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Reportagem

Dentre os significativos festivais internacionais pelo país, a maioria sob as rédeas da economicidade neste ano de 2018, alinhamos três deles que operam sob os sentidos de resistir e se reinventar. Dois acontecem neste setembro, o terceiro em outubro. Os eventos em RecifeBelo HorizonteLondrina não são os únicos a colocar esses verbos em ação em algum momento de suas histórias. Aliás, integram o Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil composto de oito representantes. Leia mais

Crítica

Brasília – O peso da moral protestante sobre os ombros de uma mulher infiel pode minar a paciência do público diante do espetáculo A Bergman affair  (Um caso de Bergman). A protagonista é mãe de três crianças num casamento sem amor. Involuntariamente, o enredo sintoniza com a hora brasileira de avanço do conservadorismo religioso, a captura do Estado presumidamente laico por forças obscurantistas, assim como contrasta a consciência de gênero que ganha corpo e resiste bravamente ao machismo.

Ou seja, talvez o país tenha sido mesmo um bom lugar para a estreia mundial da montagem do drama burguês que teve duas sessões no 19º Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília e segue para Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Premido pelo desejo e pela moral, ‘A Bergman affair’ assume-se enquanto experimento artístico capaz de transigir com a memória fílmica e pessoal de Bergman e precipitar-se com solidez em reinvenções no modo de afetar o interlocutor a essa altura do século XXI

Felizmente, o deslocamento temático não tira o mérito da proposição artística da companhia francesa The Wild Donkeys (Os Burros Selvagens, em tradução livre), nome capcioso em tempos de selvageria explícita, encabeçada pela atriz italiana Olivia Orsini e pelo ator francês Serge Nicolaï. Ambos participam de companhias europeias de teatro de pesquisa, como o Théâtre du Soleil, e desde 2016 tocam o núcleo em paralelo – é o mesmo casal que teve a gravidez do filho e a vida de artista documentadas no filme Olmo e a gaivota (2015), de Petra Costa e Lea Glob.

O primeiro desafio deles foi a transposição cênica de Confissões privadas (roteiro autobiográfico também traduzido por Conversas privadas, do título sueco Enskilda samtal), que o cineasta Ingmar Bergman (1918-2007) escreveu em 1996, dirigido no mesmo ano pela norueguesa Liv Ullmann, com quem viveu por cinco anos e teve uma filha. Liv é atriz icônica da filmografia do artista, presente em Persona, Gritos e sussurros, Cenas de um casamento e Sonata de outono, entre outros.

Humberto Araujo

O estudante de teologia atuado por Andrea Romano, amante da dona de casa, por Olivia Corsini

Na peça, Olivia interpreta Anna. A mulher de um pastor tem um caso com um estudante de teologia 11 anos mais novo e é convencida por um conselheiro espiritual, também um pastor decano, a revelar a história ao marido.

Filho de pastor luterano e de uma enfermeira, Bergman partiu de um episódio verídico. Após a morte da mãe, encontrou um antigo diário com anotações relativas a uma traição. Entregou o caderno ao pai que, durante meio século de casamento, jamais cogitou essa possibilidade.

Nicolaï dirige, é um dos adaptadores e também atua. A cena é atravessada por uma atmosfera crepuscular reflexa dos processos interiores das personagens, sombras e impulsos. O tratamento estético prefere a contramão do espetacular, combinando tons ilusionistas ao naturalismo das situações. Tudo transcorre em baixo-relevo, valorizando o primeiro plano das atuações. As expressões dos rostos de Anna, do marido Henrik (por Stephen Szekely) e do velho aconselhador Jacob (por Gérard Hardy) emanam a força do close-up cinematográfico, apesar da distância do público na sala multiuso do Teatro Sesc Garagem. As vozes modulam em meio-tom e pouco se alteram nos momentos de explosão emocional. Contenção irrefletida nos corpos.

Sentimentos contraditórios suscitados por aflição, crença e tesão são fisicamente delineados. Há uma aura nos estados corporais que faz destes o território de liberdade e de verdade que o dogma não acessa. A apropriação do recurso do teatro de marionetes, em que o ator é manipulado por outro colega de figurino neutro e semblante à mostra (Serge Nicolaï dá asas aos gestos e movimentos do outro) comunica a plenitude do jogo das relações e da matéria-prima de que são feitas as artes da cena.

