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Crítica

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Crítica

Santos – Antes da leitura crítica acerca do espetáculo La despedida (A despedida), um episódio testemunhado em Bogotá, cidade do grupo Mapa Teatro.

Meados de março de 2010, entrada do Teatro Fanny Mikey, em Bogotá. O público é revistado à porta por um militar fardado e armado. Os espectadores estão ali para assistir ao diretor estadunidense Bob Wilson atuando em A última gravação de Krapp. O autor da peça, o irlandês Samuel Beckett, possivelmente não imaginaria tal recepção. O edifício teatral leva o nome da atriz e empresária que idealizou o Festival Iberoamericano de Teatro, que programou o espetáculo.

A situação descrita é um diminuto exemplo do quanto a sociedade colombiana estava militarizada àquela altura, a seis anos do acordo de paz entre governo e Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia – Ejército del Pueblo (Farc-EP). A mais importante guerrilha da história do país combateu entre 1964 e 2016, quando virou partido político sob a mesma sigla, desde então designada Fuerza Alternativa Revolucionaria del Común. O que gerou indignação em boa parte da sociedade. Foram cerca de 220 mil mortos e 60 mil desaparecidos em 54 anos de ações como sequestro, tortura e extorsão.

Os criadores de ‘La despedida’ partem da realidade colombiana da guerrilha armada para dissertar e performar a respeito de movimentos e ideólogos revolucionários que aportaram utopia e paroxismos ao longo da história da humanidade

Em sua produção mais recente, de 2017, o Mapa Teatro condensa com tirocínio a história contemporânea do país e o faz sob a arte de manipular poeticamente o principal objeto de análise: a violência.

Se no Brasil a violência é endêmica, com 61,6 mil mortes em 2016, a estatística mais atual, a conjuntura colombiana mostra-se mais complexa na disputa por territórios entre o narcotráfico, a guerrilha e as organizações paramilitares. O mercado das drogas e a corrupção policial são familiares ao brasileiro. Mas a ação continuada e resistente de guerrilhas em períodos de vigência democrática, não.

O espectador estrangeiro pode até desconfiar de que não dará conta da carga de informações que recebe em La despedida, e a rigor não precisa. A dramaturgia nada enciclopédica segue a máxima tolstoiana de cantar o quintal e ser universal. Os dramaturgos e diretores, os irmãos Rolf Abderhalden e Heidi Abderhalden, também entre os atuantes, dissertam e performam a respeito de movimentos e ideólogos revolucionários que aportaram utopia e paroxismos ao longo da história da humanidade.

Rolf Abderhalden

O chinês Mao Tse-Tung numa das passagens iconoclastas do espetáculo do grupo colombiano

Livre da ambição de esgotar o tema e tampouco de abordá-lo sem profundidade, os fundadores do Mapa Teatro (1984) partem de um acontecimento pródigo em metateatralidade: a conversão de um acampamento desativado das Farc em museu vivo. Desativada, a instalação localizada ao redor da reserva natural La Macarena, no noroeste do país, foi transformada em centro de memória das metodologias, treinamentos e ações ali executados.

Por iniciativa do próprio exército colombiano, membros de distintas patentes representam contextos e crimes com roteiros e atuações de cunho amadoras, mas que tentam se aproximar dos relatos oficiais.  O chefe do acampamento El Barugo (A Paca, em português) era Jorge Briceño Suárez, o “Mono Jojoy”, uma das principais lideranças das Farc, responsável, por exemplo, pelo sequestro da candidata à presidência Ingrid Betancourt, entre 2002 e 2008. Ali foi o cativeiro. Os “atores” fardados servem-se do realismo do cenário e dos adereços e objetos que faziam parte do cotidiano dos insurgentes na selva.

Ao tomar conhecimento desse “teatro de guerrilha”, o Mapa Teatro conseguiu autorização da cúpula do exército para ir a campo registrar a experiência sui generis. O documento audiovisual editado é uma das bases da narrativa no que pode ser percebido como um espetáculo ensaístico, para emprestar a variante do gênero literário em que a prosa expõe e expande críticas e ideias por vias poéticas e sem medo de alguma dose de didatismo diante da densidade do material que processa.

