Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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São Paulo, sábado, 02 de outubro de 2004
TEATRO
Inês Aranha encena no Ágora tragédia de Ésquilo
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
A sedução pelo poder está na gênese das tragédias. Isso não era tão elementar há 2.500 anos, quando a democracia venceu a tirania na Grécia.
Tido como “o pai das tragédias”, por introduzir o diálogo e o coro, o poeta Ésquilo cravou em “Sete contra Tebas” mais um tento da desesperança característica de seu teatro. É a história da disputa de governo por dois irmãos. Eles vão à guerra, matam-se e levam de roldão os seguidores. A cidade é empapuçada de sangue pois fora conduzida assim por seres gananciosos.
Sintomático que uma nova montagem de “Sete” vá ao cartaz hoje, véspera de eleições. “Os candidatos se digladiam, mas os contribuintes, os cidadãos, são sempre os últimos contemplados”, diz a atriz e bailarina Inês Aranha, 38, que assina o novo espetáculo em temporada no Ágora. Ela diz que a data da estréia foi escolhida ao acaso. Com formação na Itália, ela já foi dirigida por Roberto Bacci, Antunes Filho, Eduardo Tolentino de Araújo e Roberto Lage.
“Sete” resulta de dois anos de trabalho da diretora com um conjunto de atores-criadores então integrantes da recém-nascida cia. Areópago. No palco, seis atrizes e três atores passam o tempo todo em cena. Aranha elege o coro como eixo do espetáculo. É a partir dele que desponta Etéocles, que governa Tebas e não quer largar o cargo, rompendo acordo com o irmão Polinices. Este arregimenta um exército estrangeiro para tomar as sete portas da cidade, ao lado de outros seis generais.
Na concepção de Aranha, o enredo que culmina em terror é apoiado na “partitura” de ações físicas, ainda que sob a estrutura narrativa. Não há, diz ela, cena da guerra com tratamento cinematográfico. A opção é por uma simbologia “tribal”, a condição animal dos protagonistas, com excertos africanos e indígenas presentes na cenografia e nos figurinos criados por Adriana Vaz.
O espetáculo partiu do texto traduzido pelo pesquisador Donaldo Schüler. A dramaturgia ganhou tratamento de Maucir Campanholi e de Inês Aranha.
Foi agregada a figura do rei Creonte, com ênfase na passagem em que o mensageiro comunica que o corpo de Etéocles será enterrado como herói, enquanto o de Polinices será expatriado.
Também foi pinçado trecho euripidiano de “As Fenícias”, quando Jocasta discorre sobre a amaldiçoada sina familiar. Chave para contextualizar o espectador: Etéocles e Polinices são filhos de Édipo, aquele que matou o pai, Laio, depois que identificou na esposa, Jocasta, a sua mãe. Tudo por contrariedades aos oráculos. Tudo por contradições humanas na pólis de ontem e de hoje.
30.9.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 30 de setembro de 2004
TEATRO
Grupo dá início hoje ao evento de 78 horas de atividades em comemoração dos seus 15 anos de existência
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Mal terá passada a alvorada, nas primeiras claridades de sexta-feira, e virá o sarau com textos do marquês de Sade (“Os 120 Dias de Sodoma”, “Justine”).
Na madrugada de domingo, o casal de velhinhos de Eugène Ionesco (“As Cadeiras”), isolado num farol, aguardará em vão os convidados aos quais pretende transmitir mensagem de salvação da humanidade. Metáfora a calhar com as horas que antecedem a visita obrigatória às urnas.
A 15ª edição do evento “Satyrianas – Uma Saudação à Primavera” instaura “fuso horário” à parte na praça Roosevelt, no centro, sede da cia. Os Satyros. De hoje a domingo, são estimadas pelo menos 78 horas de atividades, dia e noite, instadas a comemorar os 15 anos da trupe e instigar reflexões (inf.: site www.satyros.com.br).
Além do teatro (leituras e encenações), haverá simbiose com poesia e música. A abertura, hoje, às 18h, reativa a rádio Livre Satyros (em 88,7 FM), que transmitirá o evento. Na seqüência, será encenada “A Voz do Povo É a Voz de Zé”, a partir dos contos do pernambucano Marcelino Freire, com direção de Alberto Guzik.
Freire e outros escritores ou poetas participarão de “cafés literários” e “crepúsculos poéticos”. Entre eles: Marcelo Mirisola, Nelson de Oliveira, Evandro Ferreira, Juliano Garcia Peçanha, João Silvério Trevisan, Ronaldo Bressane, Joca Reiners Terron, Fábio Weintraub e Glauco Mattoso.
O poeta Ademir Assunção emendará versos ao vozeirão do cantor e compositor Edvaldo Santana, parceiro recorrente.
A senhora praça Roosevelt, convertida em personagem nos últimos tempos, mobiliza mesas-redondas sobre o amor público e privado ou, ainda, sobre a paixão pela arte do teatro.
O dramaturgo Sergio Salvia Coelho, crítico da Folha, estréia no Satyrianas “Amor: Modo de Usar” (sáb. e dom., às 23h).
Coelho também dirige o solo interpretado por Pagu Leal, que inspira o enredo: atriz curitibana chega a São Paulo para uma palestra definitiva sobre o amor “e esclarece aquela questão que nos intriga a todos, ou seja, como a inescrutabilidade da referência está implícita no relativismo cognitivo das teorias do holismo semântico”. Segundo o autor, a confusão definitiva de todas as certezas é proposital.
Ao todo, serão lidas ou encenadas duas dezenas de peças, como “Transex”, “A Filosofia na Alcova”, “O Encontro das Águas” (as três já em cartaz), “O Homem que Queria Ser Rita Cadillac”, “Análise Comportamental e Crítica da Música Eduardo e Mônica” e “Natureza Morta”.
No domingo, haverá homenagem ao ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, 70, de “Eles Não Usam Black-Tie”, “Gimba”, “A Semente” e “Um Grito Parado no Ar”, entre outras peças que reafirmaram a dramaturgia nacional nos anos 50, 60 e 70.
18.9.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 18 de setembro de 2004
TEATRO
Encenador italiano Gianni Ratto, no Brasil há 50 anos, é tema de documentário
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Em 1954, Gianni Ratto deixou a Itália movido por duas paixões: o teatro e as mulheres.
“Ele veio por amor a Luciana [Petrucelli, figurinista com quem viajou para o Brasil, mas depois ela voltou]”, afirma uma das suas ex-mulheres, Kati de Almeida Braga, mãe de Antonia Ratto, co-diretora de um documentário sobre o pai .
A declaração está no longa-metragem “Gianni Ratto” (título a ser confirmado), confluência da vida e da obra do diretor e cenógrafo de 88 anos, casado com a socióloga Vaner Maria Birolli Ratto.
Ele é remanescente da geração de italianos que chegou entre os anos 40 e 50 e ajudou a esquadrinhar a modernidade do teatro brasileiro (Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi etc).
Quando saiu da Itália, há 50 anos, Ratto já era um respeitado cenógrafo no meio da ópera e do teatro. Trabalhou com Giorgio Strehler (1921-97) e Paolo Grassi (1919-81), fundadores do Piccolo Teatro de Milão. Fez criações para montagens com a cantora de ópera Maria Callas, por exemplo.
“O Gianni Ratto nos deu essa consciência cultural e educacional do teatro”, diz Fernanda Montenegro, que foi dirigida por ele na mocidade.
