Menu

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 03 de dezembro de 2005

TEATRO

Dramaturgo argentino é um dos destaques de evento na unidade do Sesc de Copacabana

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A segunda edição do evento “Pratas do Rio”, diálogo cultural entre Brasil e Argentina, traz para o Rio de Janeiro um dos artistas mais respeitados da cena teatral vizinha, o ator e dramaturgo Eduardo Pavlovsky, 72.

“Tato”, como é mais conhecido, protagoniza seu texto mais recente, “Variaciones Meyerhold”, fragmentos da vida e do pensamento de Vsevolod Meyerhold (1798-1855), diretor russo dedicado à pesquisa da interpretação e parceiro de Stanislavski no lendário Teatro de Arte de Moscou -referência de formação de ator para o Ocidente.

Neto de russos, Pavlovsky é dirigido pelo filho Martín e contracena com a mulher, Susana Evans, com quem é casado há 25 anos.

Em 1978, o ator morou por quatro meses no Rio, a caminho do exílio na Espanha, por causa da ditadura argentina (1976-1983). A tortura é tema recorrente em sua obra, recortada por eventos históricos, políticos e sociais.

O evento inclui exibição de dois filmes inspirados em peças de Pavlovsky, que também é psicoterapeuta. A seguir, trechos da entrevista.

TEATRO POLÍTICO“Minha geração foi muito marcada pelos eventos históricos, quer latino-americanos ou argentinos. Meu pai, por exemplo, foi exilado durante o governo [de Juan Domingos] Perón, nos anos 50. Eu também fui para o exílio. Ou seja, não se trata da política que lemos nos livros, mas da política que vivemos no corpo.”


TORTURA
“Em 1971, escrevi a peça “Sr. Galíndez”, que tratava da institucionalização da tortura, de órgãos dedicados a transmitir aos jovens uma pedagogia da repressão. Escrevi antes da ditadura. Em termos de dramaturgia, investigava um tema difícil, o da lógica do repressor, sua subjetividade. Não se pode fazer teatro sem uma atitude crítica em relação aos personagens.”

MEYERHOLD“Meyerhold foi torturado e assassinado durante o stalinismo. Isso foi revelado recentemente, em 1992, com a abertura de alguns arquivos da KGB. Sofreu extensas sessões de tortura por integrar o partido comunista e sobretudo por criar uma arma ainda mais revolucionária: a liberdade criadora. Ele se opôs à linha do realismo socialista, uma política linear.

Além do eixo ideológico, outro ponto em comum do meu modo de fazer teatro com o pensamento de Meyerhold é a improvisação. A peça não tem uma dramaturgia pronta, escrita. Em cena, trato basicamente dos temas teatrais pelos quais Meyerhold foi atacado. Para ele, o protagonista do teatro é o corpo.”
 

PSICODRAMA“Ele sempre foi importante para mim. Aplico essa técnica [psicoterapia de grupo em que os pacientes escolhem os papéis que vão desempenhar na dramatização de uma situação] desde o final dos anos 50. Trabalhava com crianças em hospitais e me dei conta de que as diferentes formas de expressar a criação eram muito terapêuticas. Recorri a jogos em grupo e nunca mais deixei o psicodrama. Costumo dizer que o teatro é uma amante, enquanto o psicodrama é mais um casamento.”

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 01 de dezembro de 2005

TEATRO

Cia. estréia no Rio “Toda Nudez Será Castigada”, primeira incursão pela obra do autor marcado pela obsessão

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei.” A peça começa pelo fim, com a voz de Geni rodando no gravador. Sucedem as cenas em flashback, como se os dois personagens “conversassem” sobre a história deles, a do homem que, “por humanidade”, quer tirar a musa-prostituta da zona, ou do “rendez-vous”, e tudo termina em tragédia.

A estrutura narrativa de “Toda Nudez Será Castigada” (1960), que sustenta uma espécie de memória seletiva, seduziu a Armazém Cia. de Teatro em sua primeira vez com Nelson Rodrigues (1912-1980).

O repertório da Armazém é caracterizado pela dramaturgia própria, feita de parcerias do diretor Paulo de Moraes com o poeta Maurício de Arruda Mendonça (como nos últimos “Pessoas Invisíveis” e “A Caminho de Casa”). Exceção feita a “Esperando Godot”, obra-prima do irlandês Samuel Beckett, montada assim que a companhia migrou de Londrina para o Rio de Janeiro, em 1998. Agora, é hora e vez de Nelson.

“Toda Nudez Será Castigada” estréia hoje no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio.