São múltiplos os fatos, nomes, datas ou localidades citados e nem sempre assimiláveis a quem não vive na Colômbia. Transposta essa primeira camada, porém, tudo o mais nessa pesquisa em teatro documental se reinventa como um olhar telescópico para a realidade. Esta é implodida por imagens de impacto, sob o efeito da camuflagem, recurso usual dos soldados para enganar o inimigo na batalha, predador e presa em jogo. Em algumas passagens os atuantes são fundidos ao ambiente da selva, por entre as folhagens da instalação cênica tripartida do palco.

Rolf Abderhalden

Um acampamento das Farc vira centro de memória em que os militares oficiais representam as ações que aconteciam no local, ponto de partida para o espaço tripartido do cenário

Item estratégico de segurança nos centros urbanos, por amplificar a visão em portarias e garagens, um espelho convexo desponta no plano aéreo como uma tela de projeção. A primeira cena exibe trechos de filme em preto e branco que remontam às lutas guerrilheiras embrionárias no interior do país, nas décadas de 1940 e 1950, em paralelo aos processos de urbanização e organização das forças operárias e camponesas. O mesmo dispositivo é usado em diferentes momentos para captar imagens ao vivo, por vezes oculta, que contracenam como um terceiro olho daquilo que é visto.

Até aqui, temos um manancial. Como os criadores vão lidar com ele, sem chafurdar nessa vastidão de dados, é daqueles usufrutos alcançáveis pela maturidade. No caso, 34 anos de subversão às convenções da representação em favor da arte de empilhar linguagens e materiais com equilíbrio e caos equidistantes.

Espectadores brasileiros já assistiram a Os santos inocentes (2010) e a Discurso de um homem decente (2012), com os quais La despedida fecha a trilogia “Anatomia da Violência na Colômbia”. Esses trabalhos desciam às raízes culturais e políticas dos conflitos internos. O primeiro espetáculo parte de uma festa popular do interior colombiano na qual homens travestidos e mascarados açoitam outras pessoas com chicote, em plena luz do dia. No segundo, desmistifica-se o chefe do cartel de Medellín, Pablo Escobar, perseguido e morto pelas forças de segurança nacional com apoio dos Estados Unidos, em 1993. A parceria estratégica da guerra às drogas revelou-se um fracasso consensual diante do tráfico sistêmico.

Em La despedida a cartografia conflagra cenicamente a prática do terror e da guerra revolucionária como formas de combate ao capitalismo em nome da justiça social. O trabalho transcende a geografia de largada ao remontar a “ilustres visitantes” do imaginário geopolítico internacional por meio de máscaras museológicas. Na iconoclastia dessa investigação, seus bustos de mármore parecem flutuar feito sombras ou fantasmas de pensadores como Karl Marx (Alemanha) e líderes como Simón Bolívar (Venezuela), Mao Tse-Tung (China), Vladimir Lênin (Rússia), Fidel Castro (Cuba) e Camilo Torres (Colômbia, sacerdote católico pioneiro da Teologia da Libertação e membro do grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional, ELN).

Na exposição dessa memória que concerne sobretudo ao século XX, o Mapa Teatro não faz patrulhamento ideológico à doutrina comunista do marxismo-leninismo. Antes, se acerca do pensamento do filósofo francês Paul Virilio, que, diante do aceleramento das sociedades, defendia uma visão “revelacionária” em vez de “revolucionária”. “Não se trata de acreditar no fim do mundo, no apocalipse, mas estamos diante de uma singularidade absoluta. Precisamos de uma visão ‘revelacionária’, e não mais revolucionária”, disse em entrevista ao jornal francês Libération, em 2010, conforme relata o jornalista Lucas Neves acerca de sua percepção da contemporaneidade.

Rolf Abderhalden

A atriz Agnes Brekke canta ‘Soy rebelde’, canção espanhola da década de 1970 indicativa da ironia antiespetacular

Pois a revelação é cirurgicamente costurada em La despedida. Às entranhas da história que aconteceu (o projeto emite a voz cavernosa de Fidel Castro em seu último discurso), costuram-se rearranjos ficcionais críticos, dialéticos e generosos na dose de ironia que desbasta qualquer circunspecção na abordagem política.

A gafe na premiação da Miss Universo 2015, em que o mestre de cerimônia troca o nome ao anunciar a vencedora (a candidata colombiana pela filipina) – “Esse é o momento da verdade”, prega o apresentador Steve Harvey antes da gafe – e os argumentos do presidente venezuelano Hugo Chávez para exumar o cadáver de Bolívar, desconfiado de que o revolucionário teria morrido por envenenamento, em 1830, são arquivos em vídeo muito bem empregados. A ironia antiespetacular tem seu auge na dublagem de Soy rebelde, canção espanhola de Manuel Alejandro e Ana Magdalena, cuja tradução da primeira estrofe diz: “Eu sou rebelde/ Porque o mundo quis assim/ Porque nunca me trataram com amor/ E as pessoas se fecharam para mim”).

