Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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6.10.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 06 de outubro de 2005
TEATRO
Grupo Mehr se apresenta no Rio de Janeiro e mostra produção efervescente
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O conhecimento do brasileiro sobre o cinema iraniano é inversamente proporcional ao que sabemos do teatro do país de Abbas Kiarostami.
A defasagem diminui com a passagem do grupo Mehr pelos festivais Cena Contemporânea, em Brasília (terça-feira e ontem) e riocenacontemporânea, no Rio (neste sábado e domingo).
Traz uma peça escrita e dirigida por Amir Reza Koohestani, “Dance on Glasses”, o terceiro texto da carreira do autor de 27 anos. Ele não pôde viajar porque está prestando serviços obrigatórios ao Exército de seu país, assunto sobre o qual se recusa a falar.
Importa-lhe a arte do teatro, e aí não põe freios, como na entrevista à Folha por e-mail.
Em “Dance on Glasses” (2000), um rapaz e uma garota ocupam extremos de uma longa mesa que divide a platéia em duas. Estão sentados, imóveis, mas lá pelas tantas, súbito, sobem à mesa. Ela baila sobre copos revirados, equilíbrio feito de fragilidade e transparência.
A dualidade perpassa todas as quatro peças que Koohestani escreveu desde 1997.
“A essência do drama é o duelo, os pontos opostos. É assim no palco, no mundo e na natureza, como o fogo e a água. Interesso-me em mostrar o modo como as relações são construídas, e como este homem e esta mulher tentam fazer valer as esperanças e ideais humanos”, diz o autor.
Para além do embate passional, o rapaz (Ali Molini) e a garota (Sharare Mansourabadi) também são o professor e a aluna.
No subtexto, o conflito evoca ainda um Irã e uma Índia em tensão, poder temporal e prática espiritual. Surge um terceiro elemento (por Mohammad Abbasi), a desestabilizar de vez as forças em jogo.
Koohestani confronta as faces pública e privada de seu país, cuja sociedade passa por transformações de valores e as manifestações artísticas demonstram vitalidade.
“Para os visitantes, as longas filas são a primeira marca do contraste: há muitas performances de jovens amadores que atuam no teatro, na música e no cinema de curta-metragem. Hoje, no Irã, a arte cumpre uma importante função política e social. Particularmente o teatro, que encerra distintas características de sua época e não pode tão somente espelhar a sociedade, mas também gerar movimentos, realçar pensamentos”, diz o autor.
“A arte da representação, como a pintura e a escultura, faz a elite gaguejar quando vem para baixo e mostra o que realmente está acontecendo na sociedade contemporânea.”
Koohestani não vive no deserto e nem anda montado em camelo, como manda a estereotipia, segundo o próprio. Mora em Shiraz, no sul, que diz ser a capital cultural do Irã.
O autor já participou de intercâmbio no Royal Court Theatre, em Londres, referência mundial no fomento à dramaturgia.
Mais informações sobre o festival teatral no Rio em www.riocenacontemporanea.com.br. Já o Cena Contemporânea, em Brasília, em www.cenacontemporanea.com.br.
29.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 29 de setembro de 2005
TEATRO
“Satyrianas – Uma Saudação à Primavera” comemora 16 anos da companhia com espetáculos e atividades diversas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Numa conferência realizada no Centro Cultural São Paulo, em 2001, durante o ciclo internacional “O Teatro e a Cidade”, o dramaturgo e ensaísta francês Jean-Pierre Sarrazac chamou de “desencantamento ativo” o fiel da balança entre razão e utopia.
Quem sabe, um pouco desse “desencantamento ativo” diante do cenário político brasileiro é o que também vai mover artistas e público durante as “Satyrianas -°Uma Saudação à Primavera”.
Das 18h de hoje à meia-noite de domingo, o evento que comemora o 16º aniversário da Cia. de Teatro Os Satyros prevê atividades ininterruptas na praça Franklin Roosevelt, bairro da Consolação.
Espetáculos teatrais, leituras dramáticas, intervenções, shows, debates e cafés literários vão ocupar os espaços 1 e 2 dos Satyros, bem como as calçadas e ruas da praça onde o grupo firmou residência em 2000.
