressaltos, em projeto tão comovente.


Doce Lembrança –
Direção: Beth Lopes. Com Ana Gallotti, Eduardo de Paula, Fabiana Barbosa, Guadalupe Vivanco, Mara Leal e Vera Canolli. Cenografia: André Moia. Figurinos: Luciana Pareja. Iluminação: João Donda.

Eterno retorno de “Noturno”

São Paulo – Não é dificil ex­plicar o “eterno retorno” de “Noturno”. O musical de Oswaldo Montenegro, de volta ao cartaz, tem ingredientes na medida para seu público alvo: jovens munidos de adrenalina para se aventurar por aí, atrás de utopias d’antes não conquista­das – algo como a dupla paz-a­mor ou o triô liberdade-igualda­de-fraternidade.

Aquele espírito libertador e datado de “Hair”, nos anos 60, pouco legou à geração dos 90. Embaçados pelas perspectivas esotéricas – um tal ex-parceiro de Raul Seixas só corrobora o caldo retrô -, os “teens”, como querem, divagam na poesia do “chato” Oswaldo Montenegro.

“Chato” porque assim auto-denominou-se em uma das suas canções. Mas é assim, sincero em seu canto – como o sabem milhares de fãs bem crescidi­nhos – que Oswaldo Montenegro chega junto da moçada sem me­do de pisar na bola.

O musical, em seis anos de estrada, um CD, junta um bando de 60 atores, jovens em sua maioria oriundos da Oficina dos Menestréis, curso ministrado por Deto Montenegro e Candé Brandão, sempre no temporão Teatro Dias Gomes, onde a montagem segue em cartaz nas segundas e terças, alternativas e de casa invariavelmente cheia.

A trilha vai de Prince a Peter Gabriel. Destaque para as belas vozes de Tânia Maya e Débora Reis.

“Noturno” utiliza todo o es­paço do teatro (em uma pers­pectiva de 360 graus), conju­gando coreografias em massa e jogos de sombra de luz. A pla­téia é literalmente envolvida pela ação dos atores, ora no pal­co, ora dependurados em cor­das, ora ziguezagueando pelos corredores. Maiores detalhes sobre a empatia dos estudantes para com um espetáculo que prega a utopia como condição sine qua non, só conferindo. Poesia pouca é bobagem.

Noturno – Direção: Oswaldo Montenegro. Com Estela Cassilatti, Tânia Maya, Débora Reis, Gordo Marques, Marcelo Palma, Marco de Vita e outros. Segunda e terça, 21h. Teatro Dias Gomes (rua Domingos de Moraes, 348, metrô Ana Rosa, tel. 571-6177). R$ 15,00.