Da performance dos senhores da guerra aos contrastes em seus ideários – o que a passagem do tempo permite observar com mais nitidez –, o espectador sai perplexo diante do tabuleiro deste século XXI. Os negócios da droga ilícita e do mercado financeiro justapõem-se de modo indelével na nova velha ordem mundial. Tão mais sem fronteiras quanto o rádio a válvula, a velocidade de conexão à internet e o radicalismo da arte do Mapa Teatro, no espírito e na forma.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do 5º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos (5 a 15/9). O espetáculo também foi apresentado no Sesc Pinheiros, em São Paulo, de 13 a 15/9).

.:. O site do grupo Mapa Teatro

Equipe de criação:

Conceito, dramaturgia e direção: Heidi Abderhalden e Rolf Abderhalden

Com: Agnes Brekke, Andrés Castañeda, Heidi Abderhalden, Julián Díaz, Miguel Alfonso Molina, Rolf Abderhalden e Santiago Sepúlveda

Música e desenho sonoro: Juan Ernesto Díaz

Desenho visual: Heidi Abderhalden e Rolf Abderhalden

Figurinos: Elizabeth Abderhalden

Regedor: Jose Ignacio Rincón e Javier Navarro

Direção técnica: Jean François Dubois

Desenho de cenografia: Pierre Henri Magnin

Desenho de luz: Jean François Dubois

Edição de vídeo: Luis Antonio Delgado e Ximena Vargas

Vídeo ao vivo: Ximena Vargas

Produção: José Ignacio Rincón, Ximena Vargas

Produção e difusão na Europa: Camille Barnaud e Les Indépendances

Crítica

Colhida pulsante no tempo presente, a matéria de que é feita a peça Insones, com dramaturgia de Victor Nóvoa e direção de Kiko Marques, é apresentada ao espectador quase que ainda colada ao cotidiano mais prosaico e, ao mesmo tempo, tornada profundamente estranha. Não há fábula ou narrativa a ser seguida, apenas uma situação compartilhada: a reunião de quatro amigos, dois homens e duas mulheres, no curto período que antecede a passagem de ano. Juntos, eles fracassam fragorosamente a cada tentativa de instaurar a atmosfera de celebração, alegria e troca afetiva pedida pela ocasião.

No centro da cena um sofá de grandes proporções acomoda as quatro figuras colocando-as voltadas para o olhar do espectador. Sofá é objeto que remete à casa, ao diálogo íntimo e ao encontro familiar, e mesmo se instalado em ambiente empresarial convida à conversa amistosa em momento de hierarquias relaxadas. Com dimensão reconfigurada e concentrando toda a ação da peça, torna-se cenografia – não decoração – e contribui para instaurar a atmosfera insólita de laboratório de observação de humanos que perpassa toda a montagem.

Em ‘Insones’, importa perceber que numa cena na qual a crítica não está explicitada nas palavras e cabe ao espectador realizá-la, cresce a importância do investimento nas modulações da voz e corpo para que a expressão resulte clara, mas sem didatismo. Afinal, o teatro torna-se mais interessante quando assume haver sempre algo de inapreensível no comportamento humano

As conversas saltam de um assunto a outro sem que qualquer argumento ganhe verticalidade, mas não soam aleatórias, ao contrário disso, a dramaturgia é elaborada para demonstrar criticamente a atenção errática característica dos tempos atuais. É a subjetividade contemporânea que está em foco em Insones, mentes invadidas por milhares de estímulos absorvidos sem filtros numa sociedade na qual já não há mais fronteira entre o público e o privado. A agitação contínua impossibilita o silêncio interno e a abertura de espaços íntimos, elementos fundamentais para o processo de individuação e a gestação dos afetos.