O viúvo Herculano é chefe de família quarentão. Anda depressivo. Seu filho, Serginho, 18, tenta o suicídio e faz um pacto com o pai para que jamais substitua sua mãe por outra.

De olho no dinheiro de Herculano, seu irmão, o ardiloso Patrício promove a aproximação entre Geni e Herculano, “semi-virgem” que estaria condenado “ao papai-e-mamãe de luz apagada”.

Geni vai romper a castidade da família, para desespero das três tias solteironas que também cuidam de Serginho (por Sérgio Medeiros) na mesma casa -uma delas lhe dá banho religiosamente, enquanto as outras assistem. Afinal, “o casto é um obsceno”, sustenta Patrício.

“A Geni subverte por meio do sexo”, diz Patrícia Selonk, 37, que interpreta o papel. Geni é movida por instinto, pulsão de vida, ao mesmo tempo que acha que vai morrer de câncer, obsessiva com a ferida que surgirá no seio (praga rogada pela mãe).

Não é por acaso que Nelson Rodrigues adota para a peça o subtítulo “obsessão em três atos”. O fantasma da morte ronda o tempo todo enquanto o desejo se impõe, mas com ele a impossibilidade amorosa.

“A trama parece se construir toda na cabeça do Herculano”, diz Moraes, 40. O encenador vê no viúvo interpretado por Thales Coutinho um herói expressionista, oscilando entre ciência e a fé. Daí a sua interlocução pendular com o médico e o padre. Brande os princípios, mas sucumbe à carne. A hipocrisia e o cinismo também campeiam.

O autor conduz Herculano como protagonista, mas, lá pelas tantas, converge para Geni, “expondo a trajetória clássica de ascensão e queda de uma heroína”, segundo Moraes.

São personagens universais, inclusive os coadjuvantes, desprendidos de uma época, de um lugar. “Não montamos uma tragédia carioca, mas uma obsessão em três atos”, diz o diretor.

A cenografia sugere a gaveta da memória de Herculano por meio de portas giratórias que compõem no palco uma caixa inteiriça de acrílico e ferro. As transparências marcam os vitrais coloridos da igreja e do bordel. Sagrado e profano.



Toda Nudez Será Castigada 
Onde: CCBB-RJ (r. Primeiro de Março, 66, centro, tel. 0/xx/21/3808-2020)
Quando: estréia hoje, às 19h; de qua. a dom., às 19h. Até 19/2
Quanto: R$ 10

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 24 de novembro de 2005

TEATRO 
Como no filme de Werner Herzog, grupo enfrenta desafios locais e de produção para levar à cena o espetáculo “BR3”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

O marinheiro de convés Fábio Augusto Soares Vargas, 23, nunca foi ao teatro. Há três anos trabalhando nas obras de rebaixamento da calha do rio Tietê, o teatro vai até ele.

Nascido em Presidente Epitácio (SP), onde costumava cabular aulas para tomar banho num dos braços do rio Paraná, Vargas ensinou um dos atores do grupo Teatro da Vertigem a pilotar o bote (ou voadeira) na peça “BR3”, que, a partir de amanhã, tem ensaios abertos.

Esta fase tem ingressos gratuitos por conta da Lei de Fomento ao Teatro. A data da estréia ainda não foi definida.

A bordo do barco Almirante do Lago, 40 espectadores vão acompanhar as cenas que acontecem na própria embarcação ou lá fora, em pequenas plataformas, estruturas de pontes ou nos terrenos inclinados das margens. São cerca de 4,5 km entre o Cebolão de Pinheiros e o viaduto da rodovia Bandeirantes.

Com dramaturgia de Bernardo Carvalho, estréia do romancista e colunista da Folha no teatro, o espetáculo acompanha a saga de três gerações de uma família de origem nordestina.

Vai do canteiro de obras de Brasília, no final dos anos 50, até o salve-se-quem-puder do tráfico nas periferias dos anos 90, como a de Vila Brasilândia, na zona norte paulistana. No enredo, a voragem alcança ainda a selva, na fronteira do Brasil com Bolívia.
Carvalho integrou extenso processo colaborativo, que teve como eixo a chamada Expedição BR3, realizada em 2004, em que o Vertigem conheceu in loco os territórios e as gentes de Brasilândia, Brasília e Brasiléia (AC).

No mês passado, a reportagem assistiu a dois ensaios das primeiras cenas de “BR3”. É, de longe, a produção mais complexa do grupo, que já venceu desafios na ocupação de espaços como igrejas (“O Paraíso Perdido”, 92), hospitais (“O Livro de Jó”, 95) e presídios (“Apocalipse 1,11”, 2000).