O filme procura alinhavar a condição de esteta do homem que aprendeu a captar o belo numa obra de arte, mas também numa flor, num animal. “A beleza é uma meretriz que se entrega facilmente a santos e assassinos”, escreveu no livro de memórias “A Mochila do Mascate” (1996), uma das referências do roteiro da dupla Antonia e Gabriela Greeb, que encabeça a direção do documentário,
“Gravamos pelo menos duas seqüências, uma com uma criança lendo o livro dele e outra noturna, com uma mulher nua, fora de foco. São metáforas estéticas para momentos de silêncio”, diz Greeb, 37, que assina seu primeiro longa-metragem, depois de curtas como “A Ilusão” e “Floreados do Repique”.
O próprio Ratto é o narrador, por assim dizer. “É um filme com ele, não sobre ele”, diz Antonia, 27, que estréia no cinema. Segunda dos três filhos do encenador, ela tem formação em design gráfico; no teatro, fez assistência para Denise Stoklos no espetáculo “Calendário da Pedra”.
O filme
O documentário abre com reunião de amigos e familiares nos 87 anos de Ratto, em 27 de agosto de 2003, na casa do bairro paulistano do Pacaembu. Na ocasião, o pianista Achile Picchi executa uma rara partitura que a mãe do encenador, Maria Ratto, criara nos anos 50. Segue-se uma viagem que casa depoimentos de amigos e do próprio Ratto, numa perspectiva que dispensa cronologia e joga com fusões de imagens do mar. O agito ou mansidão das ondas sempre o seduziram.
Afinal, foram 14 dias em navio, do terminal de Crociere, em Gênova, até o cais da praça Mauá, no Rio de Janeiro, ou o porto de Santos, destinos finais naquele janeiro de 1954.
O documentário como que refaz a travessia. Acompanha Ratto ao terminal de Crociere. Testemunha encontros carregados de afetividade. Um café com os amigos Nino e Luciano, com os quais prestou serviço militar numa Itália sob regime fascista.
Conversa com o primo Corrado, que não via há meio século e com o qual compartilha uma carta, emocionado. Vai ao colégio de padres onde estudou. Recebe o beijo e o sorriso maroto do comediante Dario Fo, no intervalo de um ensaio.
Ouve as lembranças sinceras de Nina Vinchi Grassi, 94, diretora-artística do Piccolo, sobre as parcerias nos primeiros anos do teatro fundado em 1947.
Edifícios como o Piccolo e o Alla Scalla, ambos em Milão, e o Carlo Felice, em Gênova, são revisitados pelo homem que cultivou ali intimidade com a arquitetura cênica. “Não existe cena tão importante quanto o palco vazio. A partir daquele momento, tudo pode acontecer”, afirma Ratto na película.
Ainda que, no fundo, entenda como o edifício “ideal” a praça pública, como aquela do Jardim de Boboli, em Florença, onde participou da montagem de “A Tempestade”, de Shakespeare, por Strehler.
No filme, Ratto surge no mesmo local, a descrever o cenário que o marcou porque integrado à paisagem formada por lago, árvores, esculturas e uma fonte.
Artesão do teatro
Salto para o Brasil. Depoimentos de Maria Della Costa, que conheceu Ratto durante viagem à Itália, com o marido e empresário Sandro Polloni, e o convidou para dirigir “O Canto da Cotovia”, de Jean Anouilh.
Ratto se distinguia porque não se fixava apenas nas inflexões de voz para os atores, mas em sugestões mais construtivas para os personagens, como confessa um dos participantes da roda de veteranos do grupo carioca Teatro dos Sete (1959-66), reunidos especialmente para o filme.
Outras vozes vão compondo o perfil desse artesão do teatro que não gosta de ser tratado por mestre: Millôr Fernandes, Tatiana Memória (do extinto grupo Teatro Novo, que Ratto também dirigiu no Rio), Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Lauro César Muniz, Eduardo Tolentino, Celso Frateschi, Umberto Magnani, Marcos Caruso, Ariclê Perez, Kalma Murtinho, Ariela Goldmann etc.
Com produção da Homemadefilms (recém-criada por Greeb) e da Tibet Filme, “Gianni Ratto” teve patrocínio inicial da Petrobras e agora capta recursos para finalização. Deve estrear em 2005.
“Eu comi muito teatro na minha vida”, deixa escapar Gianni Ratto, sentado numa cadeira de rodas (uma neuropatia afeta movimentos das mãos e dos pés, o que não o impede de andar). A frase e a cena foram gravadas justamente quando estava dentro de um teatro italiano.
A fome de teatro continua. Há pouco, criou a iluminação (ele é um faz-tudo!) da premiada montagem de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, texto de Bosco Brasil. E segue na curadoria do projeto Formação de Público da Secretaria Municipal da Cultura, em São Paulo.
16.9.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 16 de setembro de 2004
TEATRO
Atriz troca arrebatamento por imobilidade no “sussurante” espetáculo solo “Olhos Recém-Nascidos”, com estréia sábado
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O público afeito aos solos da atriz que passou 35 anos recriando tempo e espaço no palco, com arrebatamentos corporais ou vocais, vai deparar com uma Denise Stoklos em exercício de quietude.
“É um espetáculo meio etéreo, como se fosse música new age, meio mantra”, diz ela sobre o novo trabalho, “Olhos Recém-Nascidos”, no qual busca outro registro de atuação.
Na montagem, que estréia no sábado e ocupa a faixa do público adolescente no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo (às 16h), Stoklos passa o tempo todo sentada atrás de uma mesa.
“Faço apenas cinco movimentos. Neutralizo qualquer possibilidade de teatro para ficar numa tábula rasa e ver onde esse trampolim vai me levar”, diz.
Stoklos, 54, define o espetáculo como um rito de passagem. Quer abraçar outras formas para lidar com questões que o ofício calejou, lá se vão 12 solos. Diz ter abandonado aquilo que a qualificava.
Recorda que houve tempo no Brasil, nos anos 60 e 70, em que as possibilidades de mudança passavam pela luta armada, pela guerrilha. Na esteira da globalização, a atriz deposita suas forças no contato com o outro.
Deseja desvencilhar-se da autobiografia, ainda que incorpore o “eu” para, espera, transformar-se em espelho. Que o público percorra o caminho da intérprete em cena e descubra o seu. “Resulta como se eu sussurrasse no ouvido de cada um”, diz.
Essa espécie de intimidade tem lá um fundo pedagógico a conferir com o público-alvo. “Olhos Recém-Nascidos” discorre sobre perdas, mortes, ganhos e vida. Toca em assuntos tabus. A sociedade contemporânea, de consumo supra-sumo, não tem tempo, foge da condição de finitude das coisas, pessoas, sentimentos etc.
Para falar da despedida do antigo, próprio ou alheio, e da abertura para “a potência de energia”, Stoklos tenta se esquivar de hermetismos no texto que escreveu sob consultoria de dramaturgia de Piatã Stoklos Kignel, 24, o filho caçula.
“Fisicamente, digo que é meu espetáculo mais difícil, porque a projeção que faço de mim mesma em cena exige muito mais do que fazer o gesto em tempo interior. Não fico sentada descansando; ao contrário, tudo está em tensão no corpo”, diz.
A cenografia abre espaços mínimos para inserções de imagens (vídeo e fotografia, por Thais Stoklos Kignel, 26, filha). “Não é um espetáculo seco, mas úmido”, diz Stoklos.
Como nos solos anteriores, encaixados no escaninho do “teatro essencial”, centrado no trabalho de ator, não é perceptível a construção de um personagem. Talvez ele nem exista. Sabe-se que é Denise Stoklos pela exímia colocação corporal, ela que é especializada em mímica.
“Não é ficção, mas fricção o que me interessa na relação com a platéia. O ator é apenas a antena, não é o ego dele. O “eu” é o “eu” da platéia.”