Os diálogos, e muitos deles apenas solilóquios, uma vez que a escuta é pouca e dispersa, revelam uma gente excessivamente ocupada durante todo o ano. Pessoas que mesmo reunidas para celebrar seguem com a atenção dividida entre smartphones, a retrospectiva anual na TV e a companhia dos demais. Baldes de gelo, taças e figurinos indicam um ambiente de festa, assim como a excitação e ansiedade características desses ritos de passagem. No entanto, parece que sempre falta algo para que uma alegria verdadeira tome conta de corpos e mentes. É a dor de cabeça que atrapalha ou a iluminação inadequada? Cada um e todos perseguem em vão algo que se mantém enigmático para si próprios, como se não pudessem diagnosticar o mal que os aflige.

Erica Modesto

Ironia crítica entre o bizarro e o cotidiano em ‘Insones’, direção de Kiko Marques e dramaturgia de Victor Nóvoa

Se a fabulação é um dos meios de criar distanciamento crítico, outro é acentuar determinados traços no limite de sua deformação, como fazem os caricaturistas. Essa última é a linha escolhida pelos criadores dessa montagem que coloca o comportamento humano sob lente de aumento, por exemplo, quando um dos personagens diz: “Faz 365 dias que não durmo” – em tom de orgulho, mesmo se visivelmente exausto. Atitude que provocou risos no espectador nas duas sessões acompanhadas, talvez devido à dupla identificação: do ridículo da exaltação do que deveria ser problema e no reconhecimento na própria carne do sono cada vez mais roubado pela lida cotidiana.

As reações do público e a extensão das temporadas em diferentes teatros sugerem que a ironia crítica proposta pela encenação vem sendo captada, o que se deve em parte ao delicado equilíbrio alcançado pelo elenco entre o bizarro e o cotidiano. Paulo Arcuri, o autor do já mencionado comentário sobre estar há um ano sem dormir; Vinicius Meloni, constantemente com dor de cabeça; Fernanda Raquel, figura obcecada pela existências de áreas obscuras na sala; e Helena Cardoso, sempre tentando unir os demais em torno do brinde detonador da alegria formam o quarteto de intérpretes que consegue tornar reconhecíveis aquelas figuras sem retirar delas a irrealidade poética própria da matéria da arte.

No amálgama constituído por dramaturgia, direção e atuações não é fácil distinguir autorias, e talvez nem relevante. Importa perceber que numa cena na qual a crítica não está explicitada nas palavras e cabe ao espectador realizá-la, cresce a importância do investimento nas modulações da voz e corpo para que a expressão resulte clara, mas sem didatismo. Afinal, o teatro torna-se mais interessante quando assume haver sempre algo de inapreensível no comportamento humano. Juntos, os procedimentos criativos de Insones, do texto à trilha, convergem para configurar uma certa catatonia necessária para saltar da violência mais brutal à fruição de um vídeo sobre bichinhos fofos. E, o mais problemático, sem se dar conta da gravidade desse salto entre extremos.

Erica Modesto

Em primeiro plano, Helena Cardoso e Vinicius Meloni: as quatro figuras fracassam fragorosamente a cada tentativa de instaurar a atmosfera de celebração, alegria e troca afetiva na passagem de ano

No programa da peça há menção ao livro 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono, de Jonathan Crary (Cosac Naify), como uma das fontes de inspiração. O autor parte de pesquisas desenvolvidas no âmbito do exército estadunidense sobre pássaros migratórios que passam longos períodos sem dormir e em pleno vigor físico para argumentar que, depois do soldado sem sono – o interesse central do estudo realizado pelo exército – virá o trabalhador sem sono. Afinal, argumenta Crary com alto grau de ironia, “a imensa parte de nossas vidas que passamos dormindo, libertos de um atoleiro de carências simuladas, subsiste como uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo contemporâneo”.

Será que um dia a ciência conseguirá acabar com a necessidade de dormir? O estudo de Crary demonstra que a pergunta não é tola. Até porque, como aponta o filósofo polonês Zygmunt Bauman, é atributo de todo organismo forte transformar em desejo do outro o que ele próprio necessita para se desenvolver. Assim, existisse já a possibilidade de não ter sono, muito provavelmente se tornaria objeto de desejo de muitos trabalhadores que projetariam nessa ausência um meio para aprimorar desempenho e produção.

Argumento similar pode ser encontrado no livro Sociedade do cansaço (Editora Vozes), do coreano Byung-Chul Han, outra fonte de inspiração dos criadores de Insones. De acordo com Han, o controle exercido sobre as subjetividades contemporâneas se dá pela via positiva do poder e não pela opressão do dever. O sujeito do desempenho da sociedade pós-moderna é movido pela ideia do “yes, we can” e não apenas explora a si mesmo, como também se culpa pelo fracasso, tornando-se depressivo.

