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“MITsp"

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Crítica

O caráter não espetacular de Partir com beleza (Finir en beauté, 2014) confere uma cumplicidade ambígua ao relato do francês de ascendência marroquina Mohamed El Khatib. Percebe-se a iminência de naufragar por causa da identificação emocional do público com a experiência familiar de doença e morte da mãe, atalho para sentimentalismo. Ao mesmo tempo, o solo desencadeia condições de navegabilidade documental livre de encaixes categóricos do que venha a ser teatro, performance ou demais filiações. Leia mais

Crítica

Em 2000, Felipe Hirsch transpôs para a cena o romance em que o dono de uma loja de discos era fixado em classificar as cinco melhores ou piores canções pop com a régua das suas separações amorosas, entre outras tiradas. Lembramos de A vida é cheia de som e fúria porque as obsessões com as quais o diretor é confrontado em Democracia são de ordem institucional e mais complexas, também um espetáculo que partiu de um livro.

O romance Alta fidelidade (1995), do inglês Nick Hornby, capturou o espírito da geração dos anos 1990 nos estertores do grunge, subgênero do rock alternativo. Resultou em A vida é cheia de som e fúria, que projetou nacionalmente Hirsch e a Sutil Companhia de Teatro (1993-2014), de Curitiba.

Em ‘Democracia’, a inquietude da disposição gráfica das 90 questões do livro de Alejandro Zambra, por vezes lembrando um poema visual, não parece provocar no público que acompanha a apresentação ao vivo o correspondente leque de sensações e significados que o leitor desfruta na relação táctil com a folha ou a tela

A ficção de Facsímil: libro de ejercicios (2014), do chileno Alejandro Zambra, subverte a mentalidade do sistema educacional referendado pela antiga Prueba de Aptitud Académica, a PAA – o ENEM deles, guardadas as proporções. Essa apropriação promove uma radiografia crítica da nação e de seu povo à luz do processo histórico. Já a versão teatral, Democracia, não traduz com a mesma potência (ou não transcria, na acepção do poeta Haroldo de Campos) a voltagem estilística da escrita original.

O livro lançado no Brasil sob o título Múltipla escolha (Tusquets, 2017) experimenta radicalmente sobre o conteúdo do temido exame nacional do Chile destinado ao ingresso de estudantes do ensino médio à universidade. Ele vigorou entre as décadas de 1960 e 2000, passando incólume ao socialismo de Allende, à ditadura militar de Pinochet e à doutrina neoliberal regulada pelas forças de mercado após a redemocratização.

Em pelo menos a sua primeira metade, o espetáculo soa acomodado no que parece um esforço de fidelidade à forma como Zambra imprime suas ideias. Forma literária difícil de ser replicada em outra instância, mas reelaborada. A inquietude da disposição gráfica das 90 questões, páginas a fio, por vezes lembrando um poema visual, não parece provocar no público que acompanha a apresentação ao vivo o correspondente leque de sensações e significados que o leitor desfruta na relação táctil com a folha ou a tela.

O livro é dividido em cinco partes que reproduzem o mecanismo de exposição de perguntas ou enunciados seguidos de respostas alternativas. Mecanismo que é devidamente traído com o uso de figuras de linguagem como o sarcasmo e a paródia.

Guto Muniz/Foco in Cena

Na coprodução chileno-brasileira ‘Democracia’, Felipe Hirsch dirige atores de Santiago na adaptação de ‘Facsímil: libro de ejercicios’, de Alejamdro Zambra

Um hipotético estudante/leitor pode responder por exclusão ou por preenchimento de lacuna ou de sentido às questões formuladas. A dramaturgia baseada no livro faz suas escolhas e a cena a medeia, esquematicamente, feito o caderno de exercícios que qualquer pessoa que já prestou vestibular ou conferiu gabarito sabe o quanto é extenuante.

Na coprodução chileno-brasileira, seis atores estão alinhados horizontalmente ao fundo, amparados pela palavra-título pontilhada de luzinhas na parede atrás deles, aquela que designa o governo em que o povo, em tese, é soberano. Os atuantes avançam para a boca de cena a cada vez que acionados por uma voz de comando, in off, atenta a erros. Uma autoridade talvez figurada como professor, chefe ou ditador latino-americano.

Fica patente a tentativa de aludir à militarização da vida e de mimetizar o enfado, o automatismo, a condição humana relegada à “caixa de Skinner”, o psicólogo norte-americano que demonstrou o condicionamento operante privando ratos de alimento. Mas como evitar que a baixa qualidade de energia emanada das entranhas do Estado interfira na experiência presencial do teatro? Como não desmobilizar a atenção?

A reprodução da fala diagramada no suporte editorial de Facsímil e os corpos como que anulados em seus movimentos tornam a palavra escrita opaca na migração oral. Nem a gradativa transformação dos figurinos, em que os atuantes são convertidos em atletas, a uniformização ipsis litteris, suplanta essa leitura.