Desde então, a Roosevelt converteu-se em personagem. O universo das prostitutas e travestis foi absorvido pela dramaturgia (como “A Vida na Praça Roosevelt”, da alemã Dea Loher).
E a praça, quem diria, perdeu a fumaça do medo que a encerrava por estigma impingido aos freqüentadores e moradores desde os anos 80. Eles não foram embora, convivem com vizinhos, poetas, músicos e atores. Agora, os artistas é que insinuam uma “estética marginal” com suas criações.
A novidade das Satyrianas deste ano é o projeto “Uroborus”, no qual 78 autores criam textos para 156 intérpretes ao longo das 78 horas do evento.
O título remete à imagem mitológica do monstro que se devora pela própria cauda, também explorado pela magia medieval como símbolo de vida e morte, segundo o dicionário “Houaiss”.
Foi criada uma comunidade no Orkut, a rede de relacionamentos, em busca de frases e passagens de textos, clássicos ou contemporâneos, para a composição de uma “peça definitiva” que se pretende sem lugar ou tempo fixos.
Idealizado pelos Satyros, o projeto tem coordenação do dramaturgo e crítico da Folha, Sergio Salvia Coelho, que define o resultado como uma “rapsodomancia para a eterna ressurreição do teatro”, conforme a versão desta primavera. Rapsodomancia é arte de adivinhar o futuro através de passagens tiradas aleatoriamente das obras de um poeta. “Uroborus” inicia hoje, com os atores Dalton Vigh e Denise Weinberg, e termina no domingo, com Bete Coelho e Pascoal da Conceição.
A maratona cultural tem largada às 18h e contará com representantes dos grupos Doutores da Alegria e Parlapatões, além do maestro Amalfi e sua Big Band Canella, com 30 músicos.
24.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 24 de setembro de 2005
TEATRO
Fotobiografia reúne 127 imagens e trechos de críticas ou breves comentários do ator de 83 anos e quase 60 de carreira
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
No final dos anos 60, sob ditadura militar, Paulo Autran teve que representar mais paciência do que Jó. E pior: fora do palco.
Do ex-presidente general Médici (1969-74) ouviu que deveria criar um espetáculo sobre Duque de Caxias (1803-88), patrono do Exército, em detrimento da remontagem de “Morte e Vida Severina”, do poeta João Cabral de Melo Neto (1920-99).
Tomou chá de cadeira de uma hora do então prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães, com quem foi conversar sobre um “imposto municipal inusitado”. A autoridade mal lhe dirigiu o olho, ratificou o que já havia sido pago e tascou, truculento: “Não gosto de teatro, para mim, teatro é bobagem!”.
É feito de entrelinhas assim o retrato bem-acabado do artista, no qual também se entrevê o homem no livro “Paulo Autran: Sem Comentários”.
A fotobiografia elenca 127 imagens acompanhadas por excertos de críticas publicadas ou breves comentários do ator, que completou 83 anos no último dia 7.
O livro editado pela Cosacnaify, com apoio da Fundação Armando Álvares Penteado, ganha lançamento duplo em São Paulo, um na segunda-feira (Faap) e outro na quarta-feira (livraria Siciliano do shopping Pátio Higienópolis). No Rio, a noite de autógrafo será no dia 4/10 (livraria Arteplex).
“A vida inteira eu disse que, em benefício da literatura brasileira, nunca escreveria um livro. Não me sinto escritor, mas um comentarista totalmente despretensioso”, afirma Autran.
São textos leves e ligeiros, em sua maioria inclinados para o humor, às vezes involuntário. Alguém consegue imaginar Autran sapateando e cantando “Guantanamera”? Pois ele assim o fez num show que apresentava de madrugada numa boate carioca, em paralelo à temporada de “Depois da Queda” (1964), peça dirigida por Flávio Rangel.
Foi Rangel (1932-88) quem lhe abriu os horizontes políticos, sobretudo após “Liberdade, Liberdade” (1965/66), texto do diretor com Millôr Fernandes, “o primeiro espetáculo exclusivamente político e de protesto encenado após o golpe”, nas palavras do ator.