Curitiba – Aos 52 anos, 47 de teatro, 26 de crí¬tica, o jornalista Alberto Guzik experimenta uma situação nova em sua carreira. Às vésperas da estréia de “Um Deus Cruel”, no 60 Festival de Teatro de Curitiba, prevista para ontem, ele confes¬sou o “frio na barriga” característico dos atores.
Trata-se da sua primeira peça levada ao palco. “Acho que consegui fazer uma coisa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro”, define seu texto. Não é exatamente novidade para quem debutou no romance ano passado, com “Risco de Vida”, também uma futura adaptação de Gerald Thomas – até 98. Dos mais influentes da cena brasileira contemporânea, o crítico do “Jornal da Tarde”, que antes passou pelo “Última Hora”, de Samuel Werner, é ator formado pela atual Escola de Artes Dramáticas da USP, antes Alfredo Mesquita; pós-graduado pela ECA-USP com tese sobre o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A seguir, Guzik fala das suas expectativas e perspectivas de autor.
O Diário – Do que trata “Um Deus Cruel”? Tem fundo autobiográfico?
Alberto Guzik – Não tem nada de autobiográfico, é um exercício de ficção. Tem a ver com minha vida no teatro. Comecei a fazer teatro com 5 anos, não parei mais. Primeiro como ator amador, depois como estudante de teatro, depois como professor, jornalista, crítico. Quer dizer, efetivamente tenho uma vida no teatro e escrevo obsessivamente sobre teatro. Então não há como não fazer essa experiência derivar quando ponho a escrever sobre teatro, em ficção. Agora, a peça não tem nada que eu pessoalmente tenha vivido. Acontece como em “Risco de Vida”, que tem uma base autobiográfica maior do que a peça, mas mesmo assim acabou sendo pequena, porque acabou uma coisa onde a ficção acabou dominando muito mais amplamente do que qualquer idéia autobiográfica ou coisa parecida. A ficção está na ponta, a ficção invade. É muito poderosa e  isso que é legal, é isso que é divertido.
O Diário – Como foi a transição do crítico para a dramaturgia?
Guzik – Não é uma passagem, é uma soma, um acréscimo; eu continuo crítico, continuo escrevendo crítica e continuarei fazendo isso enquanto eu achar que estou podendo manter a minha isenção e a minha neu¬tralidade em relação aos espetáculos que vejo. O fato de estar me aproximando cada vez mais da prática do teatro não está afe tando esse outro lado. No dia que sentir que ele está sendo afetado eu paro. Acho que dei a minha contribuição para a críti¬ca brasileira, tenho 26 anos de função e acho que já foi um bom exercício. Eu gos¬to do que eu faço não pretendo pa¬rar, mas se um dia sentir que o traba¬lho está sendo afe¬tado pelo exercício da ficção, aí eu vou me afastar, é isso que tem que ser feito. Na verdade, eu acho que o grande salto eu dei quando escrevi o ro¬mance “Risco de Vida”. Desta¬pei um alçapão e deixei sair um ficcionista que estava latente lá dentro, há muitos anos. E a peça é um desdobramento do romance¬, na medida em que nasceu do interesse do Alexandre Stockler do meu romance. Ele ficou mu¬ito interessado pelo livro. Quis fazer uma adaptação teatral, mas ficou sabendo que o Gerald Thomas já estava interessado, que eu já tinha dado os direitos, e  é uma adaptação que vai sair, que vai ser realizada, já estamos ¬conversando sobre isso.
O Diário – Como nasceu “Um Deus Cruel”?
Guzik – O projeto nasceu ano passado, a partir do segundo romance que estou escrevendo, que se chama “Era um palco iluminado”, a história de uma companhia de teatro São Paulo, dos anos 60 aos anos 90 – acho que um período deslumbrante e é a história da minha geração no teatro, acompanha a trajetória de uma companhia ao longo de 30 anos, com saltos no tempo, é claro, senão vai ficar do tamanho do “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, como oito volumes. Vou ¬fazer um volume só, do tamanho do “Risco de Vida”; umas 500 páginas, e já estou mais ou menos na metade. Quando o Alexandre começou a me sondar para escrever um texto para ele, tinha gostado muito do risco, achei que só ia escrever a peça em 98, quando terminasse o romance, porque tinha material que podia usar, que estava sobrando, algumas variantes de personagens. E daí a coisa cami¬nhou. Houve uma série de coincidências para que a peça surgisse. Tive um computador quebra¬do em Avignon (cidade francesa que abriga um grande festival) no passado, o romance estava no computador, escrevia todo dia. Tentei recuperar o romance – num caderno escrito, mas não consegui lembrar exatamente onde tinha parado, resolvi não arriscar. Então, ficção é feito dança, é uma coisa que requer uma disciplina, você tem que se dedicar àquilo todo dia num determinado horário ou dança. Lembrei-me então de uma conversa com o Alexandre, de que se fossa escrever a peça iria começar com a frase “Como assim”, e alguém respondendo “Como assim?”