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Crítica

Faces da obscuridade

5.9.2021  |  por Valmir Santos

Retinas saturadas pela exposição diante das telas de celular e computador desde meados de 2020, quando artistas cênicos do mundo todo passaram a transmitir seus trabalhos dentro das possibilidades da internet, espectadores chegam ao Teatro Aliança Francesa (SP) como que tateando as poltronas vermelhas, atravessando fileiras em busca do assento indicado no ingresso digital acessado através do smartphone. Os lugares estão espaçados. A luz de plateia é baixa, contrasta a penumbra espessa no palco a ser habitado daqui a pouco pelos atores. Há um pacto não declarado de reeducação do olhar e do sentir, de disponibilidade à experiência que virá. E quis o destino que a primeira montagem presencial do Grupo Tapa, no 18º mês da pandemia, com público reduzido a 52 pessoas, 22% da capacidade da sala, imbricasse arte e realidade com perícia. O espetáculo Um Picasso, direção de Eduardo Tolentino de Araujo para o texto do estadunidense Jeffrey Hatcher, de 2003, cita diversas obras do pintor sem exibi-las, tampouco projetá-las, num claro elogio à força fabular da descrição. Ao passo que também descostura os mecanismos estatais de ocultação e censura à expressão criativa sob regimes totalitários. Daí para a tropa política medieval que está no poder no país e menospreza a cultura, sempre sob a conveniente indiferença do mercado que assiste de camarote ao desastre social, não precisa muito esforço de associação.

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Crítica

Qual o som do silenciamento? Essa pergunta ganha corpo e se torna cada vez mais incômoda na obra em torno da cantora lírica Maria d’Apparecida (1926-2017). A nossa ignorância a respeito da trajetória fulgurante dessa brasileira em solo europeu se agrava à medida que são expostos os níveis de preconceitos de raça e de gênero que circunstanciaram seus 91 anos de vida. A mulher negra, de pele clara, os enfrentou escudada em sua voz, seja interpretando ópera, no registro mezzosoprano, seja no repertório da canção popular ou do folclore de seu país, o mesmo que insistiu em asfixiá-la.

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Artigo

Rito Passos para quem partiu. Numa manhã, reunidos em nossa casa comum, o Teatro Contadores de Mentira, decidimos sair em caminhada. Queríamos dar um passo para cada pessoa que morreu vítima de Covid-19 e se contrapor ao planejado descaso do governo Bolsonaro.

Foram três dias, 85,7 quilômetros percorridos e 866.523 passos dados.

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Crítica

A ruptura pela palavra

11.8.2021  |  por Valmir Santos

No conto O artista da fome (1922), o protagonista de Franz Kafka lamenta não jejuar além dos 40 dias estabelecidos pelo seu empresário, de olho no tempo de interesse da audiência. A prostração dentro de uma jaula, para regozijo do público pagante e vigilante de que não sabotará o pactuado, não é uma ação performada, mas deliberada. O faquir justifica não encontrar no mundo alimento que, de fato, o sacie. Já na peça A filha da Monga, atuada por Zeca de Abreu e escrita por Luiz Marfuz, a personagem encontra na palavra o sustento da alma (e da linguagem) para ganhar consciência crítica e contrariar o roteiro que o padrinho, patrão e algoz delineou para Luzia, assim como fez com a mãe dela.

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Entrevista

A 5ª edição do Glossário de termos e expressões para uso no Exército, de 2018, traz duas menções à arte milenar do teatro, não necessariamente honrosas. A primeira delas define “teatro de guerra” como “Espaço geográfico, terrestre, marítimo, aeroespacial e cibernético que seja ou possa ser diretamente envolvido nas operações militares de uma guerra”. Já o verbete “teatro de operações” é compreendido, por extensão, como a “condução de operações militares de grande vulto, para o cumprimento de determinada missão e para o consequente apoio logístico”. Na portaria anterior, de 2009, o Ministério da Defesa, o Exército Brasileiro e o Estado-Maior do Exército, organizadores desse manual de campanha, ainda não haviam acolhido em suas concepções, conceitos operativos e táticas o entendimento da cibernética, ciência que, diz o dicionário Houaiss, “tem por objeto o estudo comparativo dos sistemas e mecanismos de controle automático, regulação e comunicação nos seres vivos e nas máquinas”. Esses jargões invasores do campo das artes da cena poderiam ser a ponta do iceberg da empreitada do Tablado de Arruar, grupo de São Paulo que chega aos 20 anos disposto a decodificar o que está em jogo na subserviência das Forças Armadas ao bolsonarismo, ou vice-versa.