O ator cogitou filiar-se ao Partido Comunista, mas não foi adiante. “Aos 42 anos, estava tendo os pruridos idealistas de um adolescente”, escreve.
Autran caçoa de críticos (“os desmandos, os abusos, as maldades”) e de diretores, como aqueles dois “de grande nome” que sondou para a montagem de “Rei Lear” (1996), antes de fechar com Ulysses Cruz.
Do primeiro, ouviu que os atores andariam “sobre uma camada funda de bolinhas de gude, cobrindo todo o palco”. O diálogo com o segundo, que Paulo Autran faz questão de reconstituir, é derrisório:
Diretor: “Já estou vendo o espetáculo: vamos cobrir o palco com uma camada de 30 cm de serragem, onde os atores vão pisar!”.
Autran: “Serragem não faz muita poeira?”.
Diretor: “Não, é um tipo de plástico em pedacinhos, que não faz poeira”.
“Depois que a gente fica velho, sente-se muito mais livre para opinar, tem menos compromissos. A idade nos liberta de muitas coisas, uma das suas poucas vantagens”, diz Autran à Folha.
Boa parte das fotos foi garimpada no acervo pessoal, ao lado do produtor Germano Soares Baía. Há colaborações fundamentais, como a do Arquivo Multimeios/ Divisão de Pesquisas do Centro Cultural São Paulo, que cuida do acervo do fotógrafo alemão Fredi Kleemann (1927-74). O projeto gráfico é de Luciana Facchini.
Autran procura zelar pela documentação da carreira, que completa 60 anos em 2007. Em seu apartamento, no bairro paulistano do Jardins, mantém um armário com álbuns de fotos e recortes envelopados de críticas (inclusive as negativas).
Já a memorabilia cênica é diminuta. Guarda um paletó que usou em “A Amante Inglesa” (1983) e um terno de “Seis Personagens à Procura de um Autor” (1991), peça em que atuou ou dirigiu cinco vezes em diferentes produções.
No final do livro, Autran afirma que o ator não tem direito ao próprio corpo ou ao próprio rosto. As imagens, de fato, espelham essa metamorfose feita de bigodes, bigodinhos, bigodões, barrigas postiças ou cabelos pintados.
23.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 23 de setembro de 2005
TEATRO
Fim das oficinas e aumento no preço do ingresso geram queixas em edição com peças do Volksbühne, Peter Brook e grupos latinos
VALMIR SANTOS
Enviado Especial a Porto Alegre
Produtor e diretor teatral Luciano Alabarse quer marcar a coordenação da 12ª edição do Porto Alegre em Cena, festival que vai até domingo, como uma espécie de volta triunfal após três anos de afastamento, ele que encabeçou o evento da 1ª à 8ª edição, sempre sob governo do PT, e saiu em 2001 por desentendimentos com a gestão anterior.
O retorno, sob a gestão do PPS, causa algumas surpresas. A começar pelo bolso dos espectadores. Durante os seis dias em que esteve no festival, até a última segunda-feira, a reportagem ouviu queixas nas filas sobre o preço dos ingressos, a R$ 20. No ano passado, custavam R$ 10 (tel. 0/ xx/51/ 3253-2995 ou pelo site www. poaemcena.com.br).
Ao lado de outros eventos que nasceram de iniciativas públicas, como o Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte, Porto Alegre tem tradição de incentivo ao acesso. Criou-se inclusive uma “cultura” dos sem-ingressos, que postavam-se à entrada do teatro na esperança de conseguir um lugar. Hoje, tais filas estão proibidas, mesmo quando sobram lugares.
“Eu não quero fazer demagogia, Assim como há a parte da prefeitura e dos patrocinadores, preciso da receita do público”, diz Alabarse (o orçamento é de R$ 2 milhões). Segundo ele, de cada 100 ingressos vendidos, 97 tiveram desconto de 50%.