. Estava na praça de Avignon, num café, e aí abri o caderno e as anotações imediatamente se tornaram falas, personagens ganharam nomes, uma situação de ensaio, um di¬retor brigando com um ator, o a¬tor não entendendo direito o que é que ele faz e a peça começou a nascer, e em dois meses estava pronta a primeira versão.
O Diário – Fale um pouco sobre a história da peça?
Guzik – Uma companhia de teatro, uma garotada que sai da universidade, de uma cidade que presume-se que seja São Paulo. Ao contrário da minha ficção, esta peça não está situa¬da em nenhum momento historicamente muito preciso, mas a problemática dela data dos anos 80 para cá. É uma época sem censura, mas com censura eco¬nômica cada vez maior e que fa¬la das atividades, das dificulda¬des e das maravilhas, de fazer teatro. São cinco atores e um di¬retor que vivem o dia-a-dia de uma companhia. Então, o que o público vai ver são pedaços de ensaios, a mecânica dos ensai¬os, os bastidores, as brigas, os e¬gos, os delírios, as vaidades, as exacerbações, a generosidade, as maravilhas, as derrotas. E a¬cho que consegui fazer uma coi¬sa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro.
O Diário – Como é sua relação com a classe artística?
Guzik – Na verdade, não te¬nho amigos íntimos no teatro. Conheço todo mundo, me dou com todo mundo, mas não sou um crítico de fequentar casa. Vou a um jantar quando sou convidado, mas não sou famili¬ar das pessoas do teatro. Não é porque não gosto. Falta tempo. Em geral tendo a dormir mais cedo. Já fui muito de badalação. Tenho que escrever minha fic¬ção, trabalhar no jornal e isso toma muito tempo. Uma boa noite de sono, para ter uma boa manhã de trabalho antes de ir para a redação, porque eu escrevo de manhã antes de sair de casa, não tem o que pague. E muito mais importante que jogar conversa fora num boteco. Adoro atores, adoro diretores, adoro estar no meio deles, não tenho rigorosamente nada contra, ao contrário, mas não sou íntimo das pessoas. Nunca tive um caso de amizade tão grande com um artista que me impedisse de refletir sobre a obra dele. Quer dizer, até hoje tenho conseguido efetivamente manter essa isenção com muita tranquilidade. A crítica é um exercício de poder muito fugaz e a gente tem que saber disso com muita destrez e muita consciência do processo.
O Diário – Você chegou a viver um pouco da fase, pode-se dizer, romântica da crítica, com espaço maior nos jornais em relação ao que vemos hoje. Esse “aperto” não angustia um pouco?
Guzik – Na verdade, a gente aprende a fazer o que tem que fazer. A crítica sempre fez isso, você tem que aprender a se adaptar, o jornalismo mudou, a crítica tem que mudar. Nem eu tenho mais paciência de ficar lendo…Confesso que fiz grandes digressões sobre coisas… Era lindo, era maravilhoso, era o máximo. Você lê as críticas do Décio de Almeida Prado com um prazer extraordinário, o ho¬mem é um dos maiores estilis tas da língua, entre os autores contemporâneos. È admirável a maneira como ele escreve, in¬dependentemente de qualquer outra coisa. O único jeito de vo¬cê fazer crítica é saber que você está lá, para dar a cara pra bater e pra errar. Você erra o tempo todo, é um exercício de erro. A crítica detém um poder completamente ilusório, que é poder nenhum, na verdade você é es pancado de um lado e do outro não tem nehuma regalia, na verdade, com o fato de ser crítico. As pessoas podem achar que tem, mas não há glamour nenhum. E uma responsabilidade do tamanho de um bonde, porque o que você fala pode não levar público nenhum ao teatro, mas mexe pra danar na cabeça do artista. Então você tem que saber muito bem o que você está falando porque não é brincadeira. Acho que minha vantagem nessa passagem, se existe alguma, é que sei como a crítica é feita. Então sei como receber crítica. Já soube como receber crítica, até bordoada no romance “Risco de Vida”, espe¬ro que em “Um Deus Cruel” continue sabendo receber por que vai ser necessário. Vai ter gente que vai gostar, vai ter gente que vai odiar, vai ter gente que não vai com minha cara, então vai ter o maior prazer em revidar. Vai ter de tudo isso. A vida é isso e a gente tem que estar preparado.
