15.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, domingo, 15 de abril de 2007
TEATRO
Espetáculo apresenta a vida do filósofo austríaco
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Um das obras de referência da filosofia no século passado, “Tractatus Lógico-Philosophicus”, do pensador austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), chega ao teatro na forma de um monólogo. “Wittgenstein – Um Novo Olhar” estreou na semana passada e fica em cartaz até junho.
O espetáculo é interpretado por Jairo Arco e Flexa, jornalista com formação em filosofia. Foi ele quem encomendou a adaptação da obra a Contador Borges, poeta e tradutor. A direção é de Roberto Rosa (Cia. Fábrica São Paulo).
Wittgenstein revolucionou as noções da linguagem e da teoria do conhecimento com o seu tratado. “A peça começa como se fosse uma palestra, mas, aos poucos, evolui para uma narrativa de momentos da vida dele, no passado e no presente”, diz Arco e Flexa.
A encenação acontece nas escadarias de mármore do saguão da Casa das Rosas. Na concepção dos artistas envolvidos, é como se o protagonista e o público fossem transportados para a imponente e luxuosa mansão da família Wittgenstein, onde o filósofo passou a infância e parte da juventude.
14.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 14 de abril de 2007
TEATRO
Em “Labirinto d’Água”, Raquel Ornellas busca dissociar a personagem de “Hamlet” da imagem de suicida
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Ah, eu não gostei não. Parece que a mulher vai tirando a alma dela”, disse à intérprete um garoto de 5 anos após ensaio aberto na periferia leste de São Paulo, no ano passado.
“Ele nunca leu “Hamlet”, mas tocou Ofélia profundamente”, afirma a atriz Raquel Ornellas, 38, protagonista do solo de dança-teatro “Labirinto d’Água”, a partir de hoje no Tuca, inaugurando a sala Ensaio do espaço de Perdizes.
Ornellas ambiciona, por meio da arte, dar outro destino à personagem coadjuvante da tragédia de Shakespeare, comumente associada à imagem da sofredora, suicida que morre afogada, enlouquecida após os abandonos sucessivos pelo amante (Hamlet), pelo pai (Polônio) e pelo irmão (Laertes).
“A vida dela nunca foi na terra, mas na água. [Gaston] Bachelard escreveu que Ofélia seria uma ninfa da pátria das águas mortas ou uma ninfa da pátria das águas vivas”, afirma a atriz, que conta com supervisão dramatúrgica e roteiro de Alessandro Toller.
Para ilustrar esse espaço vital (líquido amniótico), sentido de fertilidade que Zé Celso também reforçou em seu “Ham-Let” (1993), Ornellas incorpora técnicas de dança na água, como os movimentos de watsu (exercícios terapêuticos) e wassertanzem (técnica alemã de dança submersa).
Em sua concepção e direção do solo, Ornellas não faz uso literal da água. Esta é sugerida pela gestualidade, pela trilha incidental ou de outros compositores criada por Laércio Resende (a cantora Ceumar interpreta para a peça duas trovas populares dos séculos 19 e 20).
Ao simbolismo fantástico do renascimento de Ofélia na água, o espetáculo contrapõe o mundo real por meio do salgueiro, a árvore cenográfica que antagoniza com a personagem. É dali que “um galho invejoso” a teria levado à fatalidade, fazendo-a cair no rio Ornellas já havia visitado Shakespeare nos anos 90 numa releitura de “Macbeth”, cujo processo é dissecado no livro “Caldeirão de Bruxas – De Como Macbeth Virou Irmãs do Temp” (ed. Edusp, 320 págs., R$ 72). O lançamento será no dia 22/5, na Livraria da Vila (r. Fradique Coutinho, 915, tel. 0/ xx/11/3814-5811).
14.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 14 de abril de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Acostumado a levar romances inteiros à cena, o diretor Aderbal Freire-Filho sente-se à vontade em “O Continente Negro”, que estréia hoje na Faap.
O drama realista do chileno Marco Antonio De La Parra não é um livro, mas o fluxo narrativo lembra bastante o virar de páginas em que tempo, espaço e pessoas vão e vêm.
A peça dispõe 12 personagens na paleta por meio de três atores, que imprimem tonalidades diversas sobre a impossibilidade amorosa entre homens e mulheres. Freire-Filho, 65, diz que o diálogo com as rubricas do autor foi “utilíssimo”, a começar pela teatralidade mínima, que não despreza silêncios e centra o foco nos atores.