Insones não é a tradução cênica desses estudos. Mas talvez toda arte seja também fruto da necessidade de investigação lúdica do modo como vive e se organiza o mundo e de como se dá a partilha dos saberes. Neste início de século XXI, no entanto, não é incomum a indagação sobre a potência do teatro para interferir na sensibilidade de homens e mulheres atingidos pela avalanche midiática. E sempre é possível dizer que o teatro é em si mesmo um ato de resistência, uma vez que só pode acontecer diante de pessoas desconectadas do mundo virtual, juntas em espaço e tempo suspensos da lida cotidiana, gente descolada da produção e do consumo. Um ato de profanação do capitalismo.

Serviço:

Onde: Teatro de Contêiner Mungunzá (Rua dos Gusmões, 43, Santa Ifigênia, São Paulo, tel. 11 97632-7852)

Quando: Sexta, sábado, domingo e segunda, às 20h. Não haverá sessão dia 2/9. Até 3/9

Quanto: Grátis

Duração: 60 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

Equipe de criação:

Concepção: Fernanda Raquel, Helena Cardoso e Victor Nóvoa

Direção: Kiko Marques

Dramaturgia: Victor Nóvoa

Com: Fernanda Raquel, Helena Cardoso, Paulo Arcuri e Vinicius Meloni

Atriz substituta: Fani Feldman

Assistência de direção: Mateus Menezes

Cenografia: Eliseu Weide

Criação de luz: Marisa Bentivegna

Figurinos: Ozenir Ancelmo e Ana T.

Trilha sonora original: Carlos Zimbher

Produção musical: Érico Theobaldo

Autoria das músicas: Carlos Zimbher e Érico Theobaldo

Direção de produção: Catarina Milani

Artista assistente: Elisa Giannella

Operação de luz: Henrique Andrade

Fotos, vídeos e mídias sociais: Pasárgada Comunicação

Design gráfico: Vertente Design

Transporte: Mandi

Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli

Crítica

Brasília – O peso da moral protestante sobre os ombros de uma mulher infiel pode minar a paciência do público diante do espetáculo A Bergman affair  (Um caso de Bergman). A protagonista é mãe de três crianças num casamento sem amor. Involuntariamente, o enredo sintoniza com a hora brasileira de avanço do conservadorismo religioso, a captura do Estado presumidamente laico por forças obscurantistas, assim como contrasta a consciência de gênero que ganha corpo e resiste bravamente ao machismo.

Ou seja, talvez o país tenha sido mesmo um bom lugar para a estreia mundial da montagem do drama burguês que teve duas sessões no 19º Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília e segue para Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Premido pelo desejo e pela moral, ‘A Bergman affair’ assume-se enquanto experimento artístico capaz de transigir com a memória fílmica e pessoal de Bergman e precipitar-se com solidez em reinvenções no modo de afetar o interlocutor a essa altura do século XXI

Felizmente, o deslocamento temático não tira o mérito da proposição artística da companhia francesa The Wild Donkeys (Os Burros Selvagens, em tradução livre), nome capcioso em tempos de selvageria explícita, encabeçada pela atriz italiana Olivia Orsini e pelo ator francês Serge Nicolaï. Ambos participam de companhias europeias de teatro de pesquisa, como o Théâtre du Soleil, e desde 2016 tocam o núcleo em paralelo – é o mesmo casal que teve a gravidez do filho e a vida de artista documentadas no filme Olmo e a gaivota (2015), de Petra Costa e Lea Glob.

O primeiro desafio deles foi a transposição cênica de Confissões privadas (roteiro autobiográfico também traduzido por Conversas privadas, do título sueco Enskilda samtal), que o cineasta Ingmar Bergman (1918-2007) escreveu em 1996, dirigido no mesmo ano pela norueguesa Liv Ullmann, com quem viveu por cinco anos e teve uma filha. Liv é atriz icônica da filmografia do artista, presente em Persona, Gritos e sussurros, Cenas de um casamento e Sonata de outono, entre outros.

Humberto Araujo

O estudante de teologia atuado por Andrea Romano, amante da dona de casa, por Olivia Corsini

Na peça, Olivia interpreta Anna. A mulher de um pastor tem um caso com um estudante de teologia 11 anos mais novo e é convencida por um conselheiro espiritual, também um pastor decano, a revelar a história ao marido.