Aqui, não é o Vertigem que determina o espaço, mas o espaço que se impõe. O grupo “negocia” com ele desde agosto. Exemplo: o barco usado nos primeiros ensaios, o Explorer, “descia” o rio sem problemas. Quando foi incorporado o barco oficial (26 m de comprimento x 7 m de largura), descobriu-se que era impossível manobrar com agilidade em alguns pontos em que precisava atracar. Resultado: inverteu-se o curso da navegação, já que é mais fácil “subir” o rio.

Ponta de iceberg da empreitada que remete o diretor Antônio Araújo ao “Fitzcarraldo” (1982), do cineasta alemão Werner Herzog. O filme mostra a obsessiva aventura do personagem-título em levar a ópera para o coração da selva amazônica.

De volta ao trabalhador do Tietê, Vargas sente-se entusiasmado em contribuir com o espetáculo. “Com o teatro, as pessoas vão prestar mais atenção ao rio. O povo da cidade tem nojo, mas é sujeira dele mesmo. Se cada um se conscientizasse, ele estava mais limpo”, afirma Vargas.



Ensaios abertos de “BR3”
Onde:
rio Tietê 
Quando: a partir de amanhã, às 22h; de qua. a sex., às 21h; sáb. e dom., às 20h 
Quanto: entrada franca. Cada pessoa pode retirar dois ingressos na secretaria do Teatro da Vertigem (r. Roberto Simonsen, 136-B, tel. 0/xx/11/ 3241-3132 e 0/xx/11/7608-5338), de seg. a sex., das 14h às 18h, e sáb., das 10h às 14h. 40 lugares. Classificação: 12 anos. 
Duração: 180 min. Haverá transporte do público até o local, com saídas uma hora antes da peça. O ponto de encontro fica na r. Dr. Leo Ribeiro de Morais, 66, esq. com marginal Tietê, estacionamento do Núcleo de Ação Educativa (NAE). Se chover, não haverá cancelamento

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 22 de novembro de 2005

TEATRO

Novo espetáculo de Ivaldo Bertazzo e Dança Comunidade expõe desigualdade social de Brasil e África do Sul

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Passo a passo, o coreógrafo Ivaldo Bertazzo constrói uma identidade possível para um teatro musical brasileiro mais original na incorporação da dança e da música. Desde o início da década, ele monta espetáculos corais que incluem estudantes das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir de “Samwaad – Rua do Encontro” (2004), o projeto ganhou status de grupo, o Dança Comunidade, berço para profissionalização de jovens entre 14 e 29 anos.

Eles podem enveredar pelo fazer artístico ou pelo trabalho social, por exemplo, o futuro dirá. Por enquanto, dançam para a pré-estréia nacional de “Milágrimas”, na próxima quinta-feira, no teatro do Sesc Pinheiros em São Paulo.

No palco, 41 dançarinos-cidadãos vinculados a sete ONGs (organizações não-governamentais) dos extremos da cidade. Fazem a travessia de uma ponte que os levam à cultura popular da África do Sul, por meio do canto e da dança. No mesmo caminho, com atalhos outros, o grupo chegou à Índia em “Samwaad”.

Não dá para pisar o continente africano sem falar de exclusão, com a qual o Brasil também se alinha. “Ouso dizer que a idéia desse trabalho é fazer a contaminação cultural do lado de lá, na periferia”, diz Bertazzo, 56.

Ao lidar com suas carências, afirma, os estudantes se revelam “soberbos em sua existência fresca, capazes de transformar qualquer coisa em algo imediatamente criativo”.

Bertazzo vê no jogo de cintura e deslocamento natural desses adolescentes pela cidade (trem, metrô, ônibus, a pé) potencial para ir mais longe. Daí o grau de exigência e aperfeiçoamento a cada novo espetáculo.

Nos primeiros ensaios de “Samwaad”, diz o coreógrafo, seus corpos comunicavam insegurança quanto à capacidade de se expressar diante do público. As amarras e as travas musculares foram diluídas aos poucos.

“Isso era natural para quem tinha dúvida até em sair de casa para passear com os amigos na avenida Paulista, por causa do apartheid social monstruoso em que vivemos”, diz Bertazzo.

Agora, a identificação é mais direta em se tratando da cultura africana. “Milágrimas” quer transcender estereótipos de uma inclusão da periferia fixada na batida perfeita da lata. Quer ampliar o trânsito para além da base percussiva.

A diretora-assistente, Inês Bogéa, crítica de dança da Folha, diz que uma das mudanças perceptíveis na nova coreografia é a introdução do canto.

