Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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25.5.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 25 de maio de 2006
TEATRO
Ator e poeta diz transgredir forma e conteúdo em sua nova peça, “Dinheiro Grátis”, que estréia em São Paulo no sábado
Depois de levar choques estimulados pela platéia em “Regurgitofagia”, Michel Melamed surge numa arena cercada de arame farpado
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Sentado no saguão de um hotel na região da av. Paulista, Michel Melamed “vende” seu negócio ao repórter, não à boca pequena, como o fazem os homens engravatados nas mesas vizinhas. O poeta e ator carioca fala, gesticula e fuma o seu novo espetáculo, “Dinheiro Grátis”, ruído paradoxal que reverbera em São Paulo a partir de sábado, no Tucarena, após temporada no Rio, onde foi recebido com algumas críticas negativas. A cidade já o conhece de “Regurgitofagia”, quando deitava o verbo ligado a dois cabos que, diz, descarregavam choques elétricos ao menor espirro da platéia. O sucesso o levou à França, EUA e, em agosto, à Alemanha. Melamed, 29, também escreveu e co-dirige “Dinheiro Grátis” com Alessandra Colasanti. O espaço cênico é uma arena cercada por arame farpado, imagem que lembra o território proibitivo de um campo de concentração. O ator quer furar esse bloqueio para se comunicar com o público espontânea e dialeticamente. Fala numa terceira via para a cena, o protagonismo que vai daqui, espectador e “co-autor”, para lá, palco, e não apenas o contrário. A seguir, trechos da conversa em que o artista comenta a sua “Trilogia Brasileira”, ainda sem patrocínio, a ser completada com “Homemúsica”. Ele tem a convicção de que seu teatro se aproxima do rock’n’roll pela transgressão na forma e no conteúdo. Deve ter guitarra, mas não uma banda.
DO NOME – É “Dinheiro Grátis” porque a gente está vivendo um momento em que o valor homogeneizador e único é esse, o dinheiro. Para qualquer classe social, seja no campo, na cidade, no primeiro mundo, no subdesenvolvimento, dinheiro é um valor supremo. E não é. Quer dizer, pode vir a ser, para quem quiser optar por isso. O problema é que a grande maioria não opta por isso, mas está entrando na barca. E tem essa frase na peça: “São 6 bilhões de projetos que têm que ser afirmados”. É a humanidade. Não tem mais Che Guevara, não tem mais sebastianismo, não virá um salvador. Aparelhe-se para que você esteja pronto para exercer sua diferença e sua criatividade.”
DA POESIA – A poesia é o principal. É a formação de onde venho, é meu projeto, é minha ambição no sentido mais dúbio, porque é uma pretensa humildade, mas ao mesmo tempo uma afirmação de que é isso mesmo. Numa das cartas de [Antonin] Artaud, quando ele estava internado, ele falava: “Se escrevo poemas não é para publicá-los ou recitá-los, mas para vivê-los”. Quer dizer, eu me relaciono com outras linguagens, acho que elas têm especificidades, mas tudo emana da página em branco, da solidão.
DO ARAME – Tem duas coisas. Uma, a provocação e profanação do espaço. Há um diálogo com “Regurgitofagia”, que era o contrário, o espectador do seu lugar interferia diretamente na minha pele com a descarga elétrica. E a outra coisa é o fato de que existe um impeditivo. Para a gente ficar junto aqui, nesta noite, o arame farpado será um impeditivo? É a visualização da incomunicabilidade a ser suplantada pela afirmação, sim, da comunicação. Muitas vezes a construção da cena é dialética, um texto aponta para uma direção enquanto a ação aponta para outra, e a idéia de síntese é do espectador.
DA CORRUPÇÃO – Dinheiro na cueca, mensalão, acho tudo isso podre. Mas acho tão perigoso quanto, hoje, só se bater nessa tecla. Parece que o PT inventou a corrupção no Brasil. A corrupção é disseminada. Violação do painel do Senado, quanto tempo tem isso? Anões do Orçamento, as ambulâncias. Temos de tomar cuidado. A corrupção não é partidária e não é de agora. Todo dia tem uma denúncia em algum lugar do país.