Humberto Araujo

Stephen Szekely, como o marido, é manipulado por Serge Nicolaï, o diretor de ‘A Bergman affair’

Aos poucos, a força da teatralidade torna a navegação pela estrutura narrativa de origem bergmaniana mais inspiradora. Soam entrelaçados os princípios do teatro (arte a que o genial diretor tinha por esposa) e do cinema (por amante), cabendo uma terceira via que é a disposição desse universo íntimo no espaço cênico.

Originalmente, o roteiro se passa em 1925, mas a dramaturgia dissolve geografias e temporalidades. Uma cama, por exemplo, serve a dois ambientes, a residência do casal e a casa de campo. O mergulho de Anna no mar é solucionado de maneira singela, fazendo par com a qualidade do silêncio e da comovente extensão dos abraços.

Contra a sentença moralista que o marido traído escreve na parede de fundo, justificando sua acusação de que a mulher “manchou” o lar e não teria cumprido as obrigações para com as crianças (algo como “Não se pode violar a verdade sem que isso acabe mal”), a encenação responde com a vivacidade das presenças. E com ecos do que o dramaturgo Henrik Ibsen, uma das estrelas-guia nórdicas de Bergman nos tablados (a outro era August Strindberg) preconizava no final do século XIX. Em A casa de bonecas, a personagem Nora abandona o lar, o marido e os filhos para reinventar sua existência.

Mais. São peculiares as passagens expositivas das intimidades entre Anna e Tomas, a sensualidade irrompida quanto menos se mostra, uma nudez esculpida em semipenumbra e nada ligeira. A assimetria do marido que acende a luz do quarto para que ele e a mulher possam se ver, enquanto o amante prefere a luz apagada em busca da invisibilidade da paixão culpada que os arrebata é uma das partituras bem-sucedidas.

Humberto Araujo

A atriz Olivia Corsini no papel que Ingmar Bergman parte da história verídica da traição da mãe

A dor e o destemor da Anna de Olivia Corsini são radiantes. Ela é seguida de perto pelo Henrik atuado por Stephen Szekely, sendo relevante ainda o diálogo geracional com Gérard Hardy, um dos fundadores do Soleil, ao lado de Ariane Mnouchkine.

Premido pelo desejo e pela moral, A Bergman affair assume-se enquanto experimento artístico capaz de transigir com a memória fílmica e pessoal de Bergman e precipitar-se com solidez em reinvenções no modo de afetar o interlocutor a essa altura do século XXI. A tessitura radiofônica da trilha sonora tem a ver com um chamado da audiência à escuta. No ano do centenário de morte do cineasta, não há traço de materialidade audiovisual no espetáculo – pelo menos não houve projeção durante a apresentação, ao contrário do que exibe o vídeo promocional registrado durante os ensaios da obra, abaixo. A inversão de expectativa tem nexo.

São as primeiras incursões junto aos espectadores, outros detalhamentos virão no processo contínuo e estruturante da obra. Se um dia Antunes Filho assistisse ao trabalho da companhia The Wild Donkeys, desconfiamos que iria se deparar com linguagem mais-que-perfeita em relação ao que prospectou no projeto Prêt-à-Porter (1998-2011) com os formandos ou integrantes do Centro de Pesquisa Teatral, o CPT do Sesc São Paulo. Tudo nessa experiência francesa é oferecido aos sentidos com plenitude.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do 19º Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que acontece de 21 de agosto a 2 de setembro

Humberto Araujo

Um dos fundadores do Théâtre du Soleil, Gérard Hardy interpreta o conselheiro protestante

.:. Leia sobre as apresentações dias 5 e 6 de setembro no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro

.:. Leia sobre as sessões programadas para 12 e 13 de setembro no Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas

Equipe de criação:

Direção: Serge Nicolaï

Colaboração artística: Gaia Saitta

Com: Olivia Corsini, Stephen Szekely, Gérard Hardy, Andrea Romano e Serge Nicolaï