Além de trabalhar o corpo, foi preciso trabalhar a voz. Entre as fusões Brasil-África do Sul, haverá o canto à capela em algumas passagens, fruto de intercâmbio com o grupo Kholwa Brothers, criado em 1990.

Liderados por Ziboneli Derrick Mlambo, os músicos-dançarinos passaram dois meses e meio no projeto Dança Comunidade, ensinando canto e dança.

“Os meninos e meninas estão participando mais ativamente da montagem. Foram desafiados a criar improvisações, o que ajudou bastante na solução dos espaços da cena”, afirma Bogéa, 40. Surgiram inclusive solos e pas-de-deux, repletos de autonomia.

Além de ensaiar -média de seis horas diárias, seis vezes por semana-, os artistas em profissionalização tiveram aulas complementares de lingüística, saúde e história da dança.

“Milágrimas” também se desdobra em livro e CD. A trilha sonora ganha lançamento com o mesmo título do espetáculo, sob direção musical de Benjamim Taubkin e Arthur Nestrovski, articulista da Folha. Aliás, o nome do espetáculo evoca letra de Itamar Assumpção e Alice Ruiz. O CD com 11 faixas (R$ 20) traz participações de músicos convidados, como Sapopemba, Anelis Assumpção, Dimos Goudaroulis e Teco Cardoso.

A socióloga Carmute Campello organizou o livro “Tenso Equilíbrio na Dança da Sociedade” (ed. Sesc, R$ 25, 240 págs.), que reúne ensaios, artigos e fotos sobre o universo do Dança Comunidade.

Participam especialistas em antropologia, urbanismo, administração pública de cultura e três romancistas, entre eles Ferréz e Paulo Lins (autor de “Cidade de Deus”), que discorre sobre ficar “em pé de igualdade com o ser humano de qualquer época ou lugar”, ele que nasceu e foi criado na periferia do Rio.

“E a molecada vai lendo as ‘coisas”, vendo que o resto do mundo não é tão grande e distante, conseguindo se expor sem o temor natural da periferia, tomando mais ciência do corpo, conhecendo novas pessoas e lugares, convivendo com a organização de instituições que possuem os recursos necessários, o horário, o compromisso, a auto-estima, a necessidade de querer mais do viver”, escreve o escritor carioca. 



Milágrimas
Quando: pré-estréia dia 24/11, às 21h, para convidados; a temporada abre em 25/11; de qui. a sáb., às 21h; dom., às 18h 
Onde: Sesc Pinheiros – teatro (r. Paes Leme, 195, tel. 0/xx/11/3095-9400) 
Quanto: R$ 20

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 17 de novembro de 2005 

TEATRO 
Estudo sobre história do espaço e do grupo paulistano surge em vídeo, fotos e instalações no Tomie Ohtake

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Sobre um tapete circular no chão do Teatro de Arena surgem atores em camisas azuis e vermelhas e calças brancas. Eles se revezam nos papéis de “Arena conta Zumbi” (1965). Um deles assume a voz do narrador, o coringa que, nas entrecenas, situa o público sentado na platéia circular quanto à resistência dos quilombolas de Palmares (AL), submetidos à colônia portuguesa no século 17.

Isso é traduzido em raras imagens coloridas de um passado predominantemente em preto-e-branco da histórica montagem de Augusto Boal para a peça escrita em parceria com Gianfrancesco Guarnieri. Cerca de 40 fotos dos acervos da Sociedade Cultural Flávio Império (arquiteto e cenógrafo que também passou pelo grupo e Teatro de Arena) e do Arquivo Multimeios/ Divisão de Pesquisas do Centro Cultural São Paulo estão incorporadas à exposição “Arena conta Arena 50 Anos”, que abre hoje no Instituto Tomie Ohtake.

“Não é um vernissage, mas uma estréia”, diz a coordenadora-geral da mostra, a atriz Isabel Teixeira, 32, integrante da Cia. Livre. A história do Arena é o espetáculo.

Acostumado a abrigar exposições de artes plásticas, fotografia e design, o instituto dedica hall e três salas às artes cênicas mediadas por suportes em vídeo, fotos, instalações e áudios, inclusive trechos de montagens originais.

Vêm à luz a tradução cênica e audiovisual do projeto de reconstituição da memória do coletivo que fixou sua sede à rua Teodoro Baima, 94, quase esquina com avenida Ipiranga, no centro, endereço que desde 1977 foi rebatizado Teatro de Arena Eugênio Kusnet, homenagem ao ator e teatrólogo russo radicado em SP e morto em 1975.