Filho de pastor luterano e de uma enfermeira, Bergman partiu de um episódio verídico. Após a morte da mãe, encontrou um antigo diário com anotações relativas a uma traição. Entregou o caderno ao pai que, durante meio século de casamento, jamais cogitou essa possibilidade.

Nicolaï dirige, é um dos adaptadores e também atua. A cena é atravessada por uma atmosfera crepuscular reflexa dos processos interiores das personagens, sombras e impulsos. O tratamento estético prefere a contramão do espetacular, combinando tons ilusionistas ao naturalismo das situações. Tudo transcorre em baixo-relevo, valorizando o primeiro plano das atuações. As expressões dos rostos de Anna, do marido Henrik (por Stephen Szekely) e do velho aconselhador Jacob (por Gérard Hardy) emanam a força do close-up cinematográfico, apesar da distância do público na sala multiuso do Teatro Sesc Garagem. As vozes modulam em meio-tom e pouco se alteram nos momentos de explosão emocional. Contenção irrefletida nos corpos.

Sentimentos contraditórios suscitados por aflição, crença e tesão são fisicamente delineados. Há uma aura nos estados corporais que faz destes o território de liberdade e de verdade que o dogma não acessa. A apropriação do recurso do teatro de marionetes, em que o ator é manipulado por outro colega de figurino neutro e semblante à mostra (Serge Nicolaï dá asas aos gestos e movimentos do outro) comunica a plenitude do jogo das relações e da matéria-prima de que são feitas as artes da cena.

Humberto Araujo

Stephen Szekely, como o marido, é manipulado por Serge Nicolaï, o diretor de ‘A Bergman affair’

Aos poucos, a força da teatralidade torna a navegação pela estrutura narrativa de origem bergmaniana mais inspiradora. Soam entrelaçados os princípios do teatro (arte a que o genial diretor tinha por esposa) e do cinema (por amante), cabendo uma terceira via que é a disposição desse universo íntimo no espaço cênico.

Originalmente, o roteiro se passa em 1925, mas a dramaturgia dissolve geografias e temporalidades. Uma cama, por exemplo, serve a dois ambientes, a residência do casal e a casa de campo. O mergulho de Anna no mar é solucionado de maneira singela, fazendo par com a qualidade do silêncio e da comovente extensão dos abraços.

Contra a sentença moralista que o marido traído escreve na parede de fundo, justificando sua acusação de que a mulher “manchou” o lar e não teria cumprido as obrigações para com as crianças (algo como “Não se pode violar a verdade sem que isso acabe mal”), a encenação responde com a vivacidade das presenças. E com ecos do que o dramaturgo Henrik Ibsen, uma das estrelas-guia nórdicas de Bergman nos tablados (a outro era August Strindberg) preconizava no final do século XIX. Em A casa de bonecas, a personagem Nora abandona o lar, o marido e os filhos para reinventar sua existência.

Mais. São peculiares as passagens expositivas das intimidades entre Anna e Tomas, a sensualidade irrompida quanto menos se mostra, uma nudez esculpida em semipenumbra e nada ligeira. A assimetria do marido que acende a luz do quarto para que ele e a mulher possam se ver, enquanto o amante prefere a luz apagada em busca da invisibilidade da paixão culpada que os arrebata é uma das partituras bem-sucedidas.

Humberto Araujo

A atriz Olivia Corsini no papel que Ingmar Bergman parte da história verídica da traição da mãe

A dor e o destemor da Anna de Olivia Corsini são radiantes. Ela é seguida de perto pelo Henrik atuado por Stephen Szekely, sendo relevante ainda o diálogo geracional com Gérard Hardy, um dos fundadores do Soleil, ao lado de Ariane Mnouchkine.

Premido pelo desejo e pela moral, A Bergman affair assume-se enquanto experimento artístico capaz de transigir com a memória fílmica e pessoal de Bergman e precipitar-se com solidez em reinvenções no modo de afetar o interlocutor a essa altura do século XXI. A tessitura radiofônica da trilha sonora tem a ver com um chamado da audiência à escuta. No ano do centenário de morte do cineasta, não há traço de materialidade audiovisual no espetáculo – pelo menos não houve projeção durante a apresentação, ao contrário do que exibe o vídeo promocional registrado durante os ensaios da obra, abaixo. A inversão de expectativa tem nexo.