“Os espetáculos estão com casa cheia”, diz o coordenador. Nem todos. No final de semana, sessões de “Eletronic City” (Chile) e “Verissimilitude” (Brasil/Inglaterra) tinham menos da metade da platéia. Em contrapartida, diz Alabarse, abriu-se sessão extra para o solo de Celso Frateschi, “Sonho de um Homem Ridículo”, que terá dobradinha amanhã. Ocorreram dois cancelamentos, “No Retrovisor” (“por problemas técnicos”) e “Pólvora e Poesia” (porque o ator grava telenovela).
Nos bastidores, a Folha apurou que parte da classe teatral reclama da suspensão do Aquecendo em Cena, duas semanas de oficinas que precediam o festival.
“É uma falsa polêmica”, diz Alabarse. Ele nega que as oficinas foram cortadas. Seis delas estão na programação paralela. No Aquecendo em Cena 2004, eram 16.
América do Sul
Apesar de certo anticlímax, a volta de Alabarse de fato imprime sua vocação para pinçar nomes fundamentais da cena européia (o “Dias Felizes”, de Peter Brook, o “Endstation Amerika”, de Frank Castorf/Volksbühne, e “mPallermu”, de Emma Dante). E, principalmente, a rara determinação em acolher a produção de países vizinhos (seis espetáculos do Uruguai, cinco da Argentina, três do Chile e um da Colômbia).
A vitalidade do teatro sul-americano é demonstrada em montagens como “Caníbales”, exibido na semana passada. O impactante e poético texto do búlgaro George Tabori é encenado pelo uruguaio Alberto Rivero (cia. Comédia Nacional). E “Afuera”, que estréia amanhã, vindo do Festival Internacional de Buenos Aires. O argentino Gustavo Tarrío também assina a dramaturgia cimentada em espaço, corpo e palavra.
22.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 22 de setembro de 2005
TEATRO
Adaptação do livro de Martha Medeiros, montagem estréia no teatro da Faap
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O analista de Lilia Cabral usa persianas. No espetáculo “Divã”, elas estão lá, à frente das portinholas do cenário de J.C. Serroni, por onde entram e saem as histórias e personagens de Mercedes, a divertida e inteligente quarentona que roubou a cena na temporada carioca deste ano e chega para a primavera paulistana a partir de hoje, no teatro Faap.
Casada, filhos, um belo dia Mercedes decide fazer análise. Ao compartilhar seus relatos, enreda o analista/leitor/espectador para além de sua intimidade (paixões, ciúme, insegurança, a vida sexual) e projeta figuras do cotidiano.
Há o primeiro namorado, a amiga desquitada, as esposas-clichês dos amigos do marido, a namorada patricinha do filho, os homens do “single bar” e o marido machão da amiga.
Mercedes é cria da gaúcha Martha Medeiros, autora de “Divã”, livro de 2002 (ed. Objetiva), no qual transita com reconhecida dificuldade da crônica, sua praia, para a ficção. “Talvez por isso tenha gerado tanta simpatia, converso como se fosse numa crônica”, diz Medeiros, 44, que começou há 20 anos com poesias em “Strip-Tease” (ed. Brasiliense). Tem 14 títulos, a maioria coletâneas de crônicas publicadas nos jornais “Zero Hora” e “O Globo”.
“A Martha escreve de uma forma dramática que constrói muitas imagens, nos remete a cenas”, diz Cabral, 47.
Quando leu “Divã” em 2003, a atriz já pensou em adaptá-lo. O fez a várias mãos, com Marta Góes, Marcelo Saback e o diretor Ernesto Piccolo. Inseriram situações e diálogos, sem prejuízo do conteúdo do livro, garante Medeiros, que assistiu ao espetáculo cinco vezes e avalia que humor e reflexão permanecem bem urdidos.
A montagem conquistou três indicações ao Prêmio Shell Rio de Janeiro no primeiro semestre: melhores atriz (Lilia Cabral), ator (Marcelo Valle) e diretor (Piccolo). A atriz Alexandra Richter completa o elenco, revezando com Valle os demais personagens “convocados” por Mercedes.
Depois do palco, “Divã” também deve chegar ao cinema. A previsão é para 2007, com maioria da equipe da montagem teatral.