Ali foi demarcada importante fase do teatro brasileiro, entre os anos 50 e 70, sobretudo na valorização de uma dramaturgia voltada para os temas históricos, políticos e sociais do país. Foi no Arena que estreou “Eles Não Usam Black-Tie” (58), de Guarnieri, peça emblemática da incursão pelo universo da classe operária.

A Cia. Livre ocupou o Arena durante 2004, teatro que é administrado pela Funarte, órgão do Ministério da Cultura. O grupo abriu dois flancos: 1) criação de um espetáculo, “Arena conta Danton”, encenado por Cibele Forjaz e contemplado pela Lei de Fomento; e 2) prospecção das peças e da gente que passou pelo Arena desde sua inauguração, em 1955, projeto patrocinado pela Petrobras.

O estudo público se deu por meio de depoimentos, leituras e entrevistas, tudo registrado em áudio e vídeo. Esse trabalho de um ano e meio está condensado num CD-ROM que será distribuído a escolas e faculdades de artes cênicas do país. Há um quem-é-quem com 236 nomes que fizeram a história do local.

Entre eles, Paulo José, Lima Duarte, Myrian Muniz, Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Lélia Abramo, Sadi Cabral, Célia Helena, Ítalo Rossi, Dina Sfat, Juca de Oliveira e Raul Cortez. Na pesquisa de campo, a Cia. Livre conseguiu localizar ainda pessoas-chave como o comerciante aposentado Roger Levy, um dos fiadores para o empréstimo bancário que ajudou o grupo a transformar uma antiga garagem num teatro. 



Arena conta Arena 50 Anos
Onde:
Instituto Tomie Ohtake (r. Coropés, 88, Pinheiros, tel. 2245-1900) 
Quando: hoje, às 20h, para convidados, e a partir de amanhã para o público; ter. a dom., das 11h às 20h. Até 29/1 
Quanto: entrada franca

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 16 de novembro de 2005

TEATRO 

Grupo faz ensaio aberto amanhã de “A Luta – Parte 2”; Zé Celso prepara rito para lembrar irmão assassinado em 1987

Na Casa das Rosas, seis pessoas da platéia jantam tortelloni e tomam vinho durante o espetáculo da cia. Bendita Seja

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O espectador vai ao teatro e janta. No teatro. Em cena. Na quarta-feira passada, a psicóloga Beatriz Chahin era um dos seis privilegiados comensais da peça “Jardim das Delícias”, cuja sessão foi acompanhada pela Folha.

“Foi muito gostosa a maneira como ofertaram a comida. Me senti como se estivesse representando, fazendo parte de um ritual”, diz Chahin, 50.

No início, sentada em semicírculo entre os espectadores escolhidos naquela noite, ela ficou um pouco constrangida em ser observada pelo restante da platéia, cerca de 40 pessoas. Teve vontade de partilhar o prato, mas depois se deixou levar pelo sabor do tortelloni servido pelas atrizes.

“Jardim das Delícias” é o espetáculo da recém-criada cia. Bendita Seja. O elenco de seis mulheres concilia atuação e preparação do molho e da massa. Antes, é claro, os convidados da “mesa” bebem um vinho tinto.

Uma edícula que originalmente era usada como garagem na Casa das Rosas foi transformada cenograficamente num restaurante. O público adentra o espaço impregnado pelo cheiro das folhas de sálvia e alecrim; pelas cores exuberantes dos condimentos, legumes, panelas e utensílios, tudo à luz de velas, sugerindo a cozinha na qual se passam as histórias.

“A emoção vem pela narrativa e pela alquimia da culinária”, diz o chef Fernando Carneiro, que também comeu numa almofada, tendo à frente uma mesa baixa.

A cenógrafa Telumi Helen, 45, afirma que o desejo na direção de arte é dar prazer e aconchego ao público, “como se estivesse na cada da avó, com toda a sofisticação e a delicadeza do feminino”.

Por isso os tons avermelhados e alaranjados nas paredes e figurinos, por exemplo, como a sugerir a imagem do romã ou do próprio útero, segundo a cenógrafa.

O texto de Nanna de Castro, escrito com a colaboração do elenco, introduz as histórias de Luz (Tania Castelo), sua mãe Vivi (Sílvia Poggetti), sua filha Ana (Flavia Milioni) e a empregada Cosma (Vera Lúcia Ribeiro).

Elas rememoram o restaurante Jardim das Delícias, fechado após um crime. Um homem morreu ali, misterioso personagem que complementa a mística feminina e a sensualidade dominantes.

“É um trabalho atemporal, que traz a ancestralidade dessas personagens e também aponta para o contemporâneo”, diz a diretora Rachel Araújo, 62. Aqui, a comida quer servir de metáfora à criação.