16.9.2004 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 16 de setembro de 2004
TEATRO
Artistas passam duas semanas em aldeia, no Mato Grosso, para montar peça que será apresentada em oca no Sesc
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Vestindo informalmente um macacão cáqui, sobre camiseta branca, o bem-humorado encenador francês Jean Lambert-Wild destoa do cenário administrativo de um prédio na avenida Paulista e parece preparado para a aventura à qual se propõe.
Desde ontem, ele e alguns artistas da sua trupe, a Cooperativa 326, estão na aldeia Etêñiritipa, dos índios xavante de Pimentel Barbosa, no Mato Grosso.
A equipe vai passar ali duas semanas, período em que ganhará formato o espetáculo “In My Dream, I Start Walking” (“Em Meu Sonho, Começo a Andar”), que tem pré-estréias programadas para 1º a 3 de outubro na oca instalada provisoriamente no Sesc Belenzinho, em São Paulo.
Trata-se de um braço do projeto “Metamorfoses”, que será mostrado em 2005 no Festival de Teatro de Avignon, dentro do Ano do Brasil na França.
No centro da aldeia
Lambert-Wild encontrou os xavante pela primeira vez em 2002. Relatou seu sonho de trabalhar com eles. Foi aprovado pelo “wara”, palavra que designa ao mesmo tempo o centro da aldeia e o conselho no qual os índios tomam decisões.
“Pode parecer idiota, mas há cerca de três anos sonhei que trabalharia num lugar do Brasil, cuja geografia desconheço. Cheguei à verdade simples, à inteligência “naif” dos xavante, que se tratam entre si como “homens da verdade”. Eles me aceitaram e vamos sonhar juntos”, diz Lambert-Wild, 32.
O discurso é subjetivo. “Os franceses são objetivos?”, devolve. “Talvez por isso eles aparentam tanta tristeza”, acrescenta.
E insiste. “Ainda se pode compartilhar um sonho na era dos sonhos de consumo?”, coloca o encenador que voltou da primeira visita à aldeia xavante considerando que aqueles índios são “guerreiros da poesia, por penetrarem o cosmos que não conseguimos”.
Reconhece que a melhor palavra para definir o projeto é “utopia”, o que condiz com a investigação artística da parisiense Cooperativa 326, voltada para as artes cênicas, visuais e musicais, da qual é diretor-artístico desde 1998.
Lembert-Wild nasceu na ilha Reunião, departamento ultramarino francês, e sente-se um “exilado na metrópole”.
Para conceber o que pretende uma instalação sonora, “um wara sonoro e poético”, o espetáculo inclui quatro integrantes da companhia, entre eles o músico e compositor Jean-Luc Therminarias.
Atuação indígena
Haverá participação de cinco xavantes (uma das primeiras apresentações de rituais fora da aldeia aconteceu nos anos 90, quando um grupo viajou até São Paulo para um evento ao ar livre no Sesc Ipiranga).
Lambert-Wild, sua equipe e os índios chegam ao Sesc Belenzinho no próximo dia 27. Devem trazer um roteiro comum. Juntam-se a eles, então, a atriz Simone Spoladore e o ator francês Stéphane Pellicia.
25.10.1998 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 25 de outubro de 1998. Caderno A – 4
Montagem da Cia. Folias D’Arte aposta na transformação pela ética
VALMIR SANTOS
São Paulo – De Fellini, o espírito libertário. Do brasileiro anônimo, a sobrevivênCia. Em ambos, enfim, a resistência. “Folias Fellinianas” chacoalha as bases do país, expõe suas chagas e imediatamente celebra a ética, em todas as suas instâncias, como única possibilidade criativa e transformadora para os tempos que correm.
Quem, afinal, em sã consciência, pode compartilhar da pregação rasteira de que “ética demais atrapalha”? Como exercer a cidadania com a bandeira do “rouba, mas faz”? “Folias Fellinianas” questiona tudo isso sem xenofobismo de araque. Faz um grito de alerta para esse Brasil neoliberal e globalizado que vem invertendo absurdamente os mínimos valores. A fala de um dos personagens é suprassumo: “Integridade, em tempos de crise, é crime”.
A montagem da Cia. Folias D’Arte atualiza o engajamento do teatro brasileiro nos anos 70, quando o “inimigo”, o regime militar, era mais visível. O suporte agora está fundado não exatamente na política, mas no ser humano, na figura dos milhões marginalizados socialmente e, ainda assim, depositários de esperanças a perder de vista.
Tampouco se prega o discurso direcionado dos Centros Populares de Cultura (CPCs), no auge da União Nacional dos Estudante (UNE). Os tempos são outros. No espetáculo, o conteúdo político-ideológico é emoldurado pela alegoria, pelo vôo dos artistas.
Evoca-se o espírito mambembe, a comédia de arte, o musical, a festa popular, a poesia cantada, o painel suspenso que retrata a história do povo como nos murais de Torres García, enfim, a matéria-prima é toda ela composta do ato de criar, de transcender para derrubar os “muros”, para “salvar o sonho”.
“Folias Fellinianas” cita Euclydes da Cunha, Castro Alves, Joãosinho Trinta, entre outros, para reciclar as memórias vivas. Aqui, os personagens não têm identidade. O Diretor (Guilherme Sant’anna), a Produtora (Nani de Oliveira), a Jornalista (Patrícia Barros), o Brasil (Rogério Bandeira), o Velho (Valdir Rivaben), a Mãe (Saryda Andara), o Rapper (Edgar Bustamante) e o Anjo Branco (Fernando Correa) patinam em suas perspectivas a curto, médio ou longo prazo.
Reunidos por acaso em torno da gravação de um filme, eles serão mobilizados pela presença de Ninguém (Renata Zhaneta), um mensageiro incumbido de entregar cartas, a pedalar por aí em sua bicicleta.
O texto de Reinaldo Maia, gestado em processo com o elenco, concede a Ninguém o tesouro a ser cobiçado: a plenitude de uma ética pessoal coerente com o mundo que o cerca; uma fluência de viver em contraste com o final de século acelerado. A saída está no indivíduo e não na nação.
Esclarecidas as partes, tem início a canibalização de Ninguém, alçado à condição de “santo” graças às visões que têm por conta de uma dor de cabeça intermitente, pela qual roga apenas uma aspirina – mas lhe receitam a “canonização”.
O circo de horrores, com tintas neo-realistas, apresenta desde números sensacionalistas, como as irmãs siamesas (na sugestão para acabar com a fome, uma come o que a outra defeca, ciclo da miséria), até culminar com a morte de Ninguém, queimado vivo tal qual o índio Galdino Jesus dos Santos.
É um espetáculo que não dá um soco no estômago e nem rouba o chão do espectador. Simplesmente não ignora a história que passa diante dos olhos de quem está disposto a ver. Ao peneirar o passado para constituir seu presente com verdade, “Folias Fellinianas” estabelece uma ponte contundente, porque embalada com o talento dos seus artistas.
Renata Zhaneta está à vontade no papel masculino de Ninguém. Arma a voz e o corpo com desenvoltura, é tranqüila na passagem interativa com a platéia. Extrai magia na relação com a bicicleta, curiosamente o veículo que equilibra o personagem no chão da razão ética.
Guilherme Sant’anna não fica atrás com seu Diretor histérico, ganhando a empatia instantânea do público. As demais atuações também envolvem com criatividade. Uma ressalva para Rogério Bandeira (Brasil), com matizes remanescentes de “Cantos Peregrinos”, o que limita as possibilidades mil do personagem.
Na estréia, quarta-feira passada, “Folias Fellinianas” ressentia-se ainda, aqui e ali, de um excesso de retórica no texto. São algumas reiterações, dico tomias (bem x mal, solidários x mercadores da alma) que terminam por dispersar a atenção do espectador.