Os intérpretes Ângelo Antônio, Débora Falabella e Yara de Novaes integram o Grupo 3. Freire-Filho assistiu às peças anteriores do núcleo (“A Serpente” e “Noites Brancas”) e topou assinar a terceira.
11.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 11 de abril de 2007
TEATRO
Candidatos usam vale-tudo para obter emprego em “O Método Grönholm”
Luiz Antonio Pilar assina direção da peça de Jordi Galcerán, que estréia amanhã em SP com Lázaro Ramos e Taís Araujo
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Um dos diretores do “reality show” “BBB 7”, exibido pela Globo até a semana passada, Luiz Antonio Pilar é, possivelmente, o nome mais indicado para encenar a primeira montagem brasileira da comédia espanhola “O Método Grönholm” (2003).
A peça do catalão Jordi Galcerán (nascido em 1964), adaptada há pouco para o cinema (“O que Você Faria?”, do argentino Marcelo Piñeyro), encerra numa sala quatro candidatos a uma vaga de executivo numa multinacional.
Eles chegam à última fase da seleção submetidos a provas de exclusão, “recursos desumanos” para saber se há algum infiltrado do departamento pessoal no pedaço. “O Método Grönholm”, que estréia hoje no Teatro das Artes, em São Paulo, é feito de enigmas assim. O título vem do sobrenome do sujeito que cria técnicas mirabolantes (e reais) de avaliação, como se saberá no apagar de luzes da peça adaptada por Domingos Oliveira.
“Os candidatos são obrigados a desempenhar um papel para chegar ao objetivo, observados por olhares exteriores que irão julgar qual deles tem capacidade de exercer o cargo”, diz o diretor da versão brasileira.
Analogia. “Como no “Big Brother”, ocorre uma alteração do chamado comportamento “in natura” da pessoa. Isso faz com que, em determinado momento, ela interprete um papel que julgue de acordo com aquilo que imagina esperarem dela”, completa.
É emblemática a passagem em que os concorrentes são induzidos a escolher chapéus de palhaço, toureiro, bispo e político. Diante da hipótese de serem os únicos ocupantes de um avião em chamas, precisam argumentar por que seu personagem deve salvar-se com o único pára-quedas disponível.
O contexto é de uma corporação, mas o comportamento politicamente incorreto dos personagens vividos na trama por Lázaro Ramos, Taís Araujo, Ângelo Paes Leme e Edmilson Barros está disseminado pela sociedade midiática, no diagnóstico de Pilar.
Acento brasileiro
Artista ligado ao teatro há 22 anos, co-fundador, no Rio, da companhia e produtora Black & Preto, em 1997, Pilar, 46, sabe que existem outras questões subliminares em jogo na versão brasileira. Afinal, a única mulher do quarteto (rebatedora de piadas sexistas) e o homem mais arrogante e elegantemente vestido são negros.
Protagonistas da telenovela “Cobras e Lagartos”, Ramos e Araujo promovem encontro inédito no palco. Há dois anos e meio, o casal assistiu à montagem argentina da peça. Vidrou na intriga e nas falas ardilosas.
Procurou o autor e soube da aquisição dos direitos do texto pela CIE Brasil. Bateu à porta da produtora, que deu carta branca para a versão que chega amanhã aos palcos.
Lázaro Ramos, 28, vê a chance de variar o registro cômico das últimas interpretações no cinema e na TV e busca revolver as possibilidades dramáticas que cultivou em nove anos de Bando de Teatro Olodum, em Salvador.
9.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 09 de abril de 2007
TEATRO
Sutil revê Curitiba pelos olhos do autor em “Educação Sentimental do Vampiro”
Espetáculo que pré-estréia hoje no Sesi da avenida Paulista põe em cena contos sobre variações de amor e violência sem filosofia
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba
Projetada nacionalmente na Curitiba do início da década, com “A Vida É Cheia de Som e Fúria”, a Sutil Companhia de Teatro volta-se para o berço com distanciamento crítico em “Educação Sentimental do Vampiro”. O novo espetáculo, que pré-estréia hoje e abre temporada quarta no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, adapta contos de Dalton Trevisan, 81, dono e alvo da alcunha “o Vampiro de Curitiba”, como batiza um dos seus textos.
“A cidade em que vivíamos se tornou um trauma, uma marca nestes seis anos em que passamos mais tempo fora do que aqui. Nossa juventude pertence mais à era Lerner do que à do Dalton”, diz Felipe Hirsch, 35, citando o ex-prefeito Jaime Lerner, tido como “modernizador” em três mandatos.