24.5.2006 | por Valmir Santos
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19.5.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 19 de maio de 2006
TEATRO
Roteiro de Luiz Antônio Martinez Corrêa é inspirado em opereta
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Em duas apresentações gratuitas que fez no Sesi Sorocaba, no início da semana, Paulo Betti, 53, teve uma prova do potencial do espetáculo “A Canção Brasileira”, que estreou no Rio em 2005 e chega para curta temporada paulistana no Sesc Santana.
“É uma peça absolutamente popular, um delírio”, diz o ator, que assina seu primeiro musical.
A exultação tem a ver com o mote, o rapto de uma personagem carismática, a recém-nascida Canção Brasileira, por um trio de chorões: Violão, Cavaquinho e Flauta. Eles a levam para o morro e propõem um divertido inventário das suas influências, de modo a evitar a contaminação estrangeira, como o assédio da Valsa e do Fado.
No entanto, não tem jeito: a Canção desce o asfalto e se enamora do Tango. O texto de teatro de revista de Luis Iglesias e Miguel Santos estreou em 1933 e trazia, no elenco, Vicente Celestino e Gilda de Abreu, artistas que terminaram se casando em cena.
Na linha dos sucessos
A montagem que vem à luz agora é a versão do roteiro de Luiz Antônio Martinez Corrêa (1950-1987), diretor assassinado a facadas num apartamento do Rio. Ele vinha de sucessos com o gênero, como “Theatro Musical Brazileiro – Parte 1 (1860/1914)”, de 1985, e “Theatro Musical Brazileiro – Parte 2 (1914/1945)”, de 1986, sempre em parceria com Marshall Netherland.
A dupla já tinha planos para a montagem da opereta “A Canção Brasileira” (a opereta é um tipo de teatro musicado, leve, que entrelaça diálogos).
O roteiro deixado por Corrêa não estava completo, faltavam as partituras das músicas compostas por Henrique Vogeler (1888-1964), alemão radicado no Brasil. O processo de resgate foi parcimonioso. Primeiro, a irmã do diretor, Maria Helena Martinez, encontrou o roteiro. Em 1994, ela foi procurada por French Gomes da Costa, antigo freqüentador do teatro musicado, que assistiu à primeira montagem de 1933 e tinha cópia da partitura original.
“Depois da morte do Luiz Antônio, eu ficava na praça Tiradentes [no Rio], à noite, conversando com as pessoas que andavam por ali sobre os musicais e o teatro brasileiro. Uma vez, comentei que não conseguia achar essas partituras. Até que French apareceu em frente à minha casa e me deu de presente todas as partituras do espetáculo. Considero isso um milagre”, afirma Maria Helena, 82, que também colaborou na adaptação -ela é irmã ainda de outro diretor teatral, Zé Celso, do Oficina.
Em cena, são três músicos e 14 atores, entre eles Édio Nunes, Wladimir Pinheiro, José Mauro Brant, Erom Cordeiro e Juliana Betti. Depois de São Paulo, o espetáculo seguirá para Santos, Campinas, Santo André, Bauru e Poços Caldas.
Pelo resgate popular, “A Canção Brasileira” faz coro com outra produção carioca em cartaz na cidade, “Otelo da Mangueira”, no Sesc Anchieta.
18.5.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 18 de maio de 2006
TEATRO
O diretor Roberto Lage e o ator Celso Frateschi buscam recorte político em “Ricardo 3º”, drama histórico do bardo
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O diretor Roberto Lage tem predileção pelo teatro de idéias, aquele que imbrica reflexão e risco. Celso Frateschi é um contador de histórias na acepção mais elementar do ofício de ator. Depois de Dostoiévski (“Sonho de Um Homem Ridículo”, 2005), os parceiros da associação Ágora Teatro, criada em 1998 na Bela Vista, vão ao encontro da batida perfeita e universal de William Shakespeare em “Ricardo 3º”.
A montagem desse drama histórico, que estréia amanhã num Ágora reformado e ampliado, é coerente com o projeto de Lage, 59, e Frateschi, 54. Eles pertencem à geração dos anos 60 e 70. Lêem o teatro como arte engajada no entendimento deste século 21. “Ricardo 3º” interessa-os pela profundidade e radicalidade com que Shakespeare revela o homem político na origem do capitalismo.