O que fica, porém, é a coerência estética e ideológica da Cia. Folias D’Arte e do seu diretor, Marco Antonio Rodri gues. Como em “Verás Que Tudo É Mentira” (1994), depois em “Cantos Peregrinos” (1997), trata-se de um projeto que elege a arte popular, em sua excelência, como veículo de formação de um público de teatro mais crítico e, por extensão, de seres humanos mais dignos com seus papéis na sociedade.
“Sonhar, viver, criar”, esse é o espírito. Pode haver engajamento mais honesto?
Folias Fellinianas – De Reinaldo Maia. Direção: Marco Antonio Rodrigues. Direção Musical: Sérgio Villafranca. Cenografia: Fernando Monteiro de Barros. Figurino: Atílio Belline Vaz. Preparação corporal e circense: Mariana Maia. Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Aliança Francesa (rua General Jardim, 182, Vila Buarque, tel. 259-0086). R$ 10,00 (quinta) e R$ 20,00. Duração: 120 minutos. Até final de novembro. Apoio: Fundação Conrado Wessel.
Rodrigues dirige 4 peças
São Paulo – Com “Folias Fellinianas”, Marco Antonio Rodrigues soma quatro peças na atual temporada paulistana. Andrade (leia crítica abaixo)
O musical “Cantos Peregrinos”, de José Antônio de Souza, está em cartaz há um ano e meio, agora no Teatro Ruth Escobar, com a Cia. Folias D’Arte.
A comédia “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, de Plínio Marcos, que estreou há um ano, fica até hoje no Sérgio Cardoso, interpretada por 35 atores oriundos da Oficina Cultural Oswaldo de Andrade (leia crítica abaixo).
E a tragédia “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues é encenada por alunos recém-formados no Teatro-Escola Célia Helena, onde, permanece em cartaz.
“É uma coincidência feliz poder trabalhar com essa gente que praticamente forma uma família, no bom sentido”, diz Rodrigues. “Para nós o teatro nunca deixou de ser engajado”
A Cia. Folias D’Arte tem cinco anos. Entre as montagens anteriores destaca-se “Verás que Tudo é Mentira” (1994), de autoria de Maia.
Senhora dos Afogados – Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Escola Célia Helena (rua Barão de Iguape, Liberdade, tel. 279-0470). R$ 10,00. Até dia 15.
Cantos Peregrinos – Sexta e sábado, meia-noite. Teatro Ruth Escobar (rua dos Ingleses, 209, Bela Vista, tel. 289-2358). R$ 3,00 (consumação mínima).
“Assassinato…” traz atores sem vícios
São Paulo – O circo fala alto no peito do dramaturgo Plínio Marcos, 61 anos. Ele que já foi palhaço e tem no picadeiro a base para o fazer artístico. “Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica”, encerrou assim o seu célebre manifesto “O Ator”.
Em “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, dos textos mais recentes (1996), o autor de “Dois Perdidos Numa Noite Suja” (1965) retoma a defesa orgânica do artista como ser em constante conflito com a sociedade em que vive.
Plínio sabe esquadrinhar o Brasil em que vive, O poder, em sua constatação mais medíocre, é representado pela prefeitura, pela justiça, pela mídia, na base da velha e viciada estrutura.
Do outro lado, a resistência humanista dos artistas. Aqui, representados pelos ciganos do Gran Circus Atlas. São trapezistas, acrobatas, enfim, gente que trabalha sob lona e sobrevive da magia de encantar o público.
Essa dualidade na forma de olhar a vida ganha relevo na montagem do diretor Marco Antonio Rodrigues, com jovens das Oficinas Culturais Oswaldo de Andrade. O espetáculo estreou em janeiro e encerra temporada hoje no Sérgio Cardoso.
Pelo caráter alegórico de “O Assassinato do Anão…”, um libelo à arte do circo, Rodrigues tem a seu favor a energia com a qual o grupo de 35 atores pisa no palco.
São interpretações despojadas e fundamentadas em pesquisa cênica que leva em consideração o corpo como instrumento crucial para desenhar personagens tão arraigados na cultura brasileira.
Fábio Ferretti (Dona Ciloca), Ireny Silva (Mãe Di), Nani de Souza (Zolá Manuche), Paulo Henrique (Macaco) e Denis Goyos (Bicha Lili), para citar alguns, têm seus personagens nas mãos. E são papéis no limite do estereótipo, felizmente recriados de acordo com o talento de cada um. (É louvável, por exemplo, a forma como Henrique coloca seu corpo e alma à disposição do seu Macaco, sem superficialidade).
O diretor costura a montagem com mão barroca. É minucioso na expressão dos atores, na ocupação harmônica do espaço, inclusive no plano aéreo. A cenografia (Atílio Beline Vaz) catalisa a cena com tranquilidade, transitando da periferia para o centro do palco sem prejuízo dos territórios dedicados ora ao “coro”, ora à atuação solo.
“O Assassinato do Anão…” consagra a força do ator jovem, despido de vícios, aberto para um novo com o qual dialoga de igual para igual, sem se apequenar. Isso quando o diretor – caso de Rodrigues – deixa.
O Assassinato do Anão do Caralho Grande – De Plínio Marcos. Direção: Marco Antonio Rodrigues. Cleber Toline, José Paulo Dantas, Ibrahim Lyra, Rodolfo Falcão, Mariana Maia, Natasha Rodrigues, Nei Gomes, Allan Benatti etc. Última sessão hoje, 20h. Teatro Sérgio Cardoso (rua Rui Barbosa, 196, Bela Vista, tel. 288-0136). R$ 10,00. Duração: 100 minutos.
Em comédia, Dip inspira reflexão
São Paulo – “Eu não quero mudar de computador, de você, de milênio!”, protesta a personagem de “Por Água Abaixo”, uma “comédia filosófica” escrita e interpretada por Angela Dip. Esta comediante de mão cheia condensa maturidade nesta que é das suas melhores aventuras pelo teatro, escrevendo e atuando com esmerado senso de inventividade e leveza.
A começar pela gênese do texto. Dip se inspira na história da professora de etiqueta e dança Annie Taylor. Em 1901, esta doidivanas desceu as Cataratas do Niágara (EUA), protegendo seu corvo com apenas um barril. Resultado: esconações, aqui e ali, e muita fama à custa da coragem.
Pois a atriz surge com um barril-cenário-figurino e, em torno desse objeto esférico, ela convida o público a embarcar nas desventuras de uma mulher desesperada à beira do milênio, em crise como todos, mas a apenas alguns minutos de se atirar da catarata.
Os queixumes vão desde a pêndega com Deus sobre a velhice, passam pela implicância com as regras gramaticais (notadamente os coletivos de “chinelos”, “cupins”, espelhando a busca da própria individualidade), enfim, e chegam aos protestos pela modernidade que impõe mais do que interage.
É com esse espírito desbravador que a mulher não se atribui um nome à personagem, conferindo-lhe um caráter universal pela média acaba rompendo totalmente com as noções de espaço, explorando todas as direções. “O chão não é o limite, é o teto”, filosofa.
Nesse movimento centrífugo, a mulher transforma-se em furacão de si. De outra forma, não conseguiria sair do marasmo, ir adiante para “viver, dorrmir, sonhar, quem sabe?”, como deixa claro o bordão da anti-heroína politicamente incorreta, chata e encantadora em sua transparência.
Angela Dip esbanja a segurança de uma Denise Stoklos em monólogo, corroborada pela direção de Vivien Buckup (“Para Sempre”, “Cenas de Um Casamento”), que a cada espetáculo afina sua relação com o trabalho de ator e, como conseqüência, o privilegia com equilíbrio. (Aliás, ressalta-se aqui o feminismo subliminar do texto).