O diretor e os atores Guilherme Weber e Erica Migon receberam a reportagem durante o Festival de Curitiba.
Para contrapor à cidade “eventual”, a Sutil escolhe jogar luz no subterrâneo escancarado por Trevisan. O universo ficcional do autor espreita o buraco da fechadura e roça a realidade das esquinas ou entre quatro paredes. “De maneira indireta, contudo, a gente lê o Dalton desde garoto. É uma obra de observação, autoparódica, sofisticada. Parece o humor inglês, que ri de si mesmo, se autoflagela”, diz Weber, 32.
Ao interlocutor que foi lhe apresentar a idéia de adaptação pela Sutil, Trevisan teria pedido como cláusula principal do contrato a “obscuridade”, a conhecida indisposição de vir a público. “Um morcego condenado à caça nas trevas”, para usar uma citação sua.
No primeiro espetáculo de autor brasileiro em quase 15 anos de história, a companhia segue à risca elipses, ausências de artigo e outras “partituras” da escrita trevisiana.
O fio emocional das histórias pende do sujeito que espreita as “carótidas” das pessoas e da cidade, sugando-lhes a energia.
“O que se cria sentimentalmente nas ruas de Curitiba, o que se conhece sobre o amor?
Como se dá a formação do ser humano através dos olhos de Dalton? E quão desastroso pode ser tudo isso”, diz Weber.
Todos os personagens, homens e mulheres, são movidos pelo amor e pelo desejo, mas nunca alcançam a perfeição, a felicidade presumida. “Apesar de dolorosa, essa via-crúcis reflete humanismo”, continua o ator, que contracena com Migon, Jorge Emil, Luiz Damasceno, Magali Biff, Maureen Miranda e Zeca Cenovicz.
Violência
“Fiquei tanto tempo estudando a obra do Dalton, e o Ministério da Justiça veio e definiu a classificação indicativa: “violência familiar”. É o logo que temos que pôr em todo o material de divulgação”, diz Hirsch.
Invertendo, ele acha que a questão é a familiaridade que se tem com a violência nos dias atuais, não só dentro de casa, mas no espaço público.
“Dalton nos devolve a violência de modo genuíno, sem filosofia, sem banalização. Mas como ela deve ser observada: terrível e assustadora”, diz Weber.
Por isso a inclinação para o tratamento expressionista nas concepções cênica e visual (cenografia de Daniela Thomas, figurinos de Veronica Julian e desenho de luz de Jorginho de Carvalho). O objetivo é criar uma atmosfera gótica inerente à visão de mundo dos contos.
No meio do ano, a Sutil dá mais um passo em seu movimento antropofágico com outro paranaense: Paulo Leminski: “Inverno”, título provisório para adaptação do romance “Agora É que São Elas” (1984), previsto para o meio do ano no CCBB de Brasília.
Educação sentimental do vampiro
Quando: pré-estréia hoje, às 20h (para convidados); qua. a sáb., às 20h; dom., às 19h; até 18/11
Onde: Teatro Popular do Sesi (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/3146-7405)
Quanto: R$ 3 (sex. e sáb.) e grátis (qua., qui. e dom.)
7.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 07 de abril de 2007
TEATRO
O drama “A Refeição” e a comédia “Eu Odeio Kombi” participaram do Festival de Teatro de Curitiba
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Com passagens pelo 16º Festival de Teatro de Curitiba, na semana passada, dois espetáculos iniciam temporada em São Paulo. O drama “A Refeição”, de Newton Moreno, é dirigido por Denise Weinberg e estréia hoje no Sesc Santana, na zona norte. A comédia “Eu Odeio Kombi”, de Hugo Possolo, dirigida por Jairo Mattos, ocupa desde ontem o Arthur Azevedo, na Mooca, zona leste.
Moreno é dramaturgo dos mais produtivos depois do premiado “Agreste” (2004). Recentemente, esteve entre os criadores de “Západ”, projeto da Cia. Balagan e de experimentos com o Grupo XIX de Teatro, além de escrever para a sua própria cia.
Agora, explora variações do canibalismo em “Vemvai – O Caminho dos Mortos”, que estreou na semana passada na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista -montagem unha e carne com “A Refeição”.
O título é direto no que lhe toca: a antropofagia. Esta é consumada de forma literal em três histórias. A primeira é breve, um homem e uma mulher às voltas com seus desejos. Sozinhos na sala de um hospital, fincam seus dentes um no outro, num surpreendente pacto de intimidade.