Jardim das Delícias 
Quando:
qua. a sex., às 21h. Até 16/12
Onde: Casa das Rosas (av. Paulista, 37, tel. 0/xx/11/3288-9447)
Quanto: R$ 20

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 15 de novembro de 2005

TEATRO

Grupo mostra duas montagens em passagem relâmpago pelo Sesc Santana

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Um dos nomes fundamentais do movimento teatral em Campinas, a Boa Companhia de Teatro volta a São Paulo em passagem relâmpago pelo recém-inaugurado Sesc Santana. E traz simbiose recorrente em seus 13 anos: um texto literário convertido para a cena e um clássico da dramaturgia.

Hoje, apresenta “Primus” (2002), versão para o teatro do conto de Franz Kafka “Comunicado para uma Academia” (1917). Amanhã, é a vez de “Esperando Godot”, escrito em 1953 pelo irlandês Samuel Beckett.

Assinado pela diretora artística da companhia, Verônica Fabrini, “Primus” dá ênfase à expressão dos atores. Para contar a história do macaco que aprendeu a ser homem e se tornou uma estrela do teatro de variedades, o quarteto Alexandre Caetano, Daves Otani, Eduardo Osorio e Moacir Ferraz ora se converte em feras amestradas, ora em amestradores. Vão da base primitiva à dita civilização.

Se a imanência de “Primus” está no corpo, em “Esperando Godot” ela atravessa o território da palavra e do silêncio.

A meta é materializar poeticamente a condição humana retratada por Beckett naquele pós-guerra intermitente em que dois homens, Vladimir (por Osório) e Estragon (Otani), sentados à beira de uma estrada, esperam por alguém chamado Godot. Os dias passam e nada acontece. Godot, que não se sabe quem, quando ou como, nunca aparece.

A cia. nota a atualidade do texto nesta época que assistiria à deterioração do afeto. “Um mundo em que gastamos mais, mas possuímos menos; compramos mais e aproveitamos menos; temos mais conveniências e menos tempo; mais diplomas, mas menos razão; mais especialistas e ainda mais problemas; mais medicina, menos bem-estar; dominamos o átomo, mas não o preconceito”, diz o programa da peça.



Primus 
Quando: hoje, às 19h 
Onde: Sesc Santana – teatro (av. Luiz Dumont Villares, 579, Jardim São Paulo, tel. 0/xx/11/6971-8700) 
Quanto: R$ 15 

Esperando Godot 
Quando: amanhã, às 21h 
Onde: Sesc Santana – teatro 
Quanto: R$ 2

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 12 de novembro de 2005

TEATRO 
Líder dos Parlapatões reestréia duas peças, entre elas “Prego na Testa”, e assina direção cênica de ópera

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Na cena paulistana há 14 anos, o grupo Parlapatões, Patifes & Paspalhões é sinônimo de Hugo Possolo. Ele diz que não, que é vício da mídia eleger “este ou aquele em detrimento de uma figura coletiva”. No entanto, a semana é emblemática: o palhaço, ator, dramaturgo e encenador remonta “Auto dos Palhaços Baixos” (2004) no Teatro Folha (sessões às quintas e sextas), sala onde os Parlapatões também integram o projeto “Nunca se Sábado” (à meia-noite).

Volta a defender o monólogo-pancadão “Prego na Testa”, a partir de hoje no Crowne Plaza; e ainda assina a direção cênica da ópera “Il Campanello di Notte”, cuja última récita ocorreu ontem no teatro São Pedro.

“Tenho o maior interesse no poder metafórico do humor quando ele instiga à reflexão”, diz Possolo, 43. A seguir, os principais trechos da sua entrevista.


Folha – Você sente-se à vontade ao transitar do baixo ventre para a chamada alta cultura?

Hugo Possolo
Nunca separei cultura em alta e baixa. As minhas piadas, por vezes bem baixas, têm altos objetivos, como detonar o moralismo e a caretice, principalmente da nossa elite tacanha. A ópera é um gênero que já foi muito popular, cujo aspecto de espetacularidade tem um parentesco fortíssimo com o circo. É bom poder mostrar um trabalho de alta qualidade musical, com comicidade e que não se encaixa na pasteurização dos musicais enlatados que são contrabandeados da Broadway.

Folha – Escrito por Eric Bogosian nos EUA de uma década atrás, “Prego na Testa” parece dizer muito ao Brasil de hoje.