A exigência corporal de Dip é atendida com muita técnica. “Por Água Abaixo” é uma montagem enxuta. Na sua brevidade de 50 minutos, estimula a reflexão com recursos iminentemente artísticos (a extremidade oposta da solidão) e, cereja no bolo, traz uma Angela Dip em estado de graça.
Por Água Abaixo – Texto e atuação: Angela Dip. Direção: Vivien Buckup. Sexta e sábado, meia-noite. Teatro Crowne Plaza (rua Frei Caneca, 1.360, Cerqueira César, tel. 289-0985). R$ 15,00. Duração: 50 minutos.
24.10.1998 | por Valmir Santos
No papel da esposa que morreu faz 30 anos, mas com quem o professor aposentado conversa no presente – a atemporalidade é outra característica marcante da peça, fundindo vários planos -, a atriz Mara Carvalho cumpre com elegância a brevidade que o papel lhe confere. Petrônio Gontijo, como o filho, é um contraponto um tanto melodramático, se comparado à performance suave de Fagundes – já se escreveu que o espetáculo é dele, pois não?
Homenagem a João Pacífico em CD
Amor filial às últimas consequências
A Rainha da Beleza de Leenane – De Martin McDonagh. Tradução: Adriana Falcão e Tatiana Maciel. Com Xuxa Lopes, Walderez de Barros, Chico Diaz e Marcelo Médici. Direção: Carla Camurati. Teatro Alfa/Sala B (rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel. 5693-4000). Sexta, 21h; sábado, 19h e 21h30; domingo, 19h. R$ 30,00 e R$ 35 (sábado). Duração: 95 minutos. Até 19 de dezembro.
11.10.1998 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 11 de outubro de 1998. Caderno A – 4
Inspirada na mitologia indígena, peça surpreende pelo despojamento e interpretações
São Paulo – O chamado teatro regional conquista cada vez mais espaço na cena brasileira. Desde os tempos de Ariano Suassuna (“Auto da Compadecida”), nos anos 60, até os dias que correm, ele vem descentralizando o foco do sotaque e dos cacoetes para alcançar um caráter mais universal, sem prejuízo das suas raízes.
Pode-se citar alguns encenadores que contribuíram, em maior ou menor grau, com leituras inovadoras: Antunes Filho (“Macunaíma”), Antonio Nóbrega (“Brincante”), Romero de Andrade Lima (“Auto da Paixão”), Carmem Paternostro (“Merlim”), Luiz Carlos Vasconcelos(“Vau da Sarapalha”), Nehle Frank (“Divinas Palavras”) etc.
Cada um em seu pedaço de chão (São Paulo, Salvador, João Pessoa, Recife, enfim) conceberam pesquisas de linguagem cênica que abriram flancos para o Brasil de dentro e, ao mesmo tempo, conectaram com o de fora, por obra e graça da sua eminência humana.
O espetáculo “Honorato”, em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia, filia-se a essa categoria de teatro regional que foge de facilidades como o diabo da cruz. Não foi à toa que seu diretor Paulo Ribeiro, sediado em São Paulo, levou pelo menos oito anos para chegar ao formato atual.
Ele também é autor do texto. Escreveu-o tomando como ponto de partida a lenda da Cobra Norato, garimpada pelo folclorista Luís Câmara Cascudo e vertida para o romance por Raul Bopp, dando origem à principal montagem do grupo mineiro Giramundo, comandado por Álvaro Apocalypse, outro pesquisador contumaz.
Ribeiro, ex-assistente de Vladimir Capella (“Píramo e Tisbe”), agregou outros elementos à história. O autor amplia a carga simbólica da mitologia indígena (Boto, Iara e Co bra Grande) criando elementos que têm o impacto das tragédias gregas.
Em “Honorato”, Joana Candiru (Selma Luchesi) é amante de Jaguarari (Eldo Mendes), um relacionamento que equivale à lenda amazônica do Boto, o homem misterioso que surge do nada, na calada da noite, e atrai as moças com seu olhar sedutor. Eles têm dois filhos, Honorato (Sandro Alvares) e Maria Caninana (Verônica Menezes). Como Jaguarari pertence a outra instância, coube a Joana Candiru dar conta da criação de sua prole.
São informações que chegam ao espectador num pêndulo sutil de flash backs. No presente, Honorato é um jovem encruzado com a maldição da Cobra Grande, o que lhe impede de viver como um ser humano comum. Na ânsia de libertar-se do estigma, ele conhece seu pai, Jaguarari, que lhe revela a fórmula para afastar a Cobra Grande.
Se Honorato enxerga no pai redivivo a chance de uma guinada, sua irmã tem uma posição o-posta. E ela, Maria Caninana, a propulsora de toda a tragédia.
Primeiro, esfaqueia a mãe. Depois, mata o, pai. Ao cabo de tanto sangue, é assassinada pelo irmão. Toda essa violência é deflagrada sem se apelar à visceralidade. Caminha-se pelo fio da fábula, do fantástico, sempre com precisão visual e interpretativa.
Como encenador, Ribeiro é econômico na medida em que a simplicidade torna-se um tesouro. Seus atores, jovens em maioria, são bem preparados. Entregam-se por inteiro a personagens difíceis, porque entranhados de uma cultura autóctone, distante das grandes cidades.
Selma Luchesi faz uma interpretação apaixonada de Joana Candiru. Aos 30 anos de carreira, a atriz domina as nuanças da mãe com parcimônia. Cristaliza a dor com controle absoluto, sem exagero.
Eldo Mendes também se destaca como Jaguarari, personagem calcado na imagem indígena. Nota-se a riqueza dos detalhes, da postura de um ser que brota da natureza e desconhece condicionamentos. Mendes, como Selma, como Ribeiro e como toda a equipe de “Honorato”, rezam a cartilha do instinto que a tudo move e a tudo pode – tal qual os personagens da históna.
É um espetáculo que emociona pelo brilho ingênuo e sincero, pela energia de atores como Renata Quintela (Joana jovem) e Daniel Alvim (Soldado de Cametá). Sem contar a encarnação primitiva do Pajé de Hizidio Carrigo.
Sandro Alvares, no papel-título, não chega a arrebatar, visivelmente pela pouca experiência de palco, jovem que é. Seu Honorato pode não envolver na medida dos demais personagens, mas demonstra fôlego, sobretudo nas passagens mais dramáticas.
Rogério Moura, autor da música original do espetáculo, também entra em cena como João, mas serve melhor ao músico do que ao ator.
(Inclusive, é um elenco que também canta letras de Geraldo Azevedo e Chiquinha Gonzaga, entre outros.)
Aliados aos intérpretes, estão Telumi Helen (figurinos) e J. C. Serroni (consultor visual) emoldurando uma atmosfera perfeita para uma peça que destrói completamente as noções de tempo e espaço. E sem a caricatura da floresta (o cenário desmaterializa-se e fica por conta da imaginação do espectador). Mais a iluminação de Giggio Deliberato, e a suspensão está completa.
“Honorato” dá visibilidade ao trabalho de Paulo Ribeiro, tim diretor que coloca o teatro em uma escala maior, recolhendo-se muito aquém do tom personalista cooptado por boa parte dos colegas. Afinal, quando um jovem diretor pesquisa durante oito anos para montar uma peça – descontados problemas estruturais -, é porque possui timing suficiente para penetrar o indevassável território do palco.
Honorato – Texto e direção: Paulo Ribeiro. Assistente de direção: Paulo Capovilla. Assistente de iluminação: Vanderlei Conte. Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Brasileiro de Comédia (rua Major Diogo, 315, Bela Vista, tel. 3104-5523). R$ 10,00. Até 20 de dezembro.
