26.8.2014 | por Valmir Santos
O teatro de pesquisa tem na obra de Plínio Marcos o chamamento à apropriação de suas bases realistas, a fala batucada, os fotogramas duros e poéticos extraídos das precariedades material e humana na representação dos desvalidos, dos marginalizados. Abismos sociais resistentes há décadas com igual urgência que, de tão gritante, podem turvar o potencial inventivo a ser fundado em cena. Leia mais
24.8.2014 | por Valmir Santos
Percorrer a obra do coletivo espanhol El Conde de Torrefiel tem a ver com mergulhar numa instalação sensorial. Sentado na arquibancada semiarena, o público nem precisa abandonar o assento – e tampouco o faz – para ser guindado pelo fluxo narrativo dessa lancinante plataforma multidisciplinar de escrituras literária, visual, sonora e coreográfica. O expediente da acumulação enverga o sujeito da contemporaneidade em seu labirinto em La chica de la agencia de viajes nos dijo que había piscina en el apartamento, projeto em que tudo é movimento, a começar pelo título. Leia mais
23.8.2014 | por Valmir Santos
A Cia. Novos Candangos faz uma opção defensável ao levar à cena uma das peças mais difíceis de Nelson Rodrigues, Perdoa-me por me traíres (1957), cruzando-a esteticamente com o filme cult The Rocky Horror picture show (1975). O ritmo frenético do primeiro ato tem tudo a ver com a alta voltagem que o diretor australiano Jim Sharman imprime em sua mistura de musical, comédia e trash movie repleta de tipos estranhos e divertidos. Leia mais
22.8.2014 | por Valmir Santos
As quebras de expectativas no encontro dos bailarinos Pichet Klunchun e Jérôme Bel são inversamente proporcionais ao livro infinito dos vocabulários asiático e europeu que eles abrem pacientemente em cena a partir de suas biografias primeiras, o corpo. A via negativa serve a outras singularidades expressivas. Não há o tratamento espetacular em luz, som, espaço e figurinos, mas transparece a presunção de coreografia desse rico material organizado na cabeça do espectador. A impregnação do pensamento pela palavra – fala-se bastante com a mesma qualidade de atenção que um observa a “dança” do outro – intercala escutas e silêncios reveladores da gênese cultural do que vem a ser movimento, ação ou gesto nas composições discursivas e expositivas. Leia mais
21.8.2014 | por Valmir Santos
Conselho de classe explicita a urgência do seu tema com o mesmo pulso experimental dos melhores momentos da Cia. dos Atores em duas décadas e meia. O espetáculo é cirúrgico nos descaminhos da educação ao projetar o microcosmo de uma escola pública sob a ótica dos seus professores, ponte entre aprendiz e sociedade – se esta assim o desejasse. Do diagnóstico alarmante ao rancor seria um triz. Mas o quadro é mais complexo do que a realidade pinta. É sobre ela, realidade, que os criadores incidem dialeticamente, chamando o espectador à assembleia cidadã sem ungi-lo para tal. Um sistema de linguagem bem urdido dá conta disso justamente a partir das precariedades material e pedagógica expostas. E nos deparamos com o tamanho da resignação no país de Paulo Freire, Darcy Ribeiro ou Milton Santos que tanto se indignaram. Leia mais
11.8.2014 | por Valmir Santos
Intercâmbio pressupõe reciprocidade. No encontro de sábado à tarde, dia 9, no espaço do grupo Refinaria Teatral no Parque Peruche, bairro de Casa Verde, zona norte de São Paulo, artistas mexicanos do grupo Lagartijas Tiradas al Sol e uruguaios que não constituem um coletivo, na acepção corrente, mas criaram o espetáculo Murga madre, madre murga contavam de largada com uma condição comum além do abraço presumido à arte do teatro: ninguém ali jamais tinha visto a cena do outro. Esse paradoxo regeu a dinâmica que também caracterizou outras tentativas de trocas nas atividades paralelas às obras apresentadas durante a 9ª Mostra Latino-Americana de Teatro. Leia mais
11.8.2014 | por Valmir Santos
Radicada em Paris desde a década de 1980, onde foi estudar e depois virou professora da École Internationale de Théâtre Jacques Lecoq, a argentina Susana Lastreto Prieto escreve, dirige e atua em Noches lejos de los Andes… o diálogos con mi dentista (2003), espetáculo do coletivo GRRR (Grupo Risos, Raiva e Resistência) em que referenda a experiência no exílio. Leia mais
10.8.2014 | por Valmir Santos
A tarefa da crítica no teatro costuma ser empobrecida quando toma o texto em si como plataforma. A arte de nosso tempo é lida pelo texto da encenação, a totalidade da dança dos corpos e demais signos em cena. Na dramaturgia de Grace Passô, e particularmente em Congresso internacional do medo (2008), peça da safra colaborativa com o Grupo Espanca! e escalada para a 9ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, a matéria da palavra converte-se ela mesma em fulcro. Impossível mergulhar no oceano simbólico sem ser capturado pelos estalos verbais ou pelas “correspondências sensíveis” de que falava Baudelaire. A natureza da tradução, ofício deveras literário, ganha status de forma e conteúdo nesse espetáculo de poderes encantatórios (a transubstanciação está lá) pelas ideias e imagens que instaura. Leia mais
8.8.2014 | por Valmir Santos
A partir de domingo, 10, a cidade de São Paulo abriga a E-Scapes – Conferência Internacional do Design para Performance. São cinco dias de atividades envolvendo workshop, mesa-redonda, apresentação, bate-papo, lounge e projeção. A agenda inclui o encontro anual das comissões e grupos de trabalho em educação, performance, design e pesquisa da Organização Internacional de Cenógrafos, Técnicos e Arquitetos de Teatro, a Oistat, atualmente radicada na Holanda. Nascida na República Tcheca em 1968, um ano após a bem-sucedida edição inaugural da Quadrienal de Praga (PQ), exposição de referência planetária nos campos da cenografia, figurino, iluminação, sonoplastia e tecnologia cênica, a Oistat conta desde 2007 com centro brasileiro e, pela primeira vez, sedia jornada de fôlego na América Latina. Leia mais
7.8.2014 | por Valmir Santos
A concepção de La flor de la Chukirawa permite analogia com o Teatro Nô. Assim como a secular expressão japonesa expõe matrizes gestuais, espaciais e rítmicas rigorosamente apoiadas naquela cultura, o grupo equatoriano Contraelviento Teatro reafirma a ancestralidade andina por meio das partituras corporais e vocais da atuadora Verónica Falconi. A protagonista compõe com traços antropológicos a velha camponesa cuja pobreza ou ignorância autodeclaradas contrastam a sabedoria pontuada com aguda visão de mundo. Leia mais