Possolo
A atualidade do texto me impressionou muito, principalmente quando vejo a reação do público. A civilização ainda não mostrou a que veio. O ser humano está sempre em xeque. Muito desse conflito vem do crescimento desproporcional das cidades. Nova York e São Paulo são miseravelmente parecidas.
 

Folha – Em que medida o teatro dos Parlapatões é, em essência, um teatro político? Ou não é o caso?

Possolo
O teatro exerce uma faceta do poder, a de se manifestar. Divertir as pessoas é um ato político em si. Neste sentido, nossa ação é política. Não me agrada o teatro engajado, cheio de recadinhos. Também não tenho saco para teatro hermético, que só agrada aos poucos sábios que dizem compreendê-lo. A grande força da arte é sua capacidade de comunicação. Um país que tem Zé Celso [Martinez Corrêa] e que tem o Carnaval de Joãosinho Trinta, o cinema de Glauber Rocha e a poesia voraz de Oswald de Andrade sabe que é possível a arte com enorme poder político, sem que ela seja arrogante ou chata.
 

Folha – Você ficou um ano na coordenação de circo da Funarte [órgão ligado ao Ministério da Cultura]. O governo Lula tem política para a cultura?

Possolo
Nem a esquerda nem a direita conseguem entender o quanto é necessário que a cultura seja tratada como prioridade de Estado. Não é apenas dar dinheiro para a arte, mas principalmente acesso e permitir que a população se manifeste artisticamente.

O presidente da República, cuja origem é popular, não vai ao teatro. Os ministros da área econômica não demonstram muito apreço pelas artes. Por mais que o ministro Gilberto Gil propague que a cultura hoje seja uma prioridade de Estado, não conseguiu tornar esta idéia um fato. A meu ver, poderá ser chamada de prioridade quando o orçamento do ministério for perto de 5%. O resto é discurso.



Prego na Testa
Quando:
reestréia hoje, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 20h. Até 18/12 
Onde: Crowne Plaza (r. Frei Caneca, 1.360, tel. 3289-0985) 
Quanto: R$ 30

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 12 de novembro de 2005

TEATRO 
Com direção de peça sobre passagem da adolescência à vida adulta, cineasta retoma arte na qual iniciou a carreira

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

A cineasta Laís Bodanzky (“Bicho de Sete Cabeças”, 2000) reata relações com o teatro, terreno onde justamente pisou 16 anos anos atrás, quando deu os primeiros passos rumo à arte da direção (inclusive de filmes) no centro de pesquisa coordenado por Antunes Filho em São Paulo.

“Foi lá no CPT que descobri o prazer da direção, exercitando pequenos contos de “Mil e Uma Noites'”, diz Bodanzky, 36. Ela volta ao prédio do Sesc Consolação, agora no palco do Sesc Anchieta, que recebe a partir de hoje “Essa Nossa Juventude”.

Curiosamente, é também o texto de primeira viagem do norte-americano Kenneth Lonergan, co-roteirista do longa-metragem “Gangues de Nova York” (2002), de Martin Scorsese.

Aqui, as linguagens cinematográfica e teatral se entrelaçam. “Sempre quis o teatro, mas tinha medo”, diz Bodanzky. Quando leu a peça de Lonergan, traduzida por Christiane Riera, intuiu que o universo lhe era próximo. Na linha texto certo, hora certa.
O autor sugere uma interpretação naturalista, afeita ao cinema, em contraste com uma encenação realista. Dito e feito.

Segundo a diretora, isso fica evidente na “levada” dos atores para trazer à tona as vicissitudes amorosas e existenciais de um triângulo juvenil. A ação transcorre em 48 horas.

Transição
“A sensação é de que ficamos com eles ali no apartamento ou bisbilhotando de outra janela. Quase um documentário na busca de uma verdade absoluta, da respiração e tempo verdadeiros, como se fosse só ligar a câmara e deixar”, diz Bodanzky.

Estamos no apartamento de Dennis (interpretado por Gustavo Machado, que atuava em “Bicho de Sete Cabeças”). Seu “melhor amigo” é Warren (Paulo Vilhena), que chega procurando abrigo, ou esconderijo: carrega uma mala de dinheiro roubada do próprio pai.

Dennis manipula Warren, que sofre de baixa estima. O primeiro lhe apresenta Jéssica (Silvia Lourenço, ex-CPT, projetada há pouco no filme “Contra Todos”). Não demora, ela é conquistada pelo segundo, que depois a “perde”, assim como crê ter perdido tudo de bom que a vida lhe deu até ali.

O espetáculo quer pintar esse retrato agridoce do momento de transição da adolescência inocente à descrença do mundo adulto.