O Diário – E como você es¬tá encarando a estréia?
Guzik – Estou nervoso e muito curioso. Torço muito, a cho que tem uma turma jovem, talentosa. Aposto neles. Eles estão apostando na peça. Acho este encontro de gerações maravilhoso. O Alexandre tem 23 anos, eu tenho 52. Acho o máxi¬mo isso que está acontecendo.
A gente está dando uma lição de cooperação porque no Brasil as gerações são tão comportamentadas e o trabalho entre elas tornou-se tão raro que acho que isso pode acontecer, com lucros pa¬ra ambas as partes.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do 6º FTC.
Gerald reencontra Bete Coelho em “evento”
Curitiba – Todo ano é sem¬pre igual. Foi assim, por e¬xemplo, em “Império das Meias-Verdades”, em “Nowhe¬re Man”. Gerald Thomas cercou “Os Reis do lê-lê-lê” de segre¬dinhos. Às 2 horas da madruga¬da da última sexta-feira, dia da estréia, ligou para a assessora de Imprensa do Festival de Teatro de Curitiba comunicando o adi¬amento para ontem.
Na entrevista coletiva, na tarde de quinta, já adiantava problemas com a preparação do palco e outros detalhes técnicos. “Mas o evento está pronto”, ga¬rantia após 12 dias de ensaios. “Com 53 espetáculos nas cos¬tas, 20 anos de teatro, é preciso muita razão para tomar a decisão de estrear num palco que a organização prometeu entregar na terça-feira e já está atrasado em pelo menos 36 horas”, se queixava Thomas, justificando com antecedência o adiamento.
É “evento” e não peça que marca o reencontro, cerca de seis anos depois, de Thomas com Bete Coelho, ex-primeira-atriz da Companhia de Ópera Seca. Nos últimos anos ela seguiu carreira paralela, atuando em “Rancor” e “Pentesiléias” – esta há dois anos, dividindo a direção com Daniela Thomas.
Também estão no elenco Lu¬iz Damasceno, na Ópera Seca desde o início, 11 anos atrás, e Domingos Varella; Raquel Riz¬zo, curitibana que vem desde “Unglauber”; mais o polêmico diretor e ator Dionísio Neto (“Opus Profundum” e “Perpé¬tua”) e sua primeira-atriz Rena¬ta Jesion.
Ao contrário das aparições em espetáculos anteriores, desta vez Thomas veste efetivamente a camisa de ator. “Não sou ator, mas faço papel do Gerald Tho¬mas”, ironiza. Ele define seu “evento” – que além das duas apre¬sentações no festival deve ter somente mais uma em São Pau¬lo – como um “laboratório de clonagem”.
“Não simplesmente genéti¬ca, como no caso da ovelhinha, mas clonagem semântica”, tenta explicar.
Para Thomas, a contracultu¬ra pós-anos 60, que contestava o behaviorismo, o comportamen¬to diante da sociedade, desem¬bocou “nesta ignorância, boba¬geira que começou com ‘she’s love yeah, yeah”’, na sua opini¬ão “o mais imbecil de todos os refrões”.
“Os Reis do lê-lê-lê” é uma crítica ao mundo pop, do qual os Beatles foram ícone? Sim e não. Em princípio, o “evento” não pretende dizer muito sobre os rapazes de Liverpool. Apropria-se dos nomes – Thomas é Len¬non, Bete Coelho, McCartney – e de algumas canções na trilha. Mas o encenador, que diz ter le¬vado “porrada” em Londres por não gostar do Beatles e amar os Rolling Stones, no tempo em que morou por lá, prefere desta¬car mais o “prazer do reencon¬tro” com a atriz com quem vi¬veu um affaire de quatro anos.
Em tese, não existe um fio. A sinopse que entregou para di¬vulgação, o próprio diretor con¬fessa, tem pouco ou nada a ver com o que será visto no palco. A mutação é uma das característi¬cas deste “obcecado pela for¬ma”. Thomas adora as coisas feitas pelo Homem, a beleza concreta das cidades, e dispensa as providências da natureza. Ve¬nera o asfalto, o pneu e está pre¬ocupado com quem dirige o car¬ro.
Sobre desperdiçar um bom elenco para apenas duas ou três apresentações, Thomas aponta a “efemeridade” do teatro. “Tanto faz dias ou meses”. O próximo trabalho no Brasil será em agosto, com a companhia de dança Primeiro Ato, de Belo Horizon¬te. Depois da experiência – e das divergências – com o bailarmno e coreógrafo Ivaldo Bertazzo, pa¬rece ter tomado gosto pelo mo-vimento.