20.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 20 de setembro de 2005
TEATRO
Cenógrafo francês Jean-Guy Lecat dá palestras e oficinas no Rio e em São Paulo sobre o processo de criação
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“A natureza do espaço teatral é a de conter, proteger e ajudar; e não a de contar a história no lugar do ator”, diz o arquiteto e cenógrafo francês Jean-Guy Lecat, que trabalhou com importantes encenadores europeus do século 20, como Jean Vilar, Jean-Louis Barrault, Dario Fo, Samuel Beckett e Peter Brook.
Lecat esteve em São Paulo na semana passada para dar uma palestra e ministrar uma oficina. Fará o mesmo no Rio de Janeiro na próxima quinta-feira, no Espaço Sesc Copacabana.
Co-autor de “O Círculo Aberto -°Entornos Teatrais de Peter Brook” (2003), com o colega inglês Andrew Todd -livro ainda não traduzido por aqui-, Lecat é um dos diretores da Oistat (Organisation Internationale des Scénografes, Techniciens et Architectes de Théâtre).
Veio a convite da CenografiaBrasil, associação de profissionais das artes visuais cênicas criada em 2001. Entre esses técnicos, está Luciana Bueno, que conheceu Lecat num congresso no Canadá, em março passado. Leia a seguir trechos da entrevista.
MARCO ZERO – “Se você inicia a visita de um espaço com muitas idéias preconcebidas, não consegue perceber o que o teatro tem a dizer; assim como quando você acha que sabe o que uma pessoa vai dizer, não consegue ouvi-la. O diálogo deve começar no silêncio, assim com o espetáculo começa no espaço vazio. Esta é a escola da humildade.”
NATUREZA – “O ser humano não-violento pode viver de acordo com a natureza. É o que fizeram os índios brasileiros por séculos, até a chegada da arrogante cultura portuguesa. O teatro é vida, e a natureza faz parte dela. Todos os trabalhos que fizemos junto a Peter Brook continham, de alguma forma, os elementos ar, água, terra e fogo -vida por todo os lados.”
PETER BROOK – Estando com ele, a gente passa metade do tempo se apresentando fora do espaço teatral convencional para criar relação direta com o público. Para Peter Brook e eu, não há dois espaços, um para o público e outro para a peça. A parede tem que estar onde precisamos. Adaptamos o espaço ao espetáculo, e não o espetáculo ao espaço.”
GÊNESE – “A vida é um espaço teatral. Precisamos de paredes para nos proteger do som e da chuva. Essas paredes devem ter sentido e estarem plenas de vida. O que não é o caso de espaços modernos. Hoje em dia, os diretores mudam-se para espaços não-convencionais para encontrar liberdade e vida. Talvez isso signifique para você [o repórter] espaço conquistado. Para mim, é voltar ao que o teatro deveria ser.”
PROCESSO – “O teatro é absolutamente feito de todas as outras artes. É como se fôssemos muitas pessoas segurando uma brocha para pintar um quadro com o espectador. Por isso o teatro é difícil de ser feito. Todos devemos ser humildes e encontrar os nossos lugares. Se eu fiquei 25 anos com Peter Brook, foi porque encontrei em todos os momentos da nossa vida teatral a perfeita colaboração. Eu não tenho a impressão de ter perdido meu DNA em nenhum momento. Sinto exatamente o contrário. Eu aprendi muito com ele.”
17.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 17 de setembro de 2005
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Com 12 anos nas costas, muito zelo e autocrítica para o que põe em cena, sobretudo quando se trata de dialogar com o maior autor de todos os tempos, o grupo Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), pisa no palco do Sesc Anchieta, das salas mais bem equipadas de São Paulo, como conseqüência natural de seu trabalho.
Chega com “Muito Barulho por Quase Nada”, montagem que apresentou no último Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, em julho, e caiu nas graças do público e da crítica.
Daí a acolhida de quatro semanas da comédia na qual o dramaturgo inglês cai no forró. É um espetáculo impregnado de música. Sete atores cantam e tocam instrumentos para narrar os vaivéns amorosos e espinhosos de “Muito Barulho por Nada”, o título original da peça do século 16.