Guto Muniz/Foco in Cena

A atuação de Trinidad González é um alento na reta final do espetáculo; cofundadora do grupo Teatro en el Blanco, do fenomenal ‘Neva’

Democracia só não sucumbe de vez enquanto invento cênico porque é socorrida pelas mãos do mesmo autor chileno. As duas últimas partes da obra compreendem textos que se aproximam do gênero conto ao exigir dos candidatos a capacidade de decupar orações e demonstrar compreensão de leitura.

Dois relatos deslocam-se da toada até então. Hirsch finalmente abre o peito da encenação para o trabalho de ator e para textos com ímpeto dramatúrgico. Os dois versam sobre o Chile – a autocrítica é corrente.

A fama de que, lá, ninguém cumprimenta o outro no elevador, que não a imagem das paredes espelhadas quando todos descem, preferindo fingir as ausências. E onde a lei do divórcio tardou, sob pressão da Igreja Católica. Esta narrativa curta que vale a noite na atuação de Trinidad González, cofundadora do Teatro en el Blanco, grupo que já se apresentou no Brasil com o fenomenal Neva, de Guillermo Calderón, e com A reunião, em que ela mesma escreve e contracena. “Vivemos no país da espera”, afirma a atriz, na voz e nas imagens dadas por Zambra. O Brasil, país do futuro, pode estar dividindo a mesma sala de espera.

.:. Leia mais sobre Democracia na MITsp

Serviço:

Onde: Teatro Faap (Rua Alagoas, 903, Higienópolis, tel. 11 3662-7233

Quando: última apresentação hoje, dia 20, às 21h

Quanto: R$ 40

Duração: 1 hora e 45 minutos

Classificação indicativa: 12 anos

486 lugares

Equipe de criação:

Direção: Felipe Hirsch

Dramaturgia: Baseada no texto Facsímil, de Alejandro Zambra

Com: Trinidad González, Manuela Martelli, Rafael Contreras, Moisés Angulo e Matteo Citarella

Assistente de direção: Daniel Recabarren

Direção de arte: Daniela Thomas e Felipe Tassara

Iluminação: Beto Bruel

Música original: Mariá Portugali

Figurino: Carolina Norero

Coprodução: Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), Fundación Teatro a Mil e Teatro Universidad Finis Terrae

Crítica

Em estado de recusa

17.3.2019  |  por Beth Néspoli

Tudo mal havia começado quando um aventureiro chamado Diego Cao, o português, descobriu o estuário do rio Congo em 1482. Depois, no dia 26 de setembro do ano seguinte, ou seja, em 1885, uns gângsteres decidiram em Berlim que o Congo seria uma colônia francesa. E isso explica porque uma semana depois, 1960, nos emprestaram a independência em troca de um neocolonialismo negro no comando do país. Putos. Dois dias depois, em 1969, convidamos o marxismo e o leninismo pensando que iriam agradar, mas os europeus vieram em seus cavalos de conquistadores para acabar com a cultura do atraso, de golpes de estado e de tribalismos, e implantar a democracia de uma vez por todas.

Em tradução livre, o texto acima, com seus vertiginosos saltos temporais, é parte da dramaturgia de O alicerce das vertigens, do congolês Dieudonné Niangouna Leia mais

Reportagem

Para o sociólogo José de Souza Martins, “prestar atenção nos movimentos corporais de quem nos governa é um meio de compreender em tempo o que será o governo e de que tipo serão suas crises”. No caso do novo presidente, os idealizadores da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp, estavam de olho no discurso das “arminhas” com as mãos desde a campanha eleitoral. As formas de violência subjacente em muitas promessas de campanha tornaram-se concretas nas primeiras e longas 11 semanas de gestão – serão 208 até 2022. Leia mais

Crítica

Parece haver uma inclinação expedicionária nas etapas de produção, pesquisa e criação do espetáculo País clandestino, participante da 5ª MITsp. Seu ponto de partida foi um laboratório para diretores emergentes realizado em 2014 no Lincoln Center Theater, em Nova Iorque. Cinco desses, também dramaturgos e vindos de cinco países e dois continentes, encontraram afinidades para atuar e falar de suas diferenças Leia mais

Crítica

Reino Unido, Gana, Jamaica. No ano de 2016 o embarque de artistas em navio cargueiro retoma uma das rotas pelas quais europeus negociavam homens e mulheres negros e negras escravizados. E deles faziam o motor vivo do que chamaram “a” civilização. Selina Thompson colocou seu corpo em rumo, na mesma rota marítima que também é um cemitério dos que foram por muitos motivos descartados no caminho. Leia mais

Crítica

A falta é um motor potente. A fome nos faz seguir adiante. A saciedade, não. Quando satisfeitos queremos repouso, descanso. “Todo o sistema em equilíbrio perfeito permanece imóvel”, diz uma das personagens de Árvores abatidas, peça de Krystian Lupa apresentada nesta 5ª edição da MITsp. Leia mais