“O momento de transição que a gente está vivendo, não especificamente brasileiro, mas mundial, lembra de alguma maneira a passagem da Idade Média para o Renascimento, o início do pensamento individualista que levou à transformação da sociedade européia”, diz Lage. “Hoje, atingimos esse ponto de exacerbação do indivíduo, de mudanças nos padrões éticos.”
Segundo o diretor, tal arquétipo não vem para contemporizar a crise política do país, por mais que as metáforas falem por si. Frateschi já trabalhava na adaptação da peça desde o final dos anos 90. A intenção é espreitar o homem ocidental de lá para cá.
O drama se passa logo após o fim da Guerra das Duas Rosas (1455-85), quando as casas de York e de Lancaster travam uma disputa sangrenta pelo trono da Inglaterra. O então duque de Glocester, Ricardo (Frateschi) salta a linha sucessória, na qual é o sétimo, com uma estratégia avassaladora: manda matar irmão, sobrinhos, casa-se com uma viúva de quem tramou a morte do marido e do sogro, enfim, faz tudo para conseguir a coroa. Não dura muito tempo no trono de sangue, até que é assassinado e faz girar a “roda da fortuna” dos vícios.
“Estou tão imerso em sangue que um crime me leva a outro crime. As lágrimas da piedade não habitam esses olhos”, diz Ricardo 3º, num dos lampejos de franqueza para com a platéia. Manco, com a mão esquerda debilitada, o personagem alinha a deformidade física à imoralidade. Expõe, por exemplo, a cara-de-pau na hora de seduzir uma viúva que enterra o marido ou apela à cumplicidade do espectador. “Eu agradeço a Deus pela minha humildade”, diz ele, com humor.
Lage quer refletir na encenação a opção estética pela menor grandeza. Busca “um teatro sem adjetivos”, essencial na dramaturgia e na interpretação. A montagem soma 14 atores, entre eles Renata Zhaneta, Plinio Soares, Patrícia Gaspar e Isabel Teixeira.
O palco reformado do Ágora (pela cenógrafa Sylvia Moreira) surge em três planos e lembra a arquitetura elisabetana dos tempos de Shakespeare. Há novas poltronas, mas o ritmo dos acontecimentos em “Ricardo 3º”, ao cabo, são de causar desconforto.
17.5.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 17 de maio de 2006
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Dono de movimentada bilheteria no circuito Bela Vista, o teatro Imprensa também quer experimentar a produção “off”. Abre hoje o seu Espaço Vitrine, com capacidade para 50 espectadores.
“Vamos aproveitar uma sala do teatro que funcionava como escritório e virou um espaço multiuso. Já teve exposições, oficinas e agora recebe espetáculos”, diz Cintia Abravanel, diretora-presidente do Centro Cultural Grupo Silvio Santos, que engloba o Imprensa.
Abravanel fala em acolher os espetáculos “alternativos” que ficam pouco tempo em cartaz “por falta de estrutura ou patrocínio”.
Mais: fala em fazer com que o público “prestigie a arte e participe de uma ação social” ao trocar o ingresso por um livro ou um agasalho. O centro vai subsidiar os custos dos primeiros espetáculos do espaço.
O primeiro espetáculo é “Rapsódia dos Divinos”, que vai revezar as próximas quartas-feiras, até 23/8, com os solos “A Pomba Enamorada”, interpretado por Maria Assunção, e “O Barril”, por Ângela Dip.
Dirigido e concebido por Paulo Ribeiro, “Rapsódia dos Divinos” se propõe a ser um espetáculo poético-musical construído por meio de compilações de textos literários brasileiros e portugueses. Os personagens passam pelas cantigas medievais e alcançam movimentos contemporâneos.
Na próxima quarta-feira, é a vez de “A Pomba Enamorada”, adaptação de conto homônimo de Lygia Fagundes Telles, co-dirigido por Antônio Karnewale e Maria Assunção (ela é protagonista).
É a história de uma mulher que se apaixona platonicamente por um homem com quem dançou uma única valsa na vida.
O terceiro espetáculo do projeto Vitrine Cultural é “O Barril”, em que a comediante Ângela Dip trata de pensamentos e situações narrados por uma mulher, momentos antes de ela atirar-se numa catarata a bordo de um barril. A direção é de Vivien Buckup.