Cruzam-se a paixão de Cláudio (George Holanda) e Hero (Nara Kelly) e as farpas não menos amorosas de Benedicto (Marco França) e Beatriz (Renata Kaiser). O patriarca Leonato (César Ferrário), viúvo, quer ver sua sobrinha Beatriz e sua filha bem casadas; há um vilão, Dom John (João Júnior), que trama desavenças.
Segundo o co-diretor, Fernando Yamamoto, que assina ao lado de Eduardo Moreira (grupo Galpão, de MG), a idéia é apropriar-se de elementos da cultura popular potiguar, mas sem dissociá-los do espaço urbano. Esse equilíbrio reforçaria a universalidade da obra.
“Como nordestinos, queremos encontrar esse meio-termo entre o clássico e o nosso sotaque de fazer o Shakespeare”, diz Yamamoto. O grupo não envereda pela linguagem do palhaço, mas usa o espírito da comunicação com o público.
17.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 17 de setembro de 2005
TEATRO
Em sua primeira atuação no Brasil, atriz oscila entre velhice e juventude em “La Señorita de Tacna”, de Llosa
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Porto Alegre
Nem uma história peruana nem argentina, mas latino-americana, quiçá universal. É assim que a atriz Norma Aleandro, ícone dos palcos e do cinema na Argentina, define “La Señorita de Tacna”, peça de Mario Vargas Llosa, autor de “A Guerra do Fim do Mundo”.
É com esse espetáculo que a Fernanda Montenegro ou a Marília Pêra dos portenhos faz sua primeira apresentação teatral no Brasil, com sessões hoje e amanhã no teatro São Pedro, dentro do festival Porto Alegre em Cena.
Aleandro é conhecida do público brasileiro por atuações em filmes como “O Filho da Noiva” (2001), de Juan José Campanella, e “A História Oficial”, de Luis Puenzo (1985, melhor atriz no Festival de Cannes).
Em “La Señorita de Tacna”, o desafio da intérprete é oscilar entre os papéis da jovem e sonhadora Elvira e o da velha solteirona e virgem Mamãe.
Reconhece como uma das suas principais “ferramentas”, além dos domínios da voz e do corpo, o gesto com um xale de renda que ajuda a compor verossimilhança diante dos olhos do espectador, pêndulo secular de juventude e velhice, duas pontas de uma mesma vida.
“Tem a ver com uma poética que propõe ao público uma convenção tão difícil, que é o salto no tempo e no espaço. Isso eu agradeço à obra de Llosa”, diz Aleandro, 79, durante conversa na manhã de ontem com jornalistas. O xale não é uma rubrica do autor, mas caminho interior descoberto pela intérprete.
No espetáculo “La Señorita de Tacna” percorre a vida de uma mulher que, por um ato de orgulho, perde a oportunidade no amor e o sublima cuidando de sua própria família.
Entre mãe e filho
Contracena com oito atores, entre eles o filho Oscar Ferrigno, que também assina a remontagem estreada no ano passado em Buenos Aires. A primeira se deu em 1981, por Emilio Alfaro. Naquela época, Aleandro retornava para casa após exílio de cinco anos na Espanha.
“A minha volta causou ameaças de bombas ao teatro. Vivíamos numa ditadura [1976-1983], e não na atual democracia. Imperfeita, mas que nos permite a liberdade de dizer o que quisermos.”
Comparada à montagem anterior, da qual foi assistente, Ferrigno, 43, diz que esta economiza nos recursos, nas parafernálias. Mira o essencial.
“Compactuamos uma visão sobre o trabalho de ator no teatro: não há que sofrer para criar, ao contrário”, diz o diretor-ator.
A ascendência teatral fundamenta o ofício de Norma Aleandro. Os pais da atriz, ele italiano e ela espanhola, eram artistas de teatro, mambembavam com Aleandro desde os três anos.
“Agradeço a Deus por ter sido criada no teatro, um lugar no qual, socialmente, são menores os preconceitos; nele, são bem aceitos os homossexuais, os solteiros, judeus, católicos, pessoas de diversas cores políticas etc. Aprendi a ter uma mente mais ampla graças à gente do teatro”, diz Aleandro.
