11.6.2021 | por Mariana Queen Nwabasili
“Ela não quer mais ser Medeia”. “Eu não quero mais ser mulher”. Essas duas frases-falas proferidas pela protagonista de Terra Medeia, dramaturgia da sueca Sara Stridsberg escrita em 2009, são exemplos de como o elogio à opacidade como recurso ficcional no teatro e em outras artes e a crítica feminista (com algumas limitações ou contradições) são os aspectos que têm mais relevo na atual tradução e montagem da peça no Brasil, sob a direção da também sueca Bim de Verdier e com transmissão online e ao vivo na Plataforma Teatro.
Leia mais28.5.2021 | por Valmir Santos
O homem que empresta voz a personagens do teatro, cinema e televisão é o mesmo que confere a um jornalista a honrosa missão de ajudá-lo a dar corpo à autobiografia Sérgio Mamberti: senhor do meu tempo, coescrita por Dirceu Alves Jr, em lançamento das Edições Sesc São Paulo. A atitude tem a ver com o caráter gregário do ator e gestor cultural praticante de uma espécie de primeira pessoa povoada. Desde os passos iniciais amadores em Santos (SP), filho de professora primária e de diretor de clube social, ele sabe que flexionar os verbos decidir e deliberar, com liberdade, é tarefa para pessoas responsáveis, seja dentro ou fora da cena. Aos 65 anos de ofício e 82 anos de vida – a placidez da face é fiel da balança –, está a colher mais acertos que tombos no exercício contínuo do livre-arbítrio em duas frentes cidadãs: a da arte e a da política, ambas com a mesma ética pública e amorosa empenhada nos casamentos, filhos e amizades. Longe da hagiologia, expõe-se as feridas e as cicatrizes nessas páginas.
Leia mais20.5.2021 | por Bim de Verdier
A escolha do espetáculo a ser encenado se faz em diálogo com o mundo em volta. O teatro funciona como um termômetro no sovaco do tempo. A tragédia Medeia, escrita pelo dramaturgo Eurípedes há quase 2.500 anos, fala de uma mulher apaixonada, que deixou seu país seguindo seu coração, e depois assassinou os próprios filhos para se vingar do marido que a abandonou por outra. O mito é certamente mais antigo ainda e durante séculos foi reescrito e recontado em inúmeras versões como espetáculo teatral, ópera, balé, filme e romance.
Leia mais16.5.2021 | por Valmir Santos
Entre os feitos de Eva Wilma no teatro, está o de ter produzido uma montagem de Esperando Godot com elenco formado só por mulheres, contrariando o autor, Samuel Beckett, que preconizava a atuação masculina para a sua obra-prima. A atriz morreu às 22h08 de ontem, aos 87 anos, “em função de um câncer de ovário disseminado, levando a insuficiência respiratória”, segundo informou o Hospital Israelita Einstein, em São Paulo, onde estava internada havia um mês.
Leia mais14.5.2021 | por Maria Eugênia de Menezes
A loucura merece novas camadas. Em 2006, quando Gerald Thomas estreou Terra em trânsito, George Bush era presidente dos Estados Unidos, o 11 de Setembro ainda ardia como uma ferida aberta e a pandemia da Covid-19 não existia nem como pesadelo. A retomada da peça, passados 15 anos, pode ser compreendida por várias questões de ordem prática – como a facilidade de se recriar a mise-en-scène para o formato digital. Revisitá-la, porém, continua sendo uma maneira oportuna de o diretor jogar luz sobre o absurdo vigente.
Leia mais14.5.2021 | por Valmir Santos
Artista da imagem e iconoclasta por natureza – a ponto de jogar com a autoimagem deformada em seus escritos extracênicos –, Gerald Thomas aterrissa com suavidade na transposição de Terra em trânsito (2006) para o imperativo da internet. O caráter recorrente de obra aberta agora se estende às pupilas e aos poros de Fabiana Gugli, cuja atuação dignifica o trabalho de comediante com a devida complexidade que lhe cabe. Ela modera o intimismo do projeto com a pulsão espetacular inarredável do encenador. Apenas uma câmera captura sua presença enquanto a concepção audiovisual expande a percepção de quem a acompanha através da tela, desde a sala de sua casa convertida cenograficamente no camarim de uma diva prestes a interpretar o trecho de uma ópera. A distância entre a intenção e o ato se revelará tragicômica no curso do primeiro ao terceiro sinal.
Leia mais8.5.2021 | por Valmir Santos
As três mulheres de IntimIDADES escalam distancias e proximidades em suas gerações. Duas delas, Tânia Barbosa, de 52 anos, e Iara Colina, 42 anos, elegeram a profissão de atriz, por mais instável que seja exercê-la na sociedade brasileira, sobretudo quando se vive no interior do país, no caso, Ilhéus. Já Hilsa Rodrigues Pereira dos Santos, no candomblé Mãe Ilza Mukalê, de 87 anos, 45 deles à frente do Terreiro Matamba Tombency Neto, experimentou o teatro amador junto a um artista expoente do teatro negro, o ator e diretor Mário Gusmão (1928-1996), quando ele viveu na cidade do litoral sul baiano nos anos 1980.
Leia mais1.5.2021 | por Valmir Santos
As primeiras páginas da biografia da atriz e produtora Ruth Escobar (1935-2017) remetem a traumas infantojuvenis que moldaram sua personalidade, como a própria reconheceria mais tarde. Aos 4 anos, fora diagnosticada com alopecia, a perda temporária de pelos ou cabelos que, no seu caso, passou a definitiva aos 28 anos. Perucas, portanto, tornaram-se aliadas na manutenção da autoestima. Por volta dos 14 anos, a estudante secundarista soube que o pai, figura já pouco presente em casa, na cidade do Porto, na verdade era o “padrasto”, amante da mãe. A menina chegou a conhecer o pai biológico, mas este a recusou. Como a história veio a público, uma “vergonha ancestral”, convenceu a mãe, Marília do Carmo Santos, a emigrar para o Brasil, no encalço de uma tia residente em São Paulo. Ambas desembarcaram no Porto de Santos em 1951. Maria Ruth dos Santos, a filha, contava 16 anos.
Leia mais28.4.2021 | por Valmir Santos
Em mais de ano informados sobre os riscos de gotículas e aerossóis que o ato de falar produz, assim como o mero aperto de mãos, artistas do Grupo Pândega de Teatro promovem um deslocamento de percepção, nos tempos enlutados, com a videoperformance A genealogia celeste de uma dança. Ela pousa uma noção cósmica no cume calmo e resoluto dos olhos do ator Luciano Chirolli.
Leia mais24.4.2021 | por Laís Marques
“Monólogo dançado”, “show-depoimento”, “dança teatral”, “balé-teatro”, enfim, são múltiplas as leituras. Para abordar a trajetória de Maria Helena Ansaldi, em arte Marilena Ansaldi, é preciso ter em mente as diversas tentativas de classificação que a sua obra sofreu desde meados da década de 1970 até 9 de fevereiro de 2021, quando ela morreu aos 86 anos. Se tais termos dão conta de nomear o trabalho em sua totalidade, ou não, de todo modo conjugam alguns dos principais elementos recorrentes na lida dessa artista paulista: normalmente, trata-se de um trabalho solo, com características de depoimento pessoal, realizado em parceria com as linguagens do teatro e da dança. Além disso, eminentemente autoral. Feito sem concessões e, muitas vezes, a despeito do total descaso com que as políticas culturais frequentemente são tratadas no país.
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