São Paulo, domingo, 07 de maio de 2006
TEATRO
Galpões, sobrados e até ex-moradias estudantis abrigam companhias e interferem em processos de criação
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O mapa dos espaços teatrais da cidade passa por mudanças significativas desde o final de 2002, quando entrou em vigor a Lei de Fomento, pela qual a prefeitura destina cerca de R$ 7 milhões anuais à pesquisa e criação de grupos.
Não se trata de aluguel comercial de auditório para temporada, mas de casas ou galpões ocupados como extensão das linguagens das respectivas equipes.
Impossível compreender o trabalho do grupo Folias D’Arte, por exemplo, sem associá-lo ao galpão transformado em morada há sete anos, em Santa Cecília.
Nessa trilha, a reportagem aponta cinco conjuntos que não tinham teto e, de uns tempos para cá, têm se destacado.
Os mais recentes a conquistar endereço são o grupo Teatro de Narradores (Bom Retiro), a Companhia Paidéia (Alto da Boa Vista), o Núcleo Bartolomeu de Teatro (Pompéia), a Companhia Balagan (Barra Funda) e a Companhia Livre (Barra Funda).
Ao lado do metrô Tiradentes, a Casa do Politécnico -que foi morada estudantil nos anos 1960 e estava desocupada até 2004- serve agora ao teatro. Convidado para uma intervenção, há dois anos, o grupo Teatro de Narradores instalou-se de vez e anunciou sua ocupação na semana passada, com o evento “Cenas de Intervenção”, que incluiu movimentos de moradia da região central e atraiu os conjuntos Teatro do Motim e o Mentecorpos do Balaio.
Segundo a atriz Bárbara Araújo, o Narradores, criado em 1998, vai ocupar os oito andares do prédio no seu próximo espetáculo, “Um Dia de Ulisses”, inspirado na “Odisséia” de Homero.
Na noite da última sexta, estava previsto um show de Renato Braz para abrir oficialmente as portas do Pátio dos Coletores de Cultura, no Alto da Boa Vista, sede da Cia. Paidéia. Os idealizadores Amauri Falseti e Aglaia Pusch falam em criar um pólo cultural na região de Santo Amaro e formar público. No local, de 400 m2, funcionava o antigo pátio dos coletores de lixo da subprefeitura. O projeto é uma parceria com a Associação Tobias e com o Sesc.
Em maior ou menor grau, todos os novos espaços prevêem atividades abertas ao público.
Um sobrado erguido no início do século 20 foi alugado pela companhia Balagan. Ali, a encenadora Maria Thaís vê uma arquitetura que traduz a idéia de polifonia que busca imprimir em seu trabalho coletivo.
“Com salas nos planos subterrâneo, médio e alto, a casa é como uma metáfora do nosso modo de pensar o teatro, no qual a produção e a construção de um espetáculo também estão no mesmo patamar da criação artística. A casa é do tamanho da gente”, diz Thaís.
É ali que está nascendo o seu novo espetáculo, “Západ”, expressão russa que designa o Ocidente. Dá continuação à pesquisa em torno da “clausura humana”.
Criada em 1997, a Balagan extrai seu nome da expressão homônima que, em russo, significa teatro popular e, em árabe, é sinônimo de confusão ou baderna.
Depois de passar 2004 em residência no Teatro de Arena, no centro, a Companhia Livre descobriu que um quintal faz bem. “Com espaço próprio, a nossa produção multiplicou, criamos textos, montamos, pesquisamos a história do próprio Arena”, diz a diretora Cibele Forjaz.
A companhia assinou contrato de dois anos (aluguel de R$ 1.400) para ocupar um galpão de 300 m2 na Barra Funda, uma antiga marcenaria. O espaço deve abrir em julho. Inicialmente, haverá mesas redondas e ensaios abertos com o que resultar da pesquisa sobre mitos de morte e renascimento, com colaboração de Newton Moreno. A estréia deve ser em 2007.