Ela dá notícias de um “boom cultural” que assoma a Argentina desde o pico da crise econômica, em 2001. “Hoje, quase toda a Argentina faz teatro, pelo menos 80% das pessoas pintam, muitas escrevem, dançam tanto nas ruas”, afirma. Eis o desequilíbrio social, o paradoxo: a convivência da fome com a riqueza da expressão cultural. Vide o cinema.
16.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 16 de setembro de 2005
TEATRO
Versão do diretor para “Dias Felizes”, com a alemã Miriam Goldschmidt, tem recepção fria no Porto Alegre em Cena
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O diretor inglês Peter Brook desponta, uma vez mais, no topo dos destaques anunciados pelo 12º Porto Alegre em Cena. Sua montagem alemã de “Dias Felizes”, de Samuel Beckett (1906-1989), teve última sessão ontem e não causou o mesmo impacto de “O Terno”, que passou pela capital gaúcha em 2000 e foi seu primeiro espetáculo visto no Brasil.
A primeira diferença é elementar: não se trata de um projeto do grupo multinacional de Brook, o Centro Internacional de Criação Teatral (Cict), de Paris.
O monólogo tragicômico do autor irlandês é defendido na língua alemã e em silêncios universais pela atriz Miriam Goldschmidt e pelo ator Wolfgang Kroke. Acompanha-se com legendas, “ruído” considerável em se tratando de comunicação beckettiana.
“A chave para a compreensão da peça está nas primeiras quatro palavras: “Wieder ein heimlicher tag (mais um dia de rotina)'”, diz Goldschmidt, uma das atrizes mais respeitadas em seu país.
Durante entrevista a um grupo de jornalistas no festival, ela não detalhou a composição da sua personagem, Winnie, que parece vegetar no vácuo do tempo e do espaço. Em “Dias Felizes” (1961), a protagonista está ciente de sua própria degradação.
Refugia-se no ritual das atividades banais, enquanto o seu corpo se precipita para a ruína.
No plano de fundo, o parceiro dela, Willie (Kroke), dorme boa parte do tempo. Os dias passam iguais. O fim aproxima-se.
Para os brasileiros, inevitável a lembrança do mesmo texto interpretado por Fernanda Montenegro nos anos 90, imersa até o pescoço no “monte de areia”, contracenando com o marido, Fernando Torres, sob a direção de Jacqueline Laurence.
No seu oitavo dia, o festival estréia hoje uma montagem uruguaia inspirada na vida de um dos principais escritores daquele país, Juan Carlos Onetti (1909-94).
Em “Onetti en el Espejo” (Onetti no espelho), a encenadora Patrícia Yosi pretende dar conta de sua personalidade e de seu mundo literário. O ponto de partida é o diálogo entre Onetti e a jornalista Maria Esther Gilio, com cartas trocadas num período de 27 anos, entre o Uruguai e a Espanha.
A peça quer retratar um jogo de sedução mútua, com revelações, humor e inteligência. Definido como misterioso e sedutor, o autor de “A Vida Breve” (1950) confessa sua angústia existencial, preocupações, preferências e obsessões. Também descreve o que pensava de seu país natal e de seu povo, sua ironia, seu didático pessimismo, sua opiniões políticas, religiosas, além de sua maneira de sentir e de viver.
Por trás das coxias, o festival também guarda cenas à parte. O espetáculo da Comédia Nacional do Uruguai, “Caníbales”, viajou sem os figurinos. Os técnicos da companhia baseada em Montevidéu estão em greve e “trancaram” o material.
A figurinista Paula Villalba recriou todas as roupas e adereços em questão de horas. Quem assistiu à montagem de Alberto Rivero no início da semana nem notou o problema, sobretudo pela excelente atuação do elenco que interpreta os personagens do húngaro George Tabori, sobre sobreviventes do Holocausto.