São as primeiras incursões junto aos espectadores, outros detalhamentos virão no processo contínuo e estruturante da obra. Se um dia Antunes Filho assistisse ao trabalho da companhia The Wild Donkeys, desconfiamos que iria se deparar com linguagem mais-que-perfeita em relação ao que prospectou no projeto Prêt-à-Porter (1998-2011) com os formandos ou integrantes do Centro de Pesquisa Teatral, o CPT do Sesc São Paulo. Tudo nessa experiência francesa é oferecido aos sentidos com plenitude.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do 19º Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que acontece de 21 de agosto a 2 de setembro

Humberto Araujo

Um dos fundadores do Théâtre du Soleil, Gérard Hardy interpreta o conselheiro protestante

.:. Leia sobre as apresentações dias 5 e 6 de setembro no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro

.:. Leia sobre as sessões programadas para 12 e 13 de setembro no Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas

Equipe de criação:

Direção: Serge Nicolaï

Colaboração artística: Gaia Saitta

Com: Olivia Corsini, Stephen Szekely, Gérard Hardy, Andrea Romano e Serge Nicolaï

Adaptação: Serge Nicolaï, Clément Camar-Mercier e Sandrine Raynal Paillet

Cenografia: Serge Nicolaï

Criação de luz: Elsa Revol

Criação de som: Emanuele Pontecorvo

Criação de vídeo: Igor Renzetti

Direção técnica: Guiliana Rienzi

Administração: Éric Favre

Comunicação: Valentina Bertolino

Observação: Com a colaboração do Porto Alegre em Cena e recursos de Lyon (França),  La Corte Ospitale (Itália), Il Funaro Centro Culturale (Itália) e Aria-Corse (França). Como parte do projeto Ingmar Bergman – 100 Anos, da Ingmar Bergman Foundation. As obras teatrais de Ingmar Bergman são representadas em língua francesa pela agência DRAMA – Suzanne Sarqxjier (www.dramaparis.com), em acordo com a Ingmar Bergman Foundation (www.ingmarbergman.se) e a agência Josef Weinberger Limited (Inglaterra).

Crítica

Nós da alienação

26.8.2018  |  por Valmir Santos

O desengajamento aparente de uma obra de arte pode ser estratégico para potencializar consciência crítica. Isso é perceptível no espetáculo Love, love, love, com o Grupo 3 de Teatro, que incide sobre alienação intrafamiliar. Sujeitos vivendo sob o mesmo teto tornam-se estranhos uns aos outros, corroendo o caráter e causando estranhamento à própria natureza de cada um. Leia mais

Crítica

Quando desempregado, Karl Marx penhorou seu casaco muitas vezes para sustentar a família. Sobreviver, naquela década de 1850, incluía encontrar meios para seguir sua pesquisa acerca da engrenagem da economia capitalista.  Por ironia, sem essa peça do vestuário – retida intermitentemente por dinheiro –, o filósofo tinha dificuldade de frequentar a venerada sala de leitura do Museu Britânico, onde prospectou material que anos depois subsidiaria O capital.  Andar por aí com um casaco, sobretudo no inverno, implicava status social no reino das aparências, como relata o pesquisador Peter Stallybrass. Esse era um dos panos de fundo de como a teoria da luta de classes foi forjada. Elementar, portanto, que Pi – Panorâmica insana escolha a roupa como signo das transformações da humanidade no amplo painel temático que enseja. Leia mais

Crítica

Zona de indeterminação

23.7.2018  |  por Valmir Santos

A Cia. Mungunzá de Teatro parece dar ouvidos ao educador Paulo Freire: “Eu não posso denunciar a estrutura desumanizada se não a penetro para conhecê-la”. A experiência imersiva na região da chamada Cracolândia, no centro de São Paulo, incide radicalmente sobre Epidemia prata, seu trabalho mais recente, sob direção de Georgette Fadel. Leia mais

Crítica

A alegria crítica

12.7.2018  |  por Kil Abreu

O rei da vela é, como as pessoas do teatro costumam tratá-la, uma peça avançada para os anos 30 do século passado, se o ponto de vista for o da invenção estética. Nela Oswald de Andrade costura de maneira inusual para os modelos dramatúrgicos da época, em traços grossos e em dialética carnavalesca, o momento de passagem dos lugares de poder, da tradicional família rural brasileira, já falida, para as dinâmicas do capital financeiro então nascente, em termos de hegemonia econômica. É o teatro politico e experimental de um autor atento à necessidade de traduzir em forma nova uma realidade em profundo processo de mudança.  Leia mais