Na segunda história, o estranhamento se dá pela atração de um executivo (Descartes) por um mendigo (Plínio Soares). Resulta num monólogo sobre o poder de classes em jogo, cinismo e sedução na selva da cidade, de acordo com o autor.
A terceira das histórias de “devoração” reúne os mesmos intérpretes, Descartes e Soares, respectivamente o último índio de uma tribo e um antropólogo.
No leito de morte, o índio firma acordo para ser “canibalizado” pelo interlocutor, o que concebe como um movimento de volta às raízes.
Aos 15 anos, a Cia. Cênica Farândola Troupe vai ao palco italiano (platéia frontal) depois de muito se apresentar em praças, picadeiros e até piscina. Os atores Armando Junior e Neto de Oliveira convidam Hugo Possolo (dramaturgia) e Jairo Mattos (direção) para sua nova produção, artistas cúmplices na trajetória da Farândola.
A peça de Possolo fala de dois amigos que compartilham crises pessoais, fracassos e esperanças. O embate existencial é deflagrado quando a Kombi (ou a carcaça dela) em que trabalham pifa, ou melhor, explode. Eles se vêem num lugar deserto, sem ter a quem apelar.
São Paulo, terça-feira, 03 de abril de 2007
TEATRO
Beatriz Carolina Gonçalves e Marici Salomão estréiam textos sobre exclusão
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O realismo que tem em Plínio Marcos (1935-99) um dos alicerces no teatro brasileiro encontra duas interlocutoras contemporâneas na cidade.
Beatriz Carolina Gonçalves e Marici Salomão investigam o gênero em “Atos de Violência”, a partir de hoje no Espaço dos Satyros 1.
Dirigido por Hélio Cícero, o espetáculo discute a violência urbana por meio de dois textos.
Em “Shangrilá”, de Salomão, dois jovens justiceiros (Marcelo Pacífico e Rogerio Brito) vaticinam sobre a importância da “faxina” no cortiço em que moram. Eles levam fé no “tiro de misericórdia” em sua guerra pela paz no pedaço. E deixam entrever fragilidade, carência e paradoxal coragem em se atirar para a vida sem rede.
Mais que o retrato, importa o realismo que exponha “as contradições das almas” envolvidas, como diz Salomão, 43. “Pelo momento em que passa o país, é tão fácil quanto perigoso discutir a violência urbana, um modismo que pode acometer tanto a arte quanto a política.”
A intenção é tratar os excluídos sem condescendências. Em “Umzé”, Gonçalves, 47, compõe a trajetória de duas mulheres (Lucia Romano e Thereza Piffer) que dividem a cela num presídio. “Parto da exclusão social como violência que gera mais violência”, diz a autora.
O analfabetismo crônico, a chupeta e a imagem do colo dão indícios de uma pátria-mãe que abandona seus filhos.
Gonçalves escreve para teatro desde 1993. Salomão, desde 1995. Há um ano e meio, as duas integram o grupo de estudos Dramáticas em Cena, do qual “Atos de Violência” é o primeiro projeto -contraponto do teatro de autor à escrita colaborativa (em geral, nascida de improvisos). Está prevista para junho encenação de textos de Cláudia Vasconcellos e Vera de Sá. O terceiro passo é reunir as quatro autoras em um só espetáculo, tendo Silvana Garcia como dramaturgista.
2.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 02 de abril de 2007
TEATRO
Peças como “Angu de Sangue”, no Fringe, e “Besouro Cordão-de-Ouro”, na mostra oficial, expõem questões políticas
Tragicomédia “Gorilas” flagra um torturador em atividade e “O Chá” mostra decadência da elite a partir de um círculo de amigas
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba
Visto por cerca de 120 mil espectadores, segundo a organização, o 16º Festival de Teatro de Curitiba terminou ontem descortinando bons espetáculos pautados pelas tônicas social e política. Um apanhado do que a reportagem conferiu nas mostras oficial e paralela (Fringe) permite compor o quadro.
Quem puxa o recorte é “Besouro Cordão-de-Ouro”, espetáculo do Rio, parceria do diretor João das Neves e do compositor e agora dramaturgo Paulo César Pinheiro. É como se esses artistas, de certa forma herdeiros do Centro Popular de Cultura, em 1960/70, atualizassem o espírito da época.
Não cabe mais o discurso pelo discurso: o protesto se dá pela arte, ponto. No caso, a capoeira evocada por meio da história do personagem-título. É um trabalho com um quê de musicais históricos como “Arena Conta Zumbi” (1965). Aqui, uma narrativa cantada e dançada por um talentoso e carismático elenco de atores negros.