Um “centro de cultura popular urbana” é o que o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos pretende alicerçar na Pompéia, no mesmo espaço onde foi desativado recentemente o Studio das Artes. Segundo a atriz Roberta Estrela D’Alva, a idéia é fundir áreas como o vídeo, as artes plásticas e a música. Enfim, na linha da própria simbiose que o grupo promove em seus espetáculos com a estética e as idéias do hip hop.
11.5.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 11 de maio de 2006
TEATRO
Ator homenageia escola de samba e transpõe “Otelo” para o Rio dos anos 40
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
No desfile de 1994, quando a Mangueira amargou o 11º lugar no Carnaval carioca, um dos seus passistas, Gustavo Gasparani, traduziu a tragédia numa composição de sua lavra, “Primeira Estação do Samba”, de fundo obviamente triste. “Nem Beth Carvalho nem Alcione cantariam”, diz o também ator e dramaturgo, que sublimou aquele episódio num musical em que ata Shakespeare à escola sem medo de ser feliz.
“Otelo da Mangueira”, uma homenagem “poético-fantasiosa” à Estação Primeira, à cidade do Rio, à sua cultura e a seu povo, como concebe Gasparani, 39, ganha temporada paulistana a partir de amanhã, no teatro Sesc Anchieta. Aquela canção de 1994 vem à tona no encerramento.
Passista há 18 anos e um dos fundadores da Cia. dos Atores (1988), Gasparani criou projeto paralelo a seu grupo para transpor o clássico do século 17 para o Rio da década de 40.
A peça é ambientada naquela “era primitiva”, segundo o autor, em que o samba ainda não havia encontrado a cultura urbana e transitava do erudito para o popular -alguns compositores eram admirados pelo maestro Heitor Villa-Lobos, por exemplo.
No texto inspirado em Shakespeare, a guerra contra os turcos se transforma na luta para vencer o Carnaval. A batalha em Chipre, conforme o enredo, tem seu paralelo na disputa pelo samba-enredo. As armas, espadas e canhões equivalem aqui a cuícas, taróis e surdos de marcação.
“O primeiro solilóquio de Otelo, quando ele briga com Desdêmona, eu retirei inteiro e botei a poesia de Carlos Cachaça, dando-lhe o mesmo significado”, diz Gasparani -mas o lenço como “objeto do crime” está lá, intocável.
Gasparani interpreta Dirceu, o Iago do original que empurra Otelo (único nome mantido, interpretado por Marcelo Capobiango) para o inferno dos ciúmes. Quem faz Desdêmona é Susana Ribeiro, em substituição a Cláudia Ventura. O diretor convidado do espetáculo é Daniel Herz, da Cia. Atores de Laura.
No que define como mosaico mangueirense e shakespeariano, em prosa e verso, Gasparani emenda 17 sambas ao longo do espetáculo, de clássicos como “Alvorada” (Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho) a raridades como “Deus Onipotente Criador” (Cícero dos Santos).
Ao som de cinco músicos, os 13 intérpretes, alguns da comunidade de Mangueira, cantam, dançam ou atuam sobre uma estrutura cenográfica que remete aos desníveis do morro.
10.5.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 10 de maio de 2006
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Quando cumprimentam uma pessoa, o burquinense Hassane Kassi Kouyaté e o francês D’de Kabal levam a mão ao coração. Eles têm fé no teatro, como desejam mostrar em “Sozaboy – Pétit Minitaire” (corruptela para “pequeno soldado”), espetáculo apresentado somente hoje e amanhã no Sesc Santana.
Num palco praticamente nu, eles usam poucos objetos, como uma cadeira, um fuzil e um microfone. A dupla de atores se apóia sobretudo na palavra, falada e cantada, para conduzir o público à história de um adolescente aprendiz de motorista seduzido por um uniforme militar e submetido a três anos no front.
Nesse período de guerra civil, ele perde a mulher, a mãe, a casa, a aldeia e até a sua imagem, já que o tomarão por fantasma. Essas vozes reverberam em cena.
“A peça é uma escultura feita de som, luz, corpo e verbo”, diz Kouyaté, 42, que herdou a tradição do “griot” em seu país, Burkina Fasso. Os griots são poetas e cantadores da cultural oral africana. Por isso a aliança com o também rapper D’de Kabal, 32.