14.9.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 14 de setembro de 2005
TEATRO
Diretor do Volksbühne traz ao Brasil adaptação de “Um Bonde Chamado Desejo” e recebe Oficina no espaço em Berlim
VALMIR SANTOS
Em Buenos Aires
No início, os atores entoam uma bela e triste canção de Lou Reed sobre um dia perfeito. Duas mulheres estão na cozinha. Ovos mexidos. O cheiro vai impregnar o espetáculo durante cerca de duas horas e meia. Mas a viagem de “Endstation Amerika” não será tão bucólica quanto pintada.
A atmosfera vai pesar ao som de Nirvana. Afinal, estamos falando do norte-americano Tennessee “Um Bonde Chamado Desejo” Williams, encontrado morto há 22 anos asfixiado com a tampa de um tubo de remédios.
E estamos falando de um espetáculo assinado por Frank Castorf, 54, alemão de afinidades marxistas, que não concebe o fazer artístico sem impregná-lo de forte conteúdo político e social.
Faz 13 anos que está à frente do Volksbühne am Rosa Luxemburg Platz, fruto de movimento operário de 91 anos atrás, cravado no centro antigo de Berlim. É um espaço com vocação para resistir (foi destruído na Segunda Guerra), abrigar experimentos radicais já praticados por nomes como os do diretor Erwin Piscator, do dramaturgo Heiner Müller e, doravante, do brasileiro José Celso Martinez Corrêa.
Numa confluência típica de um mundo que se diz globalizado, a semana combina a estréia de “Os Sertões”, do grupo Oficina, hoje, em pleno Volksbühne, e a chegada ao Brasil de “Endstation Amerika” (2000), com apresentações amanhã e sexta, no 12º Porto Alegre em Cena, e dias 23 e 24, no Sesc Pinheiros, em São Paulo.
Prepare-se para ver uma Blanche Dubois (por Silvia Rieger) despida daquela ensimesmada tentativa desesperada de glamour com a qual parecia imortalizada. Ou um Stanley Kowalski (por Henry Hübchen), embrutecido, sim, mas que não perde a ternura, flanando como um moleque irado cujo brinquedo lhe é subtraído: o direito de sonhar.
“Quando lia “Um Bonde”, ficava deprimido por causa da desesperança de seis pessoas que convivem num espaço diminuto”, diz Castorf, sobre o texto, que ganhou última montagem em São Paulo por Cibele Forjaz, da Cia. Livre. “O que fizemos foi tentar dar uma visão mais política e social.”
No texto de 1946, tudo se passa numa espelunca em Nova Orleans. Agora, o lugar é indefinido. O imigrante polonês Stanley, que foi “fazer a América” e casou-se com Stella, agrega ao seu passado, na versão de Castorf, uma luta pela legalidade do Solidariedade, partido que alçou o sindicalista Lech Walesa à política nos anos 80. “Ou seja, o passado dele traz algum pedaço de esperança.”
Em suas referências aos signos de um mundo em colapso, nas suas palavras, Castorf usa imagens em vídeo para espiar a voracidade do “Grande Irmão” orwelliano. Uma câmera posicionada no interior do banheiro da casa capta cenas, diálogos inteiros. Na sala, o televisor retransmite ao vivo para os (tel)espectadores.
Convidado a criar um novo espetáculo, há cinco anos, Castorf decidiu-se por Williams, porque enxergou no clássico potencial para provocar. “Tennessee Wiliams usou drogas, era homossexual, praticamente precedeu o movimento beatnik. Ele não seria um americano modelo na era Bush, por exemplo”, ironiza.
Há uma balança que a montagem faz pender. “Há uns 20 anos, a identidade era medida pelo entorno, pelo que vinha de fora. Hoje, no que já se diz ser o final da estação no sistema capitalista, que leva à depressão, o indivíduo atrai a culpa para si”, diz Castorf.
Durante o Festival Internacional de Buenos Aires, na semana passada, o diretor participou de encontros com o público. Foi indagado sobre o poder do teatro numa sociedade que tem metade da população abaixo da linha da pobreza, como questionou um espectador argentino.
“O teatro tem de que oferecer um ponto de reflexão, advogar e interceder por aqueles que vivem à margem”, diz Castorf, que trabalhou durante dez anos com sem-tetos. Em “Endstation Amerika”, por enquanto, acena com luz no fim do túnel.