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Crítica

Numa situação hipotética, daqui a cem anos pesquisadores passarão a espátula no quadro da produção cênica desta segunda década do século 21 e chegarão às camadas constitutivas de Domínio público. À luz da ciência, resplandecerá um contra-argumento sutil à sordidez, ao falso moralismo, à cultura de linchamento, ao elogio da mediocridade como estratégia distorciva, vide a que culminou em obscurantismo no cenário do país.

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Crítica

Quando estreou, em 2014, Caros ouvintes era uma peça que falava do passado. Na obra, escrita e dirigida por Otávio Martins, apareciam em destaque personagens de um mundo às vias de extinção. No fim dos anos 1960, enquanto o Brasil assistia ao acirramento da ditadura militar, crescia o poderio das redes de televisão e chegava ao fim a era das rádios. Cantores, sonoplastas, dubladores, operadores de som e atores das radionovelas perdiam seus empregos e buscavam se recolocar em um mundo transformado.

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Crítica

Ao definirem seu Romeu e Julieta como uma intervenção sobre o texto do final do século XVI, os criadores do grupo boliviano Kiknteatr fazem da peça de Shakespeare uma plataforma para falar de si enquanto sujeitos, artistas e cidadãos de um país onde sabem o quanto as desigualdades de classe, gênero e raça determinam o futuro das crianças e jovens, vide os congêneres sul-americanos.

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Crítica

Entender para imaginar, imaginar para entender. É defronte esse espelho que o Tablado de Arruar tem se postado nos últimos sete e tempestivos anos dentre os seus 18 de atividade teatral em São Paulo. Dar forma ao material extraído da realidade premente, mediado pela sala de ensaio, consumou uma poética da razão antipoética na cena do grupo. As delimitações temporal, temática e historicizante das obras recentes tocam em questões éticas, sociais, políticas e culturais sintomáticas de como o anacronismo ganhava corpo na sociedade a poucos meses das manifestações de junho de 2013, o novo ano que não acabou.

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Crítica

Nem o apito de trem intermitente distensionou a relação do público com duas performances ao ar livre dentre as três que a artista Va-Bene Fiatsi, de Gana, mostrou na edição dos 50 anos do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, no mês passado. A sonoridade noturna da linha férrea, ao contrário, tornou as imagens poeticamente mais lancinantes.

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Crítica

Nem em Estado de sítio, que estreou onze dias após a eleição do 38º presidente da República do Brasil, em 2018, o diretor Gabriel Villela tinha se permitido tocar a chapa quente da realidade como o faz desbragadamente em Auto da Compadecida.

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Crítica

O santista Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) parecia bastante consciente ao confrontar a matéria da desilusão na tragicomédia Vem buscar-me que ainda sou teu. Ele já antecipava: “Este trabalho é o resultado de um contato sincero com o artista ambulante. Fui lá procurando a essência da linguagem teatral brasileira. E encontrei pessoas. Procurando as ideias, encontrei a vida. Não dedico esta peça a eles porque eles jamais a lerão. E, se a lessem, não se interessariam por montá-la. E eles sabem o que fazem”.

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