“É uma passagem tão esperada quanto dolorida. Tenho certeza de que todo mundo vai terminar se identificando, não só os jovens, mas os pais, que estão presentes na boca dos personagens”, diz Bodanzky.

“É preciso sair da bolha, da proteção dos pais. Só assim aprendemos”, diz a diretora.

Esse tom sociológico também era notado no filme da Bodanzky. “No “Bicho”, a inconseqüência é mais extrema, mais trágica na falta de diálogo entre o filho e os pais”, explica a diretora. “Na peça, a tragédia passa longe, mas está no ar. Um conhecido deles morre de overdose e provoca reflexão de que a morte existe, de que algumas coisas têm limites.”



Essa Nossa Juventude
Onde:
teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000) 
Quando: estréia hoje, às 21h; de qui. a sáb., às 21h; dom., às 20h. Até 18/12 
Quanto: R$ 10 (qui.) e R$ 20

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 10 de novembro de 2005

TEATRO

“As Turca”, de Andréa Bassitt, mostra três irmãs que brigam e demonstram afeto em meio às dificuldades financeiras

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

As três irmãs estão na cozinha. Fazem parte de uma família de ascendência árabe e cristã. Preparam a festa de 80 anos do tio Nagib. Em meio a tâmaras, damascos, tahine, coalhada fresca, homus, pão e as esfihas que assam, elas temperam o espetáculo com os dissabores da vida, sobretudo aqueles que passam pelo bolso.

Nura, a mais velha, Dulce e a caçula Vitória estão na pindaíba. As dívidas podem levar à perda da loja de tecidos. Essa curva de ascensão e queda da família, que passa pelas gerações das personagens, é a base do conflito do espetáculo “As Turca”, misto de comédia e drama que estréia hoje no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.

O título da peça de Andréa Bassitt alude ao hábito da gente simples do interior, como as personagens, em flexionar o artigo, mas deixar o substantivo no singular.

Como pano de fundo, há o contexto da imigração dos árabes para o Brasil no início do século 20. Eram, em geral, sírios e libaneses que chegavam com passaportes “turcos”, como eram apelidados, segundo a autora. A maioria, expulsa por questões político-religiosas na Síria.

Mas o que salta em primeiro plano é a ruidosa relação das irmãs Nuria (interpretada por Cláudia Mello), Dulce (Juçara Morais) e Vitória (Bassitt). Elas batem boca, a caçula e a mais velha chegam a se estapear, mas tudo é sublimado pelo afeto.

Pelo menos esta foi a percepção de três espectadores que assistiram a um ensaio na semana passada, a convite da Folha.

“É uma peça sobre o amor”, diz o jornalista Mohamed Yunes Abdul Ghani Abdul Ghani, 50, tesoureiro da Fearab (Federação de Entidades Árabe-Brasileiras do Estado de São Paulo).

Ele chorou na cena em que as irmãs põem de lado os problemas financeiros e se irmanam de fato. “O papel da mulher é o segredo: se ela educa o homem para o bem, ele será um bom homem. Daí o valor que o árabe dá à família e à mulher, a ponto de às vezes sufocar”, diz Abdul Ghani, em conversa com o elenco e a diretora do espetáculo, Regina Galdino.

“A autora foi muito feliz em retratar o lado emotivo do árabe, um povo que briga muito entre si, mas tem laços fortes. Quando um irmão precisa, ele dá a alma”, diz Eduardo Elias, 62, presidente da Fearab.

Para o escritor Mustafa Yazbek, 53, “As Turca” transcende as preocupações com a herança cultural sírio-libanesa que se propõe a transmitir.

“É como se a humanidade das personagens superasse a configuração antropológica arábica veiculada por algumas informações específicas”, diz o autor de “Palestinos – Em Busca da Pátria” (1995). De acordo com Yazbek, as irmãs poderiam ser oriundas da cultura do Oriente Médio, mas também da Espanha, da Itália, de Portugal ou do Extremo Oriente, e a “simplicidade comovedora” seria a mesma.

Bassitt, 39, concorda com essas leituras. A peça recorta universos da família, da política (um atentado numa universidade norte-americana em Beirute deixará estilhaços também entre as irmãs), da palavra com extrato poético e, claro, da comida como símbolo agregador.

Nascida em São José do Rio Preto, bisneta de libaneses, Bassitt leva para a peça parte de sua própria família, ainda que o recorte não seja autobiográfico.



As Turca
Quando: estréia hoje (convidados); qui. e sex., às 19h30. Até 16/ 12 
Onde: CCBB-SP – teatro (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 3113-3651) 
Quanto:
R$ 15