A musicalidade das palavras é fundamental na direção de Stéphanie Loïk -haverá legendas eletrônicas em português. Ela adaptou “Sozaboy”, romance do escritor e ativista nigeriano Ken Saro-Wiwa (1941-95), enforcado pelo regime militar de seu país por defender a minoria ogoni.
O projeto teatral evoca crianças-soldados numa favela urbana ou num Iraque sob bombardeio. “A peça fala desses conflitos por meio da janela do amor”, diz Hassane, filho do também ator Sotigui Kouyaté, que já esteve aqui com a companhia de Peter Brook.
Sozaboy – Pétit Minitaire
Quando: hoje e amanhã, às 21h
Onde: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 0/xx/11/6971-8700)
Quanto: de R$ 4 a R$ 10
5.5.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 05 de maio de 2006
TEATRO
Terceiro texto de Antônio Ermírio de Moraes, “Acorda Brasil” se baseia em experiência do terceiro setor em Heliópolis
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Ao final de “Acorda Brasil”, nova peça do empresário e colunista da Folha Antônio Ermírio de Moraes, ouve-se um locutor: “Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência, já que ela foi inspirada na orquestra dos talentosos jovens que estudam na escola de música instalada no bairro de Heliópolis” -a maior favela de São Paulo, com 120 mil habitantes.
No seu terceiro texto para o teatro, Moraes, 77, volta a inscrever o nome do país no título e a tocar em problemas nacionais com direito a proposições.
Agora, o mote é a inclusão social por meio da educação. O espetáculo, que estréia hoje no teatro Shopping Frei Caneca, descreve as relações de um jovem violinista que dá aulas na periferia e enfrenta vários obstáculos, da resistência inicial dos aprendizes ao tiroteio próximo à sala de encontro.
“É um violino ou é uma metralhadora?”, pergunta-lhe a diretora da escola pública, dando o tom da violência naquele território coabitado pelo tráfico de drogas. Ela mesma já foi assaltada na porta da escola precariamente equipada.
“Acorda Brasil” quer mostrar a superação desse professor de violino e, sobretudo, a transformação daqueles adolescentes por meio da arte, da música.
“Decidi colocar esse assunto na linguagem teatral na esperança de que tais idéias penetrem de maneira profunda no público em geral e nas pessoas que podem colaborar com projetos semelhantes para a redenção da nossa juventude”, afirma Moraes, no material de divulgação.
Segundo a assessoria de imprensa do espetáculo, desta vez o empresário -que não se considera propriamente um dramaturgo- preferiu se esquivar de entrevistas. “Espero que o público se comova com a peça e, sobretudo, com o êxito alcançado pelo Instituto Baccarelli.”
Iniciativa do maestro Sílvio Baccarelli, a organização sem fins lucrativos atua desde 1996 em parceria com a iniciativa privada e o Ministério da Cultura. O instituto inspirou a peça por meio da criação e da manutenção de projetos como a Sinfônica Heliópolis, a Orquestra do Amanhã e o Coral da Gente.
Dezessete crianças e adolescentes da comunidade, envolvidos nesses projetos, também participam do espetáculo, que conjuga música e canto -a sinfônica comparece com 65 instrumentistas. Entre os artistas que contracenam com o elenco mirim, estão Petrônio Gontijo e Arlete Salles.
“Apesar do fundo realista da história, me permiti a liberdade poética em vários momentos”, diz o diretor José Possi Neto. Ele afirma que é a primeira vez que encena “um trabalho sobre exclusão social” e que foi “mobilizado” pela disponibilidade dos jovens atores e músicos de Heliópolis.
Em sua primeira peça, “Brasil S/A” (1996), Moraes tratou dos malefícios da carga de impostos na vida de um empresário. Fundo algo biográfico para quem encabeça o grupo Votorantim.
Já “S.O.S. Brasil” (1999), o segundo texto, expôs a crise da saúde pública a partir de um hospital minado financeira e administrativamente por um político e uma enfermeira corruptos. Moraes preside o hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo.
Acorda Brasil
Quando: estréia hoje, às 21h; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 20h. Até 30/7
Onde: teatro Shopping Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569, Bela Vista, SP, tel. 0/xx/ 11/ 3472-2226
Quanto: R$ 50