‘Química’ de atrizes sustenta montagem
São Paulo – Não é a mesma coisa. Um, dois anos atrás, Rosi Campos dividia a cena com Zezeh Barbosa em “As Sereias da Zona Sul”. Era uma dobradinha afiada. Agora, a atriz volta ao cartaz com nova parceira, Cláudia Borioni. E a química se renova para melhor.
Na montagem anterior, a peça de Vicente Pereira e Miguel Falabella, também agora sob direção do último, promovia um encontro de duas atrizes de estilos se não parecidos, no mínimo próximos.
Era um embate que as nivelava e, de certa maneira, as continha em cena – uma em função de não ofuscar a outra, tamanho o poder de cena, e vice versa.
Com Cláudia, a mudança é significativa. Sua verve é mais sutil, de gestos pequenos, de olhares capciosos. Esse desequilíbrio sustenta o espetáculo, aqui numa versão visualmente mais “pobre”, comparada à anterior (no Teatro Hilton), ocupando aqui um teatro de poucos recursos, o Cacilda Becker, no bairro da Lapa, zona oeste paulista.
Até essa pressuposta pobreza é alçada ao mote de piada para “madames” Rosi e Cláudia deitarem e rolarem, a la Hebe e Ana Maria Braga. A química é perfeita. Nos quadros, num total de quatro, as diferenças físicas (uma é alta, outra baixa), bem como os estilos de interpretação, constituem combustão para deslanchar o humor.
“O Gabinete da Dra. Hully Gully”, o segundo quadro, cristaliza as “especialidades” de cada uma. Rosi, na pele da médica-monstro. Cláudia, como a pobre velhinha que tem dores no rim e vê seu órgão sendo cotado para venda.
São momentos hilários, onde a médica usa de todas as artimanhas – incluindo um gorila – para tentar convencer a velhinha da “venda”. Mas esta não se faz de rogada e quer saber tim-tim-por-tim-tim, num confronto surrealista.
À comédia ligeira de Pereira e Falabella, ainda que pesem seus escorregões racistas, sexistas – depois instituídos de vez no programa dominical “Sai de Baixo” -, Rossi e Cláudia acrescentam seus estilos marcantes. Soltas, à vontade, despachadas, elas convertem “As Sereias da Zona Sul” em entretenimento de alta voltagem cômica.
As Sereias da Zona Sul – De Vicente Pereira e Miguel Falabella. Com Rosi Campos e Cláudia Borioni. Elenco de apoio: Isabela Chiapetta e Carlos Pereira. Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Cacilda Becker (rua Tito, 295, Lapa, tel. 864-4512). R$ 10,00. Duração: 80 minutos.
11.10.1998 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 11 de outubro de 1998. Caderno A – 4
Antunes Filho celebra humildade e sensibiliza em mais um exercício de palco com o CPT
VALMIR SANTOS
São Paulo – A espectadora questiona o elenco após a apresentação: “Qual foi meu papel nesta noite?” O que vim fazer aqui?”. A pergunta, perturbadora, sintetiza a experiência de “Prét-à-Porter 2”, mais uma empreitada de Antunes Filho à frente do seu Centro de Pesquisa Teatral (CPT/Sesc).
Como na versão primeira, que veio a público em março passado, não se trata de espetáculo, mas de “trabalho”, de “apresentação”. Tampouco corresponde a moldes como “happening”, “performance” ou “work in progress”. A melhor forma de compreender o novo Antunes Filho é, tal como ele, desarmar-se das verdades estabelecidas; é arriscar-se em busca da simplicidade, o que é extremamente complexo em se tratando da natureza humana.
Foram deixados de lado os “truques”, “macetes”, tudo a favor da essência da interpretação, da dramaturgia, da concepção estética, enfim.
Em sua franqueza e despojamento, “Prét-à-Porter 2” desconstrói para reerguer a poesia cênica desbotada no balaio pós-pós.
Sob o primado absoluto do ator, a quem delega o poder da criação em instância maior – e advogando para si a capa de coordenador, não mais diretor -, Antunes vive um hiato dos mais produtivos.
Ele está nu, cercado por jovens em seus primeiros passos no teatro e com toda a energia redobrada para erguer e destruir coisas belas. É sob essa condição transitória que se deve ir ao Sesc Consolação. O encenador escolheu um caminho radical e horizontal que vai de encontro ao público pela via do avesso.
É como se estivéssemos detrás da coxia, contemplando as tentativas, os erros, os acertos. Tal procedimento não constitui propriamente novidade no teatro, mas surpreende por causa do quilate de um Antunes. Aqui, a ruptura é total.
Antes de cada cena – sempre interpretadas por duplas -, os atores fazem a chamada “gênese” do personagem, espécie de resumo biográfico que situa o espectador na ação que virá a seguir.
A eliminação simbólica do vão entre palco e platéia, por conta da proximidade da semi-arena montada no hall do Sesc Consolação, transcende ao espaço e é refletida na atuação, no texto, na cena como um todo. Daí o impacto do público diante da experimentanção, do não-espetáculo que instiga tanto quanto.
“Prét-à-Porter” sustenta-se sobretudo pelo modo como sua dramaturgia é levada à cena. Fica claro que a construção do texto e o trabalho de voz (ainda incipiente, mas há anos-luz da realidade dos intérpretes brasileiros) ganharam status de bola da vez no CPT.
São histórias curtas, não necessariamente interligadas. Desesperados, angustiados, presos no porão da consciência, perambulando alhures, seus personagens se (des)equilibram no limite da existência.
Há o tempo interior, o silêncio, a palavra introjetada e depois reverberada com peso beckttiano. Como no excerto de um diálogo em “Horas de Castigo”.
ELE – Onde é que a gente está quando não está dentro da nossa cabeça?
ELA – Fora da cabeça…
ELE – Não, a gente não está.
ELA – É.
O diacho é que, amiúde distanciamento, naturalismo, enfim, há momentos em que a emoção nos captura a lembrar que, na essência humana como ela é, ou no teatro sem filtro, nada subverte a condição de seres vivos no contato olho a olho, corpo a corpo.
Lianna Matheus, Sílvia Lourenço, Emerson Danesi, Luiz Pãetow e Sabrina Greeve exercitam seus textos com segurança. São atores, são autores, são personagens, são discípulos-teen do “mestre” Antunes e, no entanto, não esmorecem diante de tanta responsabilidade. Ao contrário, levam a caravana com coragem.
Incomoda, porém, um certo ar etéreo nas interpretações, uma frieza atribuída ao tratamento naturalista que está em xeque. (Mas lembre-se: não estamos diante de um espetáculo).
E ainda que a razão nos guie pelo “contrário” do projeto – o público é instado, desde o início, a cumprir seu papel de coadjuvante, inclusive retirando-se da sala a cada intervalo -, ainda assim, não há como se esquivar do envolvimento.
Somos cúmplices incondicionais dessa cruzada anti-naturalismo que faz justamente uso do seu duplo. É a contramão do entretenimento comezinho, da expiação midiática que bloqueia os sentidos e dessensibiliza a todos.
Antunes Filho está decantando os jovens atores perante os olhos de um espectador acuado pela desaceleração cometida em cerca de três horas. Com voz para opinar/desabafar ao final, o público é assim demovido da violenta passividade desse final de milênio. E aí, é amar ou odiar – jamais a indiferença.
São privilegiados aqueles que perscrutam o exercício de palco “Prét-à-Porter 2” e sentem seu pulso. É o chamado geral de quem há pouco girou em torno de si em “Gilgamesh”, mas não atingiu o eixo; pôs os bichos para fora em “Drácula”, mas não seduziu; e agora, em mais um zero a zero, celebra a humildade para encarar a tragédia grega (“Fragmentos Troianos”?) que vem por aí.