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Reportagem

O Grupo Cultural Yuyachkani acaba de completar meio século de teatro e parte de sua memória, ela mesma uma genealogia da história recente do Peru, será compartilhada na Bienal de São Paulo, a partir de setembro. A ideia é mostrar de forma aberta e performativa documentos, imagens, revistas, apostilas, vídeos, fotografias e outras referências quanto às peças, ações de rua, oficinas e seminários realizados desde 19 de julho de 1971.

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Crítica

Até que ponto a racialização negra nivela a existência de indivíduos diferentes a uma mesma corporeidade supostamente definidora de múltiplas vivências? Por que parece ser necessário que pessoas negras identifiquem-se coletivamente com a negritude para reivindicar o alargamento de suas humanidades e liberdades, inclusive individualmente? Essas poderiam ser traduções da pergunta “como criar um corpo negro sem órgãos?”, que dá título ao texto do dramaturgo Lucas Moura adaptado e transformado por ele no roteiro da peça-filme Desfazenda – Me enterrem fora desse lugar. A montagem do grupo O Bonde tem direção de Roberta Estrela D’Alva e temporada disponível no canal do Bonde no YouTube, após estreia recente no projeto Palco Virtual do Itaú Cultural em São Paulo.

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Reportagem

As obras latino-americanas e ibero-americanas listadas na programação do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília deste ano guardam reminiscências indiretas ao 1º Festival Latino-Americano de Teatro e Cultura, o Flaac, ousado certame artístico-cultural – e multifacetário – realizado na capital do país em 1987, na esteira da chamada redemocratização. À época, as áreas de teatro e dança dividiram espaço com artesanato e arte popular, arte educação, artes plásticas, cinema e vídeo, fotografia, literatura, música e grupos folclóricos, além incorporar seminários. As artes da cena elencaram grupos da Argentina, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Uruguai e Venezuela, além de representantes locais e de outros Estados.

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Crítica

O teatro possível enfrenta o impossível. Ou uma cena plena em suas potências, traçada no espaço virtual como presença firme, nunca ausente.

Épico, da Cia Tercer Abstracto, parte de uma investigação honesta sobre um projeto canônico do século 20, o teatro épico, mas alcança, além de estabelecer uma versão inventiva, de raro frescor, sobre o seu ponto de partida, uma resposta franca às urgências do tempo. Tanto frente ao pandemônio em que o Brasil, ou seu desgoverno, transformou a pandemia, como às demandas dos meios disponíveis às encenações, sem abrir mão de alguma simultaneidade presencial e de vero impacto sobre os espectadores.

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Crítica

O estado de horror implantado pelo bolsonarismo leva artistas a se posicionaram, poeticamente, de forma ainda mais radical. Não poderia ser diferente em arte. E não faltam exemplos nas circunstâncias dos últimos 15 meses de pandemia sobrepostos à guerra cultural instalada desde a posse. Um governo incapaz de tecer uma linha sobre a morte de Nelson Sargento e outros mestres e mestras em diferentes expressões. Que desqualifica o pensamento crítico. Ataca sistematicamente a comunidade artística. Desestrutura instâncias-chave do extinto Ministério da Cultura (MinC). Cientes dessa realidade macabra, os 86 minutos do vídeo-manifesto Liberdade liberdade [revisitada] constituem mais um exemplo de exposição da dor e de seu contraponto, o empenho coletivo para denunciá-la bravamente, purgá-la, a despeito da política pública de extermínio.

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