Essa perspectiva também chega ao Fringe. Em “Barrela”, montagem baiana da peça de Plínio Marcos, o diretor Nathan Marreiro encontra terreno propício para aplicar sua experiência de dez anos de teatro comunitário em Salvador.
Surpreendeu-se com o espaço que lhe reservaram num shopping. Mas subverteu o ambiente com um varal de roupas puídas, até na escada rolante, e instaurou desde ali o drama dos homens no xadrez -tão urgente quanto em 1958, quando foi escrito. O público entra e sai como se numa visita a um presídio e, ao cabo, é impedido por seguranças de aplaudir o inferno urbano que testemunhou.
De Recife, o diretor Marcondes Lima traduziu com igual crueza os contos de Marcelino Freire, luz sobre os muquifos, como diria Plínio, de qualquer metrópole.
Esse estilhaçamento chega ao andar de cima da sociedade, como retrata “O Chá”, com o grupo carioca Bonecas Quebradas e direção de Luciana Mitkiewicz. Uma comédia sobre três mulheres das altas rodas que, depois, evolui para o drama como ele é e revela que o buraco é mais embaixo.
O tragicômico “Gorilas”, texto e direção de Celso Cruz, de São Paulo, com atuação solo de Marcos Suchara, olha no retrovisor da história brasileira. Flagra um torturador em pleno exercício diante da vítima, uma mulher, no dia seguinte à implantação do AI-5, em 1968.
A Companhia Teatro de Demolição, do Rio, dirigida por Gustavo Rocha, foca a repressão. Também alude à ditadura militar em “Catástrofe da Borboleta”, dramaturgia colaborativa, mas os personagens soam universais em suas condições de violentos ou massacrados.
Enfim, são peças-ilhas num festival que, apesar da ostensiva e irritante ação de marketing dos patrocinadores, ainda seleciona peças por meio de fita de vídeo. O que resulta em constrangimentos como “O Contêiner”, d’A Outra Companhia (BA), em plena mostra oficial em que nunca deveria estar.
2.4.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 02 de abril de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Do enviado a Curitiba
No Fringe, a qualidade das produções curitibanas costuma suscitar dúvidas. A predominância de peças locais (nesta edição, 108 em um universo de 180) evidencia a mediocridade em temas, títulos e conteúdos apelativos. Entretanto, alguns artistas conseguiram criar dissonâncias.
Quatro grupos ocuparam o teatro da UFPR para mostrar repertório. Pausa Cia., Cia. Silenciosa, A Armadilha Cia. de Teatro e Cia. Provisória riscaram o chão no compromisso com a pesquisa e sintonia com o teatro contemporâneo.
Nesse projeto, um espetáculo bem-sucedido foi “Os Leões”, montagem de Nadja Naira, da Armadilha, para o texto do espanhol Pablo Miguel de la Vega y Mendoza. Os atores Alexandre Nero e Diego Fortes catalisam a força centrípeta do drama: dois homens solitários submetidos à convivência, um condicionado ao outro.
É de se perguntar, porém, por que esses mesmos artistas que primam pela encenação e interpretação não avançam em dramaturgias próprias.
Em outro esforço por demarcar território, Marcos Damasceno construiu, em 2003, um galpão no fundo do quintal da casa que aluga. Ali, mostrou “Sonho de Outono”, do norueguês Jon Fosse. Uma história sobre perdas bem fiel aos tons cinzas que fazem parte da vida.
Em “Antígona – Reduzida e Ampliada”, a Cia. Senhas, da diretora Sueli Araújo, concebe uma ousada releitura da obra de Sófocles para refletir a civilização do consumo. Ali, decalca-se beleza da arte do teatro, ainda que a partir de desumanidades sem fim.
31.3.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 31 de março de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O espetáculo “Vemvai -O Caminho dos Mortos” estréia hoje na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista (av. Paulista, 119, tel. 3179-3700), às 20h.
A peça propõe a travessia do público por uma cenografia-instalação mutante em seis estações e sete portais. O labirinto inclui a morte ritual (uma morte em vida), os ritos funerários, o luto, o caminho-morte etc.
Segundo a diretora Cibele Forjaz, a intenção é cruzar os pontos de vista dos “povos da floresta” e do “povo das Paulistas”.
O projeto, que contou com a Lei de Fomento, é orientado pelo antropólogo Pedro Cesarino, do Museu Nacional e da UFRJ. O espetáculo fica em cartaz até 27/5. Ingressos R$ 15.