Prét-à-Porter – Criação coletiva dos atores do CPT. Coordenação: Antunes Filho. Sábado, 19h50. Sesc Consolação/Hall de Convivência (rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 234-3077, após 13h). R$ 10,00 e R$ 5,00 (comerciários e estudantes). Duração: 180 minutos. Até dezembro.
“Giramundo” homenageia Myrian Muniz
São Paulo – O colega Marcos Caruso (“Porca Miséria”) lhe atribui, apropriadamente, um “humor paulista de sotaque italiano”. De fato, é a veia da comediante que ganha relevo nos 40 anos de carreira da atriz Myrian Muniz, celbrandos agora com o lançamento de uma espécie de “biografia associada”.
Organizado por Maria Thereza Vargas, o livro “Giramundo – Myrian Muniz, o Percurso de Uma Atriz” percorre os seus melhores momentos no palco, na TV, no cinema e na sala de aula, sob a ótica dos amigos que somou ao longo do caminho. Claro, também foi recolhido um rico depoimento da própria.
Apesar da relutar inicialmente à homenagem, recolhendo-se à sombra das aulas do curso que ministra na Capital, Myrian, 66 anos, acabou cedendo ao projeto de Maria Thereza (também autora da biografia de Cacilda Becker, em parceria com Nanci Fernandes, e no momento preparando uma retrospectiva dos últimos 20 anos do Oficina, hoje Uzyna Uzona, de Zé Celso.
“Giramundo” reúne artigos de diretores, atores e ex-alunos de Myrian Muniz. A arte de ensinar interpretação continua rendendo bons momentos para a atriz. Ela já deu aulas na Escola de Artes Dramáticas (EAD), onde também formou-se sob a batuta do lendário Alfredo Mesquita; foi uma das fundadoras da Escola Macunaíma; e há 15 anos inspira atores nas salas da Funarte, no Santa Cecília.
Passaram pelas suas mãos, por exemplo, Paulo Betti, Eliane Giardini e Cristina Pereira. Os três têm seus depoimentos registrados no livro. Também estão lá os diretores Gianni Ratto, Gianfrancesco Guarnieri, Fauzi Arap, Marcos Caruso, Augusto Boal, Carlos Alberto Soffredini, mais a cineasta Ana Carolina, que, por assim dizer, “monopolizou” o talento de Myrian na tela grande (“Mar de Rosas”, “Das Tripas Coração”, sendo que o próximo, “Páscoa em Março”, estréia ano que vem).
Na TV, o colega Juca de Oliveira lembra sua presença no seriado “Nino, o Italianinho” (1969), onde Myrian roubava a cena na pele de Dona Benta.
Da Bruxa Caolha de “A Bruxinha que Era Boa” (1962), de Maria Clara Machado, até a Michelina de “Porca Miséria” (1993), é no teatro que Myrian fez as pazes com a vida. É a paixão maior, que aprendeu a cultivar nas suas passagens pelo Oficina, TBC e Arena – e continua disseminando no coração dos jovens aspirantes do palco, a despeito de todas as dificuldades de ontem e de hoje.
A organizadora Maria Thereza Vargas escalou um time coeso, dando um tratamento confessional e ao mesmo tempo longe da reverência óbvia.
Com uma diagramação arejada, corroborada por um excelente álbum fotográfico (são 52 imagens), que pontua os artigos do início ao fim, “Giramundo” testemunha o que Myrian Muniz faz e continua fazendo pelo teatro brasileiro. Felizmente, sublima mais a vida que está aí, em curso, do que a efeméride, regra editorial (quiçá, cultural) no País.
Giramundo – Myrian Muniz, O Percurso de Uma Atriz – Organização de Maria Thereza Vargas. Lançamento da Editora Hucitec (tel. 240-9318 ou 543-0653). 198 páginas. R$ 30,00.
Atriz ensina jovens há 25 anos
São Paulo – O curso de interpretação teatral com a atriz Myrian Muniz já tem uma tradição de 25 anos. Depois de passar pela EAD, Sesc, Macunaíma, ela agora dá aulas na Funarte.
Além de dotar os alunos com as ferramentas básicas do teatro, o curso trabalha passo a passo a montagem de um espetáculo através de improvisações, jogos dramáticos, pesquisas de textos, palestras sobre temas específicos, leituras de mesa, desenhos, figurinos, cenários, iluminação etc.
Curso de Interpretação Teatral Myrian Muniz – Segundas e terças, das 20h às 23h. Funarte (Alameda Nothman, 1.058, tel. 3662-5177). Matrícula. R$ 50,00; mensalidade, R$ 150,00.
13.9.1998 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 13 de setembro de 1998. Caderno A – 4
Montagem de Beth Lopes, com Regina Braga, traduz força e lirismo do drama de Tennessee
VALMIR SANTOS
São Paulo – Há Tennessee Williams (1911-83) para todos os gostos. Pode-se encarar seus textos a partir da bruma indelével da superfície. Pode-se mergulhar mais fundo e deparar com seres atordoados pela existência. E neste patamar, ora rastejando, ora reunindo força para dobrar o destino, que se vai enxergar nos olhos e tocar na alma dos seus personagens.
Em cartaz no Teatro Faap, a história de “À Margem da Vida” (44) se passa no plano baixo, o subsolo, espaço imaginário compreendido entre o asfalto e o teto de uma ponte. Para vir à público, no palco, a família Wingfield precisa descer as escadas de um cenário cinza e impessoal, como as paredes de concreto dos túneis do metrô.
Frieza e distanciamento visual conferem com o enredo. Estamos diante de um núcleo humano em dissolução. Amanda (ReginaBraga), a célula-mater, tenta a todo custo sustentar as aparências se agarrando aos fiapos do cotidiano comezinho.
Laura (Luah Guimarãez), a filha envolta em “bolha” de timidez gestada pela perna ligeiramente maior que a outra, prefere se abster de tanta hipocrisia e cria seu mundo paralelo, habitado pelos bichinhos de vidro que coleciona desde criança. E um esforço inglório, pois a freudiana castração materna, aqui, é elevada à potência de morte, simbólica e gradativa.
Recai sobre Tom (Gabriel Nunes Braga), o varão dos Wingfield, a atitude dissonante. Não se trata de escape machista do autor. Ao contrário, o corte umbilical do filho é questão de sobrevivência. Romper com o determinismo do lar constitui etapa das mais dificeis para jovens inquietos diante das possibilidades da vida descortinada pelo tempo.
Tom foi submisso até o limite em que já não pertencia a si, mas à mãe e, por extensão, à irmã. Como o pai, que abandonou o barco no passado – mas é um personagem que flutua nas entrelinhas do texto com peso determinante -, ele também deixa o “bunker”.
“O homem é por instinto guerreiro, vai à guerra”, afirma Tom na vã ilusão de convencer Amanda do comichão poético que lhe invade e impede de ver o cor-de-rosa da realidade pintada pela mãe.
Tennessee Williams escreveu um drama que explicita o processo de crescimento pela via da dor. Em verdade, as opções de Laura e Tom são iguais. As escolhas, porque inerentes ao âmago de cada um, elas sim são diferentes.
Toda essa pungência de “À Margem da Vida” desponta com equilíbrio na montagem dirigida por Beth Lopes. Equilíbrio não propriamente de espírito, mas de estado. Há um domínio preciso da diretora na reorganização do espaço e da atuação que traduz a essência do dramaturgo norte-americano, sem verter tanta densidade para melodrama ou empolação – um risco eminente.
