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Crítica

Brasília – O peso da moral protestante sobre os ombros de uma mulher infiel pode minar a paciência do público diante do espetáculo A Bergman affair  (Um caso de Bergman). A protagonista é mãe de três crianças num casamento sem amor. Involuntariamente, o enredo sintoniza com a hora brasileira de avanço do conservadorismo religioso, a captura do Estado presumidamente laico por forças obscurantistas, assim como contrasta a consciência de gênero que ganha corpo e resiste bravamente ao machismo. Leia mais

Crítica

Nós da alienação

26.8.2018  |  por Valmir Santos

O desengajamento aparente de uma obra de arte pode ser estratégico para potencializar consciência crítica. Isso é perceptível no espetáculo Love, love, love, com o Grupo 3 de Teatro, que incide sobre alienação intrafamiliar. Sujeitos vivendo sob o mesmo teto tornam-se estranhos uns aos outros, corroendo o caráter e causando estranhamento à própria natureza de cada um. Leia mais

Crítica

Quando desempregado, Karl Marx penhorou seu casaco muitas vezes para sustentar a família. Sobreviver, naquela década de 1850, incluía encontrar meios para seguir sua pesquisa acerca da engrenagem da economia capitalista.  Por ironia, sem essa peça do vestuário – retida intermitentemente por dinheiro –, o filósofo tinha dificuldade de frequentar a venerada sala de leitura do Museu Britânico, onde prospectou material que anos depois subsidiaria O capital.  Andar por aí com um casaco, sobretudo no inverno, implicava status social no reino das aparências, como relata o pesquisador Peter Stallybrass. Esse era um dos panos de fundo de como a teoria da luta de classes foi forjada. Elementar, portanto, que Pi – Panorâmica insana escolha a roupa como signo das transformações da humanidade no amplo painel temático que enseja. Leia mais

Crítica

Zona de indeterminação

23.7.2018  |  por Valmir Santos

A Cia. Mungunzá de Teatro parece dar ouvidos ao educador Paulo Freire: “Eu não posso denunciar a estrutura desumanizada se não a penetro para conhecê-la”. A experiência imersiva na região da chamada Cracolândia, no centro de São Paulo, incide radicalmente sobre Epidemia prata, seu trabalho mais recente, sob direção de Georgette Fadel. Leia mais

Artigo

Sem peias

3.7.2018  |  por Valmir Santos

Com pesquisa e autoria do jornalista e crítico teatral Fábio Prikladnicki, o livro Tânia Farias: o teatro é um sacerdócio (2018) homenageia a atuadora, pesquisadora e encenadora há 25 anos umbilicada à Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que cruza os 40 anos. A obra é o 8º volume da coleção Gaúchos em Cena, iniciativa do Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas, sob patrocínio da Braskem e apoio institucional da Prefeitura de Porto Alegre. Desfecho da publicação, o texto a seguir é um ensaio crítico de mesmo título a partir da prática e do pensamento artístico da atriz. Leia mais

Crítica

Porto Alegre – Os textos A mulher arrastada, de Diones Camargo, cuja encenação acaba de cumprir oito sessões na capital do Rio Grande do Sul, e Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã, de Jhonny Salaberg, em temporada a partir desta semana, no Centro Cultural São Paulo, distanciam-se no tempo, no espaço e nos procedimentos documental e ficcional de um e de outro. Em comum, no entanto, as peças releem a naturalização da violência policial contra mulheres e homens negros, alvos diletos das forças de segurança nas cidades brasileiras. Realidades de classe e de raça sacramentadas pela impunidade. Leia mais

Crítica

Pode soar familiar ao espectador brasileiro um texto desagradável, na acepção que Nelson Rodrigues (1912-1980) impingiu ao próprio teatro pela diligência às “obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia”. Ele declarou isso na primeira década de produção dramatúrgica, nos anos 1940, coerente com sua verve. Aquela frase bastante citada, e de certo modo amortecida com o tempo, reaviva a memória diante de um espetáculo como Hilda, que introduz o teatro da romancista Marie NDiaye entre nós, por meio do Núcleo Caixa Preta, com a fundadora Cácia Goulart no elenco e tendo Roberto Audio como diretor convidado. Leia mais

Crítica

No monte composto por milhares de partículas tênues ou na espessa lama que aos poucos seca na superfície do chão ou da pele, o pó é elemento essencial em dois trabalhos recentes do Grupo Sobrevento: Terra (2016) e Escombros (2017). A fonte primal do solo da natureza (donde a conhecida apropriação bíblica que modela o homem a partir da argila) está na base dramatúrgica capaz de instaurar campos narrativos de fertilidade e aridez, respectivamente. O primeiro espetáculo permite vislumbrar o caminho imaterial, a via do afeto. O segundo, a condição humana sob as formas do abandono material. Leia mais

Crítica

Em Curitiba

Talvez a cena mais emblemática na segunda noite de Extinção, no Festival de Curitiba, no mês passado, tenha sido a dos aplausos. Denise Stoklos vai à boca de cena ladeada por dez profissionais. Entre eles o codiretor Francisco Medeiros, numa extremidade da fila formada no palco, com quem trabalha pela primeira vez, e o cenógrafo J.C. Serroni, noutra ponta, que colaborou em um dos seus espetáculos nos anos 1980. Medeiros e Serroni são da mesma geração da atriz e versados em processos criativos verticais em equipe. Ela passou quase 40 dos 50 anos de carreira centrada em solos nos quais, em regra, controla funções-chave. Dirige, escreve e atua sozinha no que nomeia Teatro Essencial, buscando sistematizar atitude, pesquisa e treinamento em voz, corpo e memória. Leia mais

Crítica

Em Curitiba

Artistas da montagem brasileira de A ira de narciso viram-se condicionados a inventar um nível de intimidade com o dramaturgo, o franco-uruguaio Sergio Blanco, sem jamais olhá-lo nos olhos nas etapas de pesquisa e ensaios – ele está radicado em Paris. Certa intimidade deveria ser atributo comum a qualquer meditação criativa a partir de dramaturgia alheia, seja o autor vivo ou morto, até para encorajar escolhas autônomas. Em dramaturgia própria cultiva-se o oposto, alguma margem de distanciamento. O ator Gilberto Gawronski e a diretora Yara de Novaes tourearam a trama Leia mais