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Crítica

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Riscos e braços fraternos

20.12.2014  |  por Valmir Santos

Uma vez expressa com verdade, nascida da necessidade de dizer, não há como deter a voz humana. Quando censurada a boca, ela fala pelas mãos, pelos olhos, pelos poros ou por onde quer que seja. Essa percepção compõe uma das narrativas breves que o escritor Eduardo Galeano imprime em El libro de los abrazos (1989), cujas páginas e lampejos inspiram a dramaturgia do novo espetáculo do grupo Clowns de Shakespeare. Leia mais

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Para aqueles que se dirigem ao ponto da Lagoa do Parque Sólon de Lucena, no centro da capital paraibana, previamente avisados, o acercamento territorial dos intérpretes-criadores da Cia. Domínio Público é um capítulo à parte. Lembra o ritual de acasalamento, como o das aves que dão sinais e posicionam-se elegantemente na hora de fazer a corte. O enamoramento espacial implica o espalhamento alhures do quarteto em si, ilhas flutuantes que circulam ou atravessam perpendicularmente o epicentro que avistam de longe, formado por bancos de praça, barracas de doces e salgados, ponto de ônibus, enfim, o fluxo mais intenso do pedaço. Aos poucos, o observador privilegiado já consegue enquadrar num mesmo campo de visão as duas moças e os dois rapazes de figurinos de cores terracota, azul, verde e amarelo. Eles harmonizam os passos dissonantes e agora já estão no vácuo da intervenção urbana, aquela que não manda bilhete e se insinua sem rede, pegando no pulo os companheiros anônimos de jornada, os pedestres de turno, em pleno meio de tarde em que o sol pega leve e os gestos e movimentos murmuram. Leia mais

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Situacionismo cômico

12.12.2014  |  por Valmir Santos

O nariz vermelho inseparável não deixa dúvidas sobre a filiação, mas as atrizes Paola Busatti e Vera Abbud fazem de Pelo cano uma prazerosa e bem dosada confluência da representação circense com elementos teatrais. Suas palhaças Emily e Manela são depositárias das figuras cômicas tradicionais acrescidas do toque performativo por aquelas que contam pelo menos mais de duas décadas de palco. O roteiro de malsucedidas e hilárias situações meticulosamente amarradas pela exímia dupla da escola do improviso – seus currículos dão o que falar nesses jogos – torna cristalino o quanto se leva a sério a brincadeira nesse espetáculo que completa dez anos em 2015. Leia mais

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O que nos resta do experimento apresentado pelo Coletivo de Teatro Alfenim (PB) sobre fragmentos da obra de Machado de Assis é dizer que o romance Quincas Borba é mais atual do que a própria realidade. Apresentado durante o festival O Mundo Inteiro É um Palco, em Natal, o Ensaio sobre o humanitismo revela um Machado irônico, contestador e, sobretudo, sarcástico. Estivesse hoje entre nós, provavelmente o patrono da Academia Brasileira de Letras estaria escrevendo sobre as mesmas contradições de um país hipócrita e bonito por natureza. Leia mais

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Os 450 anos de William Shakespeare quase passaram despercebidos pela cena teatral pernambucana, no tangente a grandes apostas de montagens. Quase passou, não fossem duas versões pontuais de Rei Lear, encenadas neste ano. A primeira, com dramaturgismo e coadaptação de Luís Reis e direção de Marianne Consentino, foi uma adaptação para a estética mambembe do clássico, apresentada no início do ano. A segunda, um experimento do carioca Moacir Chaves, que estreou no Recife em novembro. Dona de uma estética de desconstrução afiadíssima, a montagem explora as ferramentas visuais e sonoras do teatro para construir um trabalho pautado no olhar característico do diretor, que utiliza a voz do ator como eixo central da interpretação. Leia mais

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Deuses e fantasmas do teatro rondam o espetáculo Viagem aos campos de alfenim. Em sua primeira incursão pela dramaturgia, o diretor João Marcelino pede a bênção a Luigi Pirandello e a Fellini, para ficar em dois mestres das epifanias cênica e cinematográfica, ao revolver aspectos etéreos e divinos dos bastidores do teatro. A criação da Cia. A Máscara de Teatro, de Mossoró (RN), fala da perseverança ancestral dos artistas em sonhar e fazer por onde independente das tempestades emocionais, econômicas e existenciais que enfrentam para trazer à luz as “histórias que insistem em ser contadas”. Leia mais

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Os quatro amigos escudeiros do cachaceiro-pai da ralé assumem o leme do narrador da novela A morte e a morte de Quincas berro d´água, de Jorge Amado, esgarçando ainda mais as contradições entre o homem de passado burguês e aquele que gozava a malandragem em grande estilo. Adaptado e dirigido por Daniel Porpino, o espetáculo Quincas (2012), do Grupo de Teatro Osfodidário, de João Pessoa, emerge aspectos arquetípicos do subúrbio soteropolitano e receptivos no imaginário nacional. Leia mais

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O teatro de rua se alimenta da cultura popular para expor as vísceras e contradições de um Brasil, geralmente a partir do Nordeste. Na visão dessa dramaturgia, o nordestino é essencialmente um pobre coitado e ingênuo que sobrevive do que o destino lhe reserva, levando em conta a querência de um Deus que castiga. A bravura e a resistência surgem invariavelmente como contrapontos sustentados, na literatura, pelo pensamento euclidiano que funciona quase que como uma sentença: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Na esteira dessa peleja do homem contra seu destino, o humor apimenta o maniqueísmo de um bem e um mal retratados de forma alegórica. E o espetáculo apresenta seu juízo final a partir da consciência de seus protagonistas. Leia mais

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Conhecida no cenário gaúcho por espetáculos com textos modernos que se valem de um humor sarcástico e também por suas montagens de Molière, a Cia. Teatro ao Quadrado dá um passo adiante com a peça Os homens do triângulo rosa, que estreou no Theatro São Pedro e depois cumpriu temporada no Teatro Renascença, em Porto Alegre. Desta vez, trata-se de um espetáculo seriíssimo, abordando a perseguição aos homossexuais na Alemanha nazista. Leia mais

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Em O amante, Marguerite Duras escreve: “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha. Há vastos espaços onde se diria haver alguém, mas não é verdade, não havia ninguém. A história de uma pequena parte da minha juventude, já a escrevi mais ou menos, quero dizer, já contei alguma coisa sobre ela, falo aqui daquela mesma parte, a parte da travessia do rio. O que faço agora é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos secretos dessa mesma juventude, das coisas que ocultei sobre certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos. Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor.” Leia mais