Lopes conta com uma equipe dos sonhos de qualquer diretor. Daniela Thomas fez a direção de arte, com cenário de Felipe Tassara, iluminaação de Wagner Pinto e música composta por Marcelo Pellegrini. Luz e trilha, em particular, harmonizam a delicadeza interior dos personagens com a tempestade por que passam – cuja melhor metáfora é a britadeira cortando o concreto…
Na base da interpretação, o elenco passou pelas mãos de Renata Meio (“Domésticas”). Ao que parece, a coreógrafa trabalhou mais no sentido de contenção do que propriamente expansão, como requer um Tennessee Williams, contrastando com a fisicalidade recorrente dos espetáculos anteriores de Beth Lopes.
Luah Guimarãez é quem despende maior esforço para levar sua Laura adiante. Há um tênue fio a separá-la da loucura, mas a consciência não lhe escapa por completo (“O que vamos fazer do resto de nossas vidas”, pergunta) – o que também tem lá o seu custo.
Regina Braga consegue extrair humor do histerismo da Amanda. Como recomenda o autor, a mãe não deve ser interpretada sob o signo fácil do exagero, do estereótipo. A atriz não só segue à risca, como amplia as possibilidades da personagem, conferindo-lhe uma estatura mais demasiadamente humana na insegurança e na insensatez.
A revelação fica por conta de Gabriel Nunes Braga, filho de Regina. Seu Tom transita entre ação e narração com naturalidade. É encantador acompanhar o personagem no desprendimento da família, na disposição em sair para a vida – ou “para o cinema”, como insiste no álibi de boêmio e poeta que é. Enfim, uma interpretação segura.
O ator André Boll surge sem comprometimento na segunda metade da peça no papel de Jim, Amigo de serviço de Tom, que a mãe tenta empurrar para Laura sem sucesso.
Com esse Teneessee Williams, Beth Lopes dá por encerrada, definitivamente, a fase “O Cobrador” com a qual ficou estigmatizada nos últimos anos, à frente da Cia. de Teatro em Quadrinhos – sem desmerecer aquela montagem marcante no início da década, mas o teatro, como a vida, é ciclo. “À Margem da Vida”, superproduzida esteticamente simples, coroa a maturidade e o talento de uma grande diretora parcimoniosa na arte de tocar o público.
À Margem da Vida – De Teneessee Williams. Tradução: Marta Góes. Figurino: Verônica Julian e Flávia Ribeiro. Programação visual: Gringo Cardia. Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Teatro Faap (rua Alagoas, 903, Higienópolis, tel. 3662-1992). R$ 25 e R$ 30,00.
“Doce Lembrança” reinventa saudade
São Paulo – A delicadeza que Beth Lopes perscruta em “À Margem da Vida” surge em estado bruto em “Doce Lembrança”, a montagem que dirigiu com seus alunos de interpretação na EAD/USP. A peça permaneceu dois meses em cartaz, até final de agosto, e tem perspectiva de reestrear em breve.
Adaptação da obra fundamental de Ecléa Bosi – “Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos” -, o espetáculo expõe uma diretora que já se sabia aliada à exigência física dos atores, mas não se vislumbrava, até aqui, uma diluição mais vertical de tempo e espaço, liberando-os, ao menos de vez em quando, da ação em si.
De cunho experimental, o trabalho resultou extremamente rico em signos, a começar pela ocupação inventiva do porão do Centro Cultural São Paulo. O público era recebido com bolos e pãezinhos, acompanhados de chá e café, bem ao estilo dos nossos avós.
Conquistado pela boca – a gastronomia como poderosa aliada da memória -, sentamos na platéia semi-arena para acompanhar a aventura de seis personagens pelo túnel do tempo de suas vidas.
E tudo começa pelo extremo, lá na outra ponta, na infância. “Pirulito que bate bate/ Pirulito que já bateu…”, entoam. A memória, essa instância sublime que conjuga tristeza e alegria, é recomposta aos poucos, em insights mútuos.
Da mesma forma, e paralelamente, vai-se dando a reconstrução – ou “reinvenção” – dos móveis e adereços. Aos poucos, eles ganham forma em cena.
Um amálgama de corpos arqueados, cacarejos e cacoetes; mais panos, rendas, flores, fotos, cartas, documentos, sapatos, enfim, desenham um esforço tremendo diante do sentimento da saudade, tão peculiar à alma brasileira.
As principais passagens políticas do País, como o auge da Era Vargas, são pincelados aqui e ali. Num Brasil que não leva a sério os dois extremos da vida, o velho e a criança, o entrelaçamento do privado e do público é alentador.
Quando se fala em terceira idade, esse “palavrão”, remete-se logo aos eternos problemas da Previdência Social. “Doce Lembrança” não passa ao largo disso, mas valoriza mais o indivíduo -ou a amizade e sua celebração em grupo.
A via aqui é a da felicidade possível e, porém, esmaecida num passado não muito distante e pouco distinto dos nossos aucestrais. A cena final, em que cada personagem retorna ao caixote que lhe cabe nesta reta final da vida, é memorável.
Trata-se, sobretudo, do resultado de um elenco esforçado, disposto a empreender a gana da sua juventude, sem sobressaltos, em projeto tão comovente.
Doce Lembrança – Direção: Beth Lopes. Com Ana Gallotti, Eduardo de Paula, Fabiana Barbosa, Guadalupe Vivanco, Mara Leal e Vera Canolli. Cenografia: André Moia. Figurinos: Luciana Pareja. Iluminação: João Donda.
Eterno retorno de “Noturno”
São Paulo – Não é dificil explicar o “eterno retorno” de “Noturno”. O musical de Oswaldo Montenegro, de volta ao cartaz, tem ingredientes na medida para seu público alvo: jovens munidos de adrenalina para se aventurar por aí, atrás de utopias d’antes não conquistadas – algo como a dupla paz-amor ou o triô liberdade-igualdade-fraternidade.
Aquele espírito libertador e datado de “Hair”, nos anos 60, pouco legou à geração dos 90. Embaçados pelas perspectivas esotéricas – um tal ex-parceiro de Raul Seixas só corrobora o caldo retrô -, os “teens”, como querem, divagam na poesia do “chato” Oswaldo Montenegro.
“Chato” porque assim auto-denominou-se em uma das suas canções. Mas é assim, sincero em seu canto – como o sabem milhares de fãs bem crescidinhos – que Oswaldo Montenegro chega junto da moçada sem medo de pisar na bola.
O musical, em seis anos de estrada, um CD, junta um bando de 60 atores, jovens em sua maioria oriundos da Oficina dos Menestréis, curso ministrado por Deto Montenegro e Candé Brandão, sempre no temporão Teatro Dias Gomes, onde a montagem segue em cartaz nas segundas e terças, alternativas e de casa invariavelmente cheia.
A trilha vai de Prince a Peter Gabriel. Destaque para as belas vozes de Tânia Maya e Débora Reis.
“Noturno” utiliza todo o espaço do teatro (em uma perspectiva de 360 graus), conjugando coreografias em massa e jogos de sombra de luz. A platéia é literalmente envolvida pela ação dos atores, ora no palco, ora dependurados em cordas, ora ziguezagueando pelos corredores. Maiores detalhes sobre a empatia dos estudantes para com um espetáculo que prega a utopia como condição sine qua non, só conferindo. Poesia pouca é bobagem.
Noturno – Direção: Oswaldo Montenegro. Com Estela Cassilatti, Tânia Maya, Débora Reis, Gordo Marques, Marcelo Palma, Marco de Vita e outros. Segunda e terça, 21h. Teatro Dias Gomes (rua Domingos de Moraes, 348, metrô Ana Rosa, tel. 571-6177). R$ 15,00.