Adaptação: Serge Nicolaï, Clément Camar-Mercier e Sandrine Raynal Paillet

Cenografia: Serge Nicolaï

Criação de luz: Elsa Revol

Criação de som: Emanuele Pontecorvo

Criação de vídeo: Igor Renzetti

Direção técnica: Guiliana Rienzi

Administração: Éric Favre

Comunicação: Valentina Bertolino

Observação: Com a colaboração do Porto Alegre em Cena e recursos de Lyon (França),  La Corte Ospitale (Itália), Il Funaro Centro Culturale (Itália) e Aria-Corse (França). Como parte do projeto Ingmar Bergman – 100 Anos, da Ingmar Bergman Foundation. As obras teatrais de Ingmar Bergman são representadas em língua francesa pela agência DRAMA – Suzanne Sarqxjier (www.dramaparis.com), em acordo com a Ingmar Bergman Foundation (www.ingmarbergman.se) e a agência Josef Weinberger Limited (Inglaterra).

Crítica

Nós da alienação

26.8.2018  |  por Valmir Santos

O desengajamento aparente de uma obra de arte pode ser estratégico para potencializar consciência crítica. Isso é perceptível no espetáculo Love, love, love, com o Grupo 3 de Teatro, que incide sobre alienação intrafamiliar. Sujeitos vivendo sob o mesmo teto tornam-se estranhos uns aos outros, corroendo o caráter e causando estranhamento à própria natureza de cada um. Leia mais

Crítica

Quando desempregado, Karl Marx penhorou seu casaco muitas vezes para sustentar a família. Sobreviver, naquela década de 1850, incluía encontrar meios para seguir sua pesquisa acerca da engrenagem da economia capitalista.  Por ironia, sem essa peça do vestuário – retida intermitentemente por dinheiro –, o filósofo tinha dificuldade de frequentar a venerada sala de leitura do Museu Britânico, onde prospectou material que anos depois subsidiaria O capital.  Andar por aí com um casaco, sobretudo no inverno, implicava status social no reino das aparências, como relata o pesquisador Peter Stallybrass. Esse era um dos panos de fundo de como a teoria da luta de classes foi forjada. Elementar, portanto, que Pi – Panorâmica insana escolha a roupa como signo das transformações da humanidade no amplo painel temático que enseja. Leia mais

Crítica

Zona de indeterminação

23.7.2018  |  por Valmir Santos

A Cia. Mungunzá de Teatro parece dar ouvidos ao educador Paulo Freire: “Eu não posso denunciar a estrutura desumanizada se não a penetro para conhecê-la”. A experiência imersiva na região da chamada Cracolândia, no centro de São Paulo, incide radicalmente sobre Epidemia prata, seu trabalho mais recente, sob direção de Georgette Fadel. Leia mais

Artigo

Sem peias

3.7.2018  |  por Valmir Santos

Com pesquisa e autoria do jornalista e crítico teatral Fábio Prikladnicki, o livro Tânia Farias: o teatro é um sacerdócio (2018) homenageia a atuadora, pesquisadora e encenadora há 25 anos umbilicada à Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que cruza os 40 anos. A obra é o 8º volume da coleção Gaúchos em Cena, iniciativa do Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas, sob patrocínio da Braskem e apoio institucional da Prefeitura de Porto Alegre. Desfecho da publicação, o texto a seguir é um ensaio crítico de mesmo título a partir da prática e do pensamento artístico da atriz. Leia mais

Crítica

Porto Alegre – Os textos A mulher arrastada, de Diones Camargo, cuja encenação acaba de cumprir oito sessões na capital do Rio Grande do Sul, e Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã, de Jhonny Salaberg, em temporada a partir desta semana, no Centro Cultural São Paulo, distanciam-se no tempo, no espaço e nos procedimentos documental e ficcional de um e de outro. Em comum, no entanto, as peças releem a naturalização da violência policial contra mulheres e homens negros, alvos diletos das forças de segurança nas cidades brasileiras. Realidades de classe e de raça sacramentadas